Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 351 - Nov/Dez 2017

A juventude, os «millenials», ou história do ovo e da galinha ao serviço do capital

por Alma Rivera

A geração Millennials é o termo usado para categorizar os indivíduos que nasceram entre 1980 e 2000. Todos nós já teremos tido contacto com este termo através da televisão, jornais ou revistas, e mesmo através de outros veículos mais «institucionais».

Esta definição de uma geração insere-se na teoria desenvolvida pelos autores norte-americanos William Strauss e Neil Howe, cujo principal contributo é a divisão da história em ciclos, cada um com a duração de uma vida humana média, subdivididos em quatro eras de cerca de 20 anos, os cohorts geracionais utilizados e que ganham o nome de «turnings» quando uma geração se substitui à outra no «controlo» ou «domínio» da sociedade, conferindo assim o nome à teoria dos Four Turnings. Poderíamos considerar esta proposta uma recuperação do célebre, largamente difundido e cientificamente questionável, «a história é cíclica», com uma roupagem mais pop. No entanto Strauss e Howe vão mais longe e acrescentam que cada geração tem um conjunto de características fundamentais e que essas características se vão repetindo ao longo da história pela mesma ordem: Heróis, Artistas, Profetas, Nómadas (numa tradução literal). Assim, a esta geração de jovens que hoje se situa entre os 17 e 37 anos, filhos da «Geração X», poder-se-ia atribuir, como que profeticamente, um destino. Seriam os «Heróis», uma geração que ultrapassa momentos de crise na sua jovem adultez e que encontra novos caminhos para a sobrevivência da sociedade.

Obviamente tem surgido nas ciências sociais forte contestação a esta teoria, apelidada mesmo de pseudociência. Logo a começar pela completa desconsideração dos factores económicos e sociais, em oposição directa a uma análise de classe, a passar pela atribuição de características psicológicas dominantes e transversais a um grupo completamente heterogéneo com base no seu nascimento, mas também porque os dois autores vão procurando obter confirmação da sua profecia a montante, chegando mesmo a alterar a perspectiva de análise «a meio do jogo». A título de exemplo, se inicialmente o acontecimento histórico marcante e definidor para esta geração era o «11 de Setembro» (2001), passado uns anos passou a ser defendido por ambos que este momento era sim o «crash» (2008), e ao momento em que se publica esta edição de «O Militante» o verdadeiro ponto de viragem é a eleição de Trump (2016).

Naturalmente, as opiniões que aqui trazemos não pretendem desmontar o legado teórico de Strauss e Howe, até porque alguns apontamentos nos bastam. Interessa-nos, pois, analisar como o capital, a partir de uma teoria apelidada por académicos insuspeitos de «uma espécie de horóscopo histórico», vai abrindo novos caminhos para a ideologia dominante, encontrando, como sempre, na juventude um bom ponto de partida e de chegada para a ofensiva ideológica, exactamente pelo poder transformador que a esta camada social heterogénea é reconhecido.

De facto, uma rápida pesquisa revela-nos que um dos principais defensores e difusores desta teoria é Steve Bannon, acessor do actual governo norte-americano, assumidamente ligado à extrema-direita mais racista e retrógrada dos EUA e que, inclusivamente, produziu um documentário («Generation Zero») com base nestes conceitos.

Uma muleta sociológica para a política de direita e para aprofundar a exploração

O conceito de «millennials», que poderia apenas ser substituído por um «esta juventude de hoje em dia», tem servido como base para veicular um conjunto de ideias sobre o presente e o futuro. Se fizermos o exercício de sistematizar o tipo de informação que utiliza este conceito percebemos rapidamente que o que se pretende é justificar os retrocessos civilizacionais a que temos assistido, com o generalizar da precariedade e os baixos salários, com uma suposta «modernidade» em que as pessoas já não têm as mesmas necessidades, os jovens são flexíveis, aventureiros e não fazem questão de adquirir casa própria ou um carro. O mundo do trabalho não está a impedir os jovens de se autonomizarem e construírem a sua própria vida – são eles que não estão para aí virados. É um «novo paradigma» e os millennials estão, alegadamente, na origem e, simultaneamente, satisfeitos com isso.

Mas nem sempre foi esta a linha de ofensiva adoptada. Em 2013. a Revista Times fez capa com o polémico artigo «Millennials: The Me Me Me Generation», algo como «A geração do EU EU EU», em que basicamente se atribui a um excesso de auto-estima e expectativas uma suposta frustração sentida por estes jovens ao embater no mundo real onde não há carreiras, ao mesmo tempo que se enaltece a capacidade de empreender e se adaptar ao sistema em vez de rebelar-se contra ele. Nada de surpreende se recuperarmos a campanha de desresponsabilização do Estado e dos sucessivos governos na destruição de postos de trabalho e falta de investimento nas capacidades de desenvolvimento do país. Ainda temos presentes as palavras de Alexandre Miguel Mestre, em 2011, à época Secretário de Estado da Juventude, que desafiou jovens desempregados a abandonar a sua «zona de conforto e emigrar». Ou se nos lembrarmos do «Muitos estão desempregados porque, ponto número um, não querem trabalhar e, ponto número dois, são maus a fazê-lo» proferida por Miguel Gonçalves, embaixador do Impulso Jovem, a convite de Miguel Relvas, um programa que seria a resposta ao desemprego jovem, mas que na prática consistia em colocar o Estado a pagar os estágios às empresas, entre outras medidas deste género.

Portanto, num primeiro momento a ideologia dominante procurou generalizar a ideia de que estes jovens são preguiçosos, conformistas e estão mal habituados a que tudo lhes seja dado, nomeadamente (veja-se o atrevimento!) que o direito à educação, à saúde, ao trabalho com direitos, conquistados pelas anteriores gerações, também lhes sejam assegurados. Esta propaganda desempenhou em Portugal um papel importante para aplicar os cortes brutais nas funções sociais do Estado e as medidas gravosas da legislação laboral que a troika nacional e estrangeira perpetraram.

Talvez porque a juventude e o povo em geral não tardaram em ripostar, o capital teve necessidade de readaptar o seu discurso. Embora tenham sido escancaradas algumas portas, hoje pode considerar-se que há uma alteração na retórica e procura impor-se a ideia de que estas novas gerações, os millennials, são uma nova espécie de trabalhador. Surgem estudos atrás de estudos, estatísticas e mais estatísticas que pretendem comprovar como «o trabalho para a vida» acabou, que o freelancing, vulgo, os falsos recibos verdes e outras formas de trabalho precário é que são o futuro. Estes jovens seriam uma espécie mais adaptada ao capitalismo, sem as limitações dos seus pais, que exigiam as 8 horas diárias e um salário digno. Esta geração seria menos materialista, porque não tem casa própria e opta por casas mais pequenas. Esta geração deve ser valorizada porque está mais disponível a comprar produtos em 2.ª mão e na «economia da partilha».

As Delloitte’s e a Goldman Sachs’s, que têm publicado estudos sobre estas matérias, assim como os jornais que depois os examinam proclamando coisas do género «os millennials vão revolucionar o capitalismo» (Visão, 23-09-2016) não estão obviamente preocupados com a sustentabilidade dos hábitos de consumo nem com os valores da partilha e vida comunitária.

O que se pretende aqui é de um profundo alcance. Procura-se passar a mensagem de que os jovens, independentemente da sua condição social ou profissão, independentemente de serem de uma grande cidade ou do interior, independentemente da sua forma de olhar o mundo, de estar, de sentir, querem a forma de vida que o sistema capitalista em crise lhes está a impor. A insegurança é uma vantagem porque corresponde à possibilidade de mudança.

Quando, por exemplo, se advoga que 60% destes jovens entre os 24 e os 35 anos prefere arrendar casa a comprar, ou que não tenciona comprar carro nos próximos cinco anos, quase sempre o dado vem acompanhado da consideração de que isso é uma causa e não uma consequência. Ou seja, estes jovens não querem, e não, o mais simples e lógico, não podem.

Não é um erro de análise dos dados estatísticos. A própria formulação de «tenciona» comprar casa ou «tenciona» comprar carro produz resultados. O estudo «Millennials@Work: expectativas sobre as empresas e as lideranças em Portugal», da BCSD Portugal, Delloitte Portugal e Sonae, conclui que 50% dos inquiridos esperam sair da organização onde trabalham nos próximos cinco anos e apenas 29% pensam ficar mais do que cinco anos na actual organização. O que não fica nunca explícito é que em cada cinco contratos celebrados em Portugal quatro são precários e 80% dos contratos celebrados desde 2011 são também eles precários. Nem que 20% dos trabalhadores em Portugal recebem um salário de 557€ e que 11% destes trabalhadores são precisamente aqueles com menos de 25 anos.

Esta narrativa não consegue nem pode esconder que não são os jovens que acham interessante a possibilidade de viver a vida toda em quartos arrendados, mas que são as próprias leis do mercado que gerem o nosso país e este sistema que não são capazes de oferecer soluções reais.

Quando o próprio estudo aponta como conclusão que «para esta geração, as cinco maiores prioridades de vida são o equilíbrio entre a vida pessoal e a vida profissional, o desafogo financeiro, ter filhos e constituir família e ainda poder viajar» entra em clara contradição com a redução de 30 a 40% que um contrato precário representa em rendimentos, ao mesmo tempo que contradiz toda a narrativa de uma geração que não dá tanto valor à família, uma geração de viciados no trabalho, uma geração que foge da estabilidade. Apesar de ser reclamado que esta geração encara o trabalho de outra forma, a única conclusão que podemos retirar é que de facto esta geração anseia dignidade e é o próprio Millennials@Work que aponta a preferência de uns esmagadores 70% por um emprego a tempo inteiro, segurança no trabalho e salário fixo.

As verdadeiras questões que se colocam pela e à juventude

Os jovens saem mais tarde de casa dos seus pais, têm menos autonomia e mais dificuldades em definir planos de vida futuros. O flagelo do desemprego e a incerteza no dia de amanhã condicionam de forma decisiva as suas opções. Estes são os factos. A crise do capitalismo e o retrocesso nos direitos e rendimentos impostos significaram, sim, que os jovens tiveram de se adaptar e encontrar formas de vida que permitam ir subsistindo nesta situação. Mas tal não significa que aceitam e, muito menos, que desejem a sociedade do «cada um por si», ou «um dia de cada vez». Pelo contrário, é esta juventude, sujeita a tão refinada e intrusiva ofensiva ideológica, que reclama contra a precariedade e que, sujeita a ficar sem trabalho quando cerca de 26% dos seus coetâneos estão desempregados, luta nos Centros de Contacto para passar a ter contrato com a empresa que realmente beneficia do seu esforço.

De um lado, temos aqueles a quem convém atribuir deterministicamente um futuro e uma realidade concreta às novas gerações. Uma realidade em que a juventude aceita e perpetua a exploração, a desigualdade e em que admite a miséria como inevitabilidade. Um futuro em que os avanços tecnológicos desempenham um papel de maximização do lucro e dominação ideológica através da disseminação de informação de elevado alcance formatador.

De outro, está a juventude real. Composta por estudantes e trabalhadores, portadora de uma história de combatividade e solidariedade e simultaneamente envolvidos nas mais diferentes frentes de combate: nos locais de trabalho nos seus sindicatos, nas associações culturais e desportivas, nas associações de estudantes, bandas e grupos do mais variado tipo.

Ficam os verdadeiros paradoxos: como uma sociedade cada vez mais tecnologicamente avançada não é capaz de oferecer condições dignas de trabalho à geração com mais acesso à informação, mais apta e com mais instrumentos. Como é que um sistema que se reclama o futuro da humanidade não é capaz (ou não tem interesse) de aproveitar o potencial produtivo inédito desta camada.

Fica também a forte suspeita de que o capital confunde desejo com realidade ao difundir a ideia de que estas novas gerações aceitam a exploração e este sistema cruel. E de que, chamem-nos Heróis, Geração Y, ou o que quiserem, unidos na nossa diversidade teremos de encontrar o caminho para responder à altura construindo uma sociedade mais justa em que tenhamos todos felicidade. A saúde, a educação, a mobilidade, o acesso à habitação, cultura, e direito à vida pessoal. Seremos capazes.

Bibliografiaz

Jornal Económico, Revista Visão, QZ Magazine, Jornal Expresso, Jornal I Online, Jornal Sol, Revista Times.

«Millennials@Work» (www.deloitte.com)

«Millennials: coming of age» (www.goldmansachs.com)

Documentário «Generation Zero» (www.youtube.com)

CGTP-IN.

Retrato dos Jovens em Portugal (http://www.pordata.pt/ebooks)