Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

II Centenário de Karl Marx, Edição Nº 354 - Mai/Jun 2018

Karl Marx

por Revista «O Militante»

Artigo de Friedrich Engels*

O homem que primeiro deu ao socialismo – e, com ele, a todo o movimento operário dos nossos dias – uma base científica, Karl Marx, nasceu em Trier em 1818. Ele estudou em Bonn e em Berlim, em primeiro lugar, ciências jurídicas, mas, em breve, se dedicou exclusivamente ao estudo da história e da filosofia e, em 1842, estava a ponto de concorrer para professorde filosofia [na Universidade], quando o movimento político surgido após a morte de Frederico III o atirou para outra carreira. Com a colaboração dele, os cabecilhas da burguesia liberal renana – os Camphausen, Hansemann, etc. – fundaram, em Colónia, a Rheinische Zeitung [Gazeta Renana], e Marx, cuja crítica dos debates do Landtag provincial renano tinha causado grande sensação, foi, no Outono de 1842, posto à frente da folha. A Rheinische Zeitung publicava-se, naturalmente, sob censura, mas a censura não conseguia fazer nada dela **. A Rheinische Zeitung quase sempre fazia passar os artigos que convinha; atirava-se primeiro ao censor palha da mais insignificante para cortar, até que ele desistia por si próprio ou era forçado à desistência pela ameaça de que a gazeta se não publicaria no dia seguinte. Houvesse dez gazetas que tivessem a mesma coragem do que a Rheinische e cujos editores tivessem deixado gastar uns centos de táleres mais em custos de composição – e a censura na Alemanha teria sido tornada impossível já em 1843. Mas, os donos dos jornais alemães eram pequeno-burgueses mesquinhos, timoratos, e a Rheinische Zeitung travava a luta sozinha. Ela consumia censor atrás de censor; finalmente, foi censurada duplamente, de modo tal que, depois da primeira censura, o Regierungspräsident *** tinha, mais uma vez e definitivamente, de a censurar. Isto também não serviu. Nos começos de 1843, o governo declarou que não conseguia fazer nada deste jornal e suprimiu-o sem mais.

Marx – que, entretanto, se casara com a irmã do posteriormente ministro da reacção von Westphalen – mudou-se para Paris e editou aí, com A. Ruge, os Deutsch-Französische Jahrbücher [Anais Franco-Alemães], nos quais ele inaugurou a série dos seus escritos socialistas com uma Crítica da Filosofia do Direito de Hegel. Além disso, com F. Engels: A Sagrada Família. Contra Bruno Bauer e Consortes, uma crítica satírica de uma das últimas formas a que o idealismo filosófico alemão de então tinha ido dar.

O estudo da economia política e da história da grande Revolução Francesa ainda deixou sempre tempo a Marx para ataques ocasionais ao governo prussiano; este vingou-se, na Primavera de 1845, ao conseguir, junto do ministério Guizot – o senhor Alexander von Humboldt deve ter feito de intermediário –, a sua expulsão de França. Marx transferiu a sua residência para Bruxelas e publicou aí em língua francesa em 1848 um Discurso sobre o Livre-Câmbio e, em 1847: Miséria da Filosofia, uma crítica da Filosofia da Miséria de Proudhon. Simultaneamente, encontrou oportunidade para fundar em Bruxelas uma Associação Operária Alemã e entrou, desse modo, na agitação prática. Esta tornou-se para ele ainda mais importante desde que ele e os seus amigos políticos entraram, em 1847, na Liga secreta dos Comunistas que existia já há longos anos. A organização toda foi, então, revolucionada; a união, até então mais ou menos conspiratória, transformou-se numa simples organização – secreta, apenas por necessidade –, a primeira organização do Partido Social-Democrata alemão. A Liga existia onde quer que existissem associações operárias alemãs; quase em todas estas associações de Inglaterra, da Bélgica, da França e da Suíça e em muitas associações da Alemanha, os membros dirigentes pertenciam à Liga e a quota-parte da Liga no movimento operário alemão que surgia foi muito significativa. Mas, além disso, a nossa Liga foi a primeira que pôs em evidência o carácter internacional do movimento operário todo e também o provou praticamente, tendo como membros: ingleses, belgas, húngaros, polacos, etc., e organizando, nomeadamente, em Londres, reuniões internacionais de operários.

A reorganização da Liga completou-se em dois congressos que se realizaram no ano de 1847, o segundo dos quais decidiu a elaboração e publicação das bases do Partido num manifesto a redigir por Marx e Engels. Nasceu assim o Manifesto do Partido Comunista, que se publicou, pela primeira vez, em 1848, pouco antes da revolução de Fevereiro e que, desde então, foi traduzido em quase todas as línguas europeias.

A Deutsche-Brüsseler Zeitung [Gazeta Alemã de Bruxelas], em que Marx participava e onde a beatitude da policial pátria era impiedosamente posta a nu, levou de novo o governo prussiano a agir para a expulsão de Marx, mas em vão. Quando, porém, a revolução de Fevereiro teve por consequência, em Bruxelas também, movimentos populares e parecia iminente uma reviravoltana Bélgica, o governo belga prendeu Marx sem cerimónias e expulsou-o. Entretanto, o governo provisório de França, através de Flocon, tinha-o convidado a voltar de novo a Paris e ele aceitou esse convite.

Em Paris, contrapôs-se, antes de tudo, à tontice que se propagava entre os alemães de lá e que pretendia, em França, formar os operários alemães em legiões armadas e, desse modo, introduzir na Alemanha revolução e república. Por um lado, a Alemanha tinha de fazer a sua própria revolução e, por outro lado, toda a legião revolucionária estrangeira que se formasse em França era de antemão denunciada pelos Lamartine do governo provisório ao governo a derrubar, como também acontecera na Bélgica e em Baden.

Após a revolução de Março, Marx foi para Colónia e fundou lá a Neue Rheinische Zeitung [Nova Gazeta Renana], que existiu de 1 de Junho de 1848 até 19 de Maio de 1849 – a única folha que, no interior do movimento democrático de então, representava o ponto de vista do proletariado e isto já através da sua tomada de partido sem reservas a favor dos insurrectos de Junho parisienses de 1848, que fez desertar da folha quase todos os seus accionistas. Em vão aludiu a Kreuz-Zeitung [Gazeta da Cruz] à «insolência de Chimborazo» com que a Neue Rheinische Zeitung atacava tudo o que era sagrado, desde o rei e do vigário do Império até aos gendarmes, e isto numa fortaleza prussiana com uma guarnição de 8000 homens; em vão se inflamou o filistério renano liberal, tornado de repente reaccionário; em vão o estado de sítio de Colónia suspendeu a folha, no Outono de 1848, durante muito tempo; em vão denunciou o ministério imperial da justiça, de Frankfurt, artigo sobre artigo ao procurador de justiça de Colónia, para instauração de processo judicial; a folha continuou calmamente a ser redigida e impressa, sob os olhos do posto principal da guarda, a expansão e a reputação da gazeta cresceram com a veemência dos ataques ao governo e à burguesia. Quando o golpe de Estado prussiano ocorreu, em Novembro de 1848, a Rheinische Zeitung apelou, no cabeçalho de cada número, ao povo para que se recusasse [a pagar] impostos e para que ripostasse à força com a força. Na Primavera de 1849, por isto, assim como por causa de um outro artigo, foi levada perante os jurados, sendo absolvida de ambas as vezes. Finalmente, quando as insurreições de Maio de 1849, em Dresden e na Província Renana, foram reprimidas e a campanha prussiana contra a insurreição de Baden-Palatinado foi inaugurada pela concentração e mobilização de massas significativas de tropa, o governo achou-se suficientemente forte para suprimir pela força a Neue Rheinische Zeitung. O último número – impresso a vermelho – publicou-se a 19 de Maio.

Marx foi de novo para Paris, mas, logo poucas semanas após a manifestação do 13 de Junho de 1849, foi posto pelo governo francês perante a opção de estabelecer a sua residência na Bretanha ou de abandonar a França. Ele preferiu a última e instalou-se em Londres, onde, desde então, tem residido ininterruptamente.

Uma tentativa para continuar a fazer publicar (em 1850) a Neue Rheinische Zeitung sob a forma de uma revista (em Hamburgo) teve de ser abandonada, depois de algum tempo, em virtude da reacção se conduzir de um modo cada vez mais violento. Logo após o golpe de Estado em França, em Dezembro de 1851, Marx publicou: O 18 de Brumário de Louis Bonaparte (New York, 1852; segunda edição em Hamburgo, em 1869, pouco antes da guerra). Em 1853, ele escreveu: Revelações sobre o Processo dos Comunistas de Colónia (impresso primeiro em Basileia, mais tarde em Boston, recentemente de novo em Leipzig).

Depois da condenação dos membros da Liga dos Comunistas em Colónia, Marx retirou-se da agitação política e dedicou-se, por um lado, durante dez anos, à exploração dos ricos tesouros que a biblioteca do Museu Britânico oferece no domínio da economia política, e, por outro lado, à colaboração na New-York Tribune [Tribuna de Nova Iorque], que até à deflagração da guerra civil americana trouxe não apenas correspondências assinadas por ele, mas também inúmeros artigos de fundo sobre as condições na Europa e na Ásia saídos da sua pena. Os seus ataques contra Lord Palmerston, fundados num estudo exaustivo de documentos oficiais ingleses, foram reimpressos em Londres como panfleto.

Como primeiro fruto dos seus estudos económicos de longos anos, apareceu, em 1859: Para a Crítica da Economia Política, primeiro fascículo (Berlin, Duncker). Este escrito contém a primeira exposição seguida da teoria do valor de Marx, incluindo a doutrina do dinheiro. Durante a guerra italiana, Marx combateu, no jornal alemão Das Volk [O Povo], que se publicava em Londres, o bonapartismo, que nessa altura se coloria de liberal e brincava aos libertadores de nacionalidades oprimidas, assim como a política prussiana da altura que, sob o manto da neutralidade, procurava pescar em águas turvas. Nesta oportunidade, o senhor Karl Vogt tinha também que ser atacado, ele que, nessa altura, por ordem do príncipe Napoléon (Plon-Plon) e a soldo de Louis-Napoléon fazia agitação a favor da neutralidade e mesmo da simpatia da Alemanha. Coberto por Vogt com as calúnias mais infames e cientemente mentirosas, Marx respondeu em: O Senhor Vogt, London, 1860,onde Vogt e os restantes senhores do bando imperialista de falsos democratas foram desmascarados e Vogt acusado, a partir de fundamentos externos e internos, de suborno [pago] pelo Império de Dezembro. Exactamente dez anos mais tarde veio a confirmação: na lista dos mercenários bonapartistas, encontrada nas Tulherias em 1870 e publicada pelo governo de Setembro, encontra-se na letra V: «Vogt – em Agosto de 1859 foram-lhe entregues... 40 000 francos».

Finalmente, em 1867, apareceu em Hamburgo: O Capital. Crítica da Economia Política. Primeiro Volume–a obra principal de Marx, que expõe as bases das suas perspectivaseconómico-socialistas e as linhas principais da sua crítica da sociedade existente, do modo de produção capitalista e das suas consequências. A segunda edição desta obra que faz época apareceu em 1872; o autor ocupa-se [presentemente] com a elaboração do segundo volume.

Entretanto, nos diversos países da Europa, o movimento operário tinha-se fortalecido de novo tanto que Marx pôde pensar em levar a cabo um desejo de há muito alimentado: a fundação de uma associação operária abarcando os países mais progressistas da Europa e América, que devia demonstrar, por assim dizer, corporalmente, o carácter internacional do movimento socialista tanto aos próprios operários como aos burgueses e aos governos – para encorajamento e fortalecimento do proletariado e para terror dos seus inimigos. Uma reunião popular a favor da Polónia – precisamente então oprimida de novo pela Rússia – realizada em 28 de Setembro de 1864 em St. Martins Hall em Londres, forneceu a ocasião de avançar com a coisa, que foi tomada com entusiasmo. Foi fundada a Associação Internacional dos Trabalhadores; foi eleito na reunião um Conselho Geral provisório com sede em Londres, e a alma desse [conselho], bem como de todos os conselhos gerais seguintes até ao Congresso da Haia, foi Marx. Foram redigidas por ele quase todas as peças escritas publicadas pelo Conselho Geral da Internacional, desde a Mensagem Inaugural de 1864 até à mensagem sobre a guerra civil em França, de 1871. Descrever a actividade de Marx na Internacional significaria escrever a história dessa mesma associação que, de resto, vive ainda na memória dos operários europeus.

A queda da Comuna de Paris levou a Internacional a uma situação impossível. Ela era empurrada para o primeiro plano da história europeia, num momento em que, por toda a parte, lhe era cortada a possibilidade de qualquer acção prática bem sucedida. Os acontecimentos que a elevaram a sétima grande potência impediram-na, ao mesmo tempo, de mobilizar as suas forças de combate e de as empregar activamente, sob pena de derrota inevitável e de retrocesso do movimento operário por decénios. Além disso, de diversos lados, empurraram-se para a frente elementos que procuravam explorar a reputação tão subitamente acrescida da Associação para fins de vaidade pessoal ou de ambição pessoal, sem compreensão da situação real da Internacional ou sem atender a ela. Tinha que ser tomada uma decisão heróica, e foi de novo Marx que a tomou e a levou a cabo no Congresso da Haia. A Internacional, numa resolução solene, declarou-se livre de qualquer responsabilidade pelas manobras dos bakuninistas, que formavam o centro daqueles elementos desrazoáveis e sujos; então, em presença da impossibilidade de corresponder, face à reacção geral, às exigências crescentes que também lhe eram postas e de manter a sua plena eficácia de outro modo que não fosse por uma série de sacrifícios em que o movimento operário teria tido de morrer de hemorragia – em presença desta situação, a Internacional retirou-se provisoriamente da cena, ao transferir o Conselho Geral para a América. O que se seguiu demonstrou como esta resolução – na altura e desde então frequentemente reprovada – era correcta. Por um lado, embotaram-se – e continuaram embotadas – todas as tentativas para fazer golpesinúteis em nome da Internacional; por outro lado, porém, o íntimo intercâmbio contínuo entre os partidos operários socialistas dos diversos países provou que a consciência da igualdade de interesses e da solidariedade do proletariado de todos os países, desperta pela Internacional, sabe manter a sua validade, mesmo sem o vínculo – tornado, de momento, uma peia – de uma associação internacional em forma.

Depois do Congresso da Haia, Marx encontrou finalmente de novo tempo e vagar para retomar os seus trabalhos teóricos e espera-se que dentro de não muito mais tempo possa entregar para impressão o segundo volume do Capital.

Das muitas descobertas importantes com que Marx inscreveu o seu nome na história da ciência, podemos aqui pôr em evidência apenas duas.

A primeira é o revolucionamento, por ele completado, em toda a concepção da história mundial. Toda a visão da história até aqui repousava sobre a representação de que era de procurar os fundamentos últimos de todas as mudanças históricas nas ideias, que mudam, dos homens, e que, de todas as mudanças históricas, de novo, as políticas seriam as mais importantes, dominando toda a história. De onde vêm, porém, aos homens as ideias e quais são as causas motoras das mudanças políticas, por isso nunca se tinha perguntado. Só à escola mais moderna de historiógrafos franceses e, em parte, também à dos ingleses se impôs a convicção de que, pelo menos, desde a Idade Média, na história europeia, a força motora foi a luta da burguesia, que se desenvolvia, contra a nobreza feudal pela dominação social e política. Ora, Marx demonstrou que toda a história até aqui é uma história de lutas de classes, que em todas as múltiplas e complexas lutas políticas se trata apenas da dominação social e política de classes da sociedade, da manutenção da dominação pelo lado das classes mais antigas, da conquista da dominação pelo lado das classes recentemente ascendentes. Mas, por que nascem e continuam a existir estas classes? Pelas condições materiais, grosseiramente sensíveis, de cada altura, em que a sociedade, num dado tempo, produz e troca o sustento da sua vida. A dominação feudal da Idade Média repousava sobre a economia auto-suficiente de pequenas comunidades de camponeses, produzindo elas próprias quase tudo o que lhes era necessário, quase sem troca, às quais a nobreza belicosa concedia protecção contra o exterior e coesão nacional ou, pelo menos, política; quando vieram as cidades e, com elas, uma indústria oficinal separada e um intercâmbio comercial – primeiro, no espaço do país, mais tarde: internacional –, a burguesia citadina desenvolveu-se e conquistou para si, em luta com a nobreza, ainda na Idade Média, a sua inserção como estado social igualmente privilegiado na ordem feudal. Mas, com a descoberta da Terra extra-europeia, a partir de meados do século quinze, esta burguesia adquiriu um campo de comércio muito mais abrangente e, com isso, um novo acicate para a sua indústria; nos ramos mais importantes, a oficina artesanal foi suplantada pela manufactura já fabril e esta foi-o de novo pela grande indústria, tornada possível pelas invenções do século anterior, nomeadamente, a máquina a vapor, [grande indústria essa] que, de novo, retroagiu sobre o comércio, ao suplantar, nos países que tinham ficado para trás, o antigo trabalho manual e ao criar, nos mais desenvolvidos, os presentes novos meios de comunicação: máquinas a vapor, caminhos-de-ferro, telégrafos eléctricos. A burguesia reuniu, assim, cada vez mais, as riquezas sociais e o poder social nas suas mãos, enquanto, durante longo tempo ainda, permaneceu excluída do poder político que se encontrava nas mãos da nobreza e da realeza apoiada pela nobreza. Mas, num certo estádio – em França, desde a grande revolução –, ela conquistou também este [poder político] e, pelo seu lado, tornou-se, então, classe dominante face ao proletariado e aos pequenos camponeses. A partir deste ponto de vista – com conhecimento suficiente da situação económica da sociedade de cada altura, o qual falta, sem dúvida, totalmente aos nossos historiógrafos de profissão – explicam-se todos os fenómenos históricos da maneira mais simples e explicam-se, do mesmo modo, de maneira sumamente simples as representações e ideias de cada período da história, a partir das condições económicas de vida e das relações sociais e políticas desse período, por aquelas por sua vez condicionadas. A história foi pela primeira vez colocada sobre as suas bases reais; o facto palpável, mas sobre o qual até aqui se passou totalmente por cima, de que os homens, antes de tudo, têm de comer, beber, abrigar-se e vestir-se, portanto, têm que trabalhar, antes de poderem lutar pela dominação, fazer política, religião, filosofia, etc. – este facto palpável acedeu agora finalmente ao seu direito histórico.

Para a visão socialista, porém, esta nova concepção da história teve o maior significado. Ela demonstrou que toda a história até aqui se move em oposições de classes e lutas de classes, que sempre houve classes dominantes e dominadas, exploradoras e exploradas e que a grande maioria dos homens sempre esteve condenada a trabalho duro e pouca fruição. Porquê isto? Simplesmente porque, em todos os estádios anteriores do desenvolvimento da humanidade, a produção estava ainda tão pouco desenvolvida que o desenvolvimento histórico só podia ocorrer nesta forma oposicional, que o progresso histórico, grosso modo, estava remetido à actividade de uma pequena minoria privilegiada, enquanto a grande massa permanecia condenada a conseguir pelo seu trabalho o magro sustento da vida para si e, além disso ainda, para os privilegiados que se tornavam sempre mais ricos. Mas, a mesma investigação da história que, desta maneira, explica natural e racionalmente a dominação das classes até aqui – de outro modo só explicável a partir da maldade dos homens – leva também à compreensão de que, em consequência das forças de produção tão colossalmente aumentadas, do presente, se desvaneceu também o último pretexto para uma separação dos homens em dominantes e dominados, exploradores e explorados, pelo menos, nos países que mais progrediram; de que a grande burguesia dominante [já] cumpriu a sua vocação histórica, de que não está mais à altura da direcção da sociedade e se tornou mesmo um obstáculo para o desenvolvimento da produção, como as crises comerciais e, nomeadamente, o último grande craque, e a situação deprimida da indústria em todos os países demonstram; de que a direcção histórica passou para o proletariado, uma classe que, por toda a sua situação na sociedade, só se pode libertar se, em geral, eliminar toda a dominação de classe, toda a servidão e toda a exploração; e de que as forças produtivas sociais que extravasam das mãos da burguesia apenas anseiam pela tomada de posse [delas] pelo proletariado associado para estabelecerem um estado [de coisas] que possibilite a cada membro da sociedade a participação, não apenas na produção, mas também na repartição e administração das riquezas sociais e que aumente de tal modo as forças produtivas sociais e os seus rendimentos, pela exploração planificada de toda a produção, que a satisfação de todas as necessidades racionais de cada um permaneça assegurada numa medida sempre crescente.

A segunda descoberta importante de Marx é o esclarecimento definitivo da relação de capital e trabalho, por outras palavras, a demonstração de como, na sociedade actual, no modo de produção capitalista existente, se completa a exploração do operário pelo capitalista. Desde que a economia política estabeleceu o princípio de que o trabalho é a fonte de toda a riqueza e de todo o valor, tornara-se inevitável a pergunta: como é, então, conciliável com isso que o operário assalariado não receba toda a soma de valor criada pelo seu trabalho, mas tenha de entregar uma parte dela ao capitalista? Tanto os economistas burgueses como os socialistas se esforçaram por dar uma resposta cientificamente sólida à pergunta, mas em vão, até que finalmente Marx avançou com a solução. Esta solução é a seguinte: o modo de produção capitalista hodierno tem por pressuposto a existência de duas classes da sociedade; de um lado, os capitalistas, que se encontram na posse dos meios de produção e dos meios de vida e, do outro lado, os proletários que, excluídos dessa posse, apenas têm para vender uma única mercadoria: a sua força de trabalho; e que, portanto, têm que vender esta sua força de trabalho para ficarem de posse de meios de vida. O valor de uma mercadoria é, porém, determinado pela quantidade de trabalho socialmente necessário incorporado na sua produção, portanto, também na sua reprodução; o valor da força de trabalho de um homem médio durante um dia, mês, ano, [é determinado], portanto, pela quantidade de trabalho que está incorporada na quantidade de meios de vida necessária para a manutenção desta força de trabalho durante um dia, mês, ano. Se admitirmos que os meios de vida do operário, para um dia, requerem seis horas de trabalho para a sua produção ou, o que é o mesmo, que o trabalho neles contido representa uma quantidade de trabalho de seis horas – então o valor da força de trabalho por um dia exprime-se numa soma de dinheiro que igualmente incorpora em si seis horas de trabalho. Se admitirmos, além disso, que o capitalista que emprega o nosso operário lhe paga essa soma, [paga-lhe], portanto, o valor completo da sua força de trabalho. Se, agora, o operário trabalha seis horas do dia para o capitalista, ele reembolsou de novo completamente esse seu desembolso – seis horas de trabalho por seis horas de trabalho. Com isto, não ficava por certo nada para o capitalista e este concebe por isso a coisa de uma maneira totalmente diferente: Eu comprei, diz ele, a força de trabalho deste operário, não por seis horas, mas por um dia todo e, em conformidade, faz o operário trabalhar, segundo as circunstâncias, 8, 10, 12, 14 e mais horas, de tal modo que o produto da sétima, oitava e seguintes horas seja um produto de trabalho não-pago e, que antes do mais, entra para o bolso do capitalista. Deste modo, o operário ao serviço do capitalista reproduz, não apenas o valor da sua força de trabalho, pelo qual ele é pago, mas produz também, além e acima disso, uma mais-valia que, apropriada antes do mais pelo capitalista, no curso ulterior, se reparte pela classe toda dos capitalistas, segundo leis económicas determinadas, e forma o fundo básicode onde saem renda fundiária, lucro, acumulação de capital, em suma, todas as riquezas consumidas ou acumuladas pelas classes não-trabalhadoras. Com isto era também demonstrado que a aquisição de riqueza pelos capitalistas de hoje consiste tanto na apropriação de trabalho alheio não-pago como a do dono de escravos ou a do senhor feudal que explorava o trabalho servo e que todas estas formas da exploração só se diferenciam pela maneira diversa em que o trabalho não-pago é apropriado. Com isto, porém, retirava-se também de debaixo dos pés a todos os ditos hipócritas das classes possidentes a última base, segundo a qual na ordem social actual reinam direito e justiça, igualdade de direitos e de deveres e harmonia geral de interesses; e desvendava-se a sociedade burguesa de hoje, não menos do que as suas predecessoras, como uma grandiosa instituição para exploração da imensa maioria do povo por uma minoria mínima e que se torna cada vez mais pequena.

O socialismo científico, moderno, fundamenta-se nestes dois factos importantes. No segundo volume do Capital, estas e outras não muito menos importantes descobertas científicas [referentes] ao sistema capitalista de sociedade serão mais desenvolvidas e, com elas, também os aspectos da economia política ainda não aflorados no primeiro volume serão submetidos a um revolucionamento. Assim possa Marx em breve poder entregá-los para impressão.

Notas

(*) Publica-se de acordo com o texto publicado em Marx/Engels, Obras Escolhidas em três tomos, Edições «Avante!», Lisboa, tomo 3, 2018, pp. 84-95. Por razões de espaço suprimiram-se as notas que constam desta edição.

(**) O primeiro censor da Gazeta Renana foi o conselheiro de polícia Dolleschall, o mesmo que, uma vez, na Gazeta de Colónia cortou o anúncio da tradução da Divina Comédia de Dante por Philalethes (mais tarde, rei João da Saxónia), com a observação: Com as coisas divinas não se deve fazer comédia. (Nota de Engels.)

(***) Na Prússia, tratava-se de um representante regional do executivo central.