Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Tema, Edição 'Nº 357 - Nov/Dez 2018'

Checoslováquia 1968 - A propósito da habitual campanha

por Albano Nunes

«A mentira para ser segura e atingir profundidade tem de trazer à mistura qualquer coisa de verdade»

(António Aleixo)

O agravamento da tensão internacional que hoje vivemos, com uma desenfreada corrida aos armamentos por parte dos EUA e seus aliados da NATO e da União Europeia, assim como o avanço de forças de extrema-direita e fascistas, que ascenderam já a posições no governo e no aparelho de Estado de vários países da Europa, obriga-nos a revisitar a História para dela colher experiências e ensinamentos úteis à luta que travamos na actualidade.

E isso é tanto mais necessário quanto na luta contra o poder explorador e agressivo do capital, hoje capital monopolista globalizado à escala mundial, as questões da História ocupam um lugar particularmente destacado na luta ideológica. A leitura unilateral e revisionista da História, uma leitura ao serviço dos vencedores, vendida como verdadeira e inquestionável desde os bancos da escola à comunicação social dominante, é uma constante do nosso dia-a-dia, exigindo a maior vigilância e espírito crítico por parte daqueles que, como os comunistas portugueses, militam num partido que existe não para se conformar com o estado de coisas existente mas para as transformar. Um partido que assume o seu passado e o passado do movimento comunista e revolucionário mundial no seu todo, com o legítimo orgulho e a certeza de que, num processo que comporta acertos e desacertos, avanços e recuos, vitórias e derrotas, está do lado certo da História.

Vem isto a propósito dos acontecimentos de 1968 na Checoslováquia.

Era previsível que, cinquenta anos passados, a campanha de diversão anticomunista se reacendesse. Para disfarçar a crise manifesta em que o capitalismo se debate e tentar mostrar que ele não tem alternativa, os seus arautos não perdem uma oportunidade para atacar o ideal e o projecto comunista e um qualquer grão de verdade lhes basta para construir e tentar credibilizar as maiores mentiras, como acontece em relação aos acontecimentos de 1968 na Checoslováquia.

Não que a campanha tenha tido significativa projecção porque não teve. Talvez porque as munições contra a chamada «invasão da Checoslováquia» já se haviam esgotado com o «Maio de 68» francês, que foi pretexto para inúmeras manifestações de ignorância e preconceito anticomunista. Mesmo assim não faltaram falsificações e enviesadas leituras da História para dar uma imagem negativa dos comunistas.

Os acontecimentos de 1968 na Checoslováquia não podem ser analisados fora do contexto histórico concreto em que tiveram lugar, da gravíssima situação de tensão existente na Europa Central e nas chamadas relações Leste-Oeste e das alianças políticas e militares à data existentes. Não é por acaso que a Conferência sobre a Segurança e a Cooperação na Europa de 1975, em Helsínquia, que abriu a possibilidade real de desarmamento, desanuviamento e cooperação entre regimes sociais antagónicos, tenha sido recebida com profundo alívio e saudada como um acontecimento histórico.

Está-se então apenas a duas décadas do célebre discurso de Churchill em Fulton sobre a «cortina de ferro» que consagrou uma situação de confronto político, militar e ideológico entre o imperialismo e o campo dos países socialistas, a chamada guerra fria. Um confronto que terminou com as dramáticas derrotas do socialismo na Europa, a dissolução do Tratado de Varsóvia, a cavalgada da NATO e da União Europeia para Leste, num processo que confirma a posteriori que eram bem reais os perigos invocados em 1968 para a intervenção militar na Checoslováquia dos seus aliados ao abrigo dos acordos então em vigor.

É também importante não esquecer que a guerra no Vietname estava no auge, que o imperialismo e o seu aliado sionista estendiam as garras para o Médio Oriente (em Junho de 1967 Israel invadia territórios árabes que mantém ilegalmente ocupados até hoje), que por todo o mundo a luta de classes e de libertação nacional se agudizava, incluindo nos EUA onde Luther King foi assassinado em Abril de 1968 e, um ano antes, a «ditadura dos coronéis» vinha juntar a Grécia às ditaduras fascistas de Portugal e de Espanha.

A situação geo-estratégica da Checoslováquia, no coração da Europa, não deve ser ignorada. Foi a ocupação da Checoslováquia pela Alemanha nazi que, passando pelo vergonhoso tratado de Munique de 1938, abriu caminho à II Guerra Mundial, à invasão da União Soviética, à ocupação e aos crimes sem nome praticados pelas hordas nazis nos países que hoje, sem vergonha, a propaganda do grande capital considera libertados da «ditadura comunista». As fronteiras saídas da II Guerra Mundial eram postas em causa pela NATO e na República Federal da Alemanha (Bona), bem longe da ulterior «ostpolitik» de Willy Brandt, crescia o militarismo e perseguiam-se os comunistas cujo partido, o heróico KPD de Ernst Thalmann, havia sido proibido em 1956.

Sobre os acontecimentos na Checoslováquia, como sobre outros que motivaram sérias divergências no movimento comunista internacional, a reflexão e a discussão vão continuar. É inevitável e necessário, sobretudo entre camaradas. Um maior distanciamento e uma mais ampla perspectiva histórica são indispensáveis. Hoje não só já sabemos mais sobre os acontecimentos em si, como acumulamos todo um conjunto de experiências que os comunistas então não tinham. E que experiências!... Mas isso não nos impede de defender princípios, afirmar convicções e apontar com coragem o inimigo principal das forças do progresso social e da paz.

A Checoslováquia hoje já não existe, deu lugar à República Checa e à Eslováquia. Mas a tão propalada «soberania limitada» (a «velha história» da Cimeira de Ialta que continua atravessada na garganta do grande capital monopolista pois foi uma cimeira histórica importante para pôr fim à sua mais hedionda criatura – o nazi-fascismo) não deu lugar a qualquer sombra de real independência, já que, para consolidar a contra-revolução dita «de veludo» a antiga Checoslováquia foi rapidamente engolida pela NATO e pela União Europeia.

Sim, mantemos a convicção de que, não apenas para a Checoslováquia mas para a paz na Europa e no mundo, era necessário defender o socialismo que considerávamos realmente em perigo naquele país, já que, à sombra da necessária correcção de erros graves, correcção que o PCP valorizou, se desenvolviam forças que dizendo querer «mais democracia e melhor socialismo» ocultavam os seus reais objectivos. Algo semelhante veio a acontecer mais tarde a coberto da «perestroica». Hoje está bem à vista o que representaram as derrotas do socialismo no Leste da Europa e os perigos que correm a Liberdade dos povos e a Paz mundial com a contra-ofensiva exploradora e agressiva do imperialismo que aí está.

É também altura de lembrar a história honrosa do Partido Comunista da Checoslováquia, um partido fortemente implantado na classe operária, de corajosos combatentes contra a ocupação nazi, que conduziu a insurreição popular eslovaca de 1944 e a insurreição de Praga de 9 de Maio de 1945 no quadro do avanço vitorioso do Exército Vermelho até Berlim. Um partido que apoiado pelas massas, e no contexto da nova correlação de forças criada pela derrota do nazi-fascismo, soube tirar partido das próprias instituições da democracia burguesa e alcançar uma extraordinária vitória nas eleições de Maio de 1946. Uma vitória com que a reacção, a social-democracia e o imperialismo nunca se conformaram, ao ponto de ainda hoje falarem de um tal «golpe de Praga» de 1948 (a calúnia de que os partidos comunistas só conseguem alcançar o poder por meios «golpistas»), quando na realidade o que se passou foi que a classe operária e as massas populares enfrentaram o golpe constitucional do Presidente Benes, apoiando massivamente um governo revolucionário dirigido por Clement Gotwald, Secretário-Geral do PCCH.

Foi esse partido que teve forças para ultrapassar a grave situação criada no quadro das instituições da República Socialista da Checoslováquia em que a posição do Presidente da República e herói nacional, General Ludvik Svoboda, se revelou de grande importância. Pelo seu lado, o PCP não esquece a activa solidariedade que o povo português sempre recebeu, antes e depois de Agosto de 1968, da Checoslováquia socialista. Como muitos movimentos de libertação nacional de África e Ásia certamente não esquecerão que devem muito das suas vitórias à ajuda solidária dos países socialistas, nomeadamente à ajuda com armas fabricadas pelos operários da Checoslováquia sem as quais teria sido impossível derrotar o monstro colonial-imperialista.

A posição assumida pelo PCP face aos acontecimentos de Agosto de 1968, com base na informação então disponível, foi determinada pela sua posição de princípio em defesa do socialismo contra as ingerências e agressões do imperialismo e em defesa da Paz na Europa e no mundo. Uma posição que, expressando preocupação pelo desenvolvimento de forças anti-socialistas e a crescente intervenção imperialista nos assuntos internos da Checoslováquia, nunca pôs em causa o princípio de serem os trabalhadores e os comunistas checos e eslovacos a definir o caminho para o desenvolvimento do seu próprio país.

O PCP compreende avaliações diferentes da sua em relação aos complexos desenvolvimentos na Checoslováquia, mas rejeita frontalmente campanhas anti-comunistas a pretexto de tais desenvolvimentos e sobretudo campanhas que visem atingir a imagem do Partido.

O PCP rejeita manipulações que invocam valores humanistas (incluindo o «direito de ingerência humanitária») para esconder e banalizar os crimes provocados pelas ingerências e guerras de agressão do imperialismo. As dezenas de mortes na Checoslováquia, muitas das quais em acidentes, que o PCP lamenta, não têm sombra de comparação com as centenas e centenas de milhar de mortes provocadas pelas sangrentas e destruidoras agressões imperialistas seja onde for, da guerra da Coreia ou da guerra no Vietname à Síria, passando por Granada, Afeganistão, Jugoslávia, Iraque, Líbia e outras. São estes crimes que é necessário condenar, é o capitalismo e o imperialismo que é necessário combater.