Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

História, Edição Nº 309 - Nov/Dez 2010

A República e a Rússia revolucionária

por Domingos Abrantes

O conhecimento das condições em que se processaram as relações da República de 1910 e seus dirigentes com a Rússia revolucionária, antes e depois da Revolução Socialista de Outubro, bem como das posições da comunicação social republicana de referência à época, afigura-se-nos de grande importância para a compreensão da natureza de classe do regime implantado em 5 de Outubro de 1910 e de como Portugal continuava a ser um protectorado inglês, apesar da retórica republicana sobre a soberania nacional.

As causas que determinaram as posições face à revolução soviética na Rússia têm uma longa história e continuam a estar presentes de forma marcante na vida política nacional dos nossos dias, razão talvez porque tenha caído um silêncio de chumbo sobre estas matérias na panóplia de escritos e iniciativas para assinalar o centenário da República.

Mais do que relembrar orientações políticas do passado, esta questão tem a importância de mostrar que, com excepção de um período relativamente curto em que, em consequência do desenvolvimento da Revolução de Abril, Portugal assumiu inequivocamente posições anti-imperialistas e de solidariedade com a luta dos povos – princípios que vieram a ter consagração constitucional –, as políticas das classes dominantes portuguesas, quer as executadas por partidos monárquicos, republicanos, fascistas, quer pelo Partido Socialista dito laico e republicano, ou por partidos de direita no Portugal de Abril, traduzem-se num longo historial de abdicação dos interesses nacionais, de subserviência face ao imperialismo e são responsáveis pelo envolvimento de Portugal em sujas operações e agressões contra a independência e a soberania dos povos e a sua luta libertadora e emancipadora.

O envolvimento de Portugal na luta contra a Revolução francesa, a Comuna de Paris, a Revolução de Outubro, a Espanha Republicana; a participação em diferentes períodos nas operações da NATO; a submissão aos ditames da União Europeia; a participação nas agressões à Jugoslávia, ao Iraque e ao Afeganistão; o sistemático apoio às políticas agressivas do imperialismo americano – mostram-nos que as classes dominantes fazem da submissão ao imperialismo uma espécie de seguro de garantia para a sua sobrevivência. Mostram-nos igualmente que na luta contra os trabalhadores e os povos «a burguesia actua como classe social única» e que os seus interesses de classe exploradora se sobrepõem aos interesses da defesa da independência e soberania nacionais, princípios que estão na origem do corte de relações do nosso país com a Rússia Soviética no início de 1918, no apoio às agressões imperialistas contra o Estado socialista e no envolvimento do Portugal republicano na «sagrada cruzada» internacional contra a «hidra» bolchevique.

As relações diplomáticas e comerciais de Portugal com o império russo estruturaram-se ao longo do século XVIII. Remonta a 1778 a nomeação do primeiro embaixador português na Rússia e a 1787 a assinatura de um tratado de comércio – Tratado de Amizade, Navegação e Comércio. (1)

As relações comerciais chegaram a atingir importância significativa e, em 1799, Portugal estabeleceu mesmo um Tratado de Aliança Defensiva com a Rússia, ainda que tivesse ficado a aguardar parecer da Grã-Bretanha.

Quando estiveram em causa disputas territoriais, a Rússia apoiou Portugal. Fê-lo na Conferência de Berlim (1885); na Conferência de Bruxelas (1890); na Conferência de Haia (1907). Por ocasião do ultimato inglês (1890), analisando a falta de apoio das diversas potências a Portugal, o ministro de Portugal em S. Petersburgo comentava ser a Rússia a única que abertamente apoiava Portugal (2).

À data da implantação da República, a Legação portuguesa em S. Petersburgo era uma das mais importantes. E não deixa de reflectir a importância estratégica que a Rússia atribuía a Portugal para as suas incursões no Mediterrâneo o facto deste país, um Estado monárquico, ter sido dos primeiros a reconhecer a República portuguesa.

Mas a Rússia era uma monarquia autocrática, «prisão de povos», «chapéu de chuva» da reacção europeia, que se havia tornado num dos principais centros de contradições inter-imperialistas e para onde se tinha deslocado o centro do movimento revolucionário.
Por outro lado, Lénine, ao analisar a luta dos grandes Estados imperialistas pela divisão do mundo, dizia que Portugal era um daqueles países que do ponto de vista formal e político gozam de independência, mas que na realidade se encontram envolvidos nas malhas da dependência financeira e diplomática (3) e que, a esta luz, era um dos Estados que «há mais de duzentos anos (…) está sob o protectorado de Inglaterra» (4).
.
Esta realidade, agravada com o ultimato inglês de 1890, vai determinar que, até à Revolução de 5 de Outubro, o Partido Republicano, desfraldando a bandeira da defesa da soberania e da independência nacionais, ganhe grande adesão popular, que a luta contra a monarquia e o domínio inglês se tornem indissociáveis, a par da denúncia da autocracia russa e da solidariedade para com os sectores revolucionários russos, luta em que se inspirava e na qual depositava grandes esperanças para o triunfo da República.

António José de Almeida, preso na cadeia de Coimbra por ter escrito «Bragança, o último», desfere, em novo artigo, um violento ataque ao domínio inglês sobre Portugal, acusando a Inglaterra de tratar os portugueses pior do que os negros das suas possessões, e exalta o Niilismo russo, uma força que, como dizia, aumenta prodigiosamente apesar da repressão. E talvez mais a pensar no rei D. Carlos do que no czar, acrescenta que «o Niilismo há-de vencer, estilhando, por ventura com uma bomba de dinamite, o corpo desse homem cuja memória não possuirá um afecto, cujo cadáver será amortalhado em ódio» (5).

A defesa e a divulgação da acção dos niilistas russos, a recomendação para que os portugueses se inspirassem nessa luta, a divulgação de actos bombistas e a elevação dos seus promotores à categoria de heróis supremos vão ser uma constante em escritos de dirigentes e na imprensa republicana. É o caso do destaque dado ao assassinato (Fev./1905) do governador de Moscovo, Gão-Duque Serguei Alexandrovich, «condenado à morte por uma das numerosas sociedades secretas que procuram conseguir a liberdade da Rússia» (6). É assim a propósito de Maria Spiridova, implicada no atentado contra o governador de Tambov e sobre o qual Maria Veleda escreveu: «Ninguém se atreverá a sustentar que a mulher é cobarde lançando os olhos para esse enorme campo de combate que é a Rússia, onde tantas mulheres têm derramado o seu sangue generoso, em prol de um ideal de libertação» (7). É assim com a acção de Sofia Perowskaia, implicada no atentado contra o czar Alexandre II, apresentada como exemplo do «terrorismo vigoroso, a dinamite, a morte implacável aos espiões, aos déspotas» (8).
.
A revolução russa de 1905, confirmando as previsões de Marx e Engels de que a verificar-se o desenvolvimento revolucionário na Rússia uma revolução aí teria enorme ressonância e seria «um ponto de viragem na história universal», veio dar grande impulso à luta revolucionária na Europa e naturalmente também em Portugal.

Vários órgãos de comunicação social republicanos, de forma regular e circunstanciada vão dando notícias sobre «A revolução na Rússia», deixando transparecer nítida simpatia pela revolução, esperanças no seu triunfo e de que o seu exemplo frutifique em Portugal.

A par das notícias sobre as revoltas no Couraçado Potenkine e no Couraçado Almirante «Seniavine», da luta armada do povo, da adesão de diferentes camadas à revolução (camponeses, estudantes, advogados, médicos), é igualmente dado grande relevo à luta da classe operária, concluindo-se que «Uma das grandes forças da revolução consiste sem dúvida no abandono das oficinas» (9).

O movimento internacional em defesa da vida de Máximo Gorki atingiu significativa expressão em Portugal, tendo O Século verberado o crime que se preparava e feito um apelo à participação na campanha em defesa da vida de Gorki. (10)

A 1 de Fevereiro de 1905 realiza-se na Associação dos Lojistas de Lisboa uma reunião com o mesmo objectivo, de homens de letras, jornalistas e artistas, com a participação de destacados dirigentes do Partido Republicano. E uma outra no Ateneu Comercial de Lisboa, amplamente participada de estudantes, contra a repressão na Rússia, tendo sido aprovada uma moção que fazia votos «para que do movimento revolucionário na Rússia raie para aquele povo um nova era de justiça e de liberdade» (11), bem como na Associação dos Advogados e na Associação dos Caixeiros.

No Porto, a iniciativa partiu da Associação dos Jornalistas e Homens de Letras do Porto e em Coimbra realizou-se um comício de solidariedade com o povo russo. (12)

As informações enviadas pelo embaixador da Rússia em Lisboa ao seu governo sobre a influência do movimento revolucionário russo em Portugal são de grande importância para a avaliação dos efeitos dessa influência. «Todas as notícias – dizia – sobre o que acontece na Rússia, divulgadas em Portugal pelos revolucionários russos que se acham no exterior, são imediatamente transmitidas pelo telégrafo e publicadas pelos jornais portugueses com grande destaque» (13). E em uma outra informação, o embaixador reconhecia que «os eventos revolucionários da Rússia constituem uma das causas da intensificação da campanha anti-monárquica em Portugal» (14).

Mas o embaixador não se dirigia só ao seu governo, dirigia-se igualmente ao governo português, chamando-lhe a atenção para a campanha anti-russa, diga-se anti-czarista, que se fazia sistematicamente em Portugal.

Reciprocamente, a luta pela República em Portugal era acompanhada com bastante interesse na Rússia e em particular por Lénine, que escreveu vários textos sobre Portugal e que, por altura do regicídio, quando se fazia sentir a vozearia da reacção internacional contra os revolucionários portugueses, se colocou sem ambiguidades ao lado destes.

Mas chegados ao poder, os republicanos mudam completamente de agulha, tendo o seu programa sido metido na gaveta.

Do apelo (aos governos monárquicos) para se recusar, no que toca à Inglaterra, «pactos de amizade com quem poucos escrúpulos tem em nos esmagar … e nos explorar», da classificação da Inglaterra como «uma nação inimiga», de considerarem depois do ultimato, «ofensivo do direito, do decoro e dos interesses da nação portuguesa, tratar directamente com a Grã-Bretanha» (15), ou ainda depois do Directório do PRP ter classificado a Inglaterra de nova Cartago e de que todos os tratados com a Inglaterra tinham «sido feitos exclusivamente em benefício da segurança dinástica» (16), a aliança com a Grã-Bretanha passou a ser considerada como uma das condições da nossa existência nacional e uma sólida garantia da integridade do nosso território continental e colonial.

Pelos vistos, os dirigentes republicanos andavam redondamente enganados, certamente por estarem mal informados, pois o Governo da República sabe «que a lealdade nunca desmentida da Nação inglesa» e que os tratados entre os dois países «são segura garantia … de que a Inglaterra não consentirá que a integridade material e moral do seu fiel aliado sofra qualquer prejuízo» (17).

Como explicar tamanha reviravolta nas posições dos governantes republicanos? É que o poder republicano, tendo decidido prosseguir a política monárquica de rapina em relação às colónias, precisava para isso de contar com o apoio da Inglaterra, mesmos sabendo tratar-se de um aliado que sempre consideraram pouco fiável e que havia incluído as colónias portuguesas no «catálogo» dos negócios para a partilha do mundo.

Com o envolvimento de Portugal na I Guerra Mundial, Portugal republicano assume claramente a sua condição de protectorado inglês, amarra os seus destinos ao carro de guerra imperialista, ambiciona participar na nova partilha do mundo e integra-se empenhadamente na «sagrada aliança» contra a Rússia Soviética e o movimento revolucionário em geral, política que veio a custar muito caro ao povo português e mesmo a largos sectores republicanos.

Quando já se perspectivava o início da guerra, o governo de Bernardino Machado, a 1/8/1914, seguindo a via da subserviência face à Grã-Bretanha, encarrega o representante português em Londres (Teixeira Gomes) de obter junto do Foreign Office quaisquer declarações que pudessem «guiar com segurança» a posição a tomar por Portugal. Um dia depois, e dado que Portugal não podia deixar de ter posição, nova insistência junto de Teixeira Gomes para obter resposta do Foreign Office, acrescentando-se que Portugal desejava ter uma atitude de neutralidade, mas que não podia fazê-lo sem se saber se a Inglaterra «não desejará de nós qualquer manifestação diferente».

Dois anos depois coube ao governo de Afonso Costa cometer um dos mais escandalosos actos próprios dos protectorados ao utilizar o argumentário redigido por Inglaterra na resposta a dar ao governo alemão, fundamentando as razões para o apressamento dos navios alemães em portos portugueses. (18)

Já envolvido na guerra, ao eclodir a Revolução de Fevereiro e depois a de Outubro na Rússia, Portugal que tinha abdicado de ter uma política externa própria, vai continuar na via da subserviência face à Inglaterra e outras potências ocidentais, e tal como fizera a monarquia no período da Comuna de Paris e no combate aos membros da Internacional, alia-se à reacção internacional e seus serviços policiais, contra a Rússia Soviética e à sua influência no mundo.

Logo após a revolução democrática-burguesa (Revolução de Fevereiro), o MNE (20/3/1917) dava indicação ao embaixador português na Rússia para proceder de acordo com os Aliados. E quando em Setembro é derrubada a monarquia e instaurada a República na Rússia, são transmitidas instruções ao embaixador português na Rússia para «proceder inteiramente em conformidade com o representante da Inglaterra». Posicionamento que se repetiu e, de forma ainda mais enfática, quando teve lugar a Revolução Socialista de Outubro, levando Portugal republicano, que não havia chegado a reconhecer a instauração da República democrático-burguesa na Rússia, a cortar relações, no começo de 1918, com o Estado soviético.

O anti-comunismo torna-se na ideologia das classes dominantes contra o movimento operário. A imprensa reaccionária e republicana, bem como diplomatas portugueses instalados em algumas capitais europeias, numa sintonia perfeita, lançam-se numa desenfreada campanha anti-comunista, classificando os bolcheviques de criminosos, de bandidos, gente capaz das coisas mais horrorosas. Lénine é apresentado como um mentecapto e agente alemão.

A situação na Rússia é descrita como o inferno na terra, e o comunismo como uma terrível praga que ameaçava o mundo, exigindo-se mão dura para o combater. A luta social e os sindicatos equiparados a inimigos internos, agindo às ordens de Moscovo. Segundo o embaixador português na Rússia, grande parte dos dinheiros obtidos com a nacionalização dos bancos tinha sido para «a propaganda anarquista em todo o mundo».

A repressão ao bolchevismo passa a ser uma preocupação dos governos da República.

Para evitar a «desordem» em que teria caído a Rússia, o governo da República, seguindo o exemplo de outros países, vai «reprimir com a maior energia qualquer tentativa ou movimento revolucionário ou sovietista» (19).

Na sequência da greve geral de Novembro de 1918, seguem-se as proclamações: «Todo o país repele com energia a desordem bolchevique» (20).

Portugal integra o Bureau Inter-Aliado, sediado em Paris, o qual procede à sistematização e troca de informações sobre elementos bolcheviques, ou tão só suspeitos de o serem, em vários países, bem como à troca de informações e experiências do que cada Estado faz para combater o bolchevismo.

Com o desenvolvimento do movimento operário, do apoio à Revolução soviética, do aparecimento de A Bandeira Vermelha, da formação da Federação Maximalista e da criação do PCP, vai-se estruturando um aparelho policial especializado na perseguição aos elementos «indesejáveis», os bolcheviques. (21)

A Bandeira Vermelha é apreendida várias vezes. Dezenas e dezenas de simples distribuidores do jornal, membros da Federação Maximalista, membros do Partido, ou tão só por suspeita de serem bolcheviques, são presos. A polícia vigia iniciativas do Partido. E tudo isto, a par da maior complacência para com a ameaça fascista que era já uma realidade.

Os golpistas do falhado golpe de Abril de 1925 (ensaio do que viria a ser o golpe do 28 de Maio) são todos absolvidos, mas a 5 de Maio de 1926, às vésperas do golpe fascista, são presos vários membros do PCP, entre eles o destacado militante Roque Júnior, acusados de «terem elaborado o plano X para a tomada do poder».

Contra o jovem Estado soviético congregaram-se forças poderosas. Inimigas de ontem, entenderam-se para tentar esmagar um Estado que, pela força do exemplo, ameaçava os interesses da burguesia à escala mundial.

Já antes da Revolução de Outubro, quando crescia a influência do bolchevismo e se revelava incerto o destino do Governo Provisório, o embaixador americano propunha ao seu governo o envio de tropas para «auxiliar» o povo russo. E como o respeito pela soberania dos povos não é coisa que tolhesse os imperialistas, a 24 de Outubro de 1917 (calendário antigo) perguntava ao secretário de Estado o que pensava do envio de duas ou mais divisões do exército americano se conseguisse «o consentimento do governo russo para isso, ou até mesmo conseguir obrigá-lo a fazer esse pedido» (22). (itálico meu)

A resposta não deve ter chegado a tempo.  No dia seguinte confirmam-se as preocupações do embaixador americano e de outros embaixadores, incluindo o português, os bolcheviques tomaram o poder. A onda revolucionária alastra pelo mundo fora e com isso o pânico nos países imperialistas.

O ambiente que se vivia no campo imperialista pode ser avaliado pelas anotações do coronel House, conselheiro do presidente dos Estados Unidos, Wilson: «O bolchevismo está a ganhar terreno por toda a parte (…). Estamos sentados em cima de um paiol de pólvora a descoberto e qualquer dia uma faísca pode fazê-lo explodir» (23). Da mesma visão partilhava o presidente francês, ao defender a necessidade de se criar «Um cordão sanitário em relação ao comunismo».

Os insucessos das operações dos grupos contra-revolucionários, armados e orientados pelas potências imperialistas, o fracasso dos processos separatistas fomentados pela Entente, colocaram no campo das acções práticas a invasão da Rússia Soviética por uma coligação imperialista liderada pelos EUA, emergido à condição de principal potência imperialista em consequência da guerra, agressão a que o governo português vai dar o seu incondicional apoio.

As citações que se seguem são porventura longas, mas elas mostram que a natureza do imperialismo não muda, que o argumentário e pretexto de Bush para atacar o Iraque há muito fazem parte da política americana e que o serventuário Durão Barroso, para nossa desgraça, faz parte de uma velha linhagem de serventuários.

A 1 de Outubro de 1918, o responsável da delegação dos EUA, T. H. Brich, entrega ao MNE português um ofício do seu governo comunicando que, tendo o governo dos EUA recebido «uma informação de fonte segura revelando que os cidadãos russos pacíficos de Moscovo, Petrogrado e outras cidades estão sofrendo uma campanha de intenso terrorismo e são sujeitos a execuções em massa», e correspondendo ao «ardente desejo do povo dos EUA de auxiliar o povo russo», e «unicamente no interesse do próprio povo russo», «o governo americano entende que não pode ficar silencioso» e que, perante tantos crimes, «todas as nações civilizadas devem registar o seu horror a tal barbaridade».

E certo de que existiam armas de destruição massiva (os «crimes bolcheviques»), o ministro americano diz ter sido encarregado de perguntar ao governo português da sua disponibilidade para «adoptar algum imediato procedimento», «para fazer sentir aos autores dos crimes a aversão com que a civilização encara os seus presentes actos de atrocidade» (24).

O MNE de então, Dr. Egas Moniz, não se mostrou menos subserviente do que Durão Barroso no caso do Iraque. Tomando como certa a informação fornecida pelos EUA quanto às «abomináveis atrocidades bolcheviques», Egas Moniz considera que a sugestão de uma intervenção contra a Rússia Soviética «redobra de significação e alcance com o partir da grande democracia americana», pelo que essa intervenção «encontra no povo português o acolhimento de que é merecedora pela sua nobre intenção». Assim, «o Governo Português acompanhará com a maior simpatia no seguimento que o Governo dos Estados Unidos da América entender imprimir-lhe» (25).

O governo dos EUA dirigiu-se naturalmente a vários outros países no mesmo sentido. A seguir entrou em cena a comunicação social dominante no sentido de preparar a opinião pública para aceitar como natural os crimes «civilizacionais» do imperialismo.

A 11 de Novembro, o Acordo de Armistício estabelecido entre as potências imperialistas vencedoras e a Alemanha, acordo cujos princípios haviam sido definidos pelos EUA, estipulava, no seu art.º XVI, que os alemães deviam evacuar os territórios do Leste Europeu, que o Acordo de Brest-Litovski ficava sem efeito e que os aliados teriam livre acesso aos territórios evacuados, afim de poderem reabastecer as populações e manter a ordem.

A imprensa dominante encarrega-se de explicar o verdadeiro significado deste palavreado. O Século publicava (13/XI/1918) um telegrama de Londres, dizendo que «A opinião pública acolheu favoravelmente a proposta do governo americano aos governos aliados para intervirem na Rússia com o fim exclusivo de restabelecer a ordem contra os “bolcheviques” e “maximalistas”» e que os aliados «intervirão onde a desordem social tomar o aspecto grave do sovietismo».

Os títulos e as notícias de que a Entente iria esmagar a «hidra» bolchevique, vão-se multiplicando, mas os imperialistas e seus propagandistas enganaram-se retundamente. O povo russo, os operários e camponeses deram provas de grande determinação na defesa do primeiro Estado operário-camponês da história, obrigando os poderosos invasores a regressar a casa.

Alguns Estados acharam por bem reconhecer a nova realidade e começar a estabelecer relações económicas com a Rússia Soviética, o que não aconteceu com a República portuguesa. Como muitas vezes acontece, os lacaios revelam-se piores do que os seus senhores.

Em Maio de 1924, quando o Estado soviético já tinha sido reconhecido por vários Estados, incluindo monarquias europeias, o deputado João Camoesas interpela na Câmara dos Deputados o MNE, Domingos Pereira, sobre o porquê da República portuguesa ainda não ter reconhecido a República Federativa dos Sovietes da Rússia, tanto mais que esse reconhecimento afigurava-se-lhe «de um acto inteiramente necessário ao país, visto que desse reconhecimento poderia derivar o restabelecimento de relações de carácter comercial, do mais alto interesse para nós» (26). O deputado chamou ainda a atenção de que «não há razão para não criar um desafogo aos produtos portugueses», alguns dos quais atravessando bastantes dificuldades, como era o caso da cortiça, essa importante riqueza nacional e de que a Rússia até era importadora. Além disso, acrescentava o deputado, Portugal tinha uma balança comercial deficitária.

A resposta do ministro Domingos Pereira é esclarecedora quanto à política externa da República. «O Governo português, na hora própria cumprirá o seu dever reconhecendo a existência da República da Rússia. Mas será apenas na hora própria». E quanto aos interesses económicos do país, não lhe parecia que «sofram muito com a conservação da situação actual» (27). (itálicos meus)

A «hora própria» estava nas mãos da Inglaterra decidir, só que nessa altura já delegações da Rússia e da Inglaterra se encontravam em Londres para regularizar as relações entre os dois países, coisa que nunca os governos republicanos fizeram e Salazar, obviamente, também não. Foi preciso esperar pelo 25 de Abril para que Portugal reconhecesse a União Soviética.

Notas

(1) Rómulo de Carvalho, «Relações entre Portugal e a Rússia no Século XVIII», edições Sá da Costa, 1979, p. 106.(2) Catálogo Exposição «Relações entre Portugal e a Rússia. Séculos XVIII a XX», edições Colibri, 1999, p. 123.
(3) Lénine, Obras Escolhidas em 3 volumes, I Vol., Edições «Avante!», Lisboa, 1977, p. 639.
(4) Idem.
(5) A. José de Almeida, «Palavras de um Intransigente», in «Portugal em crise», edições Fronteira do Caos», 2006, p. 117.
(6) «Illustração Portuguesa», n.º 69, de 27/2/1905.
(7) Maria Veleda, «Vanguarda», de 16/9/1909.
(8) Semanário «A Economia», Ano II, n.º 82, de 14/8/1910.
(9) «Illustração Portuguesa, n.º 68, de 20/2/1905.
(10) O Século, de 1/2/1905.
(11) O Século, de 2/2/1905.
(12) Idem.
(13) Nikolai Emifov, «Revolução de 1910», in Revista Internacional.
(14) Idem.
(15) Manuel Arriaga, «Intervenção na Câmara dos Deputados», in «Portugal em crise», edições Fronteira do Caos, p. 129.
(16) Joel Serrão, «Liberalismo, Socialismo, Republicanismo», edições Livros Horizonte, 1979, p. 260.
(17) «Documentos apresentados ao Congresso da República em 1920 pelo MNE, Portugal no conflito europeu, 1.ª parte, Negociações até à declaração de guerra», edições Imprensa Nacional – 1920, p. 199.
(18) Idem. Ver Documentos, n.º 1 e n.º 2, p. 3; n.º 331, p. 233; e n.º 349, p. 246.
(19) O Primeiro de Janeiro, de 19/11/1918.
(20) «A Situação, Diário Republicano da Manhã», de 21/11/1918.
(21) Sobre a repressão aos bolcheviques, ver Silvestre Lacerda, «A República e o temor ao bolchevismo», in O Militante, N.º 305.
(22) «História da Grande Revolução Socialista de Outubro», edições Progresso, 1977, p. 174.
(23) Rudolf L. Tonés, «Bela Kun and Hungarian Soviet Republic, N. Yorque, 1967, p. 143, in «A Europa desde 1870», Jonas Jole, edições D. Quixote, p. 368.
(24) Joaquim Palminha, «Jaime Batalha Reis na Rússia dos Sovietes ou Dez Dias que Abalaram um Diplomata Português, edições Afrontamento, Porto, 1984, p. 227.
(25) Idem, p. 228.
(26) Câmara dos Deputados, Sessão n.º 90, de 27/5/1924, p. 5.
(27) Idem, p. 7.