Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 294 - Mai/Jun 2008

Juventude de Abril

por Cristina Cardoso

Hoje, mais que nunca é urgente comemorar e evocar o 25 de Abril, a revolução dos cravos. Fazer lembrar aqueles que foram os 48 anos de fascismo em Portugal: a miséria do povo português, a fome, a guerra, a censura, a repressão, as prisões políticas, a tortura, os assassinatos, mas também a luta de um povo e em particular da juventude, que nas condições mais difíceis, sujeitos a enfrentar até a morte, não se detinha em sair para a rua para lutar pelos seus direitos.

 

O fascismo em Portugal retirou à juventude a possibilidade de escolha do seu caminho, de concretização das suas aspirações, retirou-lhe muitos sonhos. Deu-lhe o medo, a fome, a guerra e a emigração como solução.

Ao comemorarmos a Revolução de Abril, não comemoramos apenas um momento histórico, como muitos querem fazer querer. Comemorar o 25 de Abril de 1974 é defender os direitos conquistados, lembrar ao povo que com a Revolução se conquistou uma vida mais digna que hoje nos querem retirar.

A juventude de hoje, aquela que é fruto de Abril, tem consigo o peso da responsabilidade de não deixar que se apague no tempo este momento maior de libertação do nosso povo e assim edificar um futuro com ligação aos valores de Abril. Uma tarefa que nos querem dificultar.

Hoje, podemos dizer, nós os jovens, que já não sabemos como é uma educação pública e gratuita, não sabemos o que é ter um emprego estável com direitos, não sabemos como é ter acesso à habitação porque não nos dão meios para isso, não sabemos o que é ter um Serviço Nacional de Saúde para todos, não sabemos o que é uma vida digna com pleno acesso aos nossos direitos e temos dificuldades em perceber quais as nossas liberdades.

Não sabemos porque nos têm retirado a possibilidade de o viver e não sabemos porque nos fazem acreditar que as coisas sempre foram assim e têm que ser assim.

Também temos sentido nas escolas e nos locais de trabalho os atentados à democracia política. Hoje vemos inúmeras Reuniões Gerais de alunos a serem proibidas nas escolas; eleições para as Associações de Estudantes controladas pelos conselhos executivos; a limitação da participação dos estudantes nos órgãos de gestão das Instituições do Ensino Superior é hoje definida por lei, podendo mesmo em alguns casos não vir a existir; estudantes intimidados por forças de segurança nas manifestações do Secundário e até alegadas proibições de manifestações são anunciadas parte das mesmas forças de segurança; limitações ao exercício do direito de propaganda como impedimentos à pintura e realização de murais assim como proibição de afixação de propaganda politica e sua destruição.

Muitos são os exemplos de atropelo aos direitos políticos, que no dia-a-dia também os jovens sentem. Por isso, quando comemoramos Abril, também defendemos os seus valores, as suas conquistas.

 

O 25 de Abril apresentado aos jovens

 

A juventude tem um papel fundamental na luta contra a destruição das conquistas de Abril, pois são as novas gerações que têm vindo a ser mais afectadas pelas políticas de direita dos sucessivos governos.

A par da destruição dos nossos direitos, o capitalismo tem vindo a desenvolver enormes esforços também no campo ideológico para apagar a história recente em Portugal. Hoje, nos programas escolares, o 25 de Abril é uma parte residual nos manuais e quando falam do fascismo preferem-lhe chamar «Estado Novo» e a sua caracterização é vergonhosa.

Pegando num manual de história do 12.º ano, verificamos que falam da industrialização, do desenvolvimento da economia e também das suas crises mas referem-se muito residualmente à miséria do povo, à fome, às condições dos trabalhadores, às altas taxas de analfabetismo, ao trabalho infantil, ao trabalho assalariado e as jornas, à emigração forçada; referem muito pouco a falta das liberdades políticas, os campos de concentração, as torturas, os assassinatos realizados pela polícia política e a própria PIDE.

Retratam a Revolução como um momento em que os capitães de Abril derrubaram Marcelo Caetano e não como o culminar de 48 anos de intensificação da luta de um povo. Na escola não aprendemos que foi com a força da luta do povo que se derrotou o fascismo em Portugal e da escola saímos ignorantes quanto à luta popular em todas as frentes (movimento operário, movimento democrático, movimento dos estudantes, luta dos intelectuais, luta contra a guerra incluindo nas Forças Armadas).

Mas não é só na escola que encontramos a ofensiva ideológica contra a Revolução de Abril. Aos jovens, nas ruas e nos meios de comunicação social, apresenta-se um ditador com uma imagem humanizada e incentivando-os a conhecer a história do homem: Salazar «o sedutor» e o «grande português»; e a Revolução é apresentada como «Abril é Evolução» (esquecendo-se propositadamente do R).

A deturpação da história tem levado a um profundo desconhecimento, por parte da juventude, daquilo que foi e ainda representa a Revolução para o povo português e mais que nunca o combate à ofensiva ideológica é também ele um imperativo.

 

Cumpra-se Abril!

 

Mais que nunca, fora do alcance da maioria dos jovens, os valores de Abril têm que voltar a ser edificados. No combate ao apagamento da Revolução está a luta diária dos jovens pela reposição e defesa dos seus direitos.

De facto, é verdade que para muitos jovens o 25 de Abril é encarado como um feriado em que evoca apenas um momento histórico onde se conquistou a liberdade e democracia e se descolonizou as colónias de África portuguesas e muitas vezes não relacionam o verdadeiro alcance da Revolução no seu dia-a-dia, mas também é verdade que a juventude de hoje tem dado provas que se lhe derem as «armas» lutam pelos valores de Abril.

E exemplo disto é o crescente descontentamento e consequentes lutas da juventude perante a sua situação actual, contra as opções políticas dos sucessivos governos que têm destruído a possibilidade da juventude aspirar a ter aspirações, que têm destruído as conquistas de Abril.

E aqui, os jovens comunistas têm assumido um papel destacado, junto da juventude, nas suas escolas e seus locais de trabalho, denunciando e combatendo esta ofensiva, trabalhando diariamente para a consciencialização e para o reforço da luta em torno dos direitos da juventude, da liberdade e democracia, reforçando, assim, a ligação estreita entre os valores que regeram a Revolução e o futuro que estas gerações mais novas irão construir.

Para que se cumpra Abril é necessário que se aprenda com a História que o povo é soberano e tem razão quando se diz oprimido, e que a luta constante e organizada é o caminho para derrubar aqueles que subjugam o povo, que o reprimem, que lhe retiram os seus direitos mais fundamentais: a liberdade e a democracia na sua dimensão social, cultural, económica e política.

Para que se cumpra Abril é preciso que a juventude saiba e sinta que a Revolução de Abril é uma revolução inacabada e que o seu generoso projecto e os seus valores de liberdade, democracia, de fraternidade, de emancipação social, de justiça acabarão por se revelar como uma necessidade objectiva na concretização de um Portugal fraterno e de progresso.

E será certamente a juventude, esta que é fruto de Abril, a dar também um contributo fundamental para que Abril se cumpra!