Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 371 - Mar/Abr 2021

Jaime Serra: lenda viva da Resistência e da luta pela Liberdade

por Domingos Abrantes

Neste começo do ano 2021 o Partido comemora o seu centenário, mas comemora igualmente o centenário do camarada Jaime Serra, destacado dirigente comunista, o mais antigo membro do Partido e resistente antifascista vivo.

Pelo seu percurso de vida, pela sua actividade política e partidária, pelos acontecimentos de que foi protagonista, Jaime Serra tornou-se uma lenda viva da resistência ao fascismo, da luta dos trabalhadores pela sua emancipação, da luta pelo socialismo e o comunismo, na construção do PCP, causas a que se entregou de forma plena e confiante durante toda a sua longa vida.

Jaime Serra nasceu a 22 de Janeiro de 1921, na altura em que se caminhava para a criação do Partido Comunista Português, partido ao qual aderiu aos 16 anos.

Desde então, durante mais de 80 anos, a sua história de vida confundiu-se com a história do Partido de forma indissolúvel.

Jaime Serra pagou um muito elevado custo pessoal e humano pelas suas opções: 27 anos de clandestinidade, de prisões e brutais torturas, anos e anos separado da companheira e dos filhos, com tudo o que isso significa na vida dos revolucionários. Uma entrega marcada pela abnegação, pela coragem e enorme confiança na justeza da causa que abraçou e à qual deu o melhor da sua vida.

Evocar a vida revolucionária do camarada Jaime Serra significa tomar como fonte inspiradora o seu exemplo de coerência, de coragem e de entrega para enfrentar as difíceis tarefas de hoje e de amanhã. Evocar o percurso do camarada Jaime Serra como militante comunista revolucionário é contribuir para fazer compreender as razões da perenidade da existência do PCP, o único partido que em Portugal se pode orgulhar de comemorar 100 anos de existência apesar das inúmeras perseguições, discriminações e calúnias sofridas desde a nascença até aos dias de hoje, e o porquê da sua morte mil vezes anunciada não se ter concretizado.

O facto de o Partido se ter tornado indestrutível, necessário e imprescindível à luta dos trabalhadores e do povo explica-se no facto de o Partido ter sido capaz de forjar ao longo da sua existência militantes como Jaime Serra – homens, mulheres e jovens abnegados, de firmes convicções, capazes de arrostar com enormes sacrifícios, incluindo o sacrifício da própria vida, de se entregarem generosamente à luta contra a opressão e a exploração, à luta pela liberdade, pelo socialismo e o comunismo.

A biografia do camarada Jaime Serra é bem conhecida e no essencial bastante popularizada em muitos documentos e, mais recentemente, no Avante! de 28 de Janeiro e na exposição dedicada ao seu centenário. Lembramos apenas que o camarada Jaime Serra nasceu no seio de uma família com extremas dificuldades, que muito cedo foi confrontado com a iniquidade e a exploração. Era a época em que os míseros «salários» das crianças funcionavam como complemento dos igualmente míseros salários dos pais. Jaime Serra fez parte da geração dos que se fizeram homens, operários, sem nunca terem sido meninos. Aos 12 anos passou a trabalhar na construção civil, trabalhou duro nas oficinas da CP do Barreiro, numa obra onde «tinha por cama uma banheira de pedra com palha a fazer de colchão».

Mas Jaime Serra não foi só confrontado com a exploração e a miséria. Criado em Alcântara, zona operária de fortes tradições de resistência e luta, cedo ingressou em várias fábricas de igual tradição, onde aprendeu que havia homens e mulheres que se revoltavam, que lutavam e não aceitavam a exploração e a miséria como inevitáveis e se dispunham a lutar por uma outra vida, um outro mundo. A sua integração nesse «exército» é um acto natural de um operário que se elevou ao nível da consciência de classe pelo estudo, a leitura e pela luta.

Ainda quase «operário-criança» participa na paralisação das oficinas da CP e na manifestação contra a repressão por altura do 18 de Janeiro de 1934 no Barreiro. Os tiros de canhão que esmagaram a Revolta dos Marinheiros de Setembro de 1936 não o deixaram indiferente. É nessa altura que adere à Federação das Juventudes Comunistas, tinha então 15 anos. No ano seguinte, com apenas 16 aos, o jovem Jaime Serra torna-se membro do Partido, actividade a que se entrega empenhadamente, numa época de tempos bem sombrios para os trabalhadores em geral e os comunistas em particular.

O fascismo salazarista consolidava as suas posições. Intensificava-se a repressão contra o Partido e os trabalhadores. O Campo de Concentração do Tarrafal é inaugurado. O domínio nazi-fascista ameaçava alastrar por todo a Europa. É neste quadro extremamente difícil que inicia a sua longa caminhada de luta, metade da qual travada nas condições de ditadura fascista.

Jaime Serra está na reorganização dos anos 40, participa nas grandes jornadas da classe operária, nas manifestações comemorativas do fim da guerra e nos trabalhos a Unidade Antifascista. Em 1947 torna-se funcionário clandestino do Partido e intervém e foi responsável pela organização do Partido em diversas regiões. Foi responsável pelo Avante! e integrou a sua Redacção. Em 1952 passa a integrar o Comité Central do Partido, ao qual pertenceu durante 36 anos. Integrou em momentos diversos todos os organismos dirigentes do Partido: Secretariado, Comissão Política e Comissão Executiva. Intervém activamente na construção do Portugal democrático e na complexa e empolgante tarefa que foi a passagem das condições de clandestinidade do Partido para as condições de legalidade. Foi eleito à Constituinte pelo círculo de Lisboa e deputado à Assembleia da República de 1976-1980 pelo círculo de Setúbal.

Das múltiplas e diversificadas tarefas realizadas pelo camarada Jaime Serra, duas delas assumem particular relevo e são inseparáveis das suas características própria: grande capacidade de organização, persistência na execução das tarefas, enorme audácia e coragem, espírito criativo e capaz de tomar decisões rápidas em situações difíceis e uma enorme confiança e entusiasmo no trabalho.

Coube ao camarada Jaime Serra a tarefa de apresentar ao V Congresso (1957), em nome do Comité Central, a posição do Partido sobre a questão colonial. Fiel aos princípios internacionalistas e anticolonialistas de longa data, o Partido colocava a exigência da imediata independência dos povos coloniais e o propósito do Partido em ajudar ao desenvolvimento da sua organização e da sua luta. Uma decisão de grande impacto político e de grande significado para o desenvolvimento da luta anticolonial.

Coube igualmente ao camarada Jaime Serra organizar e executar a arriscada e complexa tarefa internacionalista que representou fazer sair clandestinamente de Portugal para o estrangeiro (Marrocos), em 1962, o dirigente do MPLA, Agostinho Neto, a mulher e filhos e o dirigente do PAIGC, Vasco Cabral. Uma tarefa que realizou com sucesso, constituindo uma enorme ajuda ao desenvolvimento da luta anticolonial.

A implementação da ARA (Acção Revolucionária Armada), tarefa que realizou por incumbência do Comité Central e da qual assumiu o comando central, a planificação de acções realizadas que assestaram profundos golpes no aparelho militar colonialista-fascista, contra a guerra colonial, e que marcam de forma rigorosa e concreta, como nenhuma outra força, uma ajuda internacionalista à luta anticolonial.

Jaime Serra foi preso quatro vezes: em 1936, com apenas 16 anos; em 1949, já como funcionário clandestino do Partido, em 1954 e em 1958. No total passou quatro anos nas prisões fascistas pela simples razão de que fugiu três vezes das cadeias. Em 1950 fugiu da cadeia do Forte de Peniche com Francisco Miguel; de Caxias, em 1956; e novamente de Peniche em Janeiro de 1960, a célebre fuga colectiva de destacados quadros do Partido, incluindo Álvaro Cunhal. Seguiram-se 14 anos de clandestinidade, sem que voltasse a ser preso. Há ainda a assinalar uma tentativa de fuga do Aljube em 1956, mas que foi descoberta já na fase final da sua concretização.

Jaime Serra tinha bem consciência de quais os deveres do comunista uma vez caído nas mãos da polícia, de que era aí que se fazia a prova das provas de firmeza das convicções e da fidelidade ao Partido, e de que o enfrentar a polícia ou os carcereiros fazia parte de uma outra forma de luta contra o fascismo. Situações que Jaime Serra, apesar das brutais torturas, sempre enfrentou com muita determinação, coragem e dignidade, mas também com muito orgulho, como se pode avaliar pela mensagem que escreveu ao Partido quando da sua prisão em 1949.

Quando já somava 293 horas na tortura da «Estátua», com os pés de tal modo inchados que as botas tiveram de ser cortadas, Jaime Serra dizia: «fui barbaramente espancado pelo Gouveia (inspector da PIDE) até o sangue rebentar pela boca». «Esta foi a prova decisiva, porque face à minha firmeza face à polícia tornou-se claro de que prefiro deixar-me matar a fazer declarações». «Nos interrogatórios para os autos neguei-me a responder a todas as perguntas relativas à vida partidária. «Assim terminei com honra para o nosso Partido esta dura e longa batalha», que diz ter-se prolongado durante 130 dias.

O camarada Jaime Serra deu um valioso contributo para o enriquecimento do património da luta do PCP, de exemplo de capacidade organizativa, audácia, criatividade e coragem que são as muitas fugas realizadas com sucesso das cadeias fascistas. Para além da compreensão da orientação do Partido de que uma vez presos os funcionários deviam tudo fazer para tentar fugir, o que exigia um trabalho prático concreto. Jaime Serra, possuidor de talentos particulares – audácia, persistência no objectivo, serenidade e imensa criatividade –, cumpriu e realizou tal trabalho, o que foi determinante para o sucesso das fugas em que participou. Não sem razão se dizia que o camarada tinha o dom de transformar coisas difíceis em fáceis. A sua fuga de Caxias implicou conseguir chegar ao portão da cadeia, fazer um molde da fechadura em sabão, fazer sair para o exterior o molde, fazer entrar a chave com que abriu o portão. A tentativa de fuga do Aljube, embora abortada nos últimos instantes por um infeliz acaso, representou um extraordinário trabalho de preparação, de dissimulação da presença na cama enquanto serrava as grades do piso inferior e, sobretudo, pelo arrojo de, nas barbas dos carcereiros, ter feito entrar na cadeia um vasto arsenal de ferramentas utilizadas na preparação da fuga: 2 escopros; 2 facas de sapateiro; 2 limas; 2 lanternas; 1 serrote para madeira; 1 serra para ferro; 1 serrote em arco: e várias serras. E se fazer entrar este arsenal no interior da cadeia exigiu grande engenho, dissimulá-lo durante bastante tempo numa pequena cela do Aljube não deixou de constituir uma autêntica odisseia.

A vida e a actividade de Jaime Serra como destacado antifascista e dirigente comunista, constitui como tantos outros camaradas, fazer parte do heróico património de luta pela liberdade, pelo socialismo e o comunismo. Jaime Serra percorreu um caminho de décadas de entrega plena ao Partido com a sua companheira de toda uma vida, Laura Serra, também ela dedicada, empenhada e firme militante comunista, quer na clandestinidade, quer na actividade legal depois do 25 de Abril.

O colectivo partidário não os esquecerá. O seu exemplo será honrado tudo fazendo para reforçar o PCP, objectivo a que dedicaram a sua longa e heróica vida.