Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 347 - Mar/Abr 2017

FIDEL

por Revista o Militante

No Acto de Homenagem póstuma a Fidel Castro em 29 de Novembro na Praça da Revolução em Havana, um dos oradores estrangeiros convidados perguntava: «Onde está Fidel?», ao que uma imensa multidão emocionada respondeu convicta e a uma só voz: «Aqui está!».

Não, não estamos perante uma vulgar encenação ou manifestação de culto da personalidade. Este foi apenas um episódio mais, sem dúvida impressionante, na onda de sentida comoção, respeito e admiração dos trabalhadores e do povo cubano que percorreu todo o país no momento em que Fidel nos deixava fisicamante, acompanhada do firme compromisso de honrar o seu exemplo de patriota e de revolucionário e continuar fiel ao ideal e ao projecto socialista e comunista a que Fidel entregou toda a sua vida.

Como sublinhou Marx as ideias quando delas se apropriam as massas transformam-se numa poderosa força material, e o povo cubano mostrou já uma identificação profunda com os valores e ideais a que Fidel deu uma magnífica expressão e, assim armado, apesar da continuada hostilidade do imperialismo, conseguirá vencer dificuldades e levar por diante a construção do socialismo na Ilha da Liberdade.

As palavras de Fidel que abaixo se reproduzem, entre muitas outras possíveis e porventura mais significativas, apenas visam dar expressão em «O Militante» ao profundo respeito dos comunistas portugueses pela sua excepcional figura de revolucionário e à sua activa solidariedade para com a revolução socialista cubana. Pronunciadas em Vila Clara a 29 de Julho de 2000, por ocasião do 47.º aniversário do assalto ao Quartel Moncada, e constituindo uma homenagem a Che Guevara, fazem uma sintética exposição do processo da revolução cubana, a começar nos dias gloriosos da Marcha da Liberdade, cujo percurso foi precisamente no sentido inverso daquele que seguiram as cinzas de Fidel, que ficaram depositadas em Santiado de Cuba no mesmo cemitério onde estão os restos mortais de José Marti.

«Hoje estamos numa Tribuna Aberta, nesta Praça da Revolução, perante o mausoléu que abriga os restos mortais do destacamento de reforço integrado pelo Che e seus heróicos companheiros tombados quando eram protagonistas de uma nobre e generosa luta noutra terras do mundo.

Um a um foram procurados e encontrados em dispersas e longínquas paragens; um a um os seus ossos foram identificados. A pátria teve o privilégio de reunir neste santuário da solidariedade e do internacionalismo os protagonistas de uma das páginas mais bonitas da história da América. Antes que os sonhos unificadores de Bolívar e Marti sejam realidade, está já aqui integrada simbolicamente a nossa América. Argentinos, bolivianos, peruanos e cubanos, e até uma filha da terra que foi berço de quem primeiro sonhou com um mundo socialista, estão unidos para sempre neste lugar.

Estes túmulos, de cuja imponente presença brotam mensagens de alento, recordam-nos que não estamos sós neste 26 de Julho villaclarenho, que connosco vibram também os que caíram naquela batalha em que foram arrebatadas das garras da tirania, umas atrás das outras, as ruas e edificações desta cidade heróica.

Estando já em nosso poder as cidades de Santiago de Cuba e de Santa Clara, a luta não se deteve um segundo e as nossas tropas continuaram a sua marcha impetuosa com o apoio unânime dos trabalhadores e do resto do povo até ao colapso total do regime em menos de 48 horas. Não se tratava de uma tomada do poder pela força das armas; era uma revolução.

Rapidamente compreendemos todos que o verdadeiro amo não era o déspota derrubado; um amo mil vezes mais poderoso era o verdadeiro amo. Em circunstâncias normais poderia parecer que se tratava de uma simples teoria ou hipótese política. Eram tempos em que muitos acreditavam que a soberania e a independência dos povos constituíam princípios universais e sagrados acatados e respeitados por todos.

O nosso povo teve a primeira lição quando viu sair massivamente para os Estados Unidos, onde guardavam as suas fortunas, centenas de grandes saqueadores dos fundos públicos e os piores criminosos de guerra que tinham torturado e assassinado milhares dos seus filhos. Mas isto era apenas o início. As autoridades daquele país suspenderam de imediato todos os créditos e iniciou-se o bombardeio de calúnias, que tem continuado praticamente até hoje, com as quais pretendem justificar sempre as suas acções. O pretexto foi na altura, a sanção exemplar aos criminosos de guerra que não puderam escapar, e a intervenção e confiscação de fazendas, bens imobiliários e outras riquezas roubadas em quase sete anos de tirania.

Uma reforma agrária necessária e vital para a vida do país, decretada quatro meses e meio depois do triunfo da Revolução, desencadeou a ira do império. Muitas das suas grandes empresas eram proprietárias de enormes extensões das melhores terras do país. A Revolução foi inexoravelmente condenada à morte. Parecia tarefa fácil. Começaram os ataques aéreos a partir do território norte-americano por aviões piratas contra plantações de cana-de-açúcar, centrais açucareiras e até cidades; actos terroristas, bandos armados, guerra suja, planos de atentados, ataques a partir do mar a instalações costeiras e embarcações mercantes e pesqueiras, a invasão mercenária de Girón, e a arma aparentemente absoluta e irresistível para um país pequeno e subdesenvolvido: o bloqueio e a guerra económica totais.

Um a um, os governos corruptos, oligárquicos e burgueses da nossa própria língua, cultura e história colonial neste hemisfério, com excepção de um só país latino-americano, juntaram-se ao Estados Unidos em acção fratricida. A nossa quota açucareira de mais de três milhões de toneladas açúcar obtida ao longo de um século, foi repartida entre cúmplices e traidores. Tudo em nome da «liberdade» e «democracia», que poucas vezes existiram em muitos daqueles países, se é que alguma vez existiram.

Derrotada a invasão mercenária, elaboraram-se os planos para uma invasão directa de Cuba com uso de forças militares dos Estados Unidos, que os documentos desclassificados provam hoje de forma irredutível. Até uma guerra nuclear esteve quase a estourar.

Esforços para isolar totalmente Cuba, sabotagens contra as nossas linhas mercantes e aéreas; um avião explodido em pleno voo com mais de 70 passageiros, estando entre eles a nossa equipa juvenil de esgrima que acabava de obter todas as medalhas de ouro no Campeonato Centro-americano; guerra biológica contra pessoas, animais e plantas, bombas em hotéis e outras instalações turísticas, e outros actos terroristas directamente realizados por instituições do governo dos Estados Unidos ou através de organizações fantoches teve que suportar o nosso povo ao longo de quatro décadas.

A queda do bloco socialista e a desintegração da URSS que privou o país dos seus mercados fundamentais, combustíveis, alimentos, matérias-primas, equipamento e peças, conduziu-nos a uma situação excepcionalmente difícil. Foi o momento escolhido pelo governo dos Estados Unidos com oportunismo repugnante para tratar de aplicar o golpe de misericórdia à Revolução com as leis Torricelli, Helms-Burton e dezenas de emendas em legislações importantes do Congresso norte-americano.

Muitos esperaram em vão durante anos a notícia de que a Revolução tinha deixado de existir. O nosso povo resistiu sem se comover.

A proeza sem precedentes que foi capaz de realizar enche-nos de legítimo orgulho. Nada impediu as extraordinárias conquistas sociais alcançadas que hoje são objecto de admiração por parte de todas as pessoas honestas do mundo. Nada impediu as páginas escritas em letra dourada no livro da história do internacionalismo e da solidariedade com outros povos. Nada poderá apagar o exemplo que demos ao mundo. Os nossos sentimentos patrióticos aprofundaram-se e os nossos sentimentos internacionalistas multiplicaram-se ao semear na alma do povo cubano a mais bela das ideias martianas, quando afirmou que «pátria é humanidade».

Enchem-nos igualmente de orgulho esses sentimentos que levaram Marti a Dos Rios; Che Guevara e seus companheiros a Ñancahuazú, ao Rio Grande, à Quebrada del Yuro e a La Higuera; centenas de milhares de combatentes internacionalistas cubanos a Angola, ao Cuito Cuanavale e às margens do rio Cunene na fronteira da Namíbia, para cooperar decisivamente com os povos irmãos de África na derrota de um dos mais repugnantes e odiosos bastiões do racismo e do fascismo. Esses sentimentos levaram dezenas de milhares de médicos, professores, técnicos e construtores aos quatro cantos da terra para salvar vidas, aliviar dor, restaurar e preservar a saúde, educar e contribuir para o bem-estar e desenvolvimento de milhões de pessoas; levaram-nos a oferecer as nossas instituições educacionais e universidades a dezenas de milhares de jovens do Terceiro Mundo. Constitui um legado que Cuba, ameaçada, hostilizada e bloqueada pela nação mais poderosa da Terra, soube dar ao mundo do futuro, que apenas poderá salvar-se e apenas poderá construir-se sobre esses pilares de solidariedade e internacionalismo.

Sonham os teóricos e agoirentos da política imperial que a Revolução, que não pôde ser destruída com procedimentos tão pérfidos e criminosos, poderia sê-lo mediante métodos sedutores como o que baptizaram como «política de contactos povo a povo». Pois bem: estamos dispostos a aceitar o desafio, mas joguem limpo, acabem com as condições, eliminem a Lei assassina de Ajuste Cubano, a Lei Torricelli, a Lei Helms-Burton, as dezenas de emendas legais se bem que imorais, enxertadas oportunisticamente na sua legislação; ponham fim por completo ao bloqueio genocida e à guerra económica; respeitem o direito constitucional dos seus estudantes, trabalhadores, intelectuais, homens de negócios e cidadãos em geral de visitar o nosso país, fazer negócios, comercializar e investir, se o desejarem, sem limitações nem medos ridículos, do mesmo modo que nós permitimos aos nossos cidadãos viajar livremente e até residir nos Estados Unidos, e veremos se por essas vias podem destruir a Revolução Cubana, que é afinal o objectivo que se propõem.

Sem vontade de perturbar os doces sonhos daqueles que pensam o último, cumpro com o dever cortês de adverti-los que a Revolução cubana não poderá ser destruída nem pela força nem pela sedução.

Martí disse que trincheiras de ideias valem mais que trincheiras de pedra, e partilhamos com ele esse pensamento, mas nunca disse que aquelas fossem desnecessárias. Cuba está hoje defendida por uma dupla trincheira de pedra e ideias: uma contra a força bruta, constituída pela disposição de um povo para lutar até às últimas consequências, de forma que de nada serviriam as chamadas armas inteligentes nem os mais sofisticados meios que emergem dos avançados centros de produção de instrumentos de morte que possuem os nossos potenciais agressores. Mas também o está por uma gigantesca trincheira de sentimentos e ideias contra a qual se estilhaçará todo o arsenal de mentiras, demagogia e hipocrisia com as quais o imperialismo pretende enganar o mundo. Com ideias verdadeiramente justas e uma sólida cultura geral e política, o nosso povo pode igualmente defender a sua identidade e proteger-se das pseudo-culturas que procedem das sociedades de consumo desumanizadas, egoístas e irresponsáveis. Nessa lida também podemos vencer e venceremos.

A história está igualmente do nosso lado, porque a ordem económica e política injusta e globalizada imposta ao mundo é insustentável, e mais cedo do que tarde será derrubada. A natureza não poderá resistir à agressão a que estão submetidos os recursos naturais e o meio ambiente. Os milhares de milhões de pobres que em número crescente habitam este planeta tornar-se-ão ingovernáveis. Não existirão leis de imigração nem fronteiras que possam contê-los. A própria civilização estará ameaçada. Os políticos, por mais orgulhosos e incapazes que sejam, terão que compreender que na nossa época e no nosso planeta a paz e a estreita cooperação entre os povos é a única alternativa possível.

A um ritmo acelerado os cidadãos do nosso país adquirem um conhecimento profundo e plena consciência destas realidades. A gigantesca marcha combatente da capital ocorrida há 72 horas atrás assim o demonstra. Esta tribuna aberta em Santa Clara, massiva, organizada, entusiasta, emocionante e bela, assim o confirma.

Este monumento que se ergue a nosso lado é como um farol que nos alumia o futuro. Os restos, que não são mortais mas sim imortais, que em suas criptas jazem, demonstram-nos o que são capazes de fazer os seres humanos por um mundo de justiça, fraternidade e paz.

Glória eterna aos tombados no assalto ao quartel em Moncada, em Girón, no Escambray, nas montanhas, nas planícies e cidades de Cuba para tornar possíveis os sonhos daquele 26 de Julho!

Glória eterna a Che e aos que deram as suas vidas junto dele!

Glória eterna aos que tombaram na Guiné-Bissau, no leste do Congo, na Etiópia, em Angola, em Cuito Canavale, nas proximidades das fronteiras da Namíbia e em outras partes!

Glória eterna aos professores e trabalhadores civis que morreram cumprindo missões internacionalistas!

Honra, gratidão e reconhecimento aos milhares de médicos e trabalhadores da saúde que hoje salvam vidas em longínquos cantos do mundo!

Honra e glória ao povo que foi capaz destas proezas!

Villaclarenhos, vencedores de dificuldades e obstáculos, vencedores da honra de ser sede do 47.º aniversário do dia em que se acendeu a faísca de um exemplo e uma ideia que hoje percorre o mundo, felicidades!

Compatriotas de toda Cuba, avante!

Até a vitória sempre!»