Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Partido, Edição Nº 334 - Jan/Fev 2015

No centésimo aniversário do nascimento de Pedro Soares (1915-2015)

por Maria da Piedade Morgadinho

«Cantar aqueles que partiram é dar força à liberdade as flores vermelhas que os cobriram tornaram alegre a saudade»

Assim imortalizou em versos o poeta comunista José Carlos Ary dos Santos a morte trágica de Pedro Soares juntamente com a sua companheira de vida e de luta, Maria Luísa da Costa Dias, num brutal acidente em 10 de Maio de 1975, e que a cantora, também ela comunista, Luísa Basto, levaria na sua voz a todo o país.

É com saudade e, também, com imensa confiança na nossa luta que neste mês de Janeiro de 2015 assinalamos o 100.º aniversário do nascimento de Pedro Soares. Evocamos a sua vida de lutador comunista consequente, o seu papel de dirigente do Partido, o intelectual comunista.

Pedro dos Santos Soares nasceu em 13 de Janeiro de 1915 na pequena aldeia de Trigaches do concelho de Beja. Aí viveu durante a sua infância e parte da adolescência, no seio de uma família de tradições democráticas. Aí, na sua aldeia, cedo tomou contacto com a brutal exploração dos assalariados rurais pelos grandes agrários, conheceu de perto a miséria dos que trabalhavam nos campos de sol a sol a troco de jornas que mal lhes matavam a fome. Aí, conheceu de perto o rosto da repressão fascista quando os trabalhadores ousavam levantar a voz de protesto e reclamar pão para os seus filhos. Aí, conheceu a prisão do pai e a sua deportação em 1931.

Frequentou o liceu de Beja e remontam a esses anos as suas preocupações literárias, culturais e políticas, colaborando, apenas com 16 anos, em vários jornais regionais e no jornal democrático República.

Pouco tempo depois desloca-se com a família que passa a viver em Lisboa, onde continua os seus estudos e inicia-se na vida política.

Lembremos que foi nos anos 1929-1935, sob a direcção de Bento Gonçalves, secretário-geral do Partido Comunista Português, que iniciaram a sua actividade de militantes comunistas muitos daqueles camaradas que vieram a ser destacados dirigentes do Partido. Pedro Soares foi um deles.

Depois da histórica Conferência de Abril de 1929, do Partido Comunista Português, ponto de partida para a primeira reorganização levada cabo por Bento Gonçalves, que se tornara necessária após a instauração da ditadura fascista que destruiria quase todas as organizações do Partido, foi no fogo do desenvolvimento de um intenso trabalho de organização e de lutas, de viragem para as massas, que Pedro Soares desenvolve importante actividade entre os estudantes. Através dos Grupos de Defesa Académica, primeiras organizações unitárias antifascistas estudantis, participa activamente nas greves desencadeadas pelos estudantes das Faculdades de Direito e de Medicina de Lisboa.

Estas e outras lutas, particularmente as lutas da classe operária registadas depois da reorganização do Partido, levariam Bento Gonçalves a escrever com legítimo orgulho:

«No espaço de 3 anos tornámos o partido conhecido e querido dos trabalhadores; a correlação de forças no movimento sindical modificou-se muito a nosso favor; tivermos vários êxitos no campo intelectual e estudantil; criámos uma forte organização de marinheiros; passámos a ser tomados a sério.»

Os Grupos de Defesa Académica, para a intervenção entre os estudantes e intensificação das suas lutas, foram criados por iniciativa do Partido Comunista Português e da Federação das Juventudes Comunistas. É quando participa na sua actividade que Pedro Soares toma uma opção que viria a determinar o rumo de toda a sua vida: formaliza a entrada para as Juventudes Comunistas e para o Partido Comunista Português. Começa nesse momento a caminhada exaltante de resistente e revolucionário comunista, uma vida de entrega incondicional à luta. Uma vida, como a de tantos outros militantes comunistas, marcada pelas difíceis condições de vida clandestina, pelas perseguições policiais, pelos longos anos de prisão, pelas torturas...

Pedro Soares é preso pela primeira vez em 9 de Março de 1934, quando participava numa manifestação de estudantes, em Lisboa, contra a Acção Escolar Vanguarda (AEV), organização fascista que antecedeu a salazarista Mocidade Portuguesa. Libertado cinco dias depois, seria novamente preso em finais de 1934, em Trigaches, sua terra natal, onde, durante uma permanência aí, desenvolve importante actividade política entre os trabalhadores rurais da região de Beja. Começaria aí o roteiro que percorreu das sinistras prisões fascistas: Aljube, Caxias, Peniche, Porto e Campo de Concentração do Tarrafal.

Em 17 de Outubro de 1936, Pedro Soares, aos 21 anos de idade, que na véspera havia terminado o cumprimento da pena a que fora condenado pelo Tribunal Militar Especial, é embarcado para Cabo Verde rumo ao Tarrafal, na primeira leva de presos políticos que iriam «inaugurar» o campo de concentração de sinistra memória.

No folheto da sua autoria, «Tarrafal Campo da Morte Lenta», escrito após a sua libertação e editado pelo Partido Comunista na clandestinidade, em 1947, Pedro Soares descreve a chegada dos primeiros presos ao campo de concentração:

«A 29 de Outubro de 1936, na pequena baía do Tarrafal desembarcávamos 150 presos antifascistas, os primeiros que o fascismo português atirou para o campo de concentração de Cabo Verde.

Muitos de nós, Júlio Fogaça, Alfredo Caldeira, Militão Bessa Ribeiro, Sérgio Vilarigues, Pedro Soares, Américo de Sousa, Manuel Alpedrinha, Fernando Alcobia, Acácio José da Costa e outros tinham concluído as suas penas. Manuel Rodrigues da Silva, Rafael Tobias, Domingos Quintas, Adolfo Pais, Carlos Ferreira e muitos mais, não tinham sido julgados ou nem tinham processos, outros eram presos sujeitos a pequenas condenações em cadeias do continente.

Nesta primeira leva de presos vinha Bento Gonçalves, Secretário Geral do Partido Comunista Português que fora preso em Novembro de 1935 depois do regresso do VII Congresso da Internacional Comunista, e deportado para Angra do Heroísmo.

Éramos camponeses, operários, soldados, os marinheiros da revolta dos navios Dão, Bartolomeu Dias e Afonso de Albuquerque, estudantes, intelectuais, filhos do povo que lutavamos pela felicidade do nosso país.

Quando chegámos ao campo de concentração fomos algemados em barracas de lona, com 12 homens cada uma.

Durante quase 2 anos essas barracas que o sol e a chuva depressa apodreceram, serviram para nos arruinar a saúde.»

«Durante três anos, nas barracas onde vivemos, depois nos barracões, não havia luz de noite. A alimentação era intragável. A comida era de tal ordem que algumas vezes a comemos com bolas de pão no nariz. A louça ficava no chão ao pó, muitas vezes sem ser lavada... porque não havia água.

Foram-nos fornecidos dois fatos de caqui, duas camisas, dois pares de cuecas, um chapéu de palha, um par de botas. Meias nunca as tivemos. Toalhas também não. E com este uniforme, as palavras do Director Manuel dos Reis: «quem entra naquele pontão perde todos os direitos e só tem deveres a cumprir».

Em Julho de 1940, uma vez libertado, Pedro Soares regressa a Lisboa. Retoma, então, os seus estudos na Faculdade de Letras ao mesmo tempo que prossegue a sua actividade partidária no PCP.

Em 1940, a libertação de alguns presos, destacados militantes comunistas, permite o reforço considerável do Partido e a reorganização de 1940-41, que se impôs após os ataques repressivos que atingiram o Partido a partir de finais de 1935. Entre esses militantes estavam: Militão Ribeiro, Sérgio Vilarigues, Pires Jorge, José Gregório, Manuel Guedes, Pedro Soares e, mais tarde (1941), Álvaro Cunhal.

A tarefa que então se colocava ao Partido era dar um forte impulso ao seu trabalho político; assegurar a continuidade de direcção e de actuação; remar contra a corrente do pessimismo e da desorientação; rever os métodos de defesa conspirativa de modo a defendê-lo dos sucessivos golpes repressivos, retomar a publicação regular do «Avante!»; e colocar a organização do Partido à altura das exigentes responsabilidades que lhe cabiam à frente da luta da classe operária e do povo português.

No Verão e no Outono de 1942, vários dirigentes do Partido, entre os quais Pires Jorge, Militão Ribeiro e Pedro Soares, foram mais uma vez presos. Pires Jorge conseguiu evadir-se em 1943 voltando à luta, mas Militão Ribeiro e Pedro Soares foram de novo enviados para o Tarrafal.

Numa carta enviada ao Comité Central do Partido na véspera de ser embarcado para o Tarrafal, Pedro Soares escrevia:

«Parto convencido de que nada impossibilitará que o fim do caminho para a vitória será alcançado, argamassado com o sangue dos que morrem com coragem e pelo sacrifício e energia dos que não param de lutar».

Entretanto, no Tarrafal, a 2 de Setembro de 1942, vítima de maus tratos e das aniquiladoras condições prisionais, morria Bento Gonçalves. Nesse mesmo ano, 10 outros presos viriam a morrer no Tarrafal, friamente assassinados pelas condições insalubres, má alimentação, trabalho forçado e falta de medicamentos.

Em Fevereiro de 1946, Pedro Soares é libertado e regressa à actividade política. Em 1947, no desempenho de tarefas partidárias parte com a sua companheira, Maria Luísa da Costa Dias, para Moçambique onde permanecerá até começos de 1950. Em 1953 passa a fazer parte do Comité Central do PCP e em Abril de 1954 é de novo preso, enviado para o Aljube, depois para Caxias e, por fim, em Agosto desse ano, é transferido para a prisão da PIDE no Porto. Em 3 de Outubro de 1954 evade-se audaciosamente desta prisão juntamente com Joaquim Gomes, membro da Direcção do Partido e que ali também se encontrava. Uma vez em liberdade retoma a luta na clandestinidade e envia ao Comité Central do Partido uma carta, onde escreve:

«É com profunda alegria e com emoção que vos saúdo, ao ter conquistado de novo a liberdade e ao encontrar-me em condições de comunicar convosco. Aqui estou para servir de novo o Partido, com tudo o que de melhor possuo, para servir a classe operária e o Povo (...).»

No desempenho de diversas tarefas volta a ser preso (pela última vez) em Dezembro de 1958, no Porto e enviado para o Forte de Peniche em Janeiro de 1959. Um ano depois, a 3 de Janeiro de 1960, Pedro Soares encontra-se entre os 10 prisioneiros políticos, militantes comunistas, que se evadem do Forte de Peniche e entre os quais está Álvaro Cunhal.

Nos anos 60, Pedro Soares desenvolve intensa actividade no estrangeiro, leva a cabo inúmeras tarefas partidárias. Em 1962 tem um papel fundamental na criação e início do funcionamento da emissora revolucionária clandestina do Partido Comunista Português - a Rádio Portugal Livre, instalada em Bucareste, capital da Roménia socialista, desempenhando o cargo de seu Director. Nessa tarefa se mantém até meados de 1963. Tempos depois, passa a representar o Partido Comunista Português na Frente Patriótica de Libertação Nacional que tem a sua sede em Argel. Aí, defendendo a orientação do Partido, Pedro Soares luta consequentemente pela unidade do movimento antifascista português. Combate com firmeza o oportunismo reformista e o aventureirismo esquerdista dos elementos (entre os quais alguns membros do PCP, que viriam a ser expulsos do Partido) que a partir de determinada altura passaram a dominar a Frente apoderando-se da sua sede, da sua rádio («A Voz da Liberdade») e dos seus fundos, pertença do movimento antifascista português e fruto da solidariedade nacional e internacional.

Durante a sua actividade no estrangeiro Pedro Soares teve um importante papel no estreitamento das relações entre os antifascistas portugueses, o Partido Comunista e os movimentos de libertação nacional das colónias portuguesas, e desenvolveu diversas tarefas partidárias em vários países europeus, designadamente em Itália. Participou na Conferência de Roma em 1970 de apoio aos povos de Angola, Guiné e Moçambique e na Conferência dos Partidos Comunistas dos Países Capitalistas da Europa, em Bruxelas, em Janeiro de 1974. Após o 25 de Abril, já no país, Pedro Soares integra a Redacção do «Avante!», faz parte da delegação do Partido que depositou no Supremo Tribunal de Justiça o processo de legalização do PCP, foi membro da mesa que presidiu ao VII Congresso Extraordinário do PCP, em Outubro de 1974, encabeçou a lista e foi eleito deputado por Santarém nas eleições para a Assembleia Constituinte e representou ainda o Partido na Comissão Redactora do Projecto-Lei de Imprensa.

Pedro Soares não foi operário. Foi um intelectual, que tal como tantos outros intelectuais, abraçou a causa da classe operária entregando-se inteiramente à actividade revolucionária clandestina e encontrou no PCP a sua plena realização. Tal como Soeiro Pereira Gomes, Blanqui Teixeira, Maria Alda Nogueira, José Dias Coelho, Carlos Aboim Inglês..., tal como Álvaro Cunhal cujo 100.º do nascimento o PCP assinalou amplamente no decurso de 2013.

Entre os muitos anos passados nas prisões fascistas e as torturas a que foi submetido, e entre os anos vividos em condições de severa clandestinidade, Pedro Soares não deixou de estudar, frequentou o curso de História e Filosofia na Faculdade de Letras de Lisboa, tendo conseguido concluir a sua licenciatura.

Cedo revelou o seu interesse pelo estudo da História, particularmente a história de Portugal, a história do movimento operário português e a história do Partido Comunista Português.

São do seu tempo enquanto estudante alguns trabalhos como, por exemplo, «A conquista de Ceuta e as Forças que a Determinaram» (1951. Aqui, assume uma posição crítica corajosa contrária às teses então em difusão por alguns historiadores. Pedro Soares concluiu no seu trabalho que foram os factores de ordem económica que determinaram, no essencial, o empreendimento norte-africano da conquista de Ceuta.

Mais tarde (1966) escreve «Bento Gonçalves – Organizador do Partido». É autor do folheto «Tarrafal: Campo da Morte Lenta», «Herdeiros e Continuadores do Anarquismo», publicado pela «Seara Nova», da qual era colaborador após o 25 de Abril.

Em 1970 escreve notas sobre o cinquentenário do Partido intituladas «Os precursores do Partido da Classe Operária» e, em 1972, «A teoria da Revolução Portuguesa ou A estratégia da Grande Aventura», que não seriam publicados. Neste seu último trabalho denuncia política e ideologicamente as falsificações teóricas e as práticas do aventureirismo esquerdista que em Argel, nos anos 70, combateram o PCP e dividiram o movimento democrático antifascista português, experiência que Pedro Soares viveu de perto.

«Aqui estou para servir de novo o Partido, com tudo o que de melhor possuo, para servir a classe operária e o Povo (...)». Estas palavras da carta que Pedro Soares enviou ao Comité Central em 1954 após a sua fuga da prisão da PIDE no Porto, são o verdadeiro lema do que foi toda a sua vida de revolucionário comunista.