Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Partido, Edição Nº 290 - Set/Out 2007

Santa Maria da Feira - Greve Geral no sector corticeiro

por Luis Quintino

Passaram já várias semanas sobre esta grande jornada de luta. No entanto, sente-se ainda hoje o forte impacte e o significado que a mesma teve nas empresas de transformação da cortiça no concelho mais populoso do distrito de Aveiro. Para isso muito contribuiu, além das condições objectivas (a revolta e indignação dos trabalhadores corticeiros pelas políticas do actual Governo e pela acção do patronato), o empenho dos activistas sindicais e dos membros e da organização do Partido na sua preparação e no próprio dia da Greve Geral. É pois essa experiência que aqui nos propomos trazer.

Breve caracterização do sector



É justamente aqui, no concelho de Santa Maria da Feira, que se localiza o maior centro produtor de rolhas e de aglomerados de cortiça do país e do mundo. Ainda que predomine a pequena e média empresa (cerca de 500 unidades industriais), a verdade é que se tem assistido nos últimos anos a uma progressiva concentração, domínio e controlo do sector por meia dúzia de grupos económicos, em que sobressai o império do conhecido Américo Amorim. Império cujos lucros astronómicos não páram de crescer. Só a Corticeira Amorim SPGS alcançou, no final de 2006, o saldo de 20 milhões e 104 mil euros, ou seja mais 27,7% do que no ano anterior.

Só que esses resultados positivos não têm tido reflexo nos salários e inclusive nas condições de trabalho dos cerca de 8000 operários corticeiros da região. Bem pelo contrário. Além das remunerações serem baixas, mantêm-se neste sector as discriminações salariais entre homens e mulheres. As mulheres auferem em média menos 99 euros/mês pelo mesmo tipo de trabalho, o que é indigno do Portugal de Abril. Por outro lado aumenta a precariedade, os contratos a prazo, o recurso a empresas subcontratadas, a que se juntam em muitos casos sérias deficiências em termos de higiene e segurança, o que provoca amiúde graves acidentes de trabalho, em especial no processo de colmatagem.



A preparação da greve



Este quadro mostrava-se propício à realização da Greve Geral no sector, apoiado nas próprias tradições de luta dos trabalhadores corticeiros, que tiveram grande expressão na greve de Dezembro de 2002. Havia, porém, a noção de que agora seriam maiores os problemas de mobilização e de organização. Desde logo pelo contexto político diferente, mas também pelas dificuldades de implantação do movimento sindical unitário e do nosso próprio Partido na generalidade das empresas da cortiça.

Procurou-se por isso envolver no debate e preparação desta jornada de luta o maior número de membros e quadros do Partido no concelho, em várias reuniões e plenários, tendo-se reactivado inclusive a célula do Grupo Amorim, o que permitiu actualizar o conhecimento dos problemas laborais, mas também o sentimento dos seus trabalhadores em relação à Greve Geral. Que estiveram, de resto, na base dos nossos comunicados e boletins dirigidos aos operários corticeiros, entretanto editados e distribuídos massivamente. Foram, além disso, estabelecidos novos contactos com simpatizantes do Partido e activistas sindicais de mais unidades industriais.  

Sendo outro o objectivo deste texto, será justo no entanto deixar uma palavra para o trabalho que o sindicato do sector desenvolveu, não obstante todas as limitações, quer num conjunto vasto de plenários realizados (numa acção sem paralelo com anteriores jornadas de luta), quer na afixação e distribuição de propaganda mobilizando para a Greve Geral.





O dia 30 de Maio no sector corticeiro



Iniciando-se o primeiro turno em algumas empresas do Grupo Amorim ainda às 22 horas do dia 29 de Maio, véspera da Greve Geral, logo aí foram formados numerosos piquetes de greve, que, sobretudo devido à sua combatividade e determinação, contribuíram decisivamente para bons níveis de adesão nesses primeiros turnos. Os piquetes de greve acabariam por aumentar nos restantes turnos com o decorrer do dia. De assinalar a naturalidade com que os quadros e dirigentes locais e distritais do Partido foram recebidos e se integraram nos próprios piquetes de greve. Várias empresas corticeiras fecharam ou tiveram a produção parada ou significativamente afectada: FACOL, CORKRIBAS, Corticeira Amorim, Amorim Revestimentos 1, entre outras. À entrada de algumas delas realizaram-se concentrações e comícios com a intervenção de dirigentes sindicais, em que participaram muitos trabalhadores corticeiros.

Houve, contudo, casos isolados de intimidação e violação do direito à greve. O exemplo mais escandaloso, oportunamente denunciado quer junto da comunicação social, quer na Assembleia da República pelo Grupo Parlamentar do Partido, foi a acção abusiva e ilegal de agentes da GNR junto do piquete de greve da empresa GRANORTE, em Riomeão, ao tentar empurrar os seus activistas e retirar-lhes a faixa que empunhavam.  





Mas a luta continua…



Antes e depois da Greve Geral de 30 de Maio, ocorreram já muitas acções e manifestações regionais e nacionais em que os trabalhadores corticeiros tiveram igualmente presença destacada. Mas não podemos deixar de salientar, pelo seu carácter reivindicativo e amplitude, a recente vigília, organizada pelo respectivo sindicato, durante todo o dia frente à Associação Patronal, em Santa Maria de Lamas, por aumentos salariais dignos e pelo fim das discriminações salariais. Nesta importante acção de luta, que mobilizou largas centenas de operários do sector, participou uma delegação sindical do Sul do país e contou ainda com a presença solidária do deputado comunista Jorge Machado e de dirigentes distritais e concelhios do nosso Partido.

Os próximos tempos não serão nada fáceis. O patronato, na cortiça como noutros sectores, incentivado pela política retrógrada deste Governo, recorre a todos os meios para retirar direitos e despedir trabalhadores. É o que se está a passar actualmente com a prática do lay-off, ao que tudo indica de forma ilegal,  nas empresas Edmndo Alves Ferreira e FACOL, mas com o claro propósito de pressionar e intimidar os trabalhadores mais idosos.

No decurso da Greve Geral e nas lutas que se lhe seguiram revelaram-se novos quadros do Partido. Consolidou-se e aumentou o prestígio do nosso Partido junto dos trabalhadores corticeiros, que se traduziu já em novos recrutamentos. Em suma, criaram-se melhores condições para alargar e reforçar a organização partidária no sector.