Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 287 - Mar/Abr 2007

24 de Março - Os estudantes comunistas e o movimento estudantil

por Ruben de Carvalho

Em artigo publicado n’O Militante nº. 257 («A Crise Académica de 1962 – Notas sobre o contexto histórico»), sublinha-se o que são os aspectos fundamentais que caracterizam esse importante momento da luta estudantil contra o fascismo, nomeadamente o conjunto de factores internos e externos que desempenharam papel essencial na amplitude e características do movimento.
No final do texto, escreve-se que «o papel do PCP, ‘o Partido’, e dos estudantes comunistas na «crise académica de 1962 e no movimento associativo em geral (…) foi simplesmente determinante e insubstituível».


Trata-se de uma afirmação que, à simples luz dos factos e da verdade histórica, é rigorosamente incontestável, pesem as tentativas de «revisões» de que ela, a História, é hoje vítima.

A situação de clandestinidade do Partido e dos seus militantes à época impede, evidentemente, a rigorosa quantificação desta influência, sendo contudo uma verdade incontornável que todas as direcções de Associações de Estudantes, Comissões Pró-Associação e outros organismos do movimento estudantil à época da Crise de 62 incluíam estudantes organizados ou ligados a estruturas do Partido.

Esta visão é contudo insuficiente para compreender o papel desempenhado e que se reflecte em traços definitórios mais gerais do movimento e profundamente responsáveis pela amplitude política e social que a Crise assumiu.

Sem se pretender qualquer carácter exaustivo, sublinhem-se três aspectos.



1. A organização



O contributo dado pelos estudantes comunistas ao movimento estudantil sob o ponto de vista orgânico está muito longe de se esgotar na sua própria organização partidária. Aquilo a que se poderá chamar uma cultura organizativa dos comunistas teve reflexos vastíssimos em toda a vida das Associações de Estudantes, delas fazendo organizações complexas que se ligavam à realidade quotidiana das escolas numa fecunda multiplicidade de actividades.

As AAEE viviam das suas próprias receitas, fruto das quotizações dos seus sócios-estudantes e das suas iniciativas o que, se garantia a sua independência, obrigava igualmente a um rigor e treino administrativo que constituiu uma riquíssima escola de responsabilidade cívica, profissional e, naturalmente, política. Cantinas, secções de folhas, actividades desportivas, departamentos de turismo universitário e tantas outras actividades sem uma imediata implicação política estruturaram-se (e, sobretudo, coordenaram-se) em grande medida graças aos esforços de estudantes comunistas, ao seu empenho e capacidade mobilizadora de vontades e de trabalho. A preocupação com o rigor, a qualidade e a efectiva correspondência às necessidades quotidianos e imediatas dos estudantes foram durante anos um factor de análise política por parte dos estudantes comunistas e determinantemente contribuíram para a profunda ligação entre a grande massas dos estudantes e as suas estruturas associativas.

Outro reflexo desta orientação, evidentemente paralela de uma global orientação unitária, foi o constante empenho do alargamento das estruturas associativas e na criação ou conquista de outras que alargassem a influência do movimento. Lado a lado com o trabalho de mobilização, de sensibilização, de constituição de listas democraticamente eleitas para as AAEE existentes, os estudantes comunistas multiplicaram-se no desenvolvimento de outras formas orgânicas impostas pela repressão (as Comissões Pró-Associação, onde a repressão fechara ou impedira a existência de AAEE), viradas para outras actividades (caso do Cineclube Universitário, da criação de jornais e boletins, grupos de teatro, da Cooperativa Livreira Livrelco) ou ainda a conquista de estruturas inicialmente hegemonizadas por entidades ligadas ao Governo salazarista, como foi nomeadamente o caso do CDUL.

E parece inteiramente desnecessário sublinhar como, desencadeada a Crise e a repressão, a experiência de trabalho clandestino e organização dos comunistas se revelou essencial a um confronto de massas que se arrastou por mais de quatro meses.





2. A Cultura



A década de 50, na decorrência das esperanças abertas pela vitória contra o nazi-fascismo na II Guerra e dos momentos altos de resistência que se traduziram na criação do MUD, do MND e do MUD Juvenil, nas campanhas de Norton de Matos e de Humberto Delgado, assistiu à violenta contra-ofensiva do salazarismo, sustentada pela viragem da Guerra Fria. A Universidade foi um dos pólos dessa contra-ofensiva e, ao longo desses anos, numerosos professores democráticos foram expulsos, presos, forçados ao exílio.

Esta situação agravou uma situação de corte entre a Universidade e vida cultural e artística do País: uma Universidade onde pontificava uma maioria catedrática de orientação no mínimo condicionada pelo regime, e uma realidade criadoramente progressista e de esquerda nas artes, na literatura e que progressivamente ia conquistando espaços em áreas subestimadas pelo conservadorismo académico como a Sociologia, a Linguística, a própria Economia.

Os estudantes comunistas, nas complexas situações da actividade clandestina, desempenharam aqui importante papel na ligação entre as estruturas do movimento estudantil e os meios artísticos e intelectuais portugueses, com frutíferos resultados em ambas as direcções e que se reflectiram não apenas em estimulantes acções de divulgação, mas no aparecimento de correntes que, como o futuro o viria a demonstrar, prosseguiram na literatura, na poesia, na pintura, na música as melhores tradições que o fascismo procurava silenciar.

Para além, ainda, do estabelecimento de um rico canal de ligação entre o movimento estudantil e o das colectividades populares, com resultados culturais evidentes (note-se, por exemplo, o surgimento de grupos teatrais resultantes destes enlaces, tal como outras actividades culturais), mas proporcionando igualmente um frutuoso elo de ligação entre a realidade estudantil e a realidade popular.

Que «Grândola», a canção sinal do 25 de Abril, tenha resultado da presença de um cantor nascido no movimento estudantil como Zeca Afonso e de um espectáculo numa colectividade popular no Alentejo da resistência acaba a ser um daqueles acasos que, afinal, talvez o não sejam tanto quanto fazem jus à realidade histórica!





3. A política e o mundo



Torna-se hoje difícil explicar a quem não viveu os anos da ditadura muitas coisas, mas talvez entre todas seja mais incompreensível a selecção de conhecimento da realidade que a acção da censura – a par e passo com o analfabetismo que assolava mais de metade do País – determinava.

Em rigor, está por fazer a história dessa Censura, um instrumento cuja importância se torna mais clara quando se pensa que ela, para além de forçar o silenciamento da luta e criar uma falsa imagem de Portugal e do seu povo, condicionou o que os portugueses souberam sobre a guerra da Indochina, a guerra da Argélia, a conferência de Bandung, a revolução cubana, a resistência grega, as independências africanas, a realidade da presença das organizações operárias europeias em França, na Grã-Bretanha ou em Itália e tantas outras realidades que prosseguiram a transformação do Mundo após a vitória dos Aliados em 1945.

Por variados motivos, a população estudantil e universitária teve nesse período uma peculiar situação de privilégio informativo que se tornou essencial à formação de uma consciência que se manifestou logo nos finais dos anos 50 com a luta contra a tentativa de amordaçar as AAEE ensaiada com o Decreto-lei 40 900, e prosseguiu ao longo de toda a década de 60.

A acção dos estudantes comunistas permitiu, por um lado, que o próprio património de luta da juventude do MUD Juvenil (declarado ilegal em 1957) se mantivesse vivo, o que é tanto mais de sublinhar quanto se fala de uma camada da população – os estudantes – inevitavelmente com uma expressão colectiva transitória. Por outro, haveria certamente uma história a fazer do percurso de um peculiar tipo de «bibliotecas» informais, dos livros e revistas proibidos que, suportados pelo acesso à época invulgar à leitura em língua estrangeira, nomeadamente francês, percorreram as mãos de centenas de estudantes e os familiarizaram com universos que a Censura tudo fazia para ocultar.

Para além, já se vê, da imprensa clandestina do PCP (nas universidades com um impacto bastante mais largo que a própria organização partidária) e, mais tarde, as emissões rádio, revelando esse outro Portugal onde os trabalhadores lutavam.



Para além do empenhado trabalho revolucionário e militante dos estudantes comunistas, nenhuma outra força política pode reclamar-se de ter construído da forma como o fez o PCP uma realidade que, numa Universidade que o fascismo tudo fez para controlar, criou valores de cultura, de aprendizagem e experiência democrática, de responsabilidade cívica e de empenhamento político ligado à causa da democracia e do povo que deram à construção do Portugal de Abril uma importante contribuição.