Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 344 - Set/Out 2016

O PCP, o Partido de hoje e do futuro, o Partido da juventude

por Helena Casqueiro

Perante o nosso projecto de transformação revolucionária da sociedade, a intervenção do Partido junto da juventude e das novas gerações é decisiva e deve merecer do colectivo partidário permanente reflexão.

A juventude, como a história o demonstra, é uma camada com características próprias portadora de força e energia, e que, quando orientada e motivada, pode dar grande e comprometido contributo a processos de transformação social e revolucionária.

É, pois, com grande acerto e pertinência que existe hoje a JCP, a organização revolucionária da juventude portuguesa. Por decisão do Partido, reafirmada em sucessivos Congressos, a JCP é a organização juvenil do Partido, o seu veículo fundamental de ligação à juventude e o seu instrumento principal para a elevação da consciência política e ideológica do movimento juvenil.

Para que a JCP cumpra o papel que lhe está atribuído, o Partido, a par de condições técnicas e financeiras, confere à JCP elevado grau de autonomia política, organizativa, bem como de direcção própria para, intervindo no quadro geral dos objectivos, princípios e valores do Partido, decidir da distribuição de meios e quadros, objectivos imediatos de acção e intervenção.

Quadro social e político em que a JCP intervém

Perante a generalidade dos ataques com que os trabalhadores e o povo são confrontados, a juventude constitui um alvo particular do capital, que desenvolve e assegura inúmeros meios para a atingir, condicionar a sua percepção sobre o mundo e assim tentar condicionar a sua acção. O capital sabe que atacar a juventude no plano dos direitos, e em especial no plano das ideias, é a forma mais eficaz de manter os seus desígnios no presente e para o futuro.

É brutal a ofensiva ideológica dirigida à juventude, ela assume expressões muito diversas e sofisticadas com o objectivo central de alterar as suas referências e valores. Basta, por exemplo, referir que nenhum militante da JCP, e nenhum jovem de hoje, viveu outra realidade que não seja a do amarramento do país à UE e serão poucos os que se lembram do escudo enquanto moeda nacional. Perante esta e outras questões, é complexo e exigente o exercício que cada jovem tem de fazer para se abstrair de toda a ofensiva que vive na escola ou no trabalho, nos meios de comunicação dominantes, e para poder reflectir e analisar o mundo, as relações de produção e os seus reflexos na vida do povo. Muitas vezes é pela boca de um jovem comunista que ouve pela primeira vez, numa escola ou empresa, que pode haver educação gratuita, que não é normal chover num pavilhão de educação física, que a política de destruição de direitos não é inevitável e que outro caminho é possível. O quadro político e social tem consequências na intervenção e na acção dos jovens comunistas, dado que se desenvolvem perante a realidade objectiva e subjectiva que temos e não a que gostaríamos de ter. É, pois, com grande coragem e determinação que todos os dias muitos jovens comunistas realizam um trabalho meritório de esclarecimento e consciencialização.

A ofensiva ideológica assume expressões concretas e obscuras na escola com autênticas avalanches de revisão histórica, acompanhadas da imposição de valores do individualismo, do voluntariado ou do assistencialismo. A par da ofensiva social, económica e antidemocrática e com medidas e imposição de realidades objectivas criam-se as condições para dificultar a acção e organização juvenis. O aumento brutal da carga horária, do número de disciplinas e exames, do custo de frequência no ensino, de ataques à organização estudantil, com o bloqueio da acção das Associações de Estudantes, com as tentativas de impedir reuniões gerais de alunos, ou com os instrumentos legislativos como o Estatuto do Aluno, bem como elementos que no plano laboral têm na precariedade e desemprego juvenil os seus elementos centrais, criam hoje uma situação de menos disponibilidade, quer de tempo, quer mental.

As profundas alterações sociais verificadas no seio estudantil e laboral levaram a que a JCP tomasse medidas de organização e direcção para dar resposta a esta realidade social. Medidas ainda aquém das necessidades (por exemplo, hoje 60% dos estudantes no ensino secundário estão na via profissionalizante ou profissional, realidade em que a JCP, apesar das decisões tomadas, ainda não conseguiu os avanços necessários) mas que procuram responder às principais prioridades de intervenção.

Fruto desta ofensiva, a JCP defronta-se com entraves múltiplos ao desenvolvimento do seu trabalho. Tudo leva a que os jovens se isolem, a que não se organizem e a JCP está presente no terreno para contrariar isso. Muitos dos colectivos da JCP reúnem no intervalo das aulas, na escola, à porta, ou no café ao lado do local de trabalho. É uma organização que se caracteriza por ter mais colectivos de base, mas simultaneamente mais pequenos e isolados. Uma intervenção que implica a exigência de permanente deslocação para juntar camaradas, contrariando as dificuldades que muitos jovens têm hoje para se deslocar ao centro de trabalho. A JCP, com uma intervenção persistente e dedicada acção militante, que são de sublinhar, contribui para a elevação das consciências, só possível por regulares acções de contacto, que levam a recolha de contactos nas escolas e empresas, contactos de milhares de jovens que sobre determinado assunto, ou em determinado momento, se disponibilizam para ajudar a JCP. A partir deste momento, muitos deles inscrevem-se e passam a militar.

A JCP é, pois, uma organização com militância activa, influência política e ideológica junto da juventude, em particular junto do movimento estudantil, mas também junto de jovens trabalhadores, com experiências e práticas muito ricas no plano da intervenção e afirmação políticas, experiências que devem ser conhecidas e estimuladas.

Ligação do PCP à JCP. O papel insubstituível da JCP

São muitas as dificuldades e os atrasos no trabalho da JCP. Dificuldades que resultam das insuficiências próprias da organização, mas também do difícil e complexo quadro em que a JCP e a própria juventude intervêm. Desta situação surgem muitas vezes incompreensões (compreensíveis) que advêm do facto da JCP ter estilos de intervenção e de organização que, naturalmente, muitas vezes não acompanham as formas de organização do Partido. O que leva a que muitos quadros do Partido não tenham a percepção do que anda a JCP a fazer, onde anda, qual o grau de intervenção, qual a sua influência. Esta situação é muito visível ao nível dos concelhos e freguesias tendo em conta a forma de organização do Partido e as prioridades da JCP (escola e local de trabalho), que, não sendo contraditórias, por vezes não permitem ter uma ideia mais rigorosa do trabalho e iniciativa em curso.

Tendo em conta este conjunto de questões, e em particular o facto da JCP viver em permanente rotação de quadros (o que, criando natural instabilidade, não deixa de revelar uma significativa capacidade de rejuvenescimento), o Partido assume papel determinante no acompanhamento da intervenção própria da JCP e dos seus quadros. Um acompanhamento que terá que «obrigar» a uma articulação regular PCP/JCP e que tem de ter em conta as particularidades da juventude, dos quadros e da forma de organização da JCP. Um acompanhamento de grande exigência pelas características da organização, mas também porque qualquer tentativa de querer transformar a JCP no «PCP dos pequeninos» poderá, momentaneamente, traduzir-se em mais movimento nos centros de trabalho do Partido, mas a curto prazo fará com que a JCP desapareça enquanto organização, e, por conseguinte, impedirá o surgimento de novos quadros, dinâmica e mobilização juvenil, o que, em última instância, quebrará o elo do Partido ao movimento juvenil.

É que a JCP é uma organização com quadros (em particular funcionários e subsidiados) muito aquém das necessidades de intervenção e que vive com dificuldades no plano financeiro (também tendo em conta o meio onde intervêm e as fontes de recolha financeiras que não existem). Ao Partido, e no quadro das suas possibilidades, é solicitado que em cada região e concelho se criem as melhores condições possíveis para a intervenção e reforço da JCP. Esforço no plano financeiro e meios mas também na ajuda política e ideológica, ajuda diária, acompanhamento de quadros e a sua passagem e enquadramento no Partido (o Partido ganha muito com o enquadramento de quadros que tenham tido a experiência de trabalho na JCP), e a disponibilidade para ouvir e conhecer as realidades que os camaradas da JCP vivem e enfrentam. A disponibilização dos contactos de jovens do Partido à JCP, para que a JCP possa enquadrar estes novos jovens militantes, é muito importante e é a forma mais eficaz de se desenvolver trabalho junto da juventude, e para, em articulação com Partido, enquadrar os novos camaradas. Sem deixar de ter em conta as particularidades de cada militante é-lhe exigida a sua intervenção organizada no local onde passa o maior tempo da sua vida e onde está em contacto com os outros (escola ou local de trabalho) assim como o seu contributo nas tarefas e intervenção geral do Partido (fundos, imprensa do Partido, propaganda, etc.).

Sendo a JCP o instrumento fundamental do Partido para a ligação à juventude, o Partido não deve, nem pode deixar de assumir as suas responsabilidades directas na intervenção junto das novas gerações, em particular junto das novas gerações de trabalhadores. Certamente que haverá muito a fazer, em particular junto de locais de trabalho em que a mão-de-obra é no fundamental composta por jovens, e muito contributo a dar para que organizações de massas, com o movimento sindical em destaque, dêem passos mais significativos junto da juventude. As acções em torno do 28 de Março, Dia da Juventude, constituem um exemplo concreto de uma tarefa que é da responsabilidade do Partido, e que, no que diz respeito ao seu acompanhamento e dinâmica, é empurrada muitas vezes, em exclusivo, para a JCP (que não poderá deixar de dar um contributo decisivo, que dá), sem que a mesma tenha condições para dinamizar esse trabalho.

Ainda nesta frente, que reflexão fazemos e como vamos agir perante a realidade dos 16 000 jovens trabalhadores sindicalizados nos últimos quatro anos? Ou como estamos a acompanhar outras realidades laborais com grande peso nas novas gerações, como são os quadros técnicos, os bolseiros, investigadores, arquitectos, psicólogos, actores, entre outros, novas gerações de recém-chegados ao mundo do trabalho que enfrentam problemas muito específicos, desde logo no acesso à profissão?

São questões para as quais certamente o Partido encontra e encontrará respostas sendo naturalmente para aqui que concentrarão as principais preocupações e forças. A ofensiva de que somos alvo vai exigir do Partido uma intervenção mais regular e intensa junto das novas gerações. Será assim na tarefa das tarefas – empresas e locais de trabalho –, mas assim terá que ser nas múltiplas frentes de trabalho.

Por exemplo, no poder local democrático temos um projecto e um trabalho sem paralelo de e com o movimento associativo juvenil. Sem par, as autarquias com eleitos e gestão da CDU, conferem à juventude e ao MAJ as condições para a sua iniciativa, participação e dinamização dos seus projectos e objectivos. Um contributo fundamental para o crescimento e desenvolvimento individual e colectivo dos jovens, que é parte determinante no combate ideológico. De facto, o Festival da Liberdade no distrito de Setúbal, ou o Festival da Juventude em Moura (a par de todo o trabalho que se realiza em cada concelho e em cada freguesia) são exemplos de construção do e com o MAJ que merecem a nossa atenção, que põem em evidência que a juventude se move por objectivos positivos de trabalho colectivo. Mas estaremos a fazer tudo o que está ao nosso alcance para, a partir da influênciar de que dispomos, interferir de forma clara na batalha das ideias e colocar pedrinhas na engrenagem da ofensiva ideológica em curso? Há linhas de trabalho, objectivos e projectos a longo prazo, ou trabalhamos à peça em função do momento?

Estes exemplos, a que se poderiam juntar muitos outros sobre matérias e frentes específicas (trabalho nas colectividades, grupos desportivos e recreativos, questões de habitação, etc.), procuram apenas tornar claro que o espaço e o campo de intervenção junto das novas gerações que estão apenas nas mãos do Partido, são muito grandes e nalguns casos muito necessários e urgentes.

Tivéssemos nós os meios, quadros e forças para dar resposta às tarefas que cabem ao Partido e contribuir para o reforço da JCP no quadro da sua acção específica e a influência política e ideológica do Partido junto da juventude estaria certamente num patamar mais elevado. Enquanto comunistas, cá estamos para, registando as dificuldades e limitações, as enfrentar e contrariar, com o nosso maior trunfo: o Partido e a JCP.