Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 310 - Jan/Fev 2011

Uma luta maior dos jovens trabalhadores portugueses

por Valter Lóios

A Greve Geral, convocada pela CGTP-IN e realizada a 24 de Novembro, constituiu um extraordinário êxito e foi um momento alto de um longo processo de mobilização e de luta dos trabalhadores, promovido pela CGTP-IN em todos os sectores e regiões do país.
Esta Greve Geral demonstrou uma grande disposição para lutar, demonstrou que os trabalhadores resistem e não se resignam, lutando para mudar de política e verem as suas justas e oportunas reivindicações efectivadas.

Uma Greve Geral em que, tal como noutros processos de luta da nossa história, contou com a forte participação da juventude trabalhadora, demonstrando mais uma vez que é possível lutar, independentemente de se ter um vínculo precário, de se estar a trabalhar há poucos dias ou meses na empresa ou serviço, de se ter um baixo salário.


Todo este êxito e forte participação da juventude trabalhadora não caiu do céu. Eles foram fruto de um amplo e extraordinário trabalho dos sindicatos de classe filiados na CGTP-IN, em estreita ligação à sua estrutura juvenil – a INTERJOVEM – que, de forma correcta e persistente, definiu locais de trabalho prioritários da sua acção e contacto com os jovens trabalhadores, tendo em vista o seu esclarecimento e envolvimento na luta consequente e organizada para alcançarem as suas justas reivindicações.


Este trabalho junto dos jovens trabalhadores por parte das estruturas de jovens dos sindicatos e da INTERJOVEM já se tinha intensificado na preparação do Dia Nacional da Juventude (28 Março), que se comemora como dia nacional de luta, e em que, nestes últimos anos, contou com milhares de jovens trabalhadores em luta contra a precariedade, pela estabilidade no emprego, pelo aumento real dos salários e por horários dignos que permitam a conciliação da vida familiar com a vida pessoal de uma forma saudável.


A forte participação de jovens trabalhadores, em muitos casos em situações de precariedade laboral, demonstra a justeza do trabalho realizado e a justa reivindicação que a INTERJOVEM/CGTP-IN lançou, no plano de combate à precariedade, com a sua estafeta que contou com a recolha de mais de 50 mil postais a serem entregues ao primeiro-ministro do PS José Sócrates. Neste combate destaca-se também a grandiosa petição subordinada ao lema «A UM POSTO DE TRABALHO PERMANENTE, UM POSTO DE TRABALHO EFECTIVO», que foi entregue na Assembleia da República a 12 de Outubro, num cordão humano com mais de uma centena de jovens trabalhadores. A petição, com mais de 20 mil assinaturas, representa 20 mil exigências de uma efectivação dos postos de trabalho, 20 mil protestos contra a ilegalidade da precariedade recolhidos essencialmente nos locais de trabalho com grande concentração de jovens trabalhadores e com gritantes situações de precariedade, como por exemplo os centros de contacto, mais conhecidos por call center.
É neste processo de intervenção junto dos jovens trabalhadores e de uma vasta intervenção dos quadros e activistas sindicais, de todos os sectores, num muito largo movimento de plenários, reuniões e contactos diversos com os trabalhadores, que construímos esta grandiosa Greve Geral, expressa na adesão de mais de três milhões de trabalhadores.


Uma Greve Geral alicerçada nas empresas e locais de trabalho, que  demonstrou que não éramos os únicos a falar com os trabalhadores, bem pelo contrário, o patronato e o capital também o fizeram numa clara acção de chantagem e de imposição do medo. Foi desde que a CGTP-IN convocou a Greve Geral que começou a grande ofensiva ideológica na comunicação social. Desde logo, ouvimos os prestadores de serviço do grande capital a dizer que «a greve vai pôr o país numa situação ainda pior», que «a greve não vai resolver nada» e que «o Orçamento vai ser aprovado», chegando ao ridículo de dizer que «a greve até pode ser grande» porque «não vai haver transportes públicos». Estes são alguns dos muitos exemplos, a que todos assistimos, de uma ofensiva ideológica presente até à Greve Geral e sempre de mãos dadas com a repressão por parte do patronato nas empresas e locais de trabalho. Fomentando medos e recorrendo a frases feitas, andavam dia-a-dia junto dos trabalhadores dizendo coisas como estas: «olha que existem mais de 700 mil desempregados mortinhos para trabalhar e que te substituem», «se fizeres greve despeço-te», «não renovo o teu contrato», «perdes o direito aos prémios», e muitos outros exemplos que nos relatavam em cada um dos locais de trabalho.


Foi debaixo de uma enorme repressão e opressão por parte do sistema capitalista em que vivemos, que os trabalhadores e em particular os jovens trabalhadores responderam com esta poderosíssima demonstração de força e combatividade, numa das mais importantes jornadas de luta realizada em Portugal depois do 25 de Abril, e que ficará inscrita na história da luta dos trabalhadores e do povo português.
Em todas as regiões e sectores se verificou uma forte adesão à Greve Geral: na administração pública e local; no sector dos transportes (empresas com uma enorme massa de trabalhadores jovens); no sector produtivo - na Autoeuropa e todo o seu complexo industrial, na Renault em Cacia, nos Estaleiros Navais de Viana do Castelo, na Sacti, na SaintGobain/Covina, na Atlantis/Vista Alegre, no grupo Amorim, no grupo Paulo Oliveira, na Centralcer, na Lisnave – que conta com um exército de trabalhadores a laborar para empresas de trabalho temporário, sendo estes jovens trabalhadores com este vínculo laboral decisivos para que não se produzisse; e foi também no sector do comércio e serviços, em lojas como o Continente no Vasco da Gama, onde pela primeira vez estiveram trabalhadores em greve, o Jumbo em Aveiro, onde pela primeira vez aderiram à greve mais de 30 trabalhadores, ou o call center da PT na Afonso Costa em Lisboa, em que, num turno de cerca de 750 trabalhadores a laborar de várias empresas de trabalho temporário, só entraram cerca de 150.


Exemplos como estes poder-se-iam multiplicar por 4, 5, 6 vezes em cada região ou sector, em cada piquete de greve no qual participámos. O facto de se conseguir alargar significativamente os piquetes de greve a mais locais de trabalho e na sua composição, contribuiu em muito para o sucesso da Greve Geral. Esta foi uma batalha na qual participaram muitos jovens trabalhadores que fizeram greve pela primeira vez, desenvolvendo um grande papel de esclarecimento e de mobilização para que não se trabalhasse, bem como para o cumprimento na íntegra do que a lei consagra, juntando o aspecto de protecção dos trabalhadores que por diversas pressões ainda não tinham ganho a coragem de fazer greve e, por outro lado, o de protecção das instalações. Piquetes esses que, cumprindo o seu papel, foram demasiadas vezes confrontados com as forças de segurança que por vezes procuraram dar cobertura à violação do direito à greve.
Toda a luta da classe operária e de todos os trabalhadores, bem como esta Greve Geral e o seu êxito, é inseparável do contributo dos militantes e da organização do Partido e da Juventude Comunista Portuguesa.
Podemos afirmar que depois desta Greve Geral nada ficou na mesma, temos agora melhores condições em cada local de trabalho para travar a luta que se avizinha, temos mais organização. A Greve Geral trouxe-nos um grande estímulo e confiança no futuro, futuro esse que vai ter que ser de intensa luta em cada local de trabalho pela resolução dos problemas concretos, pela defesa da contratação colectiva, por aumentos reais dos salários e do SMN para 500 euros neste ano de 2011.


Estamos a começar o novo ano como terminamos 2010: com intensa luta dos trabalhadores, com uma forte dinâmica criada pelas novas gerações de trabalhadores e vamos manter o firme combate à precariedade, colocando desde já nas reivindicações da contratação colectiva a exigência de passagem a efectivo dos trabalhadores que desempenham função de carácter permanente, correspondendo ao nosso compromisso assumido com os trabalhadores e potenciando a vontade dos trabalhadores com vínculo precário de lutar para conquistarem a estabilidade laboral.


Um início de ano de intensa luta e em desenvolvimento, elevando o processo reivindicativo no seio das empresas e locais de trabalho, alargando a denúncia das diversas formas de exploração de que a juventude trabalhadora é alvo. Este será um período de luta, plenários, tribunas e de tantas outras formas de expressar o descontentamento, numa acção e intervenção consequente e organizada.
Um primeiro trimestre marcado pela intensidade da acção reivindicativa nas empresas, de acção de denúncia e de afirmação da INTERJOVEM e do movimento sindical unitário. Meses de luta que contribuirão decisivamente para que o Dia Nacional da Juventude, a 28 de Março, fique mais uma vez marcado por uma forte dinâmica reivindicativa e de massas, com uma grande manifestação nacional de jovens trabalhadores, em Lisboa, em torno do combate à precariedade, pela estabilidade laboral, para que a cada posto de trabalho permanente corresponda um vínculo efectivo, contra o desemprego, pelo emprego com direitos e direito a um presente e a um futuro com direitos.


As experiências mais recentes da recolha da petição contra a precariedade, e a própria  Greve Geral, terão de servir para reforçar e alargar o nosso trabalho junto dos jovens trabalhadores. Foram milhares os contactos estabelecidos (centenas deles pela primeira vez), destacando-se na luta jovens trabalhadores, jovens que precisamos de sindicalizar e responsabilizar na empresa e sector. As diversas respostas dadas pelos trabalhadores e as adesões verificadas, as dificuldades com que nos deparamos, constituem um conjunto de elementos que precisamos de continuar a potenciar no nosso trabalho. Sindicalizar, eleger delegados sindicais, reforçar o movimento sindical unitário nas empresas e locais de trabalho é esta a nossa grande tarefa. Só uma força organizada está em condições de travar uma luta organizada e a luta organizada é a única capaz de travar o combate contra o capital, tudo o resto é extemporâneo, voluntarista e inconsequente se não tiver como objectivo o reforço das estruturas de classe dos trabalhadores e a sua luta.