Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 360 - Mai/Jun 2019

A participação da Juventude - Notas sobre as recentes tentativas de divisão

por Ana Ramôa

A juventude é uma força social com características e aspirações próprias. Não sendo uma camada homogénea há características que são transversais a esta força social, como a sua capacidade, criatividade e generosidade, tornando-a assim numa força transformadora e combativa, que luta e resiste.

Quando a intervenção da juventude toca no que é mais sagrado ao capital – dominação económica e ideológica com vista a garantir a manutenção do sistema – este tenta travar e impedir que o potencial progressista e transformador da juventude tenha expressão.

Assim, o capital e os seus centros de difusão de ideologia e propaganda difundem amplamente a narrativa de que os jovens não se interessam por política, nem estão interessados em intervir na sociedade. Para a JCP e jovens comunistas ouvir esta tese, ao mesmo tempo que conhecem os inúmeros casos em que são negados direitos como de organização e associação a estudantes, proibindo-os de realizar RGA's, é no mínimo caricato. Sabemos que impedem à força todo e qualquer tipo de intervenção da juventude que se assuma como expressão da luta de classes. Basta recuar até aos anos 90 para nos lembrarmos de qual foi a resposta do Governo de Cavaco Silva à luta contra as propinas. Ao «não pagamos« que os estudantes faziam ecoar seguiu-se uma brutal carga policial e em pouco mais de 20 anos as propinas atingiram os 1068 euros. O capital permite tudo, excepto perder a sua posição de domínio.

Para não perder o seu domínio e hegemonia, o capital procura apreender e manipular a disponibilidade dos jovens para intervir e combater as desigualdades, injustiças ou problemas que os afectam diariamente. Não raras vezes, é ele próprio quem galvaniza o sentimento de revolta, desde que inconsequente, que procura capitalizar em seu favor justas incompreensões e preocupações sobre problemas decorrentes da exploração e inerentes ao próprio capitalismo, desviando a juventude de uma luta consequente. Estão lançadas as bases para a construção de uma suposta agenda política que pareça responder aos anseios e problemas da juventude, isto desde que não se coloque em causa o sistema.

Atentemos a esta dimensão da ofensiva ideológica posta em marcha pelo capital e que encontra nas instâncias europeias e internacionais o veículo de difusão e promoção. Estes fenómenos são revestidos de um manto de modernidade e têm uma projecção mediática sem precedentes, a Internet é tida como o espaço de participação mais democrático alguma vez criado, usam as redes sociais para mobilizar, ganham-se os jovens para as ditas causas do século XXI com slogans sonantes. Fossemos nós ingénuos e acreditaríamos que a realidade da luta agora é esta.

Não é. Não é, em primeiro lugar, porque nós sabemos bem as centenas ou milhares de iniciativas, de acções de protesto, de manifestações que são lançadas na Internet e que, mesmo que tenham centenas de «gostos» ou partilhas, não se materializam ou são inexpressivas. É necessário que os centros de decisão do capital assumam que tal ou tal iniciativa é para ter êxito, que a promovam pelos meios de comunicação social, designadamente pelas televisões, desenvolvam as medidas tendentes à mobilização.

E não é, em segundo lugar, porque sabemos que qualquer avanço tecnológico no sistema capitalista, por mais que seja uma ferramenta útil que nos poderá permitir chegar a mais jovens, não substitui o contacto directo com a juventude, o contacto com a sua realidade, a discussão dessa realidade, o esclarecimento, a organização e a mobilização para a luta.

Assim, um bom trabalho online, aproveitando, como em todos os espaços de intervenção, as possibilidades de difundir a nossa mensagem e chegar aos outros, não substitui nenhuma destas formas, como aliás o imenso caudal de luta organizada vem mostrando.

Seríamos ainda mais ingénuos se não estivéssemos conscientes de que, como qualquer outro espaço de comunicação, não sendo indiferente à actual correlação de forças, a maioria da informação que circula estará sempre alinhada aos interesses da classe dominante. Assim o domínio da tecnologia, das plataformas, redes de informação e contacto, assim como a posse de capital para investir e dominar é também a garantia de controlo do espaço digital, permitindo que se difunda mais e de forma dominante a mensagem que o capital e os seus representantes promovem a cada momento.

O capital logo avança com teorias de que estas são as novas formas de organização e mobilização, mais informais e espontâneas, promovendo primeiro e depois salientando o cunho anti-partidos destas movimentações. Dos ditos movimentos inorgânicos às chamadas causas fraturantes, não raras vezes, a participação dos jovens nestes fenómenos é promovida de forma a resultar numa acção difusa e desorientada com objectivos múltiplos e muitas vezes contraditórios. A propósito disto convém referir algumas notas acerca da chamada greve climática.

«Greve Climática Estudantil: "Os jovens acordaram" "e podem contar com eles"»; «Viva a greve climática. Viva a Greta»; «A greve climática chegou a Portugal: "Lembrámo-nos de que tínhamos voz, já que a Greta gritou tão alto"»; «A greve é um acto simbólico, não temos um sindicato por trás, somos apenas estudantes».

Estes são apenas alguns títulos da promoção mediática que este fenómeno teve. Foram milhares os jovens que acorreram à chamada «greve climática», é certo, mas os jovens não acordaram agora, porque a juventude nunca adormeceu, antes foi silenciada, manietada assim que ousa levantar a voz e questionar o sistema em que vive.

Este foi um fenómeno «importado» do estrangeiro, mas que encontrou disponibilidade nos jovens portugueses para actuar face aos problemas de ordem ambiental. Inspirou-os uma jovem norueguesa que decidiu faltar às aulas para protestar contra as alterações climáticas. Do primeiro acto de protesto até ser convidada a discursar no Cimeira do Clima das Nações Unidas, no Fórum Económico Mundial, em Davos, ou até ser nomeada para Prémio Nobel da Paz foi um ápice.

Este é um exemplo claro das manobras que o capital sempre faz para manipular justos sentimentos e incompreensões, convergindo esforços e meios para transformar preocupações e problemas num movimento de dimensões consideráveis, mobilizando vários sectores e grupos, procurando assegurar a orientação e os objectivos, e garantir novos segmentos/áreas de negócio e medidas políticas.

A absolutização da ideia de que nas questões ambientais convergem jovens de ideologias diferentes, de que o planeta está acima de tudo e o importante é agir antes que seja tarde demais, a par do slogan «A nossa ideologia é a ecologia», ilustram bem a intenção de afastar os que participam da compreensão do papel do sistema capitalista, incentivando uma perspectiva de responsabilização dos povos.

As soluções, ou seja, as respostas que o capital pretende estão aí: seja «a fiscalidade verde», seja colocar a tónica na responsabilidade individual, seja pela mudança de atitudes face ao consumo.

Outra temática que tem ganho uma centralidade ímpar nos meios de comunicação ao serviço do grande capital é a chamada igualdade de género, e o mais recente exemplo disto foi a intitulada «greve feminista internacional».

Desta acção que assentava em quatro eixos – laboral, ao trabalho e cuidados domésticos, ao consumo e ao estudo – assinala-se o espaço mediático atribuído aos seus organizadores e às forças sociais e políticas que participaram, difundindo um discurso que coloca em oposição homem e mulher. As mulheres trabalhadoras têm problemas específicos, mas na resposta às injustiças que sofrem na lei e na vida é indispensável uma ampla unidade de classe de todos os trabalhadores. As movimentações promovidas pelo grande capital que fomentam a divisão e tentem desviar as mulheres da raiz dos seus problemas, desde logo banalizando e atacando o conceito de greve como patamar superior de unidade e luta dos trabalhadores, não pretendem resolver os problemas da maioria das mulheres.

Por isso mesmo, estes são os mesmos que aplaudem as medidas avulsas inseridas na agenda da igualdade, e promovidas pela UE como suposta preocupação com a conciliação da vida profissional com a vida familiar, mas que não passam de falsas soluções que a desregulação de horários, os baixos salários ou ritmos de trabalho, impostos e apoiados por directivas da UE, rapidamente desmascaram.

O capital procura dividir para melhor controlar e garantir a satisfação dos seus interesses, a manutenção e o aumento da exploração. Por isso temos como tarefa, esclarecer, mobilizar e construir unidade na resposta, na luta organizada. Por um lado, temos de nos aproximar dos que demonstram disponibilidade e são movidos por justas preocupações, evitando hostilizações, e, por outro, esclarecer mais e mobilizar mais para garantir que todos e cada um têm contacto e oportunidade de estar organizados de forma consequente, ainda que muitas vezes sejam os seus problemas específicos motivadores desse envolvimento.

O surgimento de novas teorias de que o sistema ou as injustiças são superados pela «luta feminista», ou que os problemas ambientais são responsabilidade de todos, reafirmam a tese fundamental que pretendem ensinar a todos, particularmente à juventude: que a luta de classes não é o motor da história. Esta grande lição não é, contudo, apenas ensinada na promoção dos temas e «movimentos» referidos anteriormente. Ela procura, igualmente, traduzir-se, a partir da promoção aparentemente inocente da participação política, da forma que convier ao capital. Assim, reproduzem-se estudos, programas, «entendidos» e comentadores que levantam grandes preocupações sobre uma geração que não se interessa, não participa, não vota, não gosta de partidos e de sindicatos. Limitando e silenciando a participação política da juventude, organizada e consequente, analisa-se a participação sob a visão de quem quer que esta seja domesticada, seja correspondente à agenda e interesses do grande capital.

Por exemplo, foi lançada a partir do Parlamento Europeu uma campanha – «Desta vez eu voto» –, com o objectivo anunciado de combater a abstenção e apelar ao voto dos jovens nas Eleições para o Parlamento Europeu. E avançam com os porquês de votar – «Como europeus, enfrentamos muitos desafios, da migração às alterações climáticas, do desemprego dos jovens à privacidade dos dados. Vivemos num mundo cada vez mais globalizado e competitivo. Simultaneamente, o referendo do Brexit demonstrou que a UE não é um projecto irrevogável». Desde logo, devemos ficar duplamente em alerta: por que é que estas campanhas, que dizem querer pôr os jovens a participar activamente na sociedade, reduzem o papel da participação ao simples acto de votar? E por que é que a União Europeia subjuga de facto a soberania dos povos, impedindo-os de decidirem sobre o seu futuro, constituindo um grave ataque à democracia? A UE não pode mais esconder que os altos níveis de abstenção são a expressão do descontentamento com uma política que promove a precariedade no trabalho, as desigualdades, a pobreza, o ataque aos salários e aos direitos.

Apesar deste quadro de complexidade e sofisticação da ofensiva ideológica, a juventude tem sabido resistir. A partir do contacto directo, do esclarecimento, da unidade e mobilização têm sido muitas as lutas travadas, e o mês de Março foi espelho disso mesmo. No Ensino Secundário foram milhares os jovens que saíram à rua, exigindo a Escola Pública gratuita, democrática e de qualidade, uma mobilização construída a partir de dezenas das suas estruturas representativas, as Associações de Estudantes, sem a promoção que outras acções tiveram e com as habituais tentativas de repressão e intimidação dos estudantes. Uma mobilização que se constrói no trabalho escola a escola, estudante a estudante, com o contributo insubstituível dos jovens comunistas. Também no dia 28 de Março realizou-se a Manifestação Nacional dos jovens trabalhadores. Promovida pela CGTP-In/Interjovem, organizada a partir dos locais de trabalho e com centenas de acções de contacto, contou com a participação de milhares de jovens afirmando a luta contra a precariedade e os baixos salários.

Mobilização que há-de prosseguir com a participação da juventude nas comemorações populares do 25 de Abril, assim como na grande jornada de luta do 1.º de Maio, Dia do Trabalhador, pois a luta será sempre condição essencial para avançar pela efectiva melhoria das condições de vida da juventude.