Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Economia, Edição Nº 291 - Nov/Dez 2007

Crédito hipotecário de alto risco e crise financeira

por José Lourenço

Muito se tem escrito nos últimos tempos sobre a crise do subprime, crédito hipotecário de alto risco americano, que há muito se vinha prevendo e que no início de Agosto passado rebentou nos Estados Unidos.   O subprime que está na base da actual crise do mercado imobiliário americano consiste num conjunto de operações de crédito de risco elevado, feitas com clientes de baixos rendimentos e com uma situação económica instável. Estas operações de crédito caracterizam-se por serem autorizadas sem se cuidar em avaliar a capacidade de endividamento do cliente, serem operações de crédito concedidas a 100% do valor estimado do bem a adquirir pelo cliente e serem operações cujo rácio pagamento mensal sobre rendimento mensal do cliente é muito elevado.

O subprime surgiu quando a reserva Federal norte-americana (FED) começou a descer as taxas de juro para estimular o mercado imobiliário, com o intuito de controlar os efeitos dos ataques terroristas do 11 de Setembro nos mercados de tecnologia.

Em 2003, com uma taxa de juro de 1%, a criação de emprego e o investimento empresarial estavam em níveis baixos, o que fez com que os bancos passassem a ser menos exigentes nas condições requeridas para conceder crédito.

O problema surgiu quando o FED começou a subir de novo os juros, os preços das casas entraram em queda, as prestações das casas subiram e grande parte destas famílias, cujos rendimentos não acompanharam estas subidas, ficou sem capacidade para saldar as suas dívidas. O nível de incumprimento está agora em cerca de 14%, face aos 10% registados em 2004 e 2005 e estima-se que as perdas associadas ao crédito hipotecário non-prime nos Estados Unidos possam atingir os 143 mil milhões de euros, o equivalente a pouco menos do que o PIB do nosso país (88%). 

Qual a real dimensão da crise

Por muito que se venha dizer que os efeitos desta crise estão controlados, a verdade é que ninguém tem hoje a certeza sobre a sua verdadeira dimensão e esta incerteza é o principal factor que está na origem das quedas das bolsas mundiais. Mais de dois meses após o início desta crise as bolsas mundiais continuam instáveis e mais grave do que as perdas directas decorrentes da crise do crédito hipotecário de alto risco nos Estados Unidos, os analistas salientam a quebra de confiança dos investidores e o seu impacto no crescimento económico. As centenas de milhares de milhões de euros que o Banco Central Europeu (BCE) tem injectado no sistema bancário europeu e as centenas de milhares de milhões de dólares que o FED tem colocado no mercado americano têm procurado resolver os problemas de liquidez dos sistemas bancários, mas a verdade é que a confiança dos agentes económicos está longe de estar restabelecida.

Os mercados europeus e asiáticos foram fortemente contagiados por esta crise iniciada nos Estados Unidos como resultado da efectiva liberalização dos movimentos de capitais. Os mercados estão hoje interligados, de tal forma que há muitos bancos e fundos europeus com investimentos em produtos das instituições financeiras norte-americanas que operam no segmento subprime, pelo que estão a ser directamente atingidos por esta crise. Todas as instituições financeiras compraram produtos ligados ao segmento subprime - só no último trimestre do ano passado foram emitidos mais de 100 mil milhões de euros em produtos estruturados deste tipo. Não admira pois que fundos expostos a este mercado tenham sido suspensos, casos de fundos do BNP Paribas francês, que dois dos maiores bancos alemães, o Deutsche Bank e o Commerzbank, tenham sido atingidos, para além do fundo de investimento de Dusseldorf, IKB e ainda que o Banco de crédito hipotecário britânico Northern Rock tenha sido objecto de uma corrida aos seus balcões por parte dos seus depositantes que, em menos de 24 horas, levantaram cerca de 2,9 mil milhões de euros, o que obrigou a uma intervenção do Banco de Inglaterra, para restabelecer os seus níveis de liquidez.

Perante esta crise financeira com origem no crédito hipotecário e cuja propagação por todo o sistema financeiro mundial foi o resultado não só da liberalização dos movimentos de capitais como também da chamada titularização de créditos, que permite que os créditos concedidos a um determinado cliente sejam cedidos a uma outra entidade, recebendo desta o montante correspondente à estimativa do valor de mercado dos créditos, a grande questão que se coloca é a de saber qual o impacto que a mesma terá sobre a economia mundial.

Ultrapassados os problemas de liquidez do sistema bancário para o qual muitos milhares de euros foram e irão ser injectados, não restam dúvidas de que sobram desta crise milhares de desempregados, como resultado do encerramento de muitas casas de crédito nos Estados Unidos e condições certamente mais restritivas na concessão de crédito às empresas e aos milhões de famílias dependentes de empréstimos à habitação, com impacto directo na evolução do consumo e do investimento. As previsões que vêm sendo avançadas, quer pelo FMI, quer pela UE, indiciam já pelo menos um abrandamento nos ritmos de crescimento económico nos Estados Unidos e nos países da União Europeia previstos para o final do corrente ano e para o próximo ano.

Qual o peso do crédito de alto risco

Dizem os analistas que o crédito de alto risco em Portugal está associado ao crédito ao consumo. As empresas de crédito por telefone, como por exemplo a Mediatis, Cofidis ou a Credial, compram dinheiro ao Banco Central a baixo custo, com uma taxa de juro na ordem dos 4% e concedem empréstimos quase a 30%. Mas, do nosso ponto de vista, o crédito de alto risco não se fica só por estas empresas de crédito por telefone, pois o próprio crédito à habitação no nosso país não só é concedido sem uma correcta avaliação da capacidade financeira das famílias, como inclui cartão crédito ao consumo. É claro que, no caso do crédito à habitação, as famílias garantem o seu pagamento através da hipoteca da habitação, o que por enquanto ainda constitui uma garantia real do seu pagamento. Os problemas começarão a surgir quando em Portugal, à imagem do que já hoje se verifica nos Estados Unidos, os preços das habitações começarem a baixar e o valor das hipotecas deixarem de cobrir o valor dos empréstimos. Nessa altura, os próprios bancos terão dificuldades em accionar as garantias das habitações em situações de incumprimento. Esta é uma situação já hoje preocupante dados os elevados níveis de endividamentos das nossas famílias, 124% do rendimento disponível das famílias em 2006, um dos níveis de endividamento mais elevados da Europa, e dado o peso crescente do crédito de cobrança duvidosa no total dos empréstimos bancários.

Qual o impacto da crise imobiliária no nosso país 

 A nossa economia pode ser afectada por contágio externo, caso as condições de crédito sejam apertadas no seguimento desta crise. E pode ainda vir a ser afectada, dada a sua forte dependência do exterior e em particular da economia espanhola. Espanha é a nossa principal cliente e fornecedora (1/3 das nossas relações comerciais) e uma crise imobiliária neste país teria um forte impacto no seu crescimento económico, dada a importância que aí tem o sector imobiliário. É frequentemente referida a existência em Espanha de uma bolha imobiliária cujo rebentamento teria um efeito catastrófico sobre a nossa economia.

De referir ainda o impacto desta crise no nosso país e que resulta da titularização deste crédito de alto risco por parte das nossas instituições financeiras. De acordo com os últimos dados do Banco de Portugal, cerca de 11% do crédito concedido pelo nosso sector bancário é crédito que está titularizado pelo que poderá estar sujeito a este risco. O Banco Português de Investimento (BPI) decidiu no passado mês de Setembro extinguir o Fundo de investimento Mobiliário BPI Renda Trimestral, devolvendo aos participantes no fundo a totalidade do capital investido sem qualquer prejuízo, no valor de 88 milhões de euros. Por outro lado, desde que estalou esta crise financeira os investidores portugueses resgataram 3,8 mil milhões de euros dos fundos de investimento e subscreveram apenas 2,3 mil milhões de euros, um saldo negativo de 1,5 mil milhões de euros, situação que faz com que o investimento em fundos seja até agora o pior dos últimos sete anos.

A crise financeira

A forma como o sector financeiro mundial tem evoluído ao longo dos últimos 15 anos permite-nos afirmar que, mais do que nunca, neste período deixou de existir qualquer relação entre a economia real e o sector financeiro. O último relatório do Fundo Monetário Internacional de Setembro passado «Global Financial Stability Report» ao apresentar-nos a dimensão dos activos financeiros e a sua relação com o PIB e ao apresentar-nos a dimensão dos produtos derivados é bem elucidativo deste facto.

 

Dimensão dos activos financeiros

Em biliões de dólares

PIB

Capitalização bolsista

Títulos de dívida

Activos bancários

Total de activos financeiros

Total de activos financeiros (em % do PIB)

Mundo

48 204

50 827

68 735

70 860

190 422

395%

 

 

26,7%

36,1%

37,2%

100,0%

 

União Europeia

13644

13069

23202

36642

72913

534%

 

 

17,9%

31,8%

50,3%

100,0%

 

Área do Euro

10589

8419

18768

25837

53024

501%

 

 

15,9%

35,4%

48,7%

100,0%

 

EUA

13194

19569

26735

10205

56509

428%

 

 

34,6%

47,3%

18,1%

100,0%

 

Portugal

195

106

362

204

672

345%

 

 

15,8%

53,9%

30,4%

100,0%

 

Fonte: IMF «Global Financial Stability Report», September 2007

 

 

 

 

Dimensão dos produtos derivados

 

Montantes nacionais

Valores de mercado

Em biliões de dólares

Dez-04

Dez-06

Variação em %

Dez-06

Total

257 894

415 183

61%

9 695

    Cambiais

29 289

40 179

37%

1 262

    de taxas de juro

190 502

291 987

53%

4 834

    de acções

4 385

7 485

71%

851

    de mercadorias

1 443

6 938

381%

668

 

 

 

 

 

Swaps de incumprimento de crédito (CDS)

6 396

28 838

351%

470

 

 

 

 

 

Outros

25 897

39 755

54%

1 610

Fonte: IMF «Global Financial Stability Report», September 2007

 

 

Como se pode ver pelos quadros atrás apresentados os Activos Financeiros existentes no Mundo são quase 4 vezes superiores ao PIB e os Produtos Derivados representam 8,6 vezes o mesmo PIB Mundial. Uns e outros, Activos Financeiros e Produtos Derivados, representam já hoje mais de 12 vezes o PIB Mundial, a Economia é hoje uma verdadeira Economia de Casino.

Para uns, olhando apenas para a parte visível do problema, a actual turbulência financeira mundial resulta de excessos de liquidez; para outros, nos quais nos incluímos, a crise financeira mundial actual é uma crise profunda e sistémica.

A queda da taxa de lucro no sector privado e em particular na indústria, veja-se o caso da Alemanha, no quadro seguinte, tem conduzido a uma subida exponencial do dinheiro disponível para aplicações de risco nos outros sectores.

 

Sector privado alemão

Anos

Taxa de lucro

1949-1959

27%

1960-1969

18%

1970-1979

13%

1980-1989

12%

1990-2000

11%

Fonte: Artigo de Avelino de Jesus no Jornal de Negócios de 8 de Outubro

 

Melhor dizendo, a taxa de lucro que os investimentos na economia real permitem obter não satisfaz a sede insaciável dos grandes capitalistas, que querem mais, sempre mais e, por isso, retiram os dividendos que obtêm nas empresas e aplicam-nos cada vez mais no mercado financeiro especulativo (enquanto nos anos 50 e 60 cerca de 75% dos dividendos obtidos nas empresas americanas ficavam retidos para investimento, nos últimos 10 anos essa percentagem baixou para 40%).

A menor rentabilidade obtida na actividade produtiva comparativamente com os lucros fabulosos obtidos em actividades especulativas, faz com que o investimento seja deslocado para estes sectores, em especial para o sector imobiliário, levando ao aumento louco dos lucros. Nos últimos cinco anos, o valor da propriedade residencial nos países da OCDE mais do que duplicou, sendo o aumento equivalente ao PIB combinado daqueles países, dando origem ao que já é considerado por alguns a maior bolha da história económica.       

O sector financeiro expandiu o papel dos mercados financeiros em detrimento da banca tradicional. Os Bancos estão mais dependentes dos mercados para o seu financiamento com redução do peso dos depósitos.

O sector financeiro desenvolveu a titularização de créditos e o modelo de negócios de originar e distribuir procedeu à transferência e diversificação de risco de crédito e, simultaneamente, aumentou consideravelmente a dificuldade da sua monitorização e da sua localização, o que está, aliás, na origem da actual crise do crédito imobiliário de alto risco. 

A inovação financeira no interior do sector deu origem a novos produtos de grande complexidade e de difícil valorização, os collateralised debt obligations (cdo) e outros seus derivados.

A globalização financeira e maior interdependência entre mercados e produtos, levou à criação do chamado risco endógeno do sector financeiro.

Perante a dimensão da crise financeira mundial, a mensagem que é transmitida pelo Banco Central Europeu e pelo FED é a de sempre: regulação e transparência. Mas transparência não conjuga com paraísos fiscais, com total liberdade de movimentação de capitais, com sistemas onde não há plena cobertura de reservas bancárias.

Não é com apelos e pseudo-medidas sobre transparência que se dá resposta à gula especulativa. Esta situação é causa e efeito da concentração da riqueza, da liberalização do sistema financeiro e da livre circulação de capitais. Medidas que forcem a transparência são sempre importantes, o controlo da actividade das empresas de rating é bem vindo, nos últimos meses empresas cotadas com A++, de um momento para o outro passaram para C-. Mas o mais importante é o combate à economia de casino e à constante deterioração da massa salarial. O que as famílias realmente precisam é do aumento do seu poder de compra, é de uma distribuição mais equitativa do rendimento nacional.

Perante a actual crise financeira, para além do rigor e transparência, vão-nos já preparando para a inevitabilidade da subida das taxas de juro, para cobrir o chamado risco de crédito, dizem eles. Querem continuar a fazer investimentos especulativos e querem cada vez mais assegurar o retorno com lucros fabulosos. Embora o BCE não tenha aumentado as taxas de juro, a banca nacional continua a aumentá-las para manter o nível de lucros à custa dos mesmos de sempre.

É necessário actuar para que se inverta esta situação e se dê combate aqueles que vão aproveitar a crise para vender ainda mais as inevitabilidades e os conformismos.

È necessário desmascarar esta ofensiva, mostrar que é preciso travar o aumento das taxas de juro e alargar o mercado interno, designadamente pelo aumento do poder de compra das camadas de menor rendimento, que são também as que têm menos propensão para o consumo importado, acompanhado pela defesa e promoção da produção nacional.

É necessário incentivar o aparelho produtivo nacional e a produção de bens transaccionáveis. E a nível internacional não se pode aceitar a técnica do: «é preciso que tudo mude para que tudo fique na mesma», nem a retórica económica dos bancos centrais ao serviço, não dos povos, mas do capital financeiro.

A saída passa sempre pela relação de forças num sistema que tem por lógica a dominação e o máximo lucro.

O capitalismo mostra as suas contradições e as suas taras mas não cairá de podre, precisa do seu coveiro. E é bem importante reforçar os coveiros e o movimento de massas para evitar saídas assentes na crescente limitação da democracia política com leis injustas impostas pelas maiorias dominantes dos respectivos parlamentos.

A actual crise financeira mundial constitui mais um passo da crise do capitalismo e é fundamental que a sua saída não conduza ao agravamento das condições de vida das classes trabalhadoras no mundo, mas antes traga a esperança de um mundo melhor.

Será ?     

Nota: este texto beneficiou na sua parte final, da intervenção que o camarada Carlos Carvalhas fez na Audição sobre o Sistema Financeiro, promovida pelo Partido no passado dia 25 de Setembro.

Conferência Económica e Social «Outro Rumo - Nova política ao Serviço do Povo e do País», nos próximos dias 24 e 25 de Novembro.

Desde o lançamento da preparação da Conferência, no passado dia 27 de Fevereiro, foram cerca de duas dezenas as iniciativas de âmbito nacional e regional que se efectuaram, sempre com grande participação de camaradas e amigos.

Na generalidade das iniciativas foram produzidas intervenções, algumas das quais juntamente com a agenda da Conferência e as intervenções que têm vindo a ser produzidas pelo Secretário-Geral, constam da página do PCP na Internet.

Apelamos à participação dos camaradas nas iniciativas que ainda se realizarão até à Conferência, bem como na eleição dos delegados à mesma.