Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição 'Nº 361 - Jul/Ago 2019'

Combate no seio da juventude à propaganda pró-União Europeia

por Alma Rivera

As eleições para o Parlamento Europeu (PE) estiveram envolvidas na habitual névoa de desinformação e mistificação. A discussão pública fica dominada pelos soundbites, gerados a partir dos espaços noticiosos, dos programas de comentário, ou das crónicas de jornal. Este tipo de discussão só é possível porque ao longo de anos se tratou de destruir os espaços de participação popular e construir narrativas a partir dos mais variados meios, desde a publicidade aos conteúdos dos manuais utilizados em História, ou mesmo aos momentos ditos de «cidadania» nas instituições.

O debate é muito democrático desde que não saia das várias nuances disponíveis dentro da ideia de uma UE universal, imutável e inviolável, uma construção tão perfeita, tão natural como as leis da natureza. Não surpreende, portanto, que nestas eleições «europeias» (como as chamam, procurando impor a ideia de que a União Europeia é a Europa e nada para além da UE existe), tentem a todo o custo limitar a afirmação da alternativa política para que nenhuma cor possa sobressair no meio de uma discussão entre vários tons de cinzento.

Na prática, recorrendo a um discurso emotivo, a dramatização apresentada genericamente pelos centros de difusão da ideologia dominante e depois reproduzida «no terreno» por PS, PSD e CDS, mas também pelo BE, e não só, é a de que, perante as ameaças da ascensão dos extremismos e dos eurocépticos, haveria uma posição quase ética que cada um dos cidadãos deveria tomar: optar «pelo pessimismo daqueles que apontam apenas as falhas e que querem um país no isolamento», ou optar por aqueles que acreditam no «projecto europeu e que de forma optimista encaram os desafios do futuro». E assim ficaria balizada, desde logo, a discussão se não estivessem presentes os comunistas e a CDU, procurando trazer algum rigor e objectividade à conversa.

Há uns anos atrás, em plena intervenção da troika, com os impactos das políticas impostas durante décadas pela UE e com o Pacto de Agressão bem vivos na pele dos portugueses, teria sido difícil que se atrevessem a ir tão longe no enviesamento da discussão, como aconteceu este ano, por exemplo, em dezenas de debates destinados aos estudantes das escolas secundárias que votam pela primeira vez.

A UE, enquanto instituição, gasta milhões de euros em propaganda de auto-elogio. Para além dos vários programas existentes de forma permanente – como o Youth in Action (Juventude em Acção), o Erasmus+, a actividade dos centros EuropeDirect, que contam sempre com uma componente de legitimação do «projecto europeu» –, foi triplicado o orçamento do Erasmus+ e foram lançados, em vésperas de eleições, programas e campanhas específicas direccionadas particularmente às novas gerações. É o caso do Desta Vez Eu Voto, do O Que a Europa Faz Por Mim (UEandI), ou o #GiveAVote. Também se multiplicaram os questionários e aplicações através dos quais o utilizador pode descobrir «o sentido de voto que mais se aproxima das suas ideias», como o SPACEU 2019, Match Your Vote, UE and I 2019.

As agências e centros de estudos financiados pelas instituições europeias oferecem também «conteúdos pedagógicos» clarificadores. Um exemplo, é o material destinado aos estudantes do ensino básico, da autoria do Centro de Informação Europeia Jacques Delors e do Ministério dos Negócios Estrangeiros português, no qual podemos ler, ao lado de desenhos e cartoons, que «UE = Solidariedade entre os povos. Os países mais ricos devem ajudar os países com maiores dificuldades» e que, portanto,«quem já tem idade, é importante votar para o Parlamento Europeu para a defesa dos nossos direitos: Viajar, residir, estudar, trabalhar livremente noutro país da UE, Mais informação, Mais protecção no Meio Ambiente».

Aliás, uma gestora de publicações da Comissão Europeia aparece mesmo em vídeo dizendo sem rodeios ao que vem: «Toda a gente percebeu que nunca conseguiremos convencer as pessoas sobre o valor de se ser um membro da UE se não começarmos suficientemente cedo com os jovens, antes que eles criem preconceitos e sejam mal informados por outras fontes». E isso passa por produzir conteúdos de propaganda para crianças entre os 6 e os 14 anos e diabolizar as «outras fontes», acrescentamos nós.

Por tudo isto, a CDU não esteve apenas a apresentar argumentos e a mostrar diferenças entre as forças políticas constantes do boletim de voto de dia 26 de Maio. Esteve a desmontar uma gigantesca campanha, que começou muitos meses antes, com o objectivo de reabilitar a imagem colectiva da UE e do seus instrumentos de dominação.

Um exemplo ilustrativo

No «Dia da Europa», a 9 de Maio, as escolas desdobraram-se em debates e palestras sobre o tema, algumas promovendo actividades de qualidade e interesse, alimentando um debate sério, outras nem tanto. Em Tomar, perante um auditório com mais de 200 alunos, a CDU foi confrontada com um exemplo singular de condicionamento da formação de opinião.

«A UE tem liderado a luta contra o aquecimento global e as alterações climáticas. (…) No entanto, crescem os populismos e os tiques de autoritarismo, reduzem-se certos direitos laborais e sociais, belisca-se a democracia. Como membro da Juventude Comunista, que conselhos quer deixar aos jovens para os encorajar nesta luta mundial pelos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável e pela defesa dos direitos humanos, reforçando assim os valores europeus e o sentimento de pertença à UE, enquanto comunidade de valores?». Foi a pergunta escolhida pela moderadora.

Ficamos conversados quanto à variedade de visões aceite nesse debate. E de que valores europeus se estaria então a falar? A submissão de Estados face a outros, o retrocesso social, os ataques à democracia e à soberania, o militarismo, o atropelo dos direitos humanos, como com os refugiados?

Seguiram-se outras questões às restantes candidaturas:

«A legislação europeia define obrigações relativamente à qualidade do ar das nossas cidades, à redução do uso de produtos de plástico, à redução de roamings nas comunicações, à qualidade das águas balneares e impõe regras diversas para a defesa dos consumidores. No entanto, assistimos aos governos nacionais a vangloriarem-se dessas medidas quando há efeitos positivos e a culparem a União Europeia quando esses efeitos são menos positivos. Veja-se o caso das taxas de juro, historicamente baixas, reflexo da política do Banco Central Europeu, com efeitos muito positivos na vida dos cidadãos, das empresas e da economia nacional, (…)?».

Antes que o representante do PS pudesse responder, já tinha ficado claro para os presentes que o caminho a seguir passava inevitavelmente por entregar mais poderes à UE, que tão bem faz o seu papel. Esquecendo-se apenas que, sempre que se tratou de repor rendimentos e direitos, traduzindo-se em melhorias na economia, houve resistência e mesmo oposição por parte dessas instituições, como aconteceu com os aumentos nos salários. Em sentido contrário sempre se posicionou a troika, da qual o BCE faz parte.

Nas perguntas dirigidas à Presidente da JSD: «(...) a União Europeia apenas coopera e apoia com programas como, por exemplo, o tão bem-sucedido Erasmus+ (...)» 1, e à representante so CDS, foi mais do mesmo. Ou seja, um modelo de «discussão» formatado e rigidamente orientado para impedir um real confronto de ideias e a abordagem dos problemas concretos que realmente afectam a vida dos estudantes e da jovem geração.

Para evitar que a discussão resvalasse para a situação concreta das escolas que, graças às políticas das troikas interna e externa despoleta indignação entre alunos e professores, rapidamente regressamos para o campo da chantagem, do medo e do desrespeito pelos outros povos.

Como esta realizaram-se dezenas de debates com uma lógica semelhante, em que as perguntas e o funcionamento da conversa estão determinados a servir a valorização do processo de integração europeia, a ignorar as suas consequências práticas, exaltando um percurso que defendem ser irreversível. Fala-se de um país que não existe, esquecem-se as opções estruturais feitas e foge-se sempre que a CDU procura impor o debate necessário sobre o futuro e os seus caminhos.

Uma batalha do campo das ideias que é urgente travar

Com armas muito desiguais, em que combatemos com um inimigo que tem ao seu serviço poderosos meios de desinformação, torna-se necessário redobrar esforços na intervenção junto das camadas mais jovens. A afirmação de uma alternativa patriótica e de esquerda passa inevitavelmente pelo combate diário a toda esta manipulação, que faz de mentiras senso comum. Não lutamos apenas contra os argumentos de quem serve uma classe oposta, mas estamos perante a imposição de um pensamento único que realmente influencia aqueles que queremos trazer para o nosso lado.

Batalhas como a que enfrentámos com as eleições para o Parlamento Europeu e que agora temos pela frente com o processo eleitoral para a Assembleia da República, sublinham o valor insubstituível do trabalho contínuo de estudo, esclarecimento, agitação, mobilização, contacto directo e diálogo efectivo, partindo de uma posição de real confiança nas potencialidades progressistas da juventude. Trabalhamos para estar em condições de «avisar a malta» e contrariar a brutal ofensiva ideológica, o que passa desde já por valorizar os instrumentos de intervenção que temos a cada momento e que resultam unicamente do nosso esforço colectivo.

Notas

(1) Merece destaque que a grande bandeira do Erasmus+, os programas de mobilidade com que acenam para defender a integração europeia, além de não serem exclusivos para cidadãos da UE, com as suas bolsas reduzidas, não são acessíveis a qualquer estudante, o que explica que, por exemplo, em 2016 apenas 2,6% dos estudantes tenha participado no programa