Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 353 - Mar/Abr 2018

Trabalho em unidade no seio da juventude.Tarefa indispensável dos jovens comunistas

por António Azevedo

Nos quatro anos do último Governo PSD/CDS assistimos a uma perda de direitos e rendimentos a um ritmo praticamente diário, com o capital a investir na destruição das funções sociais do Estado e na sua privatização e sobretudo a procurar baixar o valor do trabalho e retirar direitos aos trabalhadores, recuperando posições perdidas com a Revolução de Abril, com vista a uma concentração de capital superior à registada antes da Revolução.

Durante esses quatro anos, os trabalhadores, o povo e a juventude lutaram corajosamente para travar tal política. Foi essa resistência que permitiu pôr um travão no rumo que estava a ser imposto e iniciar uma nova fase que, apesar de muito distante das profundas mudanças de política que o país necessita e reclama, permitiu e permite a reposição de vários direitos roubados e a devolução de rendimentos.

Como sempre, animando a luta, apontando caminhos e lado a lado nas suas justas reivindicações, estiveram e estão os comunistas. Mas a verdade é que, mesmo não sendo comunistas, foram muitos aqueles que lutaram incansavelmente para travar a política de direita. Estudantes ou reformados, a frente de luta foi-se ampliando à medida que mais reivindicações concretas convergiam na necessidade de ruptura com as políticas de PSD e CDS e a demissão desse governo. Embora não tenhamos hoje, fruto dessa mesma luta, um governo que ponha os interesses nacionais à frente dos ditames da União Europeia e do capital transnacional e que esteja ao serviço dos trabalhadores e do povo, a derrota e o isolamento social, seguidos da derrota eleitoral do anterior governo foram uma inegável vitória da unidade do nosso povo. Serve-nos de exemplo de convergência social e de como foram importantes os milhares de lutas, em cada escola, local de trabalho e nas ruas, construídas por trabalhadores, estudantes, desempregados, pequenos agricultores, agentes da cultura, pequenos e médios empresários, forças de segurança, e tantos outros.

Num contexto de intensa e refinada ofensiva ideológica, procurando difundir ideias como a inevitabilidade da política de destruição de direitos, ou com a mistificação das causas da crise e da sua solução no quadro do capitalismo com uma única saída, a do empobrecimento e aprofundamento da exploração, que a nova fase da vida política nacional comprovou falsa, a juventude tem sido um dos alvos preferenciais, tanto na educação como no trabalho.

No ensino, a lógica incutida apela ao individualismo e à competição, deturpa o sentido do mérito e os conteúdos programáticos leccionados visam reescrever a história ou apagar a força transformadora das massas. A situação económica vivida e a pressão que dela advém limita a disponibilidade para a participação e discussão da realidade concreta e foram retirados ou esvaziados os espaços próprios de intervenção, como as Reuniões Gerais de Alunos. Nos locais de trabalho, a precariedade e um enorme exército de desempregados asseguram a incerteza sobre o dia de amanhã, o que limita e exerce pressão sobre os trabalhadores procurando retirar-lhes capacidade de organização e liberdade sindical. Em ambos os casos identificam-se aspectos fundamentais: dividir, criando falsas divergências entre a juventude e o povo em geral, iludir com promessas de melhores dias para aqueles que hoje não se rebelem, desacreditar a luta e demonstrar que este modelo social e económico é mesmo o fim da história, que o ideal comunista falhou e que todas as experiências históricas de socialismo foram improdutivas para a humanidade para comprovar a tese de que a economia e sociedade capitalistas são o melhor que a humanidade pode almejar.

No entanto, estas linhas ideológicas de suporte ao retrocesso social embatem na óbvia e umbilical contradição do sistema com um mundo mais gritantemente desigual, mais violento, mais injusto desde o desaparecimento do contraponto da URSS. Assim, por mais que tentem embelezar, o confronto com a realidade concreta mostra que para uns poucos terem muito, muitos têm de ter muito pouco e assim a juventude portuguesa sofre com horários de trabalho desregulados, baixos salários e insegurança, com elevado desemprego, os estudantes estão em escolas degradadas, há frio e chuva nas salas de aulas, os custos com manuais, materiais ou propinas em cada etapa são proibitivos e muitos mais exemplos poderíamos dar.

Seria um erro grave que, neste contexto de constante tentativa de formatação ideológica, reconfiguração do Estado e retirada de direitos, os comunistas se fechassem sobre si mesmos e que simplesmente se pusessem a discutir os problemas gerais do país resultantes da política de direita, distantes da realidades concreta, em longas reuniões da JCP em que tudo estivesse certinho, mas distante do sentimento e das preocupações das massas. Evidentemente que não seria por aí que se criaria a frente capaz de inverter o estado das coisas. Desde logo, porque a análise é mais acertada na proporção da ligação, da imersão dos comunistas na vida real e, claro, por uma questão de correlação de forças. A luta tem-nos mostrado como precisamos estar atentos ao sentimento existente nos locais de trabalho, nas escolas e nas ruas para que aquilo que propomos e exigimos seja entendido e partilhado por outros.

Outro grave erro, mas comum, como se demonstra ao longo da história da luta dos povos, é ceder à tentação de alinhar com o activismo daqueles que no verbo afirmam visões da sociedade semelhantes, sem olhar para a acção e origem destes elementos. O erro de confundir unidade com soma de elementos ou forças políticas, em vez de se construir a unidade na acção diária junto daqueles com quem partilhamos os problemas, custou e custa-nos confusões e desligamento das massas que, entretanto, continuam a luta do dia-a-dia sem gritar palavras de ordem e grandes enunciados pseudo-revolucionários, mas precisando de organização e uma direcção de uma verdadeira organização revolucionária.

Dizíamos já no 6.º Congresso da JCP: «A luta em torno de objectivos comuns é fundamental para a transformação das coisas e para a elevação da consciência política da juventude. A importância da manutenção da unidade em torno da luta é uma questão essencial para o prosseguimento dos seus objectivos. É importante em cada momento a definição clara dos passos a dar tendo em conta objectivos finais e condições de luta. A recusa da instrumentalização partidária no seio dos movimentos é fundamental para a garantia da unidade».

Trabalhar em unidade: a partir da realidade concreta construir organização e luta

É então a partir da realidade, no dia-a-dia, que os comunistas encontram o espaço e oportunidade fundamental para a sua intervenção e o maior contributo que podem dar no momento histórico que vivemos. Ou seja, no imediato podemos não ter as condições subjectivas, conquistar a vontade, a energia e determinação dos outros para a luta pelo socialismo rumo ao comunismo, mas estaremos a fazer esse caminho na medida em que a cada objectivo imediato, intermédio, ou em cada momento em que com outros trabalhamos, dinamizamos o movimento associativo ou a política autárquica, vamos contrariando o apelo ao imobilismo, ao conformismo e ao individualismo, incutindo a solidariedade e possibilidade de acção. Alcançam-se vitórias que animam outras batalhas e ganham a consciência política os que até então eram motivados espontaneamente pela sua posição de classe.

Isto é, o trabalho em unidade dos comunistas junto da juventude é condição para o desenvolvimento da luta de massas, pois é assente na discussão em que todos têm espaço, em função da defesa dos seus interesses e direitos e com vista ao desenvolvimento da luta organizada. O trabalho em unidade é um trabalho diário, de discussão, esclarecimento e envolvimento, que toma dimensões diferenciadas tendo em conta as circunstâncias e objectivos mobilizadores. O trabalho em unidade é um trabalho em movimento, que faz avançar a consciência política da juventude, no qual os comunistas têm um papel de, a partir da unidade criada por objectivos mais imediatos e concretos, construir condições para elevar a discussão e ligar à luta económica a luta política.

Estamos a contribuir para a capacidade de resistência e conquista quando, a partir da agitação somos capazes de encontrar um ponto agregador entre o maior número possível dos nossos colegas. Muitas vezes somos obrigados a apontar objectivos de menor alcance, mas se avaliamos no sentir da juventude que esse é o elemento mobilizador para se construir unidade na acção, é a partir dele que devemos desenvolver o trabalho de discussão, envolvimento e organização do descontentamento em luta. Mas claro que os comunistas não perdem de vista as questões de fundo, as causas e objectivos mais vastos de luta pela transformação da sociedade, concepção que contraria os protagonistas de formas de organização inconsequentes e que não visam a superação das causas das injustiças e dos problemas

Não são poucas as vezes em que, para criar divisões no seio da juventude ou para criar dificuldades ao papel dos comunistas, se assiste a uma campanha de mistificação e deturpação da acção dos comunistas, ou até silenciamento da sua acção. Aliás, campanha que acompanha a ofensiva ideológica geral sobre o Partido e a sua acção. Procura-se assim fechar portas à discussão de problemas e afastar, criar preconceito, isolar os comunistas na luta que é comum. É nossa tarefa ultrapassar estas tentativas de isolamento, já que a razão, o que defendemos e as causas por que lutamos emanam dos problemas, dos interesses e aspirações da juventude. É lado a lado, sentindo os mesmos problemas, como um trabalhador comunista num centro de contacto sentir igualmente a exploração de um trabalhador não comunista e precisando ambos, por exemplo, do aumento do intervalo; ou como numa escola em que são precisas obras, o estudante comunista sente frio lado a lado com o estudante não comunista e ambos precisam de melhores condições; ou como no ensino superior em que as dificuldades em suportar a propina e outros custos ameaçam a permanência nos cursos do estudante comunista e do não comunista.

Os comunistas encontram no trabalho em unidade a oportunidade de, através da sua coragem, do exemplo dos seus princípios, ganhar a confiança e capacidade de dirigir a luta de forma colectivamente discutida e consequente. Quando, em consequência de uma intervenção regular, um grupo de estudantes procura e conta com os comunistas para dinamizar a luta, está concretizado o que é ser realmente vanguarda.

Unir a juventude numa ampla frente de luta

A concepção de unidade deve estar, pois, na construção de uma frente ampla e alargada de luta e que tenha em si os mais diversos jovens. Devem ser espaços informais onde os jovens possam discutir livremente a sua acção e cheguem à conclusão que a luta faz-se de «baixo para cima», que é na sua realidade concreta que farão a mudança no plano mais imediato e que é assim, galvanizados pelas conquistas que a sua acção trouxe, que irão conquistar as suas mais profundas aspirações. Cabe aos comunistas o papel dinamizador desta unidade, porque lhes serem eles os agitadores, não sendo os detentores da acção ou donos da luta mas estando na acção criada em unidade para o colectivo.

Neste sentido, cabe ao jovem comunista, militante de uma organização que visa a transformação revolucionária da sociedade uma organização de vanguarda, estar à altura da exigência que esta sua militância acarreta. Mas a vanguarda não é um estado que se decrete. Para o alcançar é necessário estar envolvido e participar em todos os espaços ao seu dispor que juntem o máximo de jovens, sejam eles grupos informais, grupos de arte ou desporto, núcleos de cursos na faculdade, Associações de Estudantes, ou no próprio sindicato do sector em que trabalha.

Esta linha orientadora permite, em primeiro lugar, ganhar um conhecimento mais aprofundado dos problemas que a juventude enfrenta e alargar ainda mais a reflexão da JCP sobre os mesmos e, por outro lado, ganhar influência no seio do movimento juvenil. Meio privilegiado para o aprofundamento das realidades juvenis, para o debate e o esclarecimento das contradições entre o que é propagandeado pelos meios de difusão ideológica que a direita dispõe e a situação hostil que a juventude atravessa e para a mobilização de cada um para mudar o rumo dos acontecimentos. Dar o passo de envolver os nossos amigos, ou os nossos colegas, implica discutir com eles a acção de luta que devemos fazer, envolvendo-os na criação de algo organizado e concreto, não saltando etapas e não colocando vitórias passadas em causa.

Desenvolver o trabalho em unidade não implica, sublinhe-se, a diluição ou o enfraquecimento das organizações comunistas e da JCP em particular. E não significa, em nenhum momento, um sinal ou uma confissão de fraqueza política, orgânica ou ideológica. Pelo contrário, quanto mais forte for a JCP, quanto mais organizada estiver e mais firme for a sua direcção e a sua orientação, maior capacidade tem de falar com outros, de os envolver e motivar, de identificar os elementos unificadores.

O trabalho em unidade, esteio mais firme para ampliar a resistência à ofensiva do imperialismo, para defender direitos consagrados e para avançar na construção de um presente e um futuro em que os jovens possam ser felizes, implica determinação e confiança.

Determinação num caminho que tem mais complexidades, que é menos linear, que pode ter mais avanços e recuos, que exige mais paciência, que requer mais capacidade de convencimento e atracção para as justas posições.

Confiança na nossa própria orientação e opinião, na capacidade de convencimento a partir não do posicionamento ideológico de cada um, mas da convergência de pontos de vista e de objectivos comuns. Confiança, acima de tudo na capacidade da juventude de se unir e mobilizar em torno de justas reivindicações.