Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Tema, Edição Nº 313 - Jul/Ago 2011

A ausência nos media de debate sobre os media

por Fernando Correia

Não falamos, naturalmente, nas notícias sobre as peripécias e frivolidades relacionadas com o quotidiano televisivo, tão do agrado até dos próprios jornais ditos de «referência». Falamos, sim, e por exemplo, no debate sobre as temáticas privilegiadas nos media, os critérios jornalísticos adotados, o respeito pelo pluralismo, a isenção e o rigor, a escolha dos colaboradores e analistas – tudo isto no quadro da responsabilidade social inerente à atividade dos meios de comunicação social numa sociedade democrática, à luz da legislação entre nós em vigor e da própria Constituição. Pode-se dizer que o silenciamento sobre tais matérias é praticamente absoluto. Notícias e comentários: um círculo fechado O PCP tem, geralmente, um lugar nos noticiários, ainda que muito menor daquele que a sua importância, dinâmica e intervenção sociais exigiriam, se os critérios jornalísticos, e só eles, fossem aplicados. Mas o que muitas vezes se noticia e comenta do PCP não são, propriamente, as sua propostas, a sua forma diferente de estar na política, aqueles aspetos – e não são poucos – em que o Partido, os seus dirigentes, militantes e simpatizantes marcam a diferença. A imagem que se dá dos comunistas, daquilo que eles são e pensam, é aquela que encaixa nas ideias preconcebidas que se tem, ou se pretende que os outros dele tenham – um partido sempre «do contra», sem alternativas, meramente de protesto, etc. Queremos aqui particularmente sublinhar o papel dos comentadores e analistas, cuja importância na formação das opiniões é indiscutível. Não só por aquilo que concretamente dizem, mas também pelo enquadramento que, muitas vezes, dão aos seus comentários, colocando-os num plano que, à partida, leva os leitores, ouvintes e telespetadores à adoção de um determinado ângulo na abordagem dos temas – que pode não ser o mais importante, mas é decerto aquele que mais lhes interessa a eles, comentadores, para levarem a água ao seu moinho. Excluindo os poucos casos, como em certos painéis televisivos, em que os participantes aparecem como representantes dos partidos, os comentadores e analistas, muitos deles permanentes, são apresentados como «independentes». Mas a sua «independência» revela-se significativamente circunscrita ao quadro das conceções neoliberais inspiradoras da atual fase do capitalismo. Quase todos, frequentemente com a ajuda dos jornalistas escolhidos para moderadores das entrevistas e debates, se referem aos comunistas de forma depreciativa, quando não, pura e simplesmente, os ignoram. Ao ouvi-los, ninguém tem dúvidas que são votantes (ou mais do que isso) num de três partidos – os do «arco do poder», isto é, os partidos da política de direita. A sua argumentação estrutura-se com base em certas ideias feitas. Falam das «inevitabilidades», apresentando a política de direita como um destino inelutável, assim afastando do âmbito do possível tudo o que não se compatibilize com a ideologia de classe dominante. Dizem que o voto só é «útil» se for para os partidos do «arco», no quadro de uma, também ela, «inevitável» bipolarização entre os que estão um bocadinho mais para aqui e os que estão um bocadinho mais para ali. As eleições são apresentadas, de forma redutora, como a escolha de um primeiro-ministro ou, quando muito, do partido mais votado, iludindo o facto de que o voto se destina a eleger um parlamento, cujas decisões dependerão da relação de forças entre os partidos nele representados. A máquina de produção e reprodução ideológica – porque é de uma verdadeira máquina que se trata, incluindo imprensa, rádio, televisão e online – funciona de diversas formas e segue diversos caminhos, não se limitando aos que têm diretamente a ver com o plano da informação. O entretenimento, quer nas publicações e programas especializados quer nas páginas e rubricas dos órgãos generalistas, dá, também ele, demasiadas vezes, um forte contributo para a obtenção dos mesmos resultados. Mas é apenas a informação que aqui estamos a abordar. Noticiários e comentários aprisionam os leitores, ouvintes e telespetadores num círculo sem saída. Por um lado, os conteúdos noticiosos são selecionados, tratados e editados cumprindo uma agenda resultante do compromisso – em graus variáveis, segundo os órgãos – entre dois interesses: os de quem manda na linha editorial e os do tipo de cultura jornalística localmente vigente – no Público será uma coisa, no Correio da Manhã outra, etc. Por outro lado, os analistas de serviço – que, além do mais, não têm meios próprios de investigação dos factos – comentam não a realidade real, mas sim a realidade construída pelos media. Por exemplo: o comentador, em geral, não analisa nem se pronuncia sobre algo que ele desconhece na íntegra, como o documento partidário ou o discurso do político; o que ele comenta são a(s) frase(s) ou extrato(s) escolhidos pelas notícias, ou então aquilo que o moderador da entrevista/debate diz que o político disse. E o círculo fica fechado. O barco do poder Foi no final dos anos 80, era então primeiro-ministro Cavaco Silva, que uma série de fatores propiciaram o crescente investimento nos media e o movimento de concentração da propriedade, no quadro de uma política (estimulada pela recente integração de Portugal na então C.E.E.) favorável à recomposição dos antigos grupos económicos e à formação de novos. Procedeu-se à reprivatização dos jornais estatizados, à (inevitável) abertura de novas frequências radiofónicas e de canais privados de televisão (SIC, 1992 e TVI, 1993), ficando assim criadas as condições para o surgimento de poderosos grupos económicos nos media. Na segunda metade da década de 90, o aparecimento e posterior desenvolvimento do online levaram à consolidação e ao reforço desses grupos. Os grandes patrões, em íntima ligação com o capital financeiro, os gestores das grandes empresas públicas e os proprietários das privadas, umas e outras fornecedoras fundamentais da almejada publicidade (é ela que gera os lucros…), juntamente com os políticos do tal «arco» tomaram definitivamente conta dos principais media. Os que gerem o negócio e os que o financiam são, verdadeiramente, os donos do barco do poder. Mas não podem prescindir dos seus principais acólitos: os políticos e os para-políticos que gravitam à volta do negócio dos media, o utilizam e, solícitos, o servem – hoje no poder, amanhã na oposição. Saltitam entre os cargos no aparelho de Estado e adjacências, os conselhos de administração, as fundações, os institutos. Vão trocando de lugar, mas sempre dentro do mesmo barco. Alguns reivindicam ser «independentes», isto é, hesitam, sinceramente ou por astúcia, comprometerem-se com um partido… dentro do «arco», claro. Por vezes parece que estão zangados, mas rapidamente se reconciliam. Todos põem a mão no «pote», segundo a expressão de um recém-embarcadiço, ainda que às vezes alguns (não todos…) dos que abusam ou se revelam mais descuidados sejam, sem piedade, deitados borda fora e, quais bodes expiatórios, impudicamente exibidos como prova de que os media são mesmo ativos e consequentes vigilantes do poder e a justiça é igual para todos. Deve dizer-se que a máquina não funciona de uma maneira determinista. É preciso ter em conta a existência de uma dinâmica especificamente jornalística, inerente à lógica própria dos media e à autonomia (relativa) que a caracteriza. Uma lógica que implica uma constante sujeição à pressão do tempo, a brevidade e simplicidade no discurso, a rejeição dos aprofundamentos e grandes explicações, a procura da notícia em primeira mão, a valorização do conflitual e do contraditório, a necessidade de dispor de factos que satisfaçam a voracidade da agenda… Deste modo, os políticos veem-se confrontados com novas exigências, criando-se assim condições objetivas para o surgimento de pontuais conflitos entre, por um lado, as necessidades do negócio mediático – tenham ou não na base corretos dispositivos jornalísticos – e, por outro lado, os princípios e estratégias dos políticos de serviço (e, verdade se diga, também dos outros, os que estão fora do «arco»…). Outras vezes – menos do que seria de desejar, mas mais do que alguns que estão de fora julgam – interferem a real independência e até a coragem profissionais dos jornalistas envolvidos. Não será o caso, em geral, dos que ocupam (o que, claro, não é de espantar) lugares de direção, entre os quais prevalece a concordância ou a condescendência com os patrões da embarcação (e por isso os vemos, alinhadamente, entre os comentadores televisivos). No fundamental, porém, a máquina funciona bem. E o barco continua a singrar. Onde estão as diferenças? Volvidos 20 anos sobre o início das grandes concentrações de propriedade no setor, o panorama mediático, sob o ponto de vista do pluralismo, empobreceu claramente. O domínio absoluto do grande capital sobre os media, devido à sua transformação num negócio cada vez mais «interessante», juntamente com o reconhecimento da sua força no controlo social e na formação da opinião pública, levaram à morte prematura de vários jornais, uns por se terem tornado supérfluos, outros asfixiados por essa subtil forma de censura que é o corte da publicidade. A «normalização democrática» conquistou definitivamente os media: a imprensa «despartidarizou-se» (leia-se: deixaram de existir jornais mais à esquerda) e a televisão, com os canais privados, passou a estar verdadeiramente «ao serviço dos interesses das pessoas» (leia-se: importaram-se dos países mais «avançados» os formatos de entretenimento caracterizadamente alienatórios e desenvolveram-se na informação os critérios sensacionalistas, os noticiários light e o estilo de «independência» ao gosto dos donos do barco). O jornalismo de investigação foi, progressivamente, posto de parte. A memória (leia-se: jornalistas com mais de 40/50 anos) foi sendo expulsa das salas de redação. A precariedade e outros estratagemas economicistas e de fragilização dos jornalistas foram sendo implantados. Alguns argumentam que, finalmente, os jornais se tornaram realmente informativos, deixando de estar ao serviço desta ou daquela tendência político-ideológica. A hipocrisia é afrontosa. A verdade é que se instalou uma ostensiva, deprimente e antidemocrática uniformidade – quer dentro de cada órgão quer na comparação entre os diversos órgãos. Uma uniformidade que, nas questões essenciais, se traduz na defesa das posições políticas e ideológicas conservadoras ou, quando muito, de uma tímida e deslavada social-democracia. As opiniões dos comentadores «independentes» e os editoriais da imprensa «de referência» aí estão para o provar, com a sua subordinação – explícita ou implícita – à cartilha neoliberal e à conceção da sociedade capitalista como o fim da História. A homogeneidade de classe patente nos proprietários, financiadores e políticos seus aliados, transfere-se e reflete-se na homogeneidade das principais linhas de orientação, ainda que adaptadas ao público-alvo de cada órgão e aos interesses comerciais na exploração deste ou daquele nicho de mercado. Quanto ao pluralismo, no que se refere aos principais diários e semanários de informação, o panorama político-ideológico era, no final dos anos 80, o seguinte, em termos esquemáticos: O Dia, O País, Tempo, Independente, de direita; Correio da Manhã, A Capital, Diário de Notícias, Diário Popular, próximos do chamado bloco central, ainda que com projetos jornalísticos diferenciados; O Jornal e o Diário de Lisboa, de tendência socialista; O Diário, comunista. Qual a situação hoje? Onde está a diversidade político-ideológica? Perante um amplo e colorido escaparate de rua, pejado de jornais e revistas, dos títulos mais gritantes aos mais sóbrios, o cidadão democrata, comunista ou não, fica perplexo (a menos que lá descortine, o que nem sempre é fácil, o cabeçalho do Avante!...). Considerando a dezena e meia de diários e semanários de informação geral que temos, e independentemente da qualidade jornalística, não será fácil fazer uma clara distinção. Legitimamente, o cidadão interroga-se: onde está o pluralismo, quais as diferenças entre eles? O paradoxo que logo no início referimos revela-se apenas aparente – e nada estranho. O silenciamento nos media sobre os media – um silêncio tão ostensivo que acaba por se manifestar de forma verdadeiramente ruidosa – destina-se pura e simplesmente a subtrair da visibilidade e do debate públicos os mecanismos de manipulação que fazem deles um sustentáculo essencial da produção e reprodução da ideologia dominante e da defesa dos interesses de classe que a promovem e sustentam.