Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 312 - Mai/Jun 2011

Participação da juventude - Mobilização em banda larga?

por Carina Castro

Num quadro em que os ataques à juventude portuguesa se aprofundam de forma transversal a todas as esferas da vida, assiste-se no dia-a-dia ao reforço da sua luta.
Ciente do potencial revolucionário da juventude, o capital não olha a meios para tentar refrear, desviar e até capitalizá-lo em seu favor, fazendo desta força social o alvo da sua ofensiva. Uma ofensiva com expressão no plano ideológico, no plano das limitações ao direito de organização e de associação, ou ainda através de dificuldades nas condições sociais e económicas, tudo na tentativa de desviar a juventude da sua luta consequente.
Comecemos pelo primeiro aspecto. Desde cedo procura-se incutir, da escola à comunicação social, a ideia de que os jovens estão pouco comprometidos em intervir na sociedade, em organizar-se politicamente. Consequentemente, é frequente ouvir dizer a estudantes que participam nas lutas nacionais e nas da sua escola: «Ah, isso da política não interessa aos estudantes desta escola», ignorando que a sua participação na luta é já expressão desse mesmo interesse.
É uma ofensiva que passa pelo «anti-partidarismo», mas com expressão bem mais profunda e complexa. Atente-se no que diz um manual escolar de Sociologia do 12.º ano, capítulo dos movimentos sociais: «Enquanto os movimentos dos trabalhadores perdiam parte do protagonismo em virtude da aquisição de um conjunto de direitos civis, políticos, económicos e sociais surgiram novos movimentos sociais (…) o direito à igualdade entre mulheres e homens, o direitos a um ambiente equilibrado, a defesa da paz e a luta contra o racismo e a xenofobia e por uma globalização mais humanizada (…). As formas organizativas destes movimentos sociais são mais espontâneas e informais, aproximando-se muito da democracia participativa, e os principais actores sociais envolvidos não são motivados por valores associados à luta de classes (…) não se envolvem com as organizações formais como os sindicatos, os partidos políticos, as empresas ou o governo». (1) E como exemplo destes novos movimentos sociais cita-se a UMAR, a DECO, a Amnistia Internacional ou a ATTAC, sugerindo até que os estudantes convidem a Amnistia Internacional para organizar uma iniciativa na sua escola.
Poder-se-ia desmascarar este texto, desde logo por desligar a luta pela paz, pela igualdade e pelo ambiente da luta de classes. Mas o que pretendemos destacar é o facto de se apresentar como científica a tese de que a luta de classes pertence ao passado, de se fazer a apologia de formas de organização «mais espontâneas e informais», e ainda que no presente tem lugar a «luta» por uma «globalização» (ou capitalismo, se assim quisermos) mais humanizada.
A par disto, decorre uma ofensiva em torno das formas de mobilização e esclarecimento da juventude – mobilização e esclarecimento a partir de organizações de base, de propaganda concreta e do contacto directo/versus os diversos instrumentos da internet e em particular as redes sociais. Nesta matéria, chega-se mesmo a falar de um hiato ou embate geracional, querendo com isto dizer que o que mobilizava antes já não funciona, que os jovens já não querem lutar, que os métodos de mobilização estão gastos.
Não raras vezes é apresentada, até em teses de investigação, a ideia de que a internet, sendo um instrumento universal, é o espaço maior de participação democrática de todos. É comum a teoria de que a internet aproxima «políticos» e população e que tem um papel singular na pressão dos segundos sobre os primeiros. Aqui, convém dizer que, se por um lado a internet, como aliás qualquer desenvolvimento tecnológico no capitalismo, não está ao alcance de todos (basta lembrar que há escolas com 2 a 3 computadores para centenas de estudantes, ou referir o valor mensal de um contrato de internet), por outro, também sabemos que este, tal como qualquer outro espaço de comunicação, não é indiferente à correlação de forças de momento e que, por isso, o volume de informação será sempre favorável à classe dominante, para além de, muito embora seja um instrumento importante, complementar, não pode ser exclusivo.
A nível internacional, um exemplo desta ofensiva encontra-se na forma como se promoveu a luta crescente no Egipto que levou ao actual levantamento popular. Propagandeou-se a ideia de que tudo e todos teriam sido convocados, esclarecidos e mobilizados pelas redes sociais, ignorando que apenas 6,5% da população egípcia está inscrita no Facebook e, sobretudo, a luta que durante anos se travou naquele país, tendo o fundamental da mobilização partido dos locais de trabalho, em particular das fábricas da cintura industrial do Cairo.
No plano nacional, esta ofensiva teve expressão no dia 12 de Março, no protesto «Geração à rasca». Fomentou-se a ideia de que foi mobilizado meramente pelas redes sociais, ignorando as semanas a fio de promoção por parte dos grandes grupos da comunicação social, numa mediatização sem precedentes. O número dos presentes naquele dia (não só jovens, aliás) não é alheio a este facto. Cabe perguntar: como seria a manifestação nacional da CGTP-IN de 19 de Março, a maior manifestação desde a Greve Geral, organizada a partir dos locais de trabalho, assente numa organização sindical profundamente enraizada nos trabalhadores e jovens trabalhadores, se tivesse tido apenas um terço dessa promoção? Sendo profundamente justo o sentimento de indignação daqueles milhares de pessoas face à precariedade e ao desemprego, em particular da juventude, a pergunta que fazemos é de que forma é que desenvolveram a consciência de que é numa manifestação que esse descontentamento deve ser expresso? Foi preciso haver um 25 de Abril (muito antes de haver redes sociais), mas foi, além do mais, necessário desenvolver grandes e pequenas lutas durante estes 35 anos, lutas consequentes porque organizadas e, por isso mesmo, com continuidade e com futuro, contando com a insubstituível contribuição do PCP. O descontentamento, no dia 12 e no dia 19 de Março, assim como no dia 1 de Abril, na manifestação de jovens trabalhadores, só foi feito luta porque, para além das lutas anteriores, há todo um trabalho de contacto, de esclarecimento, de mobilização, que é património de todos os que, lesados pelas políticas de direita, escolhem resistir e lutar.
Mas há ainda outras vertentes desta mesma ofensiva em que o alvo preferencial é a juventude. Senão vejamos: o ano de 2011 foi eleito pelo Conselho da União Europeia como Ano Europeu do Voluntariado, sob o lema: «Sê voluntário! Faz a diferença». Sendo desde logo suspeita a origem desta iniciativa, uma análise ao sítio português (2) encontramos rapidamente explicação. Percebemos que é organizada em colaboração com a «Aliança» (3) – um conjunto de redes europeias activas no voluntariado, com mais de 2000 membros, que tem como objectivo chegar a acordo para apresentar uma proposta à Comissão Europeia no final do ano. Envolve organizações como a Cáritas, a Cruz Vermelha, o Banco Alimentar, várias organizações de Escuteiros  e mesmo a  rede de estudantes Erasmus. A «Aliança», por sua vez, tem como parceiro uma rede de empresas europeias para a «responsabilidade social», como a Coca-Cola, IBM, Microsoft, Total, ou a Novartis.
Na Resolução do Conselho de Ministros n.º 62/2010 sobre esta matéria lê-se  que o voluntariado é fundamental para a democracia, a cidadania activa, a participação cívica e um contributo para a coesão social. E ainda que «as actividades de voluntariado não substituem as oportunidades de emprego profissional pago mas acrescentam valor à sociedade».
Neste quadro, e perante os níveis de desemprego que se registam no seio da juventude, é fomentada a ideia de que se um jovem fizer voluntariado terá melhores oportunidades de emprego – as empresas valorizam o «empreendedorismo» e a «capacidade de liderança» treinadas no voluntariado. Tanto assim é que até há cursos do ensino superior em que fazer voluntariado pode equivaler a fazer uma cadeira, ou ser mesmo obrigatório para a conclusão do curso. No sítio português dedicado ao voluntariado jovem (4) deparamos com as actividades possíveis: retirar crianças da rua, catalogar e ordenar espólio do Cineclube do Porto, OTL, combate ao insucesso escolar, formação informática, ocupação de idosos, reflorestação, apoio jurídico a imigrantes, comemorações do Centenário da República. Mas, afinal, não é ao Estado a quem cabe todas e cada uma destas responsabilidades?
Se, por um lado, esta é uma ofensiva que, capitalizando a vontade justa e real da juventude de querer intervir sobre as desigualdades e injustiças, leva à desresponsabilização progressiva do Estado e nunca combaterá as reais causas de tais injustiças, por outro, pretende-se incutir a ideia de que o problema não é o capitalismo e que se todos fizermos a nossa parte é possível um mundo melhor. E, portanto, mais do que a exploração e opressão de classe, o problema reside no individualismo dos tempos modernos.
Há ainda um facto que o mesmo sítio na internet deixa claro, que é o valor imenso e diversificado que o voluntariado tem para o capital: em Portugal, o trabalho gratuito vale 1300 milhões de euros e o tempo dedicado a organizações sem fins lucrativos equivale a 250 mil trabalhadores a tempo inteiro (!), colaboradores com maior incidência nas faixas etárias dos 25 e 45 anos (5).
Fica, pois, evidente a complexidade e a profundidade da ofensiva ideológica imposta à juventude e também os porquês dos recursos infinitos nela investidos.
Passemos agora à segunda dimensão da ofensiva, aquela que tem a ver com as dificuldades impostas à actividade diária das Associações juvenis, Associações de Estudantes e mesmo sindicatos. Nas primeiras, o ataque surge através de cortes sucessivos no seu financiamento, com processos de atribuição burocráticos e morosos, ou na falta de apoio a infra-estruturas ou outros meios materiais. Esta situação viu-se agravada pela recente Portaria 1276/2010, portaria que, alterando as regras de financiamento, pode acabar com centenas de associações juvenis por todo o país e significar o fim da dinamização cultural e desportiva pelos jovens em muitas localidades. Por isso, um conjunto de associações juvenis lançou já um abaixo-assinado exigindo a sua revogação.
No caso das Associações de Estudantes, se a questão da falta de financiamento é uma realidade, talvez o maior obstáculo à sua actividade, ou mesmo existência, sejam as orientações do Governo no sentido de promover as ingerências de Conselhos Executivos na sua actividade. Muitas vezes são proibidas Reuniões Gerais de Alunos, outras vezes as eleições para as Associações são impedidas, consideradas nulas, ou com regras definidas pelos próprios Conselhos Executivos.
No que se refere ao movimento sindical, a realidade é marcada por ataques à sua actividade diária e ao direito de organização e associação dos trabalhadores, matéria que tem vindo a ser abordada pelo «O Militante».
Tudo isto são exemplos de uma tentativa real de obstaculizar o movimento associativo juvenil por parte dos sucessivos governos e do grande capital, e não há encenação de «Anos Internacionais da Juventude» (6) capaz de esconder.
Mas há ainda a terceira dimensão desta ofensiva, traduzida nas dificuldades crescentes, sociais e económicas, que os jovens enfrentam diariamente. São cada vez em maior número os jovens que acumulam estudo e trabalho, fazendo uma enorme ginástica de horário e de energia para poder estudar. tudo porque os custos da educação aumentam e os apoios sociais diminuem. Neste quadro, quem é que tem disponibilidade para participar numa Associação? E o que dizer dos jovens trabalhadores com salários de miséria, sem contrato, ou com contrato precário que se desdobram a trabalhar em dois e três empregos para fazer face às despesas mensais? Ou ao receio de ser despedido pelo facto de fazer greve ou de participar numa manifestação, ou somente por se ter sindicalizado? É este também um elemento que naturalmente afastará alguns dos filhos das classes trabalhadoras da participação e mobilização activa pela defesa de direitos.
No entanto, e  apesar deste quadro dramático, hoje como sempre os jovens têm sabido resistir, mesmo nas mais difíceis condições. Fazendo frente à ofensiva e às dificuldades, organizam e reforçam milhares de associações locais, juvenis, desportivas e culturais, formam e dinamizam Associações de Estudantes, reforçam diariamente o movimento sindical de classe, e diariamente tomam partido no seu partido de classe, o partido da juventude, aderindo ao PCP e à JCP!
Para a continuidade desta imensa luta que a juventude portuguesa tem travado e continuará a travar, poderá sempre contar com os comunistas portugueses.


Notas

(1) «Sociologia 12.º ano», de Maria João Pais, Maria da Luz Oliveira, Maria Manuela Góis, Belmiro Gil Cabrito, Texto Editores, Lisboa, 2009, pp. 249-256.
(2) http://www.aev2011.eu/aev2011/
(3) http://www.eyv2011.eu/
(4) http://voluntariadojovem.juventude.gov.pt/Promotores/listapromotores.asp
(5) Dados retirados do sítio http://www.aev2011.eu/aev201/ e também do estudo sobre voluntariado na UE, concretamente o relatório sobre Portugal: http://ec.europa.eu/citizenship/eyv2011/doc/National%20report%20PT.pdf
(6) De Agosto de 2010 a Agosto de 2011 foi declarado pela ONU «Ano Internacional da Juventude».