Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Partido, Edição Nº 301 - Jul/Ago 2009

A ligação do Partido às massas - O Complexo Grundig

por Carlos Almeida

Embora se possa resumir numa expressão simples, aquilo em que ela se traduz é muito mais complexo. A ligação às massas é uma das mais importantes questões da acção partidária. Não o é apenas pela garantia de contacto com os trabalhadores e populações, mas também porque é uma questão que toca várias dimensões estruturantes da acção do Partido, que sem ela se tornam mais difíceis e mesmo impraticáveis.



O esclarecimento das massas

A importância da ligação às massas é ainda maior se a contextualizarmos na sociedade de desinformação, deturpação e mentira, procriada nas edições dos órgãos de comunicação social dominados pelos grandes grupos económicos, preconizando o envenenamento geral de consciências. Mesmo que consideremos esta ou aquela notícia em que pontualmente relatam com verdade, e é certo que muitas pessoas a lêem ou ouvem, é incontestável que a ligação do Partido às massas é a forma mais eficaz, coerente e fidedigna de assegurar o esclarecimento e a mobilização das populações. 

Uma forma de estar que marca a diferença 

O contacto directo com os trabalhadores não só nos permite divulgar as propostas, posições e actividade do PCP, como, mais importante ainda, ouvir relatos, conhecer os problemas, discutir as soluções e estabelecer «pontes» que, a manterem-se, podem ser determinantes para o amplo trabalho da luta de massas. Estas correspondências ou ligações são estabelecidas de forma individual pelos militantes do Partido, pela relação de proximidade que estabelecem com os outros.Esta forma de estar, apoiada numa acção constante, justa e combativa, ganha relevo na iniciativa de contacto e diálogo com aqueles que nos rodeiam.  O conhecimento dos problemas por parte dos militantes e o seu acompanhamento regular proporcionam ao Partido um entendimento largo sobre as aspirações dos trabalhadores, asseguram a pertinência das reivindicações colocadas, que por sua vez dão lugar às propostas e ao desenvolvimento da luta.O trabalho de auscultação e esclarecimento implica o relacionamento com outros indivíduos, muitas vezes distantes no campo ideológico, mas que, em determinado momento, motivados por questões concretas, lutam connosco.Outro aspecto, não menos importante, da ligação às massas é o do papel das organizações do Partido, assente na definição de objectivos de acção próprios. É de extrema importância que as organizações estabeleçam prioridades, estimulem a criação de estruturas, acompanhem o desenvolvimento da situação social e intervenham sobre ela. A credibilidade da luta pode ficar irremediavelmente afectada se esse trabalho, que se exige regular, não for feito. No entanto, a confiança dos trabalhadores no projecto do PCP sai certamente redobrada, como temos comprovado ao longo dos tempos, quando nos destinguimos nas palavras e nos actos. É uma questão de compromisso com os trabalhadores. Compromisso que nada tem de sazonal. A entrega dos comunistas às causas comuns, ao bem-estar das populações, ao combate às injustiças sociais, em suma, à luta por uma vida melhor, não se move segundo a agenda eleitoral. Fora dos períodos eleitorais o Partido continua presente, com a mesma força e convicção que nos guia nas campanhas, constituindo uma marca de distinção em relação a todos os outros partidos.O exemplo da intervenção dos comunistas é a expressão dos valores e ideais que motivam, inspiram e dinamizam a acção e a luta de massas.

A ligação aos movimentos de massas

Este é um factor determinante para a construção dos processos de luta.O descontentamento sente-se, conhece-se e tem a sua maior expressão no rosto dos trabalhadores. No entanto, é inconsequente se não estiver bem direccionado. É preciso saber direccionar essa insatisfação. Tomar uma atitude firme, combativa e capaz de enfrentar os problemas. Também aqui os comunistas têm um papel a desempenhar. Na organização dos trabalhadores, no lançamento das reivindicações, e na preparação e dinamização das lutas.Os militantes do Partido, no quadro da sua participação individual e valorizando o espaço de unitário que constitui o movimento sindical, devem assumir um papel decisivo na defesa da unidade, do alargamento da acção sindical nas empresas e locais de trabalho, e na salvaguarda de um projecto de classe em consonância com as reais aspirações dos trabalhadores.

A ligação institucional

A acção institucional do Partido é uma outra componente de ligação às massas. Uma forma de intervir que  privilegia o debate em diferentes espaços, seja nas Assembleias Municipais, na Assembleia da República ou no Parlamento Europeu.O PCP desenvolve uma intensa actividade institucional tendo como eixo central a defesa dos direitos dos trabalhadores, das populações, intervenção que será tanto mais eficaz quanto mais se apoie na sua própria participação. Neste quadro é fundamental que os eleitos mantenham uma profunda ligação aos problemas do cidadão, assumindo-se como seu porta-voz, tendo o colectivo partidário a responsabilidade de articular a acção institucional com a acção de massas.A par das dinâmicas de luta em torno desta ou daquela questão as organizações do Partido devem também garantir a intervenção institucional. Não só está em causa o levantamento de problemas, como o encerramento de empresas, o desemprego e outras questões laborais, como o cumprimento do compromisso com a classe operária e os trabalhadores. Também no plano institucional é importante o combate às políticas desastrosas praticadas por sucessivos governos, quer pela denúncia e oposição das mesmas, quer pela apresentação de propostas e soluções alternativas que, a serem aprovadas, em muito teriam contribuído para a melhoria das condições de vida dos portugueses.

Organização partidária e intervenção

A natureza de classe do Partido exige medidas que visem uma acção regular nas empresas e locais de trabalho. Com esse objectivo, a organização do Partido nas empresas e locais de trabalho é um elemento, como sempre temos afirmado, decisivo. Esta tarefa, apesar das dificuldades com que nos confrontamos para a sua execução, tem ajudado a revelar alguns sinais de crescimento e reforço do Partido.  As organizações não se podem alhear dos principais espaços de combate político – as empresas e locais de trabalho – e dos problemas dos trabalhadores. É necessário potenciar a criação e a reactivação de estruturas, que definam intervenção própria, em especial dentro das empresas, promovendo o contacto e o esclarecimento dos trabalhadores, engrossando e rejuvenescendo as fileiras do Partido, e responsabilizando os novos militantes.Um partido mais forte nas empresas e locais de trabalho é sinónimo de uma luta cada ves mais abrangente e consolidada.

Da Grundig ao Complexo Grundig

A Grundig, empresa instalada em Braga em 1965, constitui ainda hoje, embora numa configuração diferente da original, uma das empresas com maior número de postos de trabalho da região. Desde a sua chegada passaram pelas suas instalações muitos milhares de trabalhadores. Em determinado momento do passado quase atingiu os cinco mil. Foram muitas as lutas travadas naquela empresa por diferentes gerações de trabalhadores. Mesmo antes da Revolução de Abril, como aconteceu com a luta pelo aumento dos salários desencadeada no ano de 1972, que terminou com um êxito extraordinário apesar da repressão de que sofriam as estruturas representativas dos trabalhadores e os seus quadros mais destacados, muitos dos quais comunistas, resultando num exemplo para o país, encoranjando muitos outros trabalhadores a lutar pelos seus direitos.  Os trabalhadores da Grundig foram por isso, como ainda o são hoje, em muitos casos, o motor de desenvolvimento social e humano, impulsionador de lutas, que muitas vezes partiam daquele espaço físico e inundavam as ruas da cidade de Braga com os anseios da classe operária. O Partido soube acompanhar, ao longo dos anos, as preocupações e as motivações destes trabalhadores e, também por isso, viu muitos deles tornarem-se militantes comunistas, reforçando a sua organização e alargando a sua influência.A desagregação da Grundig, no início dos anos 90, acompanhou a ofensiva aos direitos dos trabalhadores desencadeada pelas políticas do PS e/ou PSD. Tal facto representou o sinal de declínio que se viria a confirmar anos mais tarde. Despedimentos colectivos num momento de forte contestação dos trabalhadores, violação dos direitos arduamente conquistados, precariedade e, mais recentemente, recurso abusivo e sistemático ao lay-off.Hoje existem naquele espaço, entre outras mais pequenas, três grandes empresas que constituem o denominado Complexo Grundig. A Fehst Componentes,  a Delphi Grundig e a Blaupunkt. Esta última recentemente transformada em Bosch Car Multimedia. No global  são cerca de três mil trabalhadores, ligados ao mesmo sector de actividade, junto dos quais o Partido se mantém com regularidade, na acção individual diária de cada militante nas organizações representativas dos trabalhadores, mas também na sua intervenção geral. O enraizamento dos comunistas e do seu Partido no Complexo Grundig é muito mais do que uma constatação histórica. É uma necessidade do presente, que passo a passo continua a ser construída. Num momento em que os trabalhadores questionam as políticas praticadas ao longo dos anos e em que ficam evidentes os fracasssos do capitalismo, o caminho abre-se para a alternativa que dá resposta aos problemas e dificuldades das massas e que afirma que um outro mundo, socialista, é possível.O PCP, partido portador desse projecto alternativo, tem pela frente novos desafios e difíceis tarefas. Tem também grandes possibilidades de fortalecimento e crescimento muito ligadas à sua capacidade de intervenção e ao alargamento da sua influência social, alcançavel através da elevação da participação dos militantes e do aumento da iniciativa política.O trabalho diário dos militantes, feito por todos e cada um, colectiva e individualmente, nos locais de trabalho, nas empresas, nos movimentos de massas e nas associações, dará os seus frutos.