Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 345 - Nov/Dez 2016

Intervir em contextos difíceis - Experiências de trabalho da JCP

por Valter Cabral

Como o Partido e a JCP têm vindo sucessivamente a denunciar, a política de direita levada a cabo nos últimos anos no nosso país tem consequências nefastas em particular para a juventude. São inúmeros os ataques e ofensivas, os quais têm consequências bem concretas, nomeadamente nos jovens que estão localizados fora dos grandes centros urbanos, em regiões ou terras que hoje sofrem as consequências de políticas que promovem o despovoamento e de verdadeira destruição económica, social e humana. A destruição do aparelho produtivo, do emprego e dos serviços públicos, como a saúde e a educação, com encerramentos de escolas, hospitais, centros de saúde, tribunais e tantos outros serviços, são políticas de ataque aos direitos que, afectando jovens de todo o país, têm consequências particularmente gravosas nas regiões do Interior.

Muitos são os jovens forçados a abandonar a escola porque não têm condições económicas para continuar a estudar. Desses, muitos têm de deslocar-se para os grandes centros urbanos para encontrar emprego. Enfrentam a dura realidade do desemprego, da precariedade, dos baixos salários, da instabilidade laboral, dos horários desregulados, muitas vezes contando apenas com «biscates», ou com o trabalho sazonal – no turismo ou na agricultura – para «acumular para o Inverno» como a formiga da fábula. Os elevados custos dos transportes, conjugados com os baixos salários, impedem muitos jovens de encontrar emprego porque das duas, uma: ou os horários das carreiras são incompatíveis com o horário de trabalho, ou o seu elevado custo implicaria praticamente ter de «pagar para trabalhar».

Outros são forçados a ir para cursos de vias profissionais onde lhes é prometido que rapidamente podem encontrar trabalho, o que muitas vezes não passa de uma ilusão. Uma realidade que se aprofunda com cada vez mais concelhos em que a única escola existente é uma escola profissional – realidade que é fruto dos sucessivos cortes, encerramentos de cursos e escolas, impedindo muitos jovens de seguir os cursos que desejam. Basta ver como, no distrito de Beja, se contam pelos dedos da mão as escolas com a área de Artes Visuais. Para seguirem o curso que desejam, para poderem sonhar com o acesso ao Ensino Superior, a única opção é irem para uma escola a quilómetros de distância, acumulando despesas adicionais para as famílias e o cansaço de ter de fazer longas horas de viagem. Centenas de estudantes acordam ao amanhecer para enfrentar uma longa viagem até à sua escola e ao terminar as aulas têm apenas 5 a 10 minutos para apanhar o autocarro de volta, ou ficar durante longas horas até apanhar o próximo. Este é caso dos estudantes que frequentam a Escola Profissional de Alvito, concelho cujo único meio de transporte existente é o comboio, o qual está localizado a 5km da vila. Os estudantes ficam dependentes do transporte da escola que apenas faz viagens de manhã e no fim da tarde. Esta realidade é transportada para outros concelhos onde existem imensos estudantes deslocados devido à fraca oferta educativa na sua terra, como é o caso das dezenas de estudantes do distrito que vão estudar para as escolas profissionais de Serpa, Beja, Cuba e Moura.

Os que conseguem aceder ao Ensino Superior têm de se deslocar para outras cidades devido à falta de oferta e ao desinvestimento, deparando-se com os custos das propinas e de outros gastos que um estudante deslocado enfrenta. Com a falta de resposta da Acção Social Escolar, muitos têm de trabalhar para suportar esses custos ou mesmo abandonar os seus estudos.

É frequente vermos jovens com sentimentos de desistência, medo, falta de perspectiva de vida, raiva, desespero e marginalização. Esses sentimentos e realidades são consequência de uma política de brutal ofensiva sobre os direitos e condições de vida dos jovens, articulados com uma brutal ofensiva ideológica que visa promover o conformismo, a resignação e a alienação. É frequente nestes meios vermos jovens que procuram no álcool e nas drogas uma forma de esconder e evitar o confronto com a sua realidade.

É neste contexto que os muitos jovens comunistas intervêm, colocando dia-a-dia novos obstáculos e desafios para a intervenção junto da juventude. A campanha «Mais JCP, mais Luta, Avante com Abril!» definiu um conjunto de objectivos para aumentar a influência e a intervenção dos seus militantes, criando melhores condições para uma maior acção política junto da juventude. Uma campanha que reafirma a prioridade de intervenção nas escolas e locais de trabalho como espaços em que se expressa de forma mais directa a luta de classes, e onde é possível criar unidade em torno de questões concretas e associá-las a questões mais gerais, possibilitando, pelo reforço da luta e pelo alcançar de vitórias concretas, o aumento da consciência da luta como caminho para conseguir vitórias mais gerais. Como os exemplos acima referidos demonstram, a intervenção da JCP nas escolas e nos locais de trabalho permite uma maior ligação à realidade da juventude, aos seus problemas e aspirações, no sentido de desenvolver a luta de massas. Tal não apaga a necessidade de, perante realidades concretas marcadas por uma grande dispersão dos jovens (por exemplo, originadas pelo desemprego), encontrar formas de intervenção adaptadas a essas realidades, que permitam que a JCP tenha intervenção junto desses milhares de jovens, indo ao encontro dos seus problemas, interesses e aspirações. Perante a consciência das dificuldades e potencialidades, é necessário pensarmos e agirmos de modo criativo por forma a integrar e organizar estes jovens.

Os exemplos têm sido muitos para demonstrar que, ao realizarmos acções no seu meio, possibilitamos oportunidades para conversar e envolver jovens que, de outra forma, não conseguiríamos contactar. Exemplo disso é o prestígio e a influência que a JCP tem com a realização de diversas iniciativas em aldeias rurais do distrito de Beja, que já deram frutos na intervenção nas escolas e nos locais de trabalho. Por exemplo, na aldeia de Santo Amador, em Moura, ou em Beringel, concelho de Beja, onde a realização de iniciativas de convívio permitiu recolher dezenas de contactos de jovens estudantes do secundário de Moura e de Beja, tendo-se passado o mesmo no Penedo Gordo com a realização de uma churrascada. Outras iniciativas já estão planeadas para Novembro, por exemplo um torneio de sueca.

A nossa aproximação aos locais onde a juventude se reúne para discutir, conversar e entreter – como cafés, praças, jardins – é de grande importância. Os jovens da JCP como quaisquer outros jovens conversam sobre a bola, o trabalho, sobre as suas preocupações e sobre a sua vida. Muitas vezes é a partir dessa presença que conseguimos frutos para a intervenção junto dos jovens, como aconteceu com o contacto com jovens operários agrícolas de Ferreira do Alentejo e Pias, o que permitiu conhecer melhor a realidade dos seus locais de trabalho e abrir perspectivas para intervenção e luta.

Acções como concertos, festas, torneios de futebol, murais, torneios de jogos de computador, dinamização de espaços da JCP em festas populares – iniciativas que, podendo parecer pequenas, podem ser muitas vezes a única actividade dedicada aos jovens e dinamizada por jovens naquela aldeia ou localidade; a participação de jovens comunistas no movimento associativo local é um factor que contribui para o prestígio da JCP e para desfazer preconceitos.

Estas acções nunca são desligadas do objectivo de trazer outros jovens para a organização e para a luta, potenciando que sejam os próprios jovens a criar e a impulsionar essa dinâmica. Por exemplo, a festa realizada no concelho da Vidigueira sem que houvesse nenhum militante activo da JCP, e em que numa margem curta de tempo, mas com muita energia na discussão, elaboração, construção e mobilização, envolvendo muitos amigos, foi possível criar as condições para mais tarde criar e consolidar dois colectivos de escola (nas escolas básica e profissional), intervenção nos locais de trabalho e reactivar o ânimo e a participação dos militantes da JCP, que voltaram a participar na organização. Ou através do envolvimento da JCP nas Festas de Arraiolos, em que foi possível reforçar a organização com mais militantes e criar unidade na elaboração de uma lista para Associação de Estudantes da escola do concelho.

Além de afirmar a JCP, em muitas destas actividades os jovens pela primeira vez criam algo a partir da sua própria discussão colectiva, enfrentam juntos dificuldades e superam-nas, descobrindo o valor do trabalho colectivo, o que, perante a ofensiva ideológica de promoção do individualismo e do conformismo, tem um elevado alcance político. Há sempre um jovem que passa a questionar-se: e se o conhecimento e acção dos seus amigos, colegas e outros milhares de jovens fossem colocados ao serviço de toda a população, criando mais e melhores serviços públicos ao invés do seu encerramento, para servir os lucros dos grandes interesses económicos, prejudicando o povo? E se, ao contrário de promover a desertificação das nossas aldeias, vilas e freguesias, as suas forças e vontade fossem utilizadas para desenvolver o interior do país?

Estes exemplos demonstram que é possível, mesmo em realidades muito difíceis, reforçar a JCP através de diferentes formas, tendo sempre como objectivo a criação, consolidação de colectivos e o aumento da sua capacidade realizadora, elemento essencial para que a JCP assuma o seu papel de vanguarda no desenvolvimento da luta da juventude e para afirmar de forma consistente a JCP, o Partido, os valores de Abril, o projecto e ideal comunistas junto dos jovens.