Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 348 - Mai/Jun 2017

Guernica e o nosso tempo

por Domingos Abrantes

No passado dia 26 de Abril assinalaram-se os 80 anos da destruição da cidade basca Guernica levada a cabo pela aviação alemã e italiana sob a ordem de Franco, durante a guerra de Espanha.

De igual modo se assinalam, em Junho, os 80 anos do quadro pintado por Picasso a pedido do governo republicano para o Pavilhão de Espanha na Exposição Internacional de Paris de 1937, obra a que deu o título de Guernica.

A guerra de Espanha decorria há já quase um ano. A chacina de populações civis levada a cabo pelos fascistas, quer por fuzilamento, quer por ataques aéreos, tinha-se tornado prática corrente e princípio exterminador assumido. Madrid estava sujeita a repetidos ataques aéreos desde Agosto de 1936. A acção fascista em Badajoz (Agosto/1936) foi qualificada de chacina. Os milhares de fugitivos de Málaga, metralhados pela aviação italiana (Fevereiro/1937), classificada como a «coluna da Morte», permanecem como dos maiores crimes da guerra de Espanha.

Picasso trabalhava já há alguns meses no seu quadro quando Guernica foi destruída, acontecimento que marcou decisivamente a sua obra, ainda que tivesse decorrido pouco mais de um mês entre aquele acontecimento e a entrega do quadro ao governo espanhol.

A obra de Picasso tornou-se um libelo acusatório universal contra a guerra e o nazi-fascismo. Desempenhou papel de maior importância para a sensibilização do que se passava em Espanha, para a compreensão da natureza do fascismo e a necessidade de travar a marcha para a Segunda Guerra Mundial.

Há quem classifique a obra de Picasso como um manifesto político que apela à solidariedade com a Espanha, tornada a fronteira da liberdade na Europa, e à luta para impedir o avanço do nazi-fascismo.

O próprio Picasso lembraria que a sua pintura não estava feita para decorar casas, mas que era um instrumento de guerra ofensiva e defensiva.

A destruição de Guernica, ainda que ocorrida há 80 anos, é um problema do nosso tempo. As forças e as causas que a determinaram aí estão hoje de novo ameaçadoras. Há vários anos que vemos no nosso quotidiano e em tempo real multiplicarem-se novas Guernicas.

A Espanha oficial, tão avessa em condenar os crime franquistas e a prestar justiça às suas vítimas, assinala os 80 anos da pintura de Guernica com uma grande exposição no Museu Rainha Sofia, em Madrid, dedicado à obra de Picasso, centrada «na evolução do universo pictórico de Picasso, tendo “Guernica” como epicentro».

A exposição de Madrid será um grande acontecimento culturalde homenagem a Picasso, o que não deveria era servir para, sob a capa de «evolução pictórica de Picasso», ou da tese de que «o quadro de Picasso se transmutou de manifesto político em obra-prima da arte do século XX», escamotear o que representou a destruição de Guernica no caminhar para a Segunda Guerra Mundial; o papel do Comité dito de não-intervenção, instrumento de agressão nazi-fascista à Espanha; o sacrificar da República espanhola pelos países ditos democráticos no altar dos seus entendimentos com a Alemanha de Hitler e a Itália de Mussolini; e o papel do Vaticano no apoio aos fascistas em geral e na derrota dos bascos em particular. E ainda o que representou Guernica como ensaio de tácticas de guerra centradas nos ataques às populações civis e como as potências imperialistas absorveram as experiências nazi-fascistas.

Merece igualmente uma reflexão o papel da comunicação social como arma de falsificação e mistificação a favor do militarismo e da guerra, arma utilizada em larga escala na guerra de Espanha e que atinge na actualidade uma dimensão colossal, em que pretensos jornalistas propagam mentiras como verdades indesmentíveis, potenciando o caminho para a justificação das agressões imperialistas, tornando-se cúmplices dos seus crimes.

A denúncia do crime que foi Guernica desencadeou uma gigantesca campanha de propaganda no sentido de desresponsabilizar os alemães e franquistas e de culpabilização dos «vermelhos», que diziam ser os verdadeiros autores da destruição de Guernica, mito alimentado durante décadas pelos franquistas, pelos salazaristas e seus acólitos.

Hoje conhece-se em pormenor – por provas documentais e confissões dos responsáveis pelos crimes – o porquê da destruição de Guernica, os meios utilizados, e como foi preparada pelos Estados-Maiores do general Mola, da Legião Condor (alemã) e da Aviazone Legionaria (italiana).

E se hoje não é possível insistir na responsabilização dos «vermelhos» pela destruição de Guernica, bem como na explicação de que foi devido ao nevoeiro que se fazia sentir no dia 26 de Abril que os aviões foram parar a Guernica, persiste, isso sim, o revisionismo histórico no sentido de diminuir a dimensão do crime, reduzindo a cada «novo estudo» o número de mortos.

O porquê e quem destruiu Guernica tem de ser considerado no quadro da estratégia nazi-fascista de combate ao comunismo e de preparação para a Segunda Guerra Mundial, das riquezas minerais existentes no país basco e do ponto em que se encontrava o desenrolar da guerra de Espanha.

Goering, o criador do «Exército do Ar» alemão, a propósito do bombardeamento da cidade de Almeria, comentou no seu jornal Essen National Zeiting «crerem que a acção alemã em Almeria é uma forma melhor de defender o mundo civilizado do Bolchevismo que muitas discussões em Londres». E foi o mesmo Goering, responsável máximo pela Legião Condor e por um número incontável de massacres de populações, que, quando do Julgamento de Nuremberg, esclarece que a decisão da Alemanha intervir em Espanha a favor de Franco foi determinada «em primeiro lugar para impedir a propagação do comunismo e, em segundo lugar, para pôr à prova naquelas circunstâncias (em teatro de guerra) o funcionamento de um ou outro detalhe técnico do meu recém-criado Exército do Ar».

O retomar da ofensiva contra o país basco correspondeu a uma mudança estratégica do comando fascista determinada pela fracassada tentativa de tomar Madrid, agravada com a estrondosa derrota das legiões italianas em Guadalajara, onde sofreram milhares de baixas, tornando mais problemática a tomada de Madrid.

A importância estratégica da região basca para os fascistas era acrescida por ser a mais próxima fronteira com a França, os portos da Biscaia necessários ao escoamento das toneladas de minério acumulado em Bilbao, a cidade do ferro tão necessário para alimentar a máquina de guerra da Alemanha.

A estratégia militar dos fascistas assentava no bombardeamento sistemático das cidades que seguidamente seriam ocupadas pelas tropas de franquistas.

Os ataques às cidades bascas foram antecedidos de ameaças de Mola proferidas pela rádio e lançamento de milhares de panfletos avisando que se os bascos não se submetessem de imediato «arrasaria a Biscaia, para o que tinha meios de sobra para o fazer».

O primeiro ataque (31/3/1937) foi dirigido contra Durango, considerado o ensaio para o que viria a acontecer a Guernica.

Durante todo aquele dia, os aviões da Legião Condor e da Aviazione Legionaria, em incursões sucessivas, despejaram sobre Durango toneladas de bombas de grande porte causando centenas de mortes, para além de um número incontável de feridos entre a população civil.

As palavras dos seus executores falam por si: o bombardeamento de Durango foi considerado pelos italianos «extremamente mortífero» e teve como objectivo «desmoralizar os adversários com uma exibição que lhes dê uma impressão clara da inutilidade de combater as forças nacionais dotadas de tão fortes meios», ideia secundada pelo responsável da Legião Condor ao afirmar que Durango serviu de ensaio às suas experiências no sentido de aterrorizar as populações com os bombardeamentos.

Durante o mês de Abril os aviões alemães e italianos foram bombardeando as cidades bascas uma a uma, preparando o caminho para o assalto a Bilbao, «a terra prometida».

A repescagem de algumas notícias de «O Século» – que dedicou diariamente grande espaço à ofensiva de Mola – são bastante esclarecedoras do que naquele pasquim se entendia por informação, a começar por a aviação alemã e italiana ser sistematicamente referida como «a aviação nacionalista», ou «a aviação de Burgos».

Quando Durango já tinha sido destruída há várias semanas, «O Século» noticiava, no próprio dia do ataque a Guernica (26/4/37) que a cidade estava «sob o fogo das metralhadoras nacionalistas», que «a aviação de Burgos bombardeara Eibar», e que a aviação nacionalista fez cair «Uma chuva de fogo que envolveu Elorria – outra cidade submetida à acção destruidora da aviação alemã/italiana – sem que fosse tocada uma só casa».

Depois de noticiar que Eibar tinha sido bombardeada pela aviação de Burgos, muda de agulha e passou a informar que Eibar foi incendiada pelos vermelhos depois de a terem regada com gasolina, «restando de mil edifícios apenas trinta, pois a obra de destruição realizada pelos marxistas excede a que reduziu Irun a escombros» (29/4/37).

No dia seguinte ao bombardeamento de Guernica, «O Século» noticiava que o bombardeamento tinha sido efectuado «quando se realizava o mercado e durante oito horas» e que «os aviões inimigos (sic) lançaram mais de mil bombas muitas delas incendiárias (…) desconhece-se o número de vítimas», noticiando na mesma edição em últimas notícias que «segundo notícias de boa fonte, sabe-se que o bombardeamento de Guernica causou oitocentos mortos, quase nada resta de pé».

Dias depois já «O Século», em sintonia com a posição de Salazar e Franco, começa a matraquear a tese do incêndio de Guernica por acção dos «vermelhos», não deixando no entanto de dar conta das alterações do clima político causado pela «atoarda comunista» de que a destruição de Guernica fora obra da aviação alemã.

A notícia da destruição de Guernica teve enorme impacto internacional, em particular em Inglaterra e em sectores católicos franceses. A notícia correu célere pela feliz circunstância de se encontrarem em Bilbao vários repórteres que de imediato acorreram ao local, enviando nessa mesma noite, a partir de Bilbao, as suas reportagens.

No dia 27 e 28 podia ler-se na imprensa inglesa: «centenas de mortos no mais terrível ataque aéreo realizado até agora». (...) Muitas horas depois do ataque «Guernica continuava a arder e o céu estava enegrecido numa extensão de quilómetros» (The Star); «o ataque aéreo mais aterrador que se conhece» (The Evening News); «a selvajaria alemã comove o mundo»; «cidade basca destruída. Matança levada a cabo por aviões alemães. Civis mortos a tiro a partir do ar» (Morning Post). A 28 de Abril, o Daily Express escrevia: «vi muitos espectáculos horrorosos em Espanha nos últimos seis meses, porém nada mais terrível do que o aniquilamento de Guernica». E o correspondente do News Chronicle escrevia que o relato dos bombardeamentos de Guernica ultrapassava em horror o pior do que foi perpetuado pelos italianos na Abíssinia, salientando que «Guernica não é mais do que uma amostra do que sucederá a outras cidades mais importantes», a não ser que se possa impor «o reino da lei e da decência sobre o selvagismo do militarismo». (In La destrucción de Guernica, Herbert R. Southworth, ed. Ruedo Ibérico, 1977, pp. 31-32.

Particular importância assumiu a reportagem do correspondente do The Times, George Steer, que no dia 28 publicava naquele jornal e no New York Times: «A Tragédia de Guernica. Cidade destruída em ataque aéreo – relato de uma testemunha directa»

Steer chegou a Guernica no próprio dia dos bombardeamentos, podendo ver a cidade a arder, observar a dimensão da destruição, a imensidão do número de mortos e feridos, muitos dos quais tinham sido metralhados nos campos ao tentarem fugir.

Os numerosos testemunhos permitiram-lhe relatar com rigor o tempo, o número e a nacionalidade alemã dos aviões utilizados na operação, os raides efectuados, a táctica usada contra os refúgios e as populações em fuga e o tipo de bombas utilizadas das quais viu algumas com o nome do fabricante alemão, o ano de fabrico e a cruz suástica pintada.

«O bombardeamento – escreveu Steer – desta desprotegida cidade (…) durou exactamente três horas e três quartos, durante as quais uma poderosa esquadrilha de três tipos de aviões alemães, acompanhada de bombardeiros Junkers e Heinkel, não pararam de lançar bombas de meia tonelada de peso acompanhadas de mais de 3000 pequenos projecteis incendiários (…). Os caças entretanto desciam sobre o centro da cidade para metralhar os civis que se tinham refugiado nos campos». Toda a cidade de Guernica não tardou em ser presa das chamas exceptuando a histórica Casa da Junta, sede do antigo parlamento basco» (…) Steer conclui que «pela forma como se processou o ataque, a dimensão da destruição que causou e o objectivo do golpe, o bombardeamento de Guernica não tem precedentes na história militar (…). O objectivo do bombardeamento era, aparentemente, a desmoralização da população civil e a destruição do berço do povo basco».

Naquele dia 26 de Abril de 1937, Guernica regurgitava de gente por ser dia de mercado a que afluíam populações dos arredores. Do bombardeamento «toda a cidade, de uns 7000 habitantes, mais uns 3000 refugiados, foi reduzida lenta e sistematicamente a escombros».

Steer descreve ainda aspectos da táctica usada pela Legião Condor «que pode ter interesse para os estudiosos da nova ciência militar»: a adequação dos aviões aos alvos eleitos, as bombas capazes de perfurar abrigos, etc. (El Árbol de Gernika. Un ensayo sobre la guerra moderna, G. L. Steer, 5.ª ed. de Txalaparta, 2014, pp. 11-13).»

O relato do padre Alberto Onaindia – testemunha ocular do que se passou em Guernica – em carta escrita, dois dias depois, ao Cardeal Gomá, reveste-se de enorme importância pelo seu carácter factual, pela indignação que o crime lhe causou e pela confirmação do apoio militante da igreja de Espanha à política de genocídio praticada pelos fascistas:

«Escrevo de Bilbao com a alma destroçada depois de ter presenciado pessoalmente o horrendo crime que se perpetuou contra a pacífica cidade de Guernica, símbolo das tradições seculares do povo basco. (…) três horas de espanto e de cenas dramáticas. Crianças e mães calcinadas, mães que rezavam em voz alta, um povo crente assassinado por criminosos que não sentem a menor ponta de humanidade.

Senhor Cardeal, por dignidade, por respeito pelo Evangelho, pelas entranhas da misericórdia de Cristo não se pode cometer semelhante crime horrendo, inaudito, apocalítico, dantesco». (El holocausto espanol, Paul Preston, Debolsillo, 2013, pp. 572-573).

Claro que o Cardeal Gomá, ideólogo da cruzada exterminadora dos infiéis – os «vermelhos» e os padres que apoiaram a República –, defensor do uso dos canhões para purificar a Espanha, organizador do apoio da Igreja a Franco, não só não se comoveu com o relato – que aliás sabia bem o que se passara em Guernica, bem como em várias outras cidades – como deixou alguns avisos ao padre Onaindia, tanto mais que filhos de Deus eram só os padres que apoiavam a sublevação fascista. «Lamento tudo o que se passa em Biscaia. Há meses que sofro com isso, Deus é testemunha. Especialmente lamento a destruição das suas cidades, onde tiveram lugar em outros tempos a fé e o patriotismo mais puro. Porém não era preciso ser profeta para prever o que está a acontecer». Numa rápida alusão à lealdade do povo basco ao governo de Madrid, Gomá replicou fulminante: «Os povos pagam seus pactos com o diabo e sua persistência em mantê-los. Continuando aprovava impassível as ameaças de Mola: «Permito-me responder à sua angustiosa carta com um simples conselho: que Bilbao se renda, que hoje não tem outra solução (…). Qualquer que seja a facção que tenha destruído Guernica é um terrível aviso para a grande cidade». (Idem, p. 573)

Como os bascos não se renderam, cumpriu-se a ameaça do general Mola e secundada pelo Cardeal Gomá. Tinha chegado a hora do ajuste de contas com Bilbao.

As chacinas foram comprovadas, como comprovadas foi a continuação da intervenção em larga escala de forças militares – terrestres, aéreas e navais – da Alemanha e Itália.

Mas também aqui o Comité de Londres continuou a cumprir a missão para que foi criado: ajudar a esmagar a Espanha da Frente Popular.

Apesar de disporem de abundante informação do que se tinha passado –chegando-se ao ponto do MNE inglês ter dado a ler ao embaixador português uma informação pormenorizada (Dez Anos de Diplomacia Portuguesa, IV vol., p. 267), o Comité rejeitou a realização de um inquérito internacional como tinha proposto o presidente basco, limitando-se a emitir um apelo salomónico a que ambas as partes se abstivessem de actos semelhantes, como se não houvesse agressores e agredidos.

Salazar foi um opositor militante contra a ideia do inquérito, uma proposta que se afigurava «pouco em harmonia com princípios repetidamente afirmados de não-intervenção» (Discursos de Salazar, vol. II, Coimbra Editora, 1945, pp. 289-293), dando instruções ao representante português no Comité de Londres para se opor a tudo o que fosse contra Franco ou diminuísse as suas possibilidades (Idem, Dez Anos de Diplomacia Portuguesa, p. 263).

A política dita de «apaziguamento» com a Alemanha nazi e a Itália fascista já estava em marcha e Munique no horizonte. A derrota da República espanhola tornava-se urgente para a concretização da política de «apaziguamento».

É sabido a que conduziu a política de «apaziguamento» e o elevado preço que o povo francês e inglês e os povos da Europa pagaram: milhares de cidades e aldeias destruídas, milhões de civis mortos. O aviso de Dolores Ibarruri a Blum de que se a Espanha republicana fosse derrotada a seguir seria a vez deles, confirmou-se. Como se confirmou a previsão de que o massacre das populações civis se tornaria a norma da guerra moderna. O imperialismo norte-americano tornou-se herdeiro da estratégia hitleriana, aplicando-a ainda antes da guerra terminar, e depois até aos nossos dias: Desdren, Nagasaki, Hiroshima, Vietname, Panamá, Jugoslávia, Iraque, Síria – a lista seria infindável. Evocar as causas do crime de Guernica é contribuir para armar todos aqueles que sempre resistiram e sempre dirão não à mentira e à guerra.