Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Tema, Edição Nº 331 - Jul/Ago 2014

Fragilização do jornalismo enfraquece a democracia

por Fernando Correia

Vivemos uma época caracterizada por notáveis avanços tecnológicos, nomeadamente no que se refere às novas possibilidades e ao grande aumento da produção e circulação da comunicação. E, no entanto, os profissionais especializados em recolher, confirmar, avaliar, elaborar e divulgar a informação, no sentido jornalístico do termo, que supostamente deveriam estar entre os principais protagonistas em todo este processo, têm nele cada vez menos peso. As consequências estão longe de se limitar ao âmbito de uma profissão ou de um sector de actividade. A transversalidade social do jornalismo, na perspectiva da sua diversificada e profunda influência na definição do espaço público e na qualidade da cidadania e da própria democracia, exige – e a realidade portuguesa bem o demonstra – a colocação desta temática no centro do debate político e ideológico.

A autonomia e a qualidade dos jornalistas enquanto mediadores entre os acontecimentos e o público está gravemente ameaçada. Existe uma cada vez maior subalternização dos jornalistas (e do jornalismo) nas empresas de comunicação social, em favor de sectores como a gestão, o marketing, as relações públicas e a publicidade. Na produção da informação estão sujeitos à concorrência ou intromissão de novos protagonistas exteriores ao campo jornalístico, oriundos da animação, do entretenimento, da colaboração externa (comentadores, colunistas, «especialistas», etc.), assim como das fontes profissionais.

A actual situação dos jornalistas caracteriza-se pela sujeição a uma complexa rede de pressões: 1

  • laboral, traduzida em despedimentos, instabilidade de emprego, precariedade, diminuição dos salários reais, desrespeito pela contratação colectiva, violação do Código de trabalho, imposição da polivalência funcional em diversas plataformas sem respeito pelos direitos de autor.
  • profissional, com o primado dado na produção da informação à velocidade, ao efémero e ao superficial, à diminuição do tempo para pensar, elaborar, contextualizar e investigar, ao lugar crescente dado aos critérios comerciais, à apropriação da informação pelo entretenimento, à tendência geral para o emagrecimento das redacções e consequente necessidade de tratar temáticas para as quais não estão preparados.
  • deontológica, com a imposição da comercialização e do sensacionalismo, da mistura do entretenimento e da publicidade com a informação, levando jornalistas, nomeadamente os de estatuto mais vulnerável, a comportamentos que põem em causa princípios éticos fundamentais da profissão.
  • empresarial, em que as «sinergias de grupo» transformam aquilo que seria o natural melhor aproveitamento de recursos humanos e logísticos, noutra coisa: com menos gente e menos investimento querer fazer o mesmo ou ainda mais, com diminuição da qualidade e introdução de um clima de insegurança.

Acrescente-se o desincentivo mais ou menos explícito à actividade sindical e as restrições e condicionamentos à acção das estruturas representativas dos trabalhadores, nomeadamente os Conselhos de Redacção, através de um clima de intimidação – ainda que por vezes a táctica patronal seja aceitar e dialogar com essas estruturas, procurando utilizá-las como estratégia de apaziguamento e desmobilização e como forma de controlo.

Pressão político-ideológica

Especial destaque deve ser dado às pressões de natureza político-ideológica, tendo em conta os seus reflexos directos na formação das opiniões e nos comportamentos, incluindo os eleitorais. Concretizam-se na contaminação verbal e conceptual vinda quer das assessorias e empresas de comunicação (ver mais adiante), quer de colunistas e comentadores – os televisivos são os que têm maior influência – apresentados muitas vezes como «especialistas independentes», mas enfeudados apenas e só a determinados sectores políticos e ideológicos, geralmente de matriz liberalizante, liberal ou neoliberal.

Exemplos evidentes desta contaminação: um, a vulgarização da expressão «arco da governação», não enquanto alusão a uma realidade político-partidária das três últimas décadas e meia de governação, mas sim apresentada e naturalizada como algo de inevitável e perene, inerente à essência da democracia portuguesa, e que alguns enunciam mesmo como «os três mais importantes partidos nacionais». Outro exemplo, ligado ao anterior, é a utilização do termo «classe política» pressupondo que todos os políticos (e por arrastamento todos os partidos e todas as formas de fazer política) são iguais, «do mesmo grupo», escondendo deliberada e não inocentemente factos como as características e identidade próprias do PCP. 2

Para a contextualização destas pressões não podem deixar de ser referidas as limitações ao pluralismo político e ideológico, veiculadas dentro das redacções através de mecanismos internos de controlo como a escolha de responsáveis editorais, o estabelecimento da agenda, a selecção dos convidados externos, a contratação de jornalistas ou, mais subtilmente, o estabelecimento nas salas de redacção de um consenso implícito sobre o que pode ou não pode, e como, ser notícia. Sublinhe-se que estas limitações ao pluralismo são também flagrantes no noticiário internacional, nomeadamente televisivo, dependente da agenda temática e dos ângulos de abordagem utilizados nos materiais distribuídos pelas agências noticiosas, nomeadamente anglo-americanas, subordinadas às estratégias do imperialismo.

Toda esta situação assenta no domínio quase absoluto, no que se refere aos órgãos de informação com maior influência na opinião pública (principalmente televisão e imprensa, quer a «popular» e «cor de rosa» quer a dita de «referência») de grandes grupos económicos, cujos objectivos, incluindo os jornalísticos, estão subordinados à obtenção de mais-valias financeiras e, simultaneamente, à obtenção do lucro político e ideológico conveniente aos interesses da classe dominante.

Informação e capitalismo

A construção do profissionalismo jornalístico no nosso país tem as suas origens nos finais do séc. XIX, com o nascimento da imprensa industrial, intimamente ligada à entrada da publicidade nas páginas dos jornais e sua rápida transformação no principal suporte financeiro do negócio, no quadro do desenvolvimento do sistema capitalista. Esta dependência estendeu-se posteriormente à rádio, à televisão e aos meios digitais, nunca deixando de implicar, antes pelo contrário, a condição de assalariamento do jornalista.

O conhecimento da existência desta condição é crucial para a compreensão do estatuto profissional da grande maioria dos jornalistas e do seu lugar subalterno na hierarquia do poder de decisão quanto à selecção e apresentação dos conteúdos noticiosos. Esta questão não pode ser iludida ou mascarada pela existência de uma pequena elite jornalística, próxima do poder empresarial, que efectivamente tem esse poder de decisão, e em muitos casos intervém no espaço público com uma visibilidade e um protagonismo que estão longe de representar o que se passa com os restantes profissionais. Sendo que, obviamente, mesmo entre os jornalistas que não ocupam posições de topo, há, como em qualquer outro grupo profissional, os que se identificam com a situação vigente.

Nos últimos anos a convergência de vários factores veio tornar ainda mais frágil a situação dos jornalistas e da informação. Enunciemos alguns:

– Papel central ocupado pelos grandes media – os media dominantes, nomeadamente a televisão – na formação e no condicionamento da opinião pública, tornando-os num instrumento indispensável ao domínio político e ideológico do grande capital, ao controlo da conflituosidade social, ao exercício do poder e à hegemonia de classe.

– Primado do factor económico, hoje claramente no topo da hierarquia dos poderes (incluindo o político), com peso absoluto na propriedade dos media mais influentes e, consequentemente, na definição dos objectivos estratégicos, nas orientações editoriais e na formação da opinião pública.

– Emergência do online e de um extraordinário aumento através da Internet, nomeadamente das redes sociais, do tráfego comunicacional, em que a informação (no verdadeiro sentido jornalístico) se dilui e mistura, muitas vezes numa amálgama pouco ou nada transparente, com propaganda, epístolas, entretenimento, publicidade, debate de ideias, análises, comentários, declarações oficiosas, campanhas, assédios de alcova, boatos, intrigas, confidências, insultos e outras formas mais ou menos próprias do relacionamento entre as pessoas.

– Crise da imprensa escrita, gravemente ameaçada pelo jornalismo digital, e desesperadamente em busca de um novo «modelo de negócio».

– Dificuldades económicas de grande parte das empresas de comunicação social, devido ao período de transição que o sector está a atravessar e à crise do próprio sistema capitalista ao qual estão estruturalmente ligadas, e que se reflecte, nomeadamente, na queda da publicidade.

A compreensão da situação actual, enquanto ponto de partida indispensável para o combate a travar, passa pela necessidade de sublinhar a ligação entre o jornalismo e a sociedade capitalista. Esta ligação assume um carácter de natureza estrutural, com as naturais consequências que uma tal situação acarreta.

A caracterização como estrutural assenta, desde logo, no tipo de propriedade dos media de maior influência, e na sua natureza de classe. Domina a concentração: cinco grupos económicos são donos de uma centena dos principais órgãos de comunicação que temos, abrangendo imprensa, rádio, televisão e digital.

A questão da propriedade dos media tem a ver com a importância do factor económico, que se prolonga e repercute no universo mediático, a nível de funcionamento, de conteúdos, de lógica interna, tornando natural e óbvio aquilo que, no fundo, simplesmente corresponde às estratégias de autoreprodução e manutenção do sistema. Mas há outros elos da cadeia que não podem ser esquecidos. Dois são fundamentais.

Um é a publicidade, principalmente a dependente das grandes multinacionais ligadas ao núcleo duro do capitalismo, cujo peso decisivo na economia dos media acaba por se reflectir, directa ou indirectamente, nos conteúdos, incluindo os informativos. Outro, e para o qual pretendemos chamar particularmente a atenção, dado ser pouco conhecido do público em geral, apesar de ter influência directa no trabalho jornalístico, são as fontes profissionais, também chamadas fontes poderosas.

As fontes poderosas

Discretamente, longe das luzes das manchetes – ou não fosse o segredo a alma do negócio – agências e empresas de comunicação, de consultadoria e de assessoria têm assumido um papel cada vez mais significativo na produção da informação. Entre as várias dezenas que existem em Portugal, algumas empregam mais gente do que as redacções da maioria dos nossos jornais e canais televisivos.

O seu peso faz-se particularmente sentir no jornalismo económico – jornais e revistas, páginas e suplementos especializados, programas radiofónicos e televisivos, mas também redes sociais – onde muito do que se noticia e comenta corresponde a interesses de empresas e grupos económicos, empresários e gestores, accionistas e investidores, obviamente os de maior dimensão financeira, interesses esses geralmente veiculados pelas agências de comunicação e congéneres.

Este tipo de ligação entre o poder económico e o poder mediático – corporizado, aliás, na ampla participação daquele neste, a nível da propriedade – permite compreender a abundância e a própria sobrevivência de órgãos de comunicação e rubricas de economia e finanças, com conteúdos em que as abordagens na perspectiva do mercado largamente suplantam as questões relacionadas com o desenvolvimento, e em que a atenção pelo factor capital é ostensivamente superior à do factor trabalho.

Este território relaciona-se directamente com o da publicidade. O papel das agências de comunicação que colocam nos media determinados temas e induzem entrevistas com esta ou aquela personalidade, não difere, no essencial, da função das agências de publicidade que negoceiam com os media a inclusão de anúncios: em ambos os casos, trata-se de conteúdos pagos, ainda que com características diferenciadas.

Numa recente entrevista, 3 um profissional deste sector, ligado à área política e institucional, mas também com una carreira académica na investigação e no ensino universitário, deixa-nos dados concretos e opiniões de grande interesse para uma melhor contextualização do tema aqui abordado. Desde logo sobre o peso actual destas fontes – e por isso se lhes chama poderosas: «mais de 60% das notícias resultam de uma acção de indução por parte de assessores de imprensa, relações públicas, consultores de comunicação, porta-vozes e outros peritos de spin doctoring».

O aumento da sua capacidade de penetração liga-se directamente à crescente fragilização dos colectivos redactoriais: «A assessoria de imprensa trabalha em cima das brechas do jornalismo», nomeadamente a falta de meios humanos e de tempo para pensar. A tendência vai no sentido da diminuição da cobertura jornalística por iniciativa dos jornalistas e do aumento do aproveitamento do que vem das agências.

A situação nas salas de redacção potencia uma maior «dependência das fontes profissionais de informação», que cada vez mais foram evoluindo na sua forma de actuação, nomeadamente «na redacção e indução de temas, apurando as suas técnicas até com cruzamento de áreas como o marketing e mesmo na área do marketing emocional, transformando cada vez mais um conjunto de acontecimentos em produtos noticiáveis.»

Os comunicados enviados para as redacções foram abandonando a adjectivação e passaram a ser concebidos de outra forma: «Hoje em dia um jovem assessor de imprensa sabe que tem de escrever a notícia como um produto final e sabe que quanto mais produto final for, melhor é o seu sucesso. Chegamos ao ponto de tentar desenvolver suportes de promoção adaptados à linha editorial dos órgãos de comunicação social, até pensando no livro de estilo. Assim o produto torna-se mais eficaz. Se as redacções não têm gente e têm pouco dinheiro, a tendência é que aproveitem cada vez mais este material, que é informativo, útil e gratuito.»

Assim sendo, «é apenas necessário embrulharmos a informação de forma diferente. Um assessor de imprensa que quer chegar ao Correio da Manhã não o faz com a legislação, mas sim com casos particulares de como essa legislação afecta as pessoas. O que o assessor de imprensa faz é mais uma vez dar um exclusivo, uma primeira mão, mas embrulhado na linha do jornal, o caso pessoal, a situação económica, o crime. Enquanto o Público, ou um quality paper, se preocupa mais com as medidas dos partidos do que com a aplicação da própria lei.»

No jornalismo a questão das fontes é fundamental. O jornalista, quando escreve uma notícia, tem que recolher informação junto de quem lha possa fornecer. Entretanto, o que se verifica é «uma tendência dos jornalistas, nas últimas décadas, para camuflarem o nosso trabalho e da nossa parte também há uma atitude de nos mantermos ocultos. É mais fácil operar e desenvolver estratégias se não formos reconhecidos. Tem muito mais peso para quem lê a notícia se o jornalista não revela a fonte do que dizer que foi o assessor de imprensa que deu aquela informação!» A consequência é que o leitor «pouco conhecedor de como se fazem as notícias, acha que aquilo é o jornalista que diz, mas por detrás há uma fonte.» Sendo que «as fontes são sempre interessadas…»

Para o trabalho jornalístico, tão importante como as fontes é a necessidade de confirmar as informações que elas fornecem. Mas o que acontece é que «cada vez mais o jornalismo não valida, pelo contrário, aproveita as informações institucionais, sem as confirmar. A arte da validação que sustenta o jornalismo tem vindo cada vez mais a desaparecer», devido «ao carácter imediato do jornalismo, à necessidade de colocar informação online, às outras pressões e relações de força dentro das redacções, à gestão do jornal e das questões financeiras. Tudo isso condiciona o trabalho do jornalismo.»

As referências contidas nestas citações às «fontes poderosas» são um útil contributo para a avaliação da frágil situação do jornalismo e da informação, entendendo estes não enquanto um departamento ou uma fatia da sociedade, mas como um fenómeno social total cuja transversalidade o torna ponto de passagem obrigatório para a compreensão da realidade e a necessária luta pela sua transformação. Certo é que pressões e condicionalismos estão a pôr claramente em causa, nos precisos termos constitucionalmente consagrados, «a liberdade de imprensa» e «a liberdade e a independência dos órgãos de comunicação social perante o poder político e o poder económico». E a fragilização do jornalismo significa sempre o enfraquecimento da democracia.

Notas

(1) Ver Fernando Correia, «Jornalistas sob pressão», Jornalismo & Jornalistas, n.º 52, Outubro/Dezembro de 2012.

(2) Ver António Filipe, O Militante, n.º 327, Novembro/Dezembro de 2013, e Vasco Cardoso, Avante! de 15 de Maio de 2014.

(3) Entrevista com Vasco Ribeiro, Jornalismo & Jornalistas, n.º 53, Janeiro/Março de 2013.