Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 301 - Jul/Ago 2009

A ofensiva ideológica sobre a juventude

por André Luz

As contradições do sistema capitalista acentuam-se cada vez mais a cada dia que passa, e como as forma de as justificar também se desgastam, o sistema vive numa busca contínua para renovar, actualizar e criar novas formas de tentar legitimar-se e travar a luta dos povos.
O sistema capitalista usa todas as suas armas para tentar dominar e formatar as mentalidades e tem ao seu serviço inúmeros recursos para propagandear e fomentar as suas ideias. Os jovens são naturalmente o alvo principal desta ofensiva. Hoje em dia, a ofensiva ideológica faz-se sentir em todo o lado, nas pequenas ou nas grandes questões e por todos os meios.
No trabalho
Por exemplo, os meios de comunicação ao serviço do sistema capitalista há muito que tentam impingir a ideia de que nos tempos de hoje já não existe classe operária, que já não existe luta de classes e para isso lembraram-se de utilizar novos termos. Como por exemplo: operário ou trabalhador passou a ser chamado de «colaborador», ou seja já não é um trabalhador que trabalha numa empresa mas sim um colaborador que colabora com essa mesma empresa.O patrão passou a ser denominado de «entidade empregadora», portanto apenas uma entidade que emprega alguns colaboradores que não explora nem usa os trabalhadores para criar fortunas fabulosas.Com o mesmo objectivo de dominação ideológica e obviamente de maximização do lucro, pretende-se criar uma geração sem direitos, chegando-se ao ponto de, na mesma empresa, o mesmo posto de trabalho poder ter remuneração e direitos diferentes: se tiver anos de casa tem determinados direitos e salários; se for um trabalhador novo não tem direitos e terá um salário menor. O que se tenta impor é a quebra de laços de solidariedade entre trabalhadores de diferentes gerações (aliás, também é um dos objectivos do ataque à Segurança Social).
Na educação
As forças dominantes do sistema capitalista sabem bem que o ensino é um pilar fundamental da sociedade e que é na escola que os jovens se formam enquanto pessoas incorporando os valores que os nortearão nas suas vidas. Assim, o ensino é um dos sectores onde esta ofensiva ideológica mais se faz sentir.Não é novo que nos manuais escolares, particularmente os de História, seja cada vez mais profundo o deturpar dos factos, o branqueamento do fascismo e o ataque anticomunista.No que se refere ao 25 de Abril é apagado o papel do PCP, confinando-se a resistência a Humberto Delgado e aos militares que «fizeram» Abril. Mas resistência a quê? Resistência ao «Estado Novo» (porque fascismo só houve na Itália), um regime de «pulso forte» que mantinha uns «territórios ultramarinos» a bem da gloriosa História do nosso país de «conquistadores».Sobre a Revolução de Outubro nunca se diz, nem se escreve, que a Constituição Soviética foi a primeira Constituição do mundo a prescrever a igualdade de direitos entre o homem e a mulher, nomeadamente no plano eleitoral, ou que toda a gente na URSS sabia ler e escrever e que todos os níveis de ensino eram gratuitos e garantidos pelo Estado.Nunca se diz, nem se escreve, como foi decisivo o Exército Vermelho para a vitória sobre o nazi-fascismo na II Guerra Mundial e que foi o Exército Vermelho que deu a estucada final no regime nazi.Mais uma vez só se fala dos comunistas para deturpar, acusando o povo soviético de ser submisso a sucessivos dirigentes oportunistas e gananciosos, que usavam o centralismo democrático como instrumento de opressão do povo e controlo do aparelho de Estado. Como cereja no topo do bolo equipara-se insidiosamente fascismo e comunismo.
Nos meios de comunicação social
Se esta ofensiva ideológica visa como um dos seus alvos prioritários o ensino, não é menos verdade que existe uma ofensiva ideológica em quase tudo o que nos rodeia, na publicidade, na televisão, revistas, jornais, música.De facto, de há uns anos para cá vulgarizaram-se as séries (ou melhor dizendo, as telenovelas) de produção portuguesa que procuram, supostamente, espelhar a realidade juvenil portuguesa. No entanto, a promoção das diferentes personagens (e quem as interpreta) a ícones da juventude, graças a uma poderosíssima máquina de propaganda e incentivo ao consumo, permite aos grupos económicos que dominam os meios de comunicação a construção de modelos para os jovens adoptarem na sua escola e na sua vida. As associações de estudantes que se cingem a actividades lúdicas, o obscurantismo perante questões centrais da vida de qualquer adolescente, como o alcoolismo, a toxicodependência e diferentes aspectos ligados à sexualidade, são apenas alguns exemplos dos temas abordados. Tudo isto, tendo como pano de fundo um colégio privado, com todas as condições materiais de topo, como se fosse uma inevitabilidade que a escola pública fosse degradada e a escola privada o paradigma da qualidade.
Nos jogos de computador
Mas a ofensiva especificamente dirigida aos jovens não se fica por aqui. Muitas das vezes são coisas aparentemente tão insignificantes que nem nos damos conta, como por exemplo nos vídeos jogos. Hoje em dia toda a gente joga um ou outro jogo, seja no computador, seja na consola de jogos, e existem mil e um tipos de jogos, uns de desporto, de acção, aventura e por aí fora.Também sabemos que as maiores produtoras de vídeo jogos são norte-americanas, mas o que talvez nem toda a gente saiba é que o Governo americano dá todos os anos 120 mil dólares ao Exército norte-americano para o desenvolvimento de vídeo jogos. Como vemos, o exército norte-americano cria e desenvolve vídeo jogos, sendo que estes não serão jogos nada inocentes.Por exemplo, em todos os jogos de acção que existem a personagem é sempre individual nunca é um colectivo, é sempre o comando da força especial que chega e mata tudo sozinho e o colectivo não existe. Portanto, desta forma, promove-se a ideia de que nós, sozinhos, conseguimos fazer tudo e de que não precisamos do colectivo para nada.Mas existem outros exemplos, como o jogo «Call Of Duty» em que, supostamente, se retratam várias batalhas da II Guerra Mundial. Durante todo o jogo existem cerca de 12 níveis e ao longo de cerca de nove desses níveis o jogador comanda um soldado aliado, francês ou inglês, enquanto durante todo o jogo apenas se jogam dois níveis com o Exército Vermelho, sendo que a primeira missão do jogador é comandar um soldado que tem de subir uma colina com uma espingarda mas que não tem balas porque não havia para todos, como é demonstrado antes de se começar a jogar.Portanto, um jogo que supostamente retrata a II Guerra Mundial está feito para nos dar a ideia de que quem combateu de facto foram as forças aliadas do mundo capitalista, e que eram muito boas, e que o Exército Vermelho, que por acaso foi quem deu a maior e mais decisiva contribuição para a vitória, não prestava para nada e muito menos teve um papel de destaque.Noutro jogo chamado «Freedom Fighters», a América é invadida pelos soviéticos, que chegam e matam logo tudo, ocupam cidades e cidades, destroem tudo e apoderam-se do poder americano. Neste jogo, o jogador é um canalizador, que sozinho vai avançando pelas ruas e vai juntando alguns resistentes para assim acabar com a invasão soviética nos Estados Unidos.E assim se deturpam as coisas, porque a verdade histórica mostra que quem invadiu outros países foram os Estados Unidos da América e não a União Soviética.Falar de ofensiva ideológica nos jogos de computador pode parecer estranho, mas a verdade é que o Governo americano tem muito interesse nesta área, para além de que milhares de pessoas em todo o mundo jogam estes jogos todos os dias.
Na música
A «cantiga é uma arma», já por cá se diz há muitos anos. Mas do mesmo modo que a música de intervenção continua a ser uma grande forma de chegar às massas, também o capital sabe que se controlar a indústria musical chega a milhões de pessoas em todo o mundo
As grandes multinacionais detêm os direitos dos principais artistas e muitas vezes estes têm de se submeter aos interesses dessas multinacionais, cujo único objectivo é a procura de cada vez maiores lucros.Durante muitos anos, e a sua origem foi com esse objectivo, o «Hip-Hop» era e continua a ser uma música de contestação social que rapidamente teve uma grande aceitação nas camadas mais jovens, talvez pelo facto de ser directa e de fácil assimilação, ou pelo facto de não ser muito caro tocar Hip-Hop pois não precisa de uma logística material muito grande.Durante muitos anos o Hip-Hop era uma cultura mais «underground», não estava muito divulgada mas era ouvida por muita gente e dizia coisas que não interessavam a alguns. Mas se observarmos agora o movimento Hip-Hop, ele está muito divulgado, passam artistas em todas as rádios e se ligarmos a MTV vemos mais de 20 ou 30 artista diferentes a dizerem todos o mesmo, a usar grandes carros, rodeados de mulheres, cheios de ouro.Portanto, podemos ver que também na música se controlam as ideias. Se o Hip-Hop era um estilo musical perigoso pois tinha uma grande componente interventiva, o sistema capitalista arranjou a solução: vamos promover este estilo musical mas da forma que nos interessa, vamos fazer com que ele deixe de ser um estilo interventivo e que passe a ser um estilo que não tenha qualquer mensagem e vamos promovê-lo ao máximo para que os jovens o que vejam seja uma coisa vazia e sem qualquer conteúdo.Mas é importante referir que existe ainda um movimento de Hip-Hop que tem de facto um conteúdo reivindicativo, aquilo que canta é a realidade. No entanto, é um perigo para o sistema capitalista haver artistas que digam a verdade, e por isso estes são postos à margem das rádios, não passam na TV, nem são promovidos pelas grandes editoras.
Com determinação e luta, venceremos todas as ofensivas!
O sistema capitalista tem ao seu serviço meios e condições para chegar a milhões de pessoas das mais variadas formas e feitios e assim poder formatar e controlar as ideias.Esta ofensiva ideológica é forte, pois a verdade é que o sistema capitalista tem este grande objectivo porque sabe muito bem que o futuro da humanidade não é esta sociedade, não é este o rumo que os povos querem e também sabe que a solução é o socialismo. É por saber isso que investe milhares de euros no desenvolvimento de novas formas de tentar controlar as ideias, mas a luta tratará de trazer à tona a verdade!