Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 344 - Set/Out 2016

Vasco de Magalhães-Vilhena - Filósofo e militante comunista

por Manuela Bernardino

(*) Intervenção de Manuela Bernardino, em representação do PCP, na homenagem a Vasco de Magalhães-Vilhena.

A homenagem a Vasco de Magalhães-Vilhena, por ocasião do centenário do seu nascimento, que hoje, aqui na Faculdade de Letras de Lisboa, se realiza tem um grande valor e um importante significado.

Magalhães-Vilhena é um vulto maior como pensador contemporâneo português. Historiador social das ideias como ele próprio aceitou ser considerado, a sua projecção internacional como investigador marxista foi muito grande desde o início da década de 50, após a defesa das suas teses de Doutoramento de Estado na Sorbonne – tese principal e tese complementar – sobre Sócrates e a sua publicação em França.

Testemunho dessa projecção está contido no livro Filosofia. História. Conhecimento. – Homenagem a Vasco de Magalhães-Vilhena – trabalho coordenado por Eduardo Chitas e Hernâni Resende – em que filósofos de várias nacionalidades, muitos que com ele dialogaram sobre as respectivas investigações e debateram ideias em numerosas Conferências e Seminários internacionais, aceitaram participar nesse trabalho «para lhe ser oferecido no ano do seu 70.º aniversário, em 1986» como uma homenagem «ao labor de toda uma vida dedicada à cultura filosófica moldada na investigação científica», como refere a Nota Prévia da edição desse trabalho pela Editorial Caminho, o qual por dificuldades imprevistas só viria a ver a luz do dia em 1990, felizmente ainda em vida de Magalhães-Vilhena.

A nossa jornada de trabalho de hoje irá certamente contribuir para prosseguir, no plano nacional, a merecida projecção da vida e da obra de Vasco de Magalhães-Vilhena.

O Partido Comunista Português – de que Magalhães-Vilhena foi membro desde muito, muito jovem, início dos anos 30, quando era estudante desta Faculdade e iniciava a sua actividade intelectual, e que integrou as suas fileiras até ao fim dos seus dias – sente grande satisfação em intervir nesta importante iniciativa que muito valorizamos.

Recordamos, a propósito, que foi também nesta Faculdade, e neste edifício, que Magalhães-Vilhena terminou a sua actividade académica (como professor catedrático), actividade iniciada na Universidade de Coimbra e interrompida durante três décadas devido à perseguição política do regime fascista português que não perdoava a quem coerentemente se lhe opunha, como foi o caso de dezenas de professores universitários na década de 40, cujo afastamento das respectivas cátedras veio a prejudicar e a empobrecer o papel da Universidade no nosso país, atirando para o exílio muitos dos mais competentes e destacados intelectuais portugueses.

É ainda como estudante que Magalhães-Vilhena participa em várias conferências sobre temas diversos, revelando já uma elevada erudição, e inicia a sua colaboração em jornais e revistas com orientações progressistas. Escreve para O Diabo e para a Seara Nova, onde conhece António Sérgio de quem se aproxima devido ao interesse comum pela filosofia e cujo pensamento lhe vai merecer estudo aprofundado, na base da crítica ao seu idealismo crítico, o que dá origem a várias publicações, uma das quais já após o seu falecimento, numa edição da Colibri com o apoio desta Faculdade e da Associação Internacional Racionalista.

É do interesse de todos os que se dedicam ao estudo das ideias criar as condições para que se possa prosseguir, através dos esforços que se revelarem necessários, para que outros inéditos venham a ser publicados, aliás segundo a vontade expressa por Magalhães-Vilhena, como foi o caso já atrás referido (ou seja, a publicação de António Sérgio – O Idealismo Crítico: Génese e Estrutura; Raízes Gnoseológicas e Sociais; Estudos de História Social das Ideias) e Estudos inéditos de Filosofia Antiga, editado pela Fundação Gulbenkian, em 2005, bem como, mais recentemente, Fragmentos sobre Ideologia, editado pelo Grupo de Estudos Marxistas.

Sobre a obra de Magalhães-Vilhena, muito vasta, desde o estudo dos filósofos gregos da Antiguidade até Marx e Lénine irão ocupar-se os palestrantes convidados.

Contudo, não quero deixar de referir a importância que teve para uma geração de estudantes liceais de Filosofia, nos seus 6.º e 7.º anos, a reedição, em 1956, do seu Pequeno Manual de Filosofia, que, no quadro da ditadura fascista e da vigilância policial, foi adoptado por vários professores, que com essa escolha contribuíram para a formação da consciência democrática antifascista de muitos jovens que impulsionaram o crescente papel que, com as lutas de 1962 e 69, o movimento estudantil desempenhou na resistência antifascista.

Do seu espólio, o PCP doou à Faculdade de Letras, em finais de 2015, a Biblioteca de Magalhães-Vilhena e de sua mulher Hélène, composta por alguns milhares de volumes. Biblioteca que se deverá manter una, estando já a Faculdade a fazer o seu tratamento bibliográfico a fim de possibilitar a sua consulta ao público. Concretizado esse objectivo ter-se-à dado um valioso contributo para o acesso a obras, em muitas línguas, que foram instrumento de trabalho de pesquisa e investigação de Magalhães-Vilhena e estar-se-à assim a possibilitar um melhor conhecimento do seu pensamento e da sua obra.

Magalhães-Vilhena, investigador marxista do marxismo, é um caso exemplar de militante comunista que aliou sempre a investigação à intervenção social e política dando jus ao seu estudo sobre a tese de Marx que considerava que a teoria quando apropriada pelas massas se torna uma poderosa força material. Num seu artigo publicado em 1994 em O Militante 1, Magalhães-Vilhena considera que na base dessa tese de Marx está «a ideia implícita… que as estruturas teóricas do conhecimento e do saber não têm um fim em si mesmas, antes possuem uma irrecusável, ainda que nem sempre imediatamente evidente, destinação social: são função da práxis».

A vida do comunista, investigador do marxismo é disso testemunho.

A partir da sua ideologia, claramente sedimentada, foi um antifascista activo desde os tempos da Faculdade. Pertenceu à Liga Portuguesa contra a Guerra e o Fascismo e participou, em 1945, na fundação do MUD, que foi a maior organização unitária sob o fascismo em que convergiram destacados intelectuais de várias áreas da cultura e da ciência com trabalhadores de diversos sectores, no quadro do ambiente da Vitória sobre o nazi-fascismo.

No final desse ano deixa Portugal porque a Universidade de Coimbra não lhe renova o contrato como assistente. Recebe uma bolsa do Governo francês. No exílio dedica-se com grande entusiasmo, tenacidade e rigor ao seu doutoramento, que finaliza em 1949. A publicação das suas teses tem uma enorme repercussão, como já afirmámos.

Prossegue a sua investigação em condições que não teria em Portugal sob o fascismo. Mas não deixa de vir de férias durante alguns anos, até ao momento em que avalia que corria o risco de ser preso. A PIDE continua a vigiá-lo. Intercepta a sua correspondência com intelectuais e democratas portugueses e segue a sua actividade como membro do Conselho Mundial da Paz e o seu empenho no processo para a Segurança e Cooperação na Europa, bem como toda a sua acção de denúncia do carácter repressivo do regime de Salazar-Caetano e de apoio internacional para a libertação dos presos políticos.

Regressa ao país com a Revolução de Abril, no chamado, como ele diz, «avião da Liberdade». O mesmo em que regressou Álvaro Cunhal e tantos outros antifascistas. Retoma o ensino universitário, aqui na Faculdade de Letras.

Simultaneamente empenha-se na actividade editorial das Edições «Avante!», num tempo de intensa luta ideológica que caracterizou a Revolução de Abril. Acompanha as traduções a partir dos originais dos principais textos dos teóricos do marxismo. Merece referência especial a edição do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, que inserindo prefácios de edições em várias línguas contém um vasto conjunto de notas complementares da sua autoria, bem como uma importante nota introdutória, também da sua autoria, sobre a primeira tradução em português do Manifesto, em 1873, publicada em folhetim pelo jornal O Pensamento Social.

Magalhães-Vilhena, cujo valor intelectual e contributo para a história das ideias foi reconhecido na União Soviética, recebeu a medalha de ouro Lénine, que lhe foi entregue anos mais tarde, em Lisboa, na sede da Associação de Amizade Portugal-URSS. Também foi agraciado no nosso país com a Ordem da Liberdade, em 1985, para além de alguns prémios e muitos louvores que lhe foram dedicados, em vários países.

O PCP alegra-se com o respeito que a sua obra merece e o aproveitamento que estudiosos do movimento das ideias, ou simples cidadãos, dela possam fazer para a construção do nosso devir colectivo, dum país de progresso, independente e soberano, dum Portugal com futuro.

Notas

(1) Vasco de Magalhães-Vilhena, artigo Karl Marx: A teoria, força material, in O Militante, N.º 212, Setembro-Outubro/94, pp. 43-47.