Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Cultura, Edição Nº 285 - Nov/Dez 2006

Fernando Lopes-Graça, um mestre e um exemplo

por Filipe Diniz

Há, e haverá longamente para além do ano do centenário do seu nascimento, muito ainda para escrever, para estudar, para conhecer acerca da arte, da personalidade, do exemplar compromisso cívico e político de Fernando Lopes-Graça.
Entre os músicos, mais do que entre outros artistas, permanece viva a designação de «mestre» para as suas figuras mais destacadas e merecedoras de respeito. Em relação a Lopes-Graça essa palavra deve ser tomada literalmente a sério, e não apenas na referência ao grande artista, ao grande músico e criador musical. Lopes-Graça é um mestre e um exemplo como músico, e é também um mestre e um exemplo de coerência, coragem e verticalidade cívica e de invulgar lucidez e firmeza política.

Lopes-Graça o compositor e músico e Lopes-Graça o corajoso e infatigável lutador pela causa da libertação do seu povo, o lutador antifascista e militante comunista não são separáveis. Tanto seria errado tentar abordar a sua música separando-a da sua opção cívica e política, como tentar abordar o seu compromisso político e ideológico separando-o das suas mais fundas convicções no plano estético e artístico. Seria errado e seria empobrecedor da compreensão da personalidade, da acção, da influência, do exemplo de Fernando Lopes-Graça (1) .





Consciência e repressão




De certa forma, as próprias circunstâncias históricas da sua formação e de toda a sua vida determinariam, numa personalidade como a de Lopes-Graça, essa indissociável e coerente ligação entre criação artística e combate cívico.

Formado nas décadas iniciais do século XX, Lopes-Graça adquire uma profunda compreensão tanto dos processos de radical transformação social e política que então se desencadeiam como do extraordinário revolucionamento artístico que com eles coincide e que em parte os acompanha. Tal como tem a compreensão, e a dura experiência própria, de como os violentos movimentos contra-revolucionários dos finais da década de vinte e dos anos trinta não apenas atingem brutalmente as forças e conquistas sociais progressistas e revolucionárias, mas atingem e perseguem também as novas correntes e expressões artísticas, os novos caminhos que se abriam na música, na pintura, na literatura, o novo espaço que, no plano político e no plano artístico, fora aberto à intervenção e à criatividade popular.



Lopes-Graça tem dezanove anos quando é desencadeado o golpe militar do 28 de Maio que abrirá caminho ao regime fascista em Portugal. É ainda um jovem estudante, que frequenta o Conservatório de Lisboa e pouco depois os cursos de Letras das Universidades de Lisboa e de Coimbra (2) .



Combatente democrático e antifascista desde a primeira hora, Lopes-Graça compreende que a natureza do regime fascista em formação é indissociável do perfil cultural tacanho e retrógrado da grande burguesia portuguesa, do seu visceral reaccionarismo, do seu ódio à mudança e às liberdades, incluindo a liberdade de criação. E desde a primeira hora que, a par de uma vigorosa intervenção cívica, empreende na sua actividade de compositor e músico, de crítico musical, de professor, uma activa defesa das novas correntes artísticas, sabendo que também dessa forma dava combate, e numa frente essencial, ao fascismo em formação.

Por esses motivos é também desde logo identificado pelo fascismo como um adversário a perseguir implacavelmente. No decurso da década de 30 é preso por duas vezes (3) , e é impedido de ensinar em escolas públicas, nomeadamente no Conservatório Nacional de Lisboa, onde ganhara um lugar por concurso.



Forçado ao exílio depois da prisão de 1936, Lopes-Graça fixa-se em Paris. Trabalha para o Governo da Frente Popular nas Maisons de la Culture e colabora em iniciativas do PCF.

Em 1939 regressa a Portugal, retomando uma intensa actividade como cronista e crítico musical, musicólogo e professor, e como organizador e dinamizador de iniciativas e grupos musicais, em especial de grupos corais, de entre os quais o seu nome ficará definitivamente ligado ao Coro do Grupo Dramático Lisbonense e depois ao Coro da Academia de Amadores de Música.

Os anos 40 trazem o primeiro reconhecimento da sua música: ganha o primeiro prémio de composição patrocinado pelo Círculo de Cultura Musical em 1940 e em 1942. Colabora na Seara Nova e no Diabo. Participa, com Bento de Jesus Caraça, na organização da Biblioteca Cosmos, em que publica uma Introdução à Música Moderna.



À procura do tesouro escondido



Lopes-Graça está muito próximo do movimento de reorganização do PCP nos anos 40/41: colabora em revistas em que escrevem também alguns dos quadros mais destacados do Partido, convive e participa em iniciativas culturais, muitas das quais centradas em Alhandra e Vila Franca, em torno das quais se vai estruturando um forte compromisso orgânico de muitos intelectuais progressistas, e um forte movimento em defesa de uma arte socialmente empenhada e comprometida.

No período posterior à II Guerra Mundial assume uma intensa participação como activista do MUD. Em 1945 escreve as primeiras Canções Heróicas, que viriam a tornar-se não apenas cantos de combate do MUD Juvenil, mas cantos de combate e esperança de toda a resistência democrática até ao 25 de Abril, cantos que permanecem na voz e no coração de todos os que prossigam, hoje e amanhã, a luta por um Portugal de progresso.



Harmoniza as Canções Populares Portuguesas, recriações magníficas acerca das quais escreverá, em 1956, um texto que exprime de forma particularmente viva a raiz comum das suas opções estéticas e dos seus valores éticos:

«Que retirei eu do roubo das canções? Eu vo-lo confesso. Revelaram-me elas melhor a alma do povo português, ensinaram-me a conhecê-lo mais intimamente, ajudaram-me a procurar uma mais funda identificação com ele e eu considero isto um benefício muito importante para um artista, para um músico, que deseja e se esforça por que a sua arte, mais do que uma aventura ou uma confissão pessoal, seja um meio de comunicação, melhor, um meio de comunhão com o povo a que pertence.» (4)



Tudo nesta afirmação é revelador: o respeito e a busca de identificação com a criação popular (um tesouro, na sua expressão); a intenção, como afirmará no final desse texto, de devolver com juro o que antes «roubara», ou seja, de restituir ao povo, enriquecido por um trabalho artístico pessoal erudito e elaborado o material musical inicial, que respeita mas que não  reproduz, antes complementa e valoriza num plano diferente; e sobretudo o desejo de inserir a criação individual na realidade comum, encontrando eco no coração e no espírito dos seus irmãos de raça, única forma de encontrar eco no coração e no espírito dos seus irmãos de outras raças. (5)





Confrontos? de ideias...



A sua adesão ao Partido, em 1948, não é assim mais do que a sequência natural da intervenção de alguém que desde a juventude assumira uma corajosa e intransigente opção democrática, antifascista, progressista. À data da sua adesão ao Partido, Fernando Lopes-Graça sofrera já as perseguições políticas, a prisão, o desterro, o exílio. O fascismo vedara-lhe o acesso a cargos públicos – e mesmo quando lhe foi proposto dirigir os Serviços de Música da então Emissora Nacional, não chegou a tomar posse do cargo porque se recusou a assinar a declaração de «repúdio activo do comunismo e de todas as ideias subversivas» que o fascismo exigia aos funcionários públicos.



A adesão ao Partido tem, nestes termos, um significado acrescido. Lopes-Graça não era alguém que se tivesse «aproximado» do Partido. Era alguém que estava onde estava o Partido. Que partilhava as mesmas lutas, as mesmas ideias, a mesma repressão, a mesma fraternidade, os mesmos objectivos, e que quis com esse gesto confirmar o caminho comum que há muito traçara (6) .

Há historiadores que, pretendendo fazer a história do Partido nas décadas de 40 e 50 do século passado não julgam encontrar, sobretudo entre os intelectuais, senão divergências, confrontos, divisões, dissidências. É oportuno, a propósito da figura exemplar de Lopes-Graça, afirmar alguns aspectos bem diferentes dessa abordagem enviesada.



Em primeiro lugar, lembrar que o confronto de ideias e algumas das polémicas documentadas nesse período significam certamente um debate vigoroso entre personalidades de fortes convicções, mas não significam divergência em relação à orientação e à luta geral do Partido. E aqueles que têm procurado contrapor, nomeadamente nas polémicas acerca da «forma e do conteúdo», as posições de Fernando Lopes-Graça e as de Álvaro Cunhal, poderão, com proveito, aproveitar a ocasião do centenário do nascimento e reler e comparar os textos publicados de ambos sobre esta matéria. Ficarão certamente surpreendidos alguns desses historiadores, não com a divergência, mas com a significativa coincidência de posições.



Depois lembrar, no próprio exemplo de Lopes-Graça, como a actividade dos intelectuais comunistas nessa época não se fecha em querelas internas, mas representa um período de corajosa e aberta iniciativa cultural, de tal maneira vigorosa que resiste mais tempo do que o próprio movimento popular ao refluxo da década de 50, como o comprovam as iniciativas não apenas no plano da música, mas das artes plásticas (com particular relevo para as Exposições Gerais), da poesia e da literatura, da investigação progressista do património cultural popular.

E lembrar ainda que o final dos anos 40 é sobretudo marcado, não pelo afastamento de alguns intelectuais em relação ao Partido, mas pela vinda ao Partido de uma nova geração de jovens intelectuais, na sua maioria oriundos do MUD Juvenil, de entre os quais muitos assumirão um destacado papel como quadros clandestinos e integrarão o núcleo dirigente do Partido, em alguns casos até aos nossos dias.





Um mestre e um exemplo




Toda a vida e toda a acção de Fernando Lopes-Graça são inseparáveis do núcleo fundamental das suas convicções, da sua inteligência e do seu génio criador voltado para o povo e para o futuro. As suas palavras, mesmo quando fala apenas de música ou de cultura, são as de um revolucionário, como quando afirma: «uma cultura, qualquer espécie de cultura, é incompleta, viciada, unilateral, se só olha para o passado e recusa o presente, naquilo que ele tem ou possa ter de vivo, de criador, de fecundo, se não acompanha o presente no seu caminho de descoberta e de conquista para o futuro» (7) .



E esse caminho de descoberta e conquista não pode deixar de se inserir numa funda e genuína raiz popular, em cuja investigação, defesa e preservação Lopes-Graça, colaborando estreitamente com o grande etnomusicólogo Michel Giacometti, se empenhará toda a vida, dando combate cultural e teórico à reaccionária linha «folclorizante» e «pitoresca» empreendida pelo fascismo (neste caso seguindo uma linha que tem antecedentes na I República). O povo de Lopes-Graça não é nem nunca foi o povo de que falavam o Estado Novo e o SNI [Secretariado Nacional de Informação]. Assim como a chamada política do espírito tinha para o seu povo a música que lhe convinha, assim Lopes-Graça se esforçava por desmascarar a imagem ínsita nessa operação de propaganda. Daí que rejeitasse o pitoresco e procurasse nas canções do povo o que havia de mais representativo da sua luta pela sobrevivência, da sua sabedoria da vida, do seu humanismo religioso, do seu anseio de amor, de paz e de progresso, da sua capacidade de resistência, da sua energia criadora, da sua irreverência, do seu potencial subversivo (8) .



O resultado dessa pesquisa é uma riquíssima recolha, sistematização e inventário, um importante conjunto de textos teóricos, e as magníficas harmonizações e recriações das Canções Populares Portuguesas.

Também neste plano Lopes-Graça permanece como mestre e como exemplo. Numa época em que a ideologia dominante promove um colossal aparelho de aculturação, de rasura e de desconstrução das memórias e do tesouro (para utilizar uma expressão que lhe era querida) das criações culturais e artísticas de raiz popular, o exemplo lúcido e combativo de Lopes-Graça deve ser retomado, não apenas por investigadores e musicólogos, mas pelo próprio povo, que tem na salvaguarda criativa do seu património artístico e cultural um instrumento de independência e de defesa, nomeadamente dos valores genuinamente humanos, solidários e transformadores gerados pelos explorados, contra os valores desumanos, retrógrados e artificiais que são os dos exploradores.



Fernando Lopes-Graça é um exemplo maior de intelectual comunista. Do intelectual livre que, por o ser em todas as circunstâncias, toma como sua a causa da emancipação e da liberdade do seu povo, a causa da luta contra o obscurantismo e a opressão, da luta contra a exploração – a causa do socialismo e do comunismo.



Do intelectual que procura a companhia e a inspiração no seu povo sem qualquer pretensão tutelar e sem qualquer quebra de exigência. Poucos artistas têm, como Lopes-Graça, em cada criação um acto de resistência. Que em Lopes-Graça é também resistência a qualquer submissão, a qualquer facilitação, a qualquer demagogia, a qualquer transigência de linguagem ou de ordem estética. É essa a atitude coerente com o profundo respeito que tem pelo seu povo: o desejo de que se aproprie das obras certamente belas, mas complexas e exigentes que realiza, obras que abram caminho, não obras que sigam trilhos já gastos.



Lopes-Graça, como Mayakovski, sabe que o mundo novo exige novas formas e expressões. Sabe que o que torna mais ou menos fácil a compreensão da obra de arte não é a sua maior ou menor complexidade ou novidade formal, mas os elos que saiba estabelecer com a realidade comum (na sua expressão já citada). Realidade que é feita de uma raiz humana e popular longamente construída e recriada, ao mesmo tempo que do melhor e mais avançado que a inteligência, o sonho e a sensibilidade humanas tenham sabido criar.

A obra de Lopes-Graça é riquíssima e complexa, que importa conhecer, amar e partilhar na sua totalidade. Como toda a obra de um grande artista, é uma obra simultaneamente tecida de múltiplos laços com o seu tempo histórico, e com o tempo que há-de vir. Muito poucos compositores haverá, em toda a história da música, cuja criação se tenha tornado tão intimamente tecida das lutas do seu povo. De muito poucos se poderá dizer, como do seu Requiem em memória das vítimas do fascismo em Portugal, que na sua beleza intensa, dolorosa e impressionante resume a heróica trajectória da resistência antifascista.



De muito poucos se poderá dizer, como das suas Canções Heróicas, que desempenharam e continuam a desempenhar um papel semelhante àquele que Lénine atribuía à imprensa revolucionária: o de serem um organizador colectivo, o de apontarem um rumo e lhe marcarem um ritmo.

Lopes-Graça é um mestre e um exemplo. De resistência e de confiança. Nos tempos mais dramáticos, nos da mais intensa alegria, nos tempos de acumular forças, Lopes-Graça caminha e caminhará ao nosso lado.





(1) Como sucede com o trabalho – aliás bastante meritório – da investigadora Teresa Cascudo, quando afirma que Lopes-Graça merece ser principalmente recordado como compositor. (Teresa Cascudo, Fernando Lopes-Graça, http.//instituto-camoes.pt/cvc/figuras/flgraca.html)



(2) Deve sublinhar-se, a este propósito, que a qualidade da sua escrita literária será sempre excepcional.



(3) Tem quase um carácter simbólico o seu texto de introdução à figura e à obra de Stravinsky, datado de Forte de Caxias, 1936 (Fernando Lopes-Graça, Música e Músicos Modernos, 2.ª edição, Editorial Caminho, 1986).



(4) Fernando Lopes-Graça, Sobre os arranjos corais das canções folclóricas portuguesas (1956), in Alexandre Branco Weffort (org), A canção popular portuguesa em Fernando Lopes-Graça, Editorial Caminho, Lisboa, 2006.



(5) Id. ibid.



(6) Em ambas as prisões dos anos 30 Lopes-Graça fora acusado de integrar e dirigir «organizações comunistas».



(7) Fernando Lopes-Graça, in «Advertência» à 1.ª edição (1943) de Música e Músicos Modernos.



(8) Vieira de Carvalho, Mário, O Essencial sobre Fernando Lopes-Graça, INCM, Lisboa, 1989.