Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Tema, Edição Nº 355 - Jul/Ago 2018

«Confrontos» em Gaza. «Terror» em Alcochete - Ou a instrumentalização mediática

por Carina Castro

O título deste texto é soma de títulos de notícias recentes sobre os acontecimentos em Gaza e na Academia do Sporting, em Alcochete. É bem ilustrativo, não apenas da dualidade de critérios mas também da leitura enviesada de certa comunicação social, apesar de no Código Deontológico dos Jornalistas constar: «A distinção entre notícia e opinião deve ficar bem clara aos olhos do público.»

O impacto avassalador da comunicação social sobre a percepção pública da mensagem política é crescente e inegável. É um veículo privilegiado da ideologia dominante, quer pelos temas que lança em debate, quer pelas perspectivas desses mesmos temas, quer ainda por omissões. É um instrumento que não está evidentemente desligado da sua propriedade, mas que infelizmente (não inevitavelmente) também se expressa na informação de propriedade pública.

Se o apagamento e discriminação do PCP são expressões mais evidentes destes factos, outros há que talvez surjam de forma menos óbvia.

Não se trata apenas de projectar este ou aquele dirigente político em detrimento de outro, mas de uma ofensiva mais complexa e completa. A proliferação, por exemplo, das chamadas revistas cor-de-rosa ou da presença crescente de tais temáticas em diversas outras publicações merece alguma reflexão. A influência que tais conteúdos têm na exorbitação do pretenso sucesso individual e do individualismo (não da exploração, claro!), do luxo e dos bens materiais como aspirações centrais de cada um, num estilo de vida a que poucos podem aceder, precisamente porque há uma imensa maioria que trabalha para «ganhar a fome e o pão». Um instrumento simultaneamente de transmissão de valores dominantes e de alienação, em que tantos vivem a fantasia dos outros fazendo por instantes esquecer as suas dificuldades de todos os dias. Contribuindo para que cada um aspire mais à sua fuga da vida de pobreza, do que em lutar para que a pobreza da maioria tenha fim. A informação não é isenta de opções de classe.

Não raras vezes estas revistas, aparentemente não-políticas, fazem capas a Marcelos e Cristas, com longas entrevistas «leves e desassombradas». Compre já!

Os alinhamentos dos telejornais são certamente outra forma de hierarquização da importância de certas realidade face a outras, e em que este tipo de conteúdos também vai estando presente. A influência é determinada quer ao nível da ordem de entrada, quer do tempo despendido, do futebol masculino nacional e internacional, mas sobretudo do negócio e do mercado desportivo ou das polémicas em volta do futebol; a tendência para o protagonismo cada vez maior dos crimes, do espectáculo e dos chamados estilos de vida, em detrimento dos problemas concretos da realidade nacional. Que valor-notícia terá uma feira de carros de luxo ou o leilão de um diamante? Que valor-notícia terá o destino de férias de um jogador de futebol? Porque é que num país laico televisões transmitem em directo casamentos de monarquias estrangeiras e fazem disso «notícia»? A informação não é entretenimento.

Quantas rubricas e programas existem hoje sobre os direitos individuais de consumo, com dicas para ser «inteligente» na relação com empresas e bancos? A sociedade é mais facilmente retratada na informação como um somatório de consumidores, como «livres» consumidores, do que como um conjunto amplo de trabalhadores. O que é que isso faz pela consciência de classe de cada um?

A exorbitação do narcisismo, associado ao voyeurismo, particularmente nas chamadas redes sociais, é também marca dos dias que correm. Pessoas que são famosas, porque são famosas. Selfies e publicações da vida pessoal que «marcam tendências», num gigante big brother, promovendo hábitos de pseudo-sociabilização por via digital. Muitos milhões de cliques solitários.

São tudo expressões de promoção do individualismo e que faz assentar em cada um, no seu «mérito», a responsabilidade do seu sucesso ou insucesso. É um certo deslaçar social, em que o Estado e as relações económicas não têm qualquer papel na vida e na qualidade de vida das pessoas, em que questões transversais à maioria da população passam ao lado, boicotando a consciência colectiva de direitos colectivos, e o papel de todos e de cada um na sociedade, nas relações de poder e na história, na luta de classes.

De que liberdade falamos enquanto não houver «a paz, o pão, a habitação, saúde e educação»? Da «liberdade» de uns para enriquecer, enquanto a outros resta a «liberdade» de trabalhar empobrecendo?

Dir-se-à que isso é o papel da informação comprometida, revolucionária, mas toda a comunicação social tem responsabilidade, responsabilidade em informar, e o direito de ser informado é garantia da lei de imprensa: «O jornalista deve combater a censura e o sensacionalismo». 1

Os despedimentos em larga escala e a elevada precariedade no sector têm acentuado tendências de afunilamento, quer ao nível dos temas tratados, quer ao nível da sua profundidade (quantos órgãos de comunicação social se dedicam hoje ao jornalismo de investigação?). As editorias vão-se fundindo, mas onde ainda existe editoria de economia, em quantas se trata informação para lá das bolsas e da perspectiva das administrações das empresas? Quantos jornalistas têm hoje exclusivamente a responsabilidade de tratar o trabalho e os trabalhadores? Porque é que todos os órgãos de comunicação social têm rubricas dedicadas aos humores bolsistas? Quantos de nós não começam o dia sabendo que o Nasdaq está em queda e que os mercados estão nervosos, mas sem saber que na empresa têxtil do concelho ao lado os salários dos trabalhadores estão em atraso?

Redacções cada vez mais curtas, com trabalhadores que laboram longas horas, sem folgas, facilitam a que cada vez mais as notícias sejam tratadas de forma superficial, ou replicando os mesmos conteúdos de uns órgãos de comunicação social para os outros.

Dos temas que são efectivamente tratados, qual é a óptica sob a qual aparecem? Quando se discute a proposta das 35 horas para o sector privado, ouvem-se os visados? Conhece-se a vida de famílias em que os pais trabalham 40 horas ou mais, a somar ao tempo em transportes públicos, chegando-se a casa em exaustão absoluta e com os filhos já a dormir? Não, o debate fica-se frequentemente por uma cacofonia de soundbites do debate na AR, numa sobre-simplificação dos argumentos para se poder de dizer que «passaram os partidos todos». Passar, passaram, mas não se percebeu qualquer mensagem digna desse nome. Poder-se-à dizer que não há tempo de antena para trabalhos tão elaborados, mas parece sempre haver tempo para a polémica mais recente entre estrelas televisivas. Informar é sempre fazer escolhas.

Será ilustrativo dizer que na gestão do tempo de antena se escolhe invariavelmente tratar as greves mais pela óptica dos afectados no seu quotidiano pela luta, e menos, muito menos, pela óptica dos trabalhadores. Em primeiro lugar, é preciso dizer que sem greve raramente as reivindicações de um sector profissional merecem notícia, e mesmo assim os objectivos de luta acabam deturpados ou manipulados. Depois é justo dizer que o frenesim actual em torno dos intermináveis directos a toda a hora, nos canais informativos, sem que haja informação nova relevante a reportar, pressiona os jornalistas a fazer verdadeiros exercícios de estupidificação de si próprios e do espectador. Diz o Código Deontológico: «O jornalista deve proibir-se de humilhar as pessoas ou perturbar a sua dor. (…) O jornalista obriga-se, antes de recolher declarações e imagens, a atender às condições de serenidade, liberdade, dignidade e responsabilidade das pessoas envolvidas.» O que justifica então que se importunem, de forma quase tortuosa, utentes de unidades de saúde em que decorre uma greve? Que se pergunte uma e outra vez pelo prejuízo da greve na sua vida? Como é possível ouvir-se que o utente esperava há um ano por uma consulta e concluir-se que o que prejudica o utente é a greve? Não se relacionam os factos – a greve e os inaceitáveis tempos de espera? O que justifica que um jornalista pergunte a uma mulher grávida como se sente de não poder fazer a ecografia prevista, e se está com medo de haver um problema não diagnosticado pela falta de exame naquele dia? Qual é a liberdade de um país em que a informação se apresenta desta forma?

A rapidez da informação, cada vez mais curta, simples e superficial, dominada pelo efémero, são também traços marcantes.

O indivíduo. A liberdade do indivíduo. O problema do indivíduo. Estes são aspectos centrais da informação actual e dos temas tratados. Mesmo a política é tratada nessa óptica. Veja-se como o compromisso com um programa e um projecto político colectivo é criticado como comportamento de «carneirada» e obediência, e não como um compromisso estabelecido livremente. Veja-se como na discussão da «liberdade de voto» dos deputados se elogia os que «pensam por si», ou os partidos que «dão» tal «liberdade». Todas as noções de compromisso colectivo e ideológico são desprezadas e condenadas.

É também neste contexto informativo que temos de olhar para a forma como a mensagem do Partido é percepcionada por aqueles que a recebem por via da comunicação social. Não é apenas a forma como a mensagem do Partido passa ou não passa, mas sobre que estrutura de valores passa e quão disruptiva e complexa é tal mensagem perante essa estrutura de pensamento vigente.

Não raras vezes somos acusados de ignorar o «marketing político», de não passarmos por não escolhermos a forma mais eficaz de comunicar, de não actualizarmos a mensagem. Não se trata de desconhecer tais mecanismos, trata-se de não optar pela via mais fácil, do imediatismo e fugacidade que não aprofundam consciências, e que verdadeiramente resultam da ideologia dominante, do capitalismo – o consumo, o consumo rápido e imediato, a análise superficial das coisas, a propositada volatilização dos acontecimentos – fazendo com que contrariar essa lógica seja, em si mesmo, factor para a transformação social que preconizamos.

Os objectivos que temos de caracterização da situação, de denúncia dos responsáveis, de proposta de soluções, e a necessária mobilização do povo para a sua concretização, não são possíveis de reduzir a um soundbite, como a comunicação social privilegia. O nosso projecto político pressupõe consciencialização, o que não se faz verdadeira e profundamente apenas com uma frase sonante.

★★★

É assim que o tratamento do PCP na comunicação social, frequentemente parcial e truncado, se agravou com a nova fase da vida política nacional.

Já eram comuns alguns traços que se acentuaram: a mensagem da política alternativa não tem lugar, quando muito podem aparecer propostas pontuais para questões pontuais; iniciativas absolutamente estruturantes para o País, como as sessões recentes sobre a soberania alimentar ou o futuro do trabalho no contexto do desenvolvimento tecnológico, não terem qualquer projecção mediática por não ser abordado nenhum tema lateral; não é raro que sobre uma iniciativa do PCP se desconheçam a temática, os objectivos ou mesmo o local, privilegiando-se uma qualquer reacção a uma questão do dia lateral à iniciativa em causa – uma iniciativa sobre os direitos de pais e crianças no contexto demográfico conhecido no nosso país teve direito apenas à referência a propósito de uma entrevista do primeiro-ministro.

Todos estes elementos não deixam de ser formas de condicionamento, se não da actividade do Partido pelo menos da leitura pública dessa mesma actividade. Se de cada partido, nas televisões, apenas se conhecem as diferentes posições sobre os mesmos temas, que não são definidos pelo Partido como prioridade, que espaço haverá para não seguir a tese do «são todos iguais, já que falam todos do mesmo»? Mesmo que digam coisas substancialmente diferentes sobre esse «mesmo». Depois não surpreenderá que na «realidade» ampliada das chamadas redes sociais nos deparemos com afirmações como «nunca vos vi a falar disso ou a propor qualquer solução».

Com a nova fase da vida política que decorre já há tempo bastante para que se compreenda do que se trata, e por mais vezes que o PCP o sublinhe, as peças são quase sempre enquadradas por expressões como: «as forças que apoiam o governo»; «a coligação de governo»; «a maioria na Assembleia da República»; «apesar de ser força de suporte, o PCP...». Não será de estranhar que, após estas introduções, soem estranhos os diagnósticos que o PCP faz da situação do País, ainda para mais se as soluções de fundo ficam ausentes do que passa.

Somam-se os dados adquiridos por comentadores e politólogos de que o «PCP não desejava a solução política, foi forçado a isso», «quando o PCP aponta problemas do País, está artificialmente a criar diferenças para romper com a solução política», «o PCP está mais distante do governo e o BE conta mais nas matérias aprovadas». Sobre isto vale a pena referir a quantidade de notícias que, referindo-se a propostas positivas, são tituladas como se se tratassem de iniciativas do BE, e que ao longo do texto se constata terem ou a intervenção, ou mesmo terem sido da exclusiva iniciativa do PCP. Ignora-se sistematicamente a intervenção do PCP na noite de 4 de Outubro de 2015, assim como se ignora que tudo o que de positivo tem decorrido da solução política tem a marca do PCP. Associadas a estes linhas surgem também teses contraditórias: a que o PCP refila mas vota a favor, ou a de que o PS está refém do PCP. A prova de que assim não é, que cada um mantém a sua autonomia, está, por exemplo, no voto contra do PCP à entrega pelo Estado do BANIF ao Santander, que só foi aprovada pela santa aliança de PS, PSD e CDS: exactamente os mesmo que rejeitaram a proposta do PCP para o alargamento das 35 horas de trabalho para todos os trabalhadores.

Uma linha que não é nova, mas que se tem vindo a acentuar, numa estreita ligação com elementos desenvolvidos no início deste texto, é a de que o PCP é «um partido conservador, do passado, incapaz de se adaptar à sociedade e desafios contemporâneos», confundindo posicionamentos de classe com o que designam de questões de «costumes», cabendo aqui toda uma panóplia de questões muitos diferentes entre si, onde pretendem encostar o PCP à direita mais reaccionária, argumentando que o PCP «vota contra tudo o que for fracturante» – seja isso verdade ou não. Para isso partem de pressupostos tão anticomunistas como as conclusões que retiram: «são posições que se justificam por ser um partido envelhecido, que procura agradar aos seus eleitores também eles envelhecidos», e que «com o rejuvenescimento natural, tais posições ditas conservadoras desaparecerão, ou a lei da vida tratará de fazer desaparecer o PCP». Tais afirmações dirão mais de quem as profere do que do PCP.

Cabem nesta amálgama questões relacionadas com os direitos das mulheres – da prostituição às quotas nas administrações de empresas, ou nas listas eleitorais. Cabe perguntar se a Paula Amorim explora menos as mulheres trabalhadoras, ou se Margaret Thatcher protagonizou algum avanço na igualdade. Cabe também perguntar quão moderna é a exploração da mulher por via da prostituição. Também aqui se invocam argumentos de direitos individuais, o direito a ser explorado ou escravizado? Quantas pessoas conhecemos, que reconhecendo o percurso ímpar do PCP em matéria de direitos laborais, contrapõem com a incompreensão sobre matérias destas? E que dizem mesmo «é que eu penso pela minha cabeça»? E será que conhecem mesmo a posição do PCP, ou apenas a forma como a comunicação social tratou tal posição?

Mereceria ainda reflexão funda a onda anticomunista em torno quer de questões internacionais, quer de questões históricas como o Centenário da Revolução de Outubro, ou os 200 anos do nascimento de Karl Marx. Aguardemos a aproximação de actos eleitorais e logo assistiremos a nova vaga, sempre acompanhada por aqueles que fazem da sua actuação política um navegar ao sabor do vento mediático.

Mesmo dentro do Partido aparecem tais incompreensões. Alguns daqueles que, em teoria, reconhecem o papel da comunicação social na luta de classes, rapidamente, em determinadas matérias, embarcam na onda e esquecem que quem fala em nome do PCP é o PCP. Que a reflexão colectiva tem sempre mais virtudes do que a reflexão individual (haverá, de facto, o pensar pela sua própria cabeça, ou apenas o pensar condicionado pelo contexto?).

Diz-se sobre tais matérias que o PCP não está presente nos combates da sociedade contemporânea, nos combates modernos. Haverá algo de mais contemporâneo, desafiante e fracturante para a Humanidade do que a libertação do homem da exploração?

Notas

(1) Código Deontológico dos Jornalistas – http://www.jornalistas.eu/?n=10011