Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição 'Nº 357 - Nov/Dez 2018'

39 anos da JCP

por Afonso Sabença

Em Novembro a JCP completa 39 anos de existência. 39 anos junto dos jovens portugueses, ligada e inequivocamente comprometida com a luta da juventude, a defesa dos seus direitos e aspirações. Vale a pena fazer um pequeno apanhado, analisando brevemente quem somos e como aqui chegámos, que lance bases e esclareça aquele que deve ser o papel do jovem comunista na escola, na faculdade e no local de trabalho. É importante olhar para a nossa história para lembrar o que nos mobiliza todos os dias, e desta forma estarmos em melhores condições de afirmar a justeza e actualidade da alternativa política patriótica e de esquerda que propomos ao país, do nosso ideal e projecto «com os valores de Abril no futuro de Portugal», parte integrante da luta por uma Democracia Avançada e pelo Socialismo.

Muito embora a fundação da JCP se dê no ano de 1979, os jovens comunistas já possuíam um grande património de actividade, de luta e organização. Desde 1921, encontrámo-los organizados na Juventude Comunista (JC) e na Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas (FJCP); mas também empenhados em várias estruturas unitárias de juventude, como o MUD juvenil e o Movimento de Jovens Trabalhadores (MJT); na União de Estudantes Comunistas (UEC) e na União da Juventude Comunista (UJC).

Até 1974 foi nestas organizações que se desenvolveu uma ampla actividade no combate ao fascismo e na organização de jovens trabalhadores e estudantes. Em 1946, depois de longos anos de actividade da FJCP, foi lançado o MUD juvenil, grande movimento unitário democrático e antifascista. Na década de 50, perante a ilegalização do MUD juvenil, os jovens comunistas começaram a organizar-se em núcleos locais e regionais, voltados para o trabalho nas organizações de massas legais e semi-legais. A intensa actividade do Partido, tendente ao reforço do trabalho entre a juventude, tornou possível o lançamento, a partir de 1969, do MJT e a criação da UEC, em 1972. Em 1975 fundou-se a UJC, à data a mais influente e activa organização de jovens trabalhadores, beneficiando da riquíssima actividade dos comunistas no seio do MJT.

Após a Revolução de Abril, estando a UEC e a UJC consolidadas, o PCP considerou, no seu IX Congresso, estarem as condições maduras para se darem passos no sentido da unificação destas duas organizações.

Assim, a 10 de Novembro de 1979 nasce a Juventude Comunista Portuguesa, a organização revolucionária da juventude. Reflexo da composição social do nosso país e da sua situação política, a estrutura da JCP era bastante diferente da actual. Contava com mais de 31 mil militantes, 44% dos quais operários, 16% empregados, 21% estudantes do Ensino Secundário e apenas 6% estudantes do Ensino Superior. Uma organização de massas, guiada pelos princípios do marxismo-leninismo e do internacionalismo proletário, que actuaria no quadro dos objectivos de acção do PCP.

Nestas quase quatro décadas, a acção e intervenção da JCP tem sido marcada pela presença junto da juventude e das suas preocupações, impulsionando e contribuindo para um amplo conjunto de lutas e bandeiras. Desde a luta pela cultura e pela música, de que é exemplo o Concurso de Bandas para o Palco Novos Valores, da Festa do Avante!; ao desporto, com a realização durante vários anos do torneio AGIT e de tantos outros, que colocavam o acesso à prática desportiva como questão política fundamental à vida da juventude; às questões ligadas ao ambiente e à sexualidade, a JCP nunca se demitiu do seu papel de vanguarda da juventude e agiu sempre de forma a encontrar, em unidade com outros jovens, as formas de dar expressão às suas justas reivindicações.

Ao longo das últimas décadas, os jovens comunistas estiveram na origem de importantes lutas, envolvendo grandes massas juvenis contra a Prova Geral de Acesso (PGA), a revisão curricular, as propinas, os Exames Nacionais e provas globais; pela implementação da educação sexual; contra os sucessivos pacote laborais, pelos direitos dos jovens trabalhadores e contra a precariedade; pela despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG); pela independência política e de acção do Movimento Associativo Juvenil; contra as guerras do imperialismo na Jugoslávia, Iraque e Afeganistão; pela solidariedade com a luta dos jovens e dos povos, como em relação a Timor, ao Sahara Ocidental, à Palestina, à Líbia e à Síria.

No âmbito da luta pela Paz, a acção da JCP foi sempre marcada por um empenho decisivo. De várias acções e estruturas unitárias em que participou, destacamos o Festival «Dêem uma oportunidade à paz» (Julho, 1983), e que juntou em Tróia milhares de jovens de todos os pontos do país. Um projecto que se inseriu em todo um conjunto de iniciativas de convívio e amizade, dos festivais de canção juvenil aos acampamentos «pela paz e a amizade», passando pelo festival «Amar o Tejo Viver a Paz», que mobilizaram milhares de jovens na área de Lisboa.

Encontros juvenis muitas vezes articulados com acções de solidariedade, com destaque, a par de Cuba, das iniciativas de apoio à luta e divulgação da situação em Timor Leste.

Na Festa do Avante! de 1995, numa acção nunca antes realizada, a JCP coloca Timor online, criando na Internet uma páginabilingue dedicada à situação do povo maubere. Nos últimos anos destaca-se a participação determinante da JCP para a dinamização do Acampamento pela Paz, iniciativa que reúne, desde 2010, centenas de jovens e dezenas de associações e organizações juvenis em torno da defesa da Paz, da justiça social e da solidariedade entre os povos.

No plano internacional, desde sua fundação a JCP é membro da Federação Mundial da Juventude Democrática – FMJD, onde sempre assumiu grandes responsabilidades, chegando mesmo à sua Presidência A organização e realização em Portugal de Assembleias Gerais da Federação, particularmente na sequência das derrotas do socialismo na União Soviética, foram importantes contributos para a FMJD. Uma organização juvenil anti-imperialista com mais de 60 anos e que mais contribuiu, no plano internacional, para organizar as lutas e formas de solidariedade juvenis desde a II Guerra Mundial, das quais destacamos os Festivais Mundiais da Juventude e dos Estudantes que, no ano de 2017, tiveram a sua 19.ª edição.

Quando referimos o património de luta e acção da JCP não pode ser esquecido o seu contributo decisivo na construção e sucesso da Festa do Avante!. É a Festa que a juventude tornou sua, justamente pela capacidade de trazer milhares de jovens comunistas e amigos a dedicar parte significativa do seu tempo livre a erguer o maior evento político-cultural do país, e pela sua capacidade de alargar a milhares de jovens a participação naqueles três dias. A Festa do Avante! é a festa da juventude por ser uma pequena amostra do Portugal futuro que queremos construir e a que os jovens de hoje são capazes de se dedicar.

Um projecto que é também consolidado na acção em conjunto com a Ecolojovem no seio da Juventude CDU, que em cada campanha eleitoral leva a milhares de jovens a nossa análise, propostas e soluções, a construir em unidade com todos os jovens democratas que queiram ser felizes e viver num país de progresso social, movido pela defesa e conquista dos direitos dos trabalhadores e do acesso de todos à Educação, em conformidade com a Constituição da República Portuguesa.

No 3.º Congresso da JCP, em que foi alertado para aquilo que era o início da promoção da cultura do individualismo, da competição e da tremenda ofensiva ideológica desencadeada pela direita e pelo grande capital contra a juventude, o camarada Álvaro Cunhal, na intervenção de encerramento diz: «(…) a direita tem conseguido um largo suporte de massa juvenis.» «E – pior que tudo isso – tem conseguido instalar em largos sectores juvenis, conceitos, hábitos, opções, prioridades, aspirações, formas de encarar a vida e modo de viver de conteúdo reaccionário, a exacerbação do individualismo e do egoísmo, (…) o anticomunismo, tendo como principais alvos o PCP e a União Soviética.»

Passaram 29 anos desde que Álvaro Cunhal proferiu estas palavras, em Loures. 29 anos de crescente ofensiva ideológica contra a juventude, de promoção do anticomunismo, do individualismo e das teses do fim da história. Os retrocessos civilizacionais a que temos assistido, com o generalizar da precariedade e os baixos salários, são justificados com o recurso a uma suposta «modernidade» em que as pessoas já não teriam as mesmas necessidades e os jovens são flexíveis e aventureiros. Procuram fazer crer que não é o mundo do trabalho marcado pela precariedade das relações laborais que está a impedir os jovens de se emanciparem e construírem a sua própria vida, são eles que não querem as «amarras» dessa estabilidade.

Neste período em que assistimos à queda da União Soviética, o capitalismo ganhou novo espaço e surgiu em força levando à prática a sua política de terra queimada, retirando direitos aos trabalhadores, atacando uma a uma as conquistas de Abril, vendendo à juventude, através da comunicação social dominante e das suas opções políticas que influenciam os currículos escolares e académicos, a ideia de que havíamos chegado ao fim da história, de que o comunismo era uma utopia do século passado e de que não valia a pena lutar pelos nossos direitos. Passámos a viver em função e para essa entidade etérea que são os mercados. O descontentamento e a vontade de mudar são silenciados ou direccionados para o assistencialismo e a caridade, enquanto o PCP é pintado como um partido envelhecido, conservador e que não apela à juventude.

Somos muitas vezes confrontados com a ideia de que a juventude actualmente não quer saber de política. Devemos então perguntar: Como podem os jovens adquirir uma cultura de participação democrática quando na sua escola, se quiserem colocar uma faixa a exigir melhores condições materiais e turmas mais pequenas, esta é retirada pela direcção; quando são impedidos de realizar Reuniões Gerais de Alunos; quando há ingerências por parte das direcções nos processos eleitorais para as Associações de Estudantes; quando a polícia é chamada com o intuito de intimidar alunos que se manifestam à porta da escola?

Perante esta realidade, em que é mais difícil organizar jovens trabalhadores devido à fragilidade dos seus vínculos, em que o Ensino Superior, devido às barreiras que são colocadas à sua frequência, está cada vez mais elitizado, em que os jovens do Ensino Secundário se vêem privados de participação política, e em que existem milhares de jovens desempregados e sem condições económicas para prosseguir os seus estudos e a sua formação, cabe aos comunistas encontrar soluções para organizar a juventude e elevar a sua consciência.

É necessário que o jovem comunista se envolva e aproxime das organizações de massas, que contribua para a dinamização do Movimento Associativo Juvenil, que tome um papel preponderante na consciencialização dos colegas e amigos, partindo de questões concretas e organizando-os para lutar por elas. É através do problema concreto que o jovem sente na pele que se consegue fazer a ponte para as questões e problemas de fundo da nossa sociedade e para a necessidade de uma acção revolucionária. Devemos tentar trabalhar em unidade com todos aqueles que têm objectivos e perspectivas comuns em relação à escola, à faculdade e ao local de trabalho e desmistificar ideias e preconceitos anticomunistas. Temos de ser incansáveis e fazer da acção e da luta organizada e consequente a nossa principal arma e elemento diferenciador.

Mas esta é uma tarefa sempre inacabada porque a elevação do patamar de militância e o crescimento da organização têm de ser preocupação constante de todos os militantes e de todos os organismos e colectivos da JCP. O reforço da organização tem de ir sempre no sentido da criação de hábitos de trabalho para alcançar uma organização forte e coesa, ligada à vida, tendo na militância a chave-mestra para a dinamização da luta organizada com vista à transformação da sociedade.

Comemoramos, desta forma, o esforço, a dedicação e o compromisso de cada militante que trouxe até nós a organização que temos. Por isso estamos empenhados para que mais jovens tomem partido e que se juntem à organização revolucionária da juventude portuguesa. Precisamos de mais organização para desenvolver mais luta e estamos certos que está nas nossas mãos trazer mais um amigo, envolver mais um colega. Precisamos de envolver cada um no trabalho diário da organização, responsabilizar os novos que chegam, para que assim percebam que somos, todos, peças fundamentais para o funcionamento e crescimento da JCP.

Neste tempo em que estamos, a JCP afirma-se como a organização revolucionária da juventude, confirma-se como a vanguarda da luta da juventude para resolver os seus problemas e concretizar as suas aspirações e reafirma-se a organização de juventude do Partido Comunista Português, empenhada no seu reforço presente e futuro.