Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição 'Nº 361 - Jul/Ago 2019'

Kwame Nkrumah: a África vencerá

por Carlos Lopes Pereira

«Nem uma só parte de África pode estar a salvo, ou ser livre para desenvolver-se de forma plena ou independente, enquanto qualquer outra parte não se tiver libertado ou enquanto os vastos recursos económicos de África continuarem a ser explorados por interesses imperialistas e neocolonialistas. A menos que a África esteja unida politicamente sob um Governo de Unidade Pan-africano, não pode haver uma solução para os nossos problemas políticos e económicos. A tese de que A África deve unir-se continua a ser irrefutável».

Isto escreveu Kwame Nkrumah em 22 de Abril de 1970, em Conakry, numa breve nota introdutória para a 2.ª edição do seu livro A África deve unir-se, publicado pela primeira vez em 1963. A obra reproduz a sua intervenção na véspera da fundação da Organização da Unidade Africana (OUA) perante os chefes de Estado dos 33 países independentes da África que a 25 de Maio desse ano assinaram a Carta da OUA, em Adis Abeba.

Nesse discurso histórico, Nkrumah apresentou aos seus pares uma proposta para a criação da União dos Estados Africanos, defendendo «um plano à escala continental para criar um programa económico e industrial unificado ou comum para África» que incluísse a instauração de um mercado comum para África, uma moeda africana, uma zona monetária africana, um banco central africano e um sistema de comunicações continental.

O então presidente da República do Gana considerava, nesse ano de 1963, que «na actualidade, nenhum Estado africano independente tem a mais ínfima possibilidade de trilhar sozinho uma via de desenvolvimento económico e muitos dos que o tentámos fazer ficámos à beira da ruína ou tivemos de voltar ao redil dos antigos governantes coloniais».

Um longo caminho tinha já percorrido o líder ganês quando defendeu essa tese pan-africanista na capital etíope.

Nascido há 110 anos, a 21 de Setembro de 1909, em Nkroful, na Costa do Ouro, uma colónia inglesa na África Ocidental, filho de um ourives e de uma pequena comerciante, faz os primeiros estudos em Half Assini e, depois, frequenta em Acra a escola de professores frequentada pela elite colonial. Completada essa formação, inicia em 1930 a carreira docente, leccionando em escolas católicas em Elmina e Axim e num seminário em Amisano.

Interessado pelas questões políticas, decide prosseguir os estudos, a nível superior, e viaja em 1935 para os Estados Unidos, ajudado pela família e por círculos católicos.

Entra na Universidade Lincoln, na Pensilvânia, onde nos anos seguintes obtém diversos títulos académicos nas áreas de Filosofia e História. Estuda Karl Marx e V. I. Lénine, conhece Martin Luther King e acompanha a luta dos afro-americanos pelos seus direitos civis e políticos, toma contacto com as ideias de defensores da emancipação dos afro-descendentes em todo o mundo, como as do jamaicano Marcus Garvey (1887-1940), um pan-africanista cujas teses o influenciarão mas com quem não chega a encontrar-se.

Com um percurso académico brilhante, é eleito presidente da organização dos estudantes africanos nos Estados Unidos e Canadá, ajuda a fundar a Associação de Estudos Africanos. Escreve em jornais universitários, profere palestras em meios universitários e fala em igrejas protestantes afro-americanas.

Com a emergência de novos tempos no horizonte, no final da II Guerra Mundial deixa os EUA, em Maio de 1945, e vai para Inglaterra, com o intuito de estudar Direito.

Convive com outros independentistas africanos, como o queniano Jomo Kenyatta (que foi, mais tarde, o primeiro presidente da República do Quénia), participa na organização do 5.º Congresso Pan-Africano, em Manchester, e estreita laços com destacados pan-africanistas, como o norte-americano W.E.B. Du Bois (1868-1963) e o antilhano George Padmore (1901-1959), da Trinidad, que mais tarde viverão no Gana independente. Du Bois receberá a cidadania ganense e dirigirá a Enciclopédia Africana, nunca publicada por falta de apoios, Padmore trabalhará como assessor presidencial.

Em Londres, após o Congresso de Manchester, em 1945, Nkrumah prepara um doutoramento e é eleito vice-presidente da União dos Estudantes da África Ocidental. É também o líder de «O Círculo», uma organização secreta dedicada à unidade e independência da África Ocidental. E integra-se cada vez mais no movimento anticolonialista que, no pós-guerra, alastra rapidamente na Ásia, em África, nas Caraíbas, encorajado pela derrota do nazi-fascismo, pela participação de milhares de africanos no conflito integrados nos exércitos das democracias ocidentais – que eram também os principais impérios coloniais… – e pelo crescente prestígio da União Soviética, que defendia e apoiava a libertação de todos os povos sob o jugo colonial.

Em 1947, Nkrumah publica Towards Colonial Freedom (Rumo à Liberdade Colonial), o primeiro de cerca de duas dezenas de livros que escreverá. Em finais desse ano, mais de uma década depois de ter atravessado o Atlântico e vivido 10 anos nos Estados Unidos e dois em Inglaterra, regressa ao país natal.

Da independência ao golpe

Na Costa do Ouro tinha sido criado por patriotas africanos um movimento para exigir a autodeterminação por meios constitucionais. Nkrumah, de volta à terra, é convidado para o cargo de secretário-geral dessa organização, a Convenção Unida da Costa do Ouro (UGCC).

Em 1948, depois de confrontos entre a população e as autoridades coloniais, os ingleses prendem, ainda que brevemente, os principais dirigentes do movimento.

Face a divergências internas e apoiado por um sector mais radical, Nkrumah funda em 1949 o Partido da Convenção Popular (CPP), um partido de massas, e reivindica a independência imediata do território.

Em Janeiro de 1950, desencadeia uma campanha de «acção positiva», com protestos não violentos, greves e não-cooperação com as autoridades coloniais britânicas.

No quadro da crise gerada em toda a colónia, é de novo preso e condenado a um ano de prisão. Mas, nas primeiras eleições gerais na Costa do Ouro – controladas pelos colonialistas –, em Fevereiro de 1951, o CPP mostra dispor de grande apoio popular. Nkrumah é eleito para o parlamento e libertado da prisão, tornando-se líder dos assuntos governamentais como parte do processo de transição para a independência.

Quando a Costa do Ouro se torna independente, em Março de 1957, com a designação de Gana, no quadro da Comunidade Britânica, o CPP vence de novo as eleições e Nkrumah torna-se primeiro-ministro. Em 1960, o Gana proclama-se uma República e é ele o presidente.

Logo nos primeiros anos de independência, a par da governação do país, trabalha pela concretização da unidade africana. Em 1958, convoca em Abril uma reunião dos Estados independentes no continente (Gana, Egipto, Líbia, Tunísia, Marrocos, Sudão, Etiópia e Libéria) e, em Dezembro, uma conferência de todos os povos africanos, ambas realizadas em Acra, entre diversas outras iniciativas similares (encontros pan-africanos de jovens, sindicalistas, dirigentes de organizações de mulheres, etc.). No mesmo ano, assina com o presidente Ahmed Sékou Touré um acordo para unir o Gana e a Guiné (Conakry), recém-libertada da tutela de França. Em 1963, estendeu essa união Gana-Guiné ao Mali presidido por Modibo Keita. Nesse mesmo ano, foi um dos principais organizadores da cimeira em Adis Abeba dos países africanos fundadores da OUA.

O Gana independente torna-se, por um lado, uma base de liberdade e apoio para os movimentos independentistas africanos e, por outro, um refúgio seguro para centenas de afro-americanos – escritores, jornalistas, artistas e políticos, gente como Du Bois e Padmore, como a poetisa Maya Angelou, a activista Alice Windom, que ajudou a organizar a viagem de Malcom X pelo Gana, em 1964, Vicki Holmes Garvin, uma «pan-africanista internacionalista», o escritor Julius Mayfield, que foi editor da African Review, uma publicação pan-africanista, ou Shirley Graham Du Bois, companheira de Du Bois, escritora, membro do Partido Comunista dos EUA, que foi directora da Televisão Nacional do Gana. Muitas outras personalidades afro-americanas – do lutador pelos direitos civis Stokely Carmichael ao pugilista Muhammad Ali – visitaram o Gana dos primeiros anos da independência.

No plano interno, Nkrumah procurou concretizar projectos para um rápido desenvolvimento do país, com o Estado a apoiar a construção de infra-estruturas como estradas e barragens, a lançar programas de educação e saúde, a promover a formação acelerada de jovens quadros ganenses.

Mas as potências ocidentais não podiam permitir o êxito de tais políticas patrióticas. Registaram-se diversos atentados contra a vida de Nkrumah, foi cortada ajuda económica ao Gana, multiplicaram-se as dificuldades impostas ao jovem Estado e, em 24 de Fevereiro de 1966, um golpe de estado militar derrubou o governo ganês.

Nkrumah estava em viagem, em Pequim, a caminho de Hanói, a convite do presidente Ho Chi Minh, numa missão de solidariedade com a luta do povo do Vietname e pela paz.

Do golpe, levado a cabo por «traidores do exército e da polícia», com a comprovada conivência de Washington e Londres, resultaram o assassinato de dirigentes do CPP, o assalto a sedes do partido governante, a destruição em fogueiras de livros de Nkrumah e de outros autores, a expulsão do Gana de quadros dos movimentos africanos de libertação nacional e de personalidades progressistas que colaboravam em áreas como a educação e a informação.

Nkrumah não voltou ao Gana e passou a viver exilado em Conakry como co-presidente da República da Guiné, distinção que lhe foi concedida pelo presidente Sékou Touré. Seis anos depois, em 27 de Abril de 1972, morreu em Bucareste, onde se encontrava em tratamento médico.

Luta de classes em África

Kwame Nkrumah escreveu muito e, nos anos de exílio na Guiné, publicou diversas obras que clarificam o seu pensamento sobre a revolução e a unidade em África, sobre o conceito de pan-africanismo, temas centrais das suas reflexões teóricas.

Em A luta de classes em África, de 1970, um dos seus últimos livros, defende que a revolução africana, ao concentrar-se na destruição do imperialismo, do colonialismo e do neocolonialismo, visa realizar uma transformação completa da sociedade. «Já não se trata, para os estados africanos, de escolher um modo de produção capitalista ou não capitalista, porque a escolha já foi feita pelos trabalhadores africanos: a libertação e unidade do continente, que apenas a luta armada para o socialismo realizará. Porque a unidade política de África só se poderá realizar no socialismo», escreve.

E explica: «O socialismo só será realizado através da luta de classes. Em África, o inimigo interno, que é a burguesia reaccionária, deve ser desmascarado: trata-se de uma classe de exploradores, de parasitas e de colaboradores de imperialistas e neocolonialistas, dos quais depende a manutenção das suas posições privilegiadas. A burguesia africana é essencial à continuidade da dominação e da exploração imperialista e neocolonialista. Perante a necessidade da sua eliminação, um partido revolucionário socialista de vanguarda organizará e enquadrará a solidariedade operário-camponesa. Graças à derrota da burguesia indígena, do imperialismo, do neocolonialismo e dos inimigos exteriors da revolução africana, as aspirações do povo africano serão realizadas».

A questão do pan-africanismo continua presente no pensamento de Nkrumah, nos últimos anos da sua vida. Para ele, todos os povos de descendência africana, quer vivam no Norte ou no Sul da América, nas Antilhas ou noutra parte do mundo, são africanos e pertencem à nação africana. Considera, assim, que «a luta revolucionária africana não é uma luta isolada: não faz apenas parte integrante da revolução socialista mundial, mas também da revolução do Mundo Negro». Realça que «por toda a parte onde os descendentes africanos são oprimidos – como nos Estados Unidos e nas Antilhas – rebentam lutas pela libertação. Porque nessas regiões do mundo, onde o homem negro é colonizado, é simultaneamente vítima de uma discriminação de classe e de raça».

E afirma, clarificando sua tese pan-africanista: «A África é o centro da revolução do Mundo Negro: enquanto não for unificada sob a direcção de um governo socialista, os homens negros do mundo inteiro não terão uma nacionalidade. É à volta da luta dos povos africanos pela libertação e unidade do continente que tomará forma uma cultura negro-africana. A África é um continente, um povo, uma nação».

Por tudo isto, «o objectivo principal dos revolucionários do Mundo Negro deve ser a libertação e a unificação totais da África sob a direcção de um governo pan-africano socialista. É um objectivo que satisfará as aspirações dos povos africanos de todo o mundo. Fará ao mesmo tempo triunfar a revolução socialista internacional e contribuirá para encaminhar o mundo para o comunismo, para o qual tendem todas as sociedades (…)».

Análise do neo-colonialismo

Poucos dias depois da morte de Kwame Nkrumah, o Partido Democrático da Guiné (PDG) promoveu em Conakry, no Palácio do Povo, a 13 de Maio de 1972, uma jornada de homenagem ao líder ganense.

Amílcar Cabral, o dirigente do Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde (PAIGC), que conviveu de perto com Nkrumah, fez ali uma intervenção em que destacou os aspectos mais relevantes da sua vida de revolucionário.

Lembrou que ele foi «o genial estratega da luta contra o colonialismo clássico» e que, no caso do Gana, criou aquilo que apelidou de «acção positiva», que foi «a melhor, a mais adequada solução encontrada para a luta, no contexto da dominação colonial britânica». Foi também o «pioneiro do pan-africanismo», o «combatente infatigável, sempre inspirado, da Unidade Africana», o «inimigo declarado do neo-colonialismo em África, como no resto do mundo», o «estratega do desenvolvimento económico do seu país».

Afirmou então Cabral que, «no que diz respeito ao neo-colonialismo, toda a gente sabe actualmente que o livro de Nkrumah, Neo-colonialismo, última etapa do imperialismo, é uma análise profunda, materialista, da realidade, desta terrível realidade de África que é o neo-colonialismo» E que, «no que diz respeito ao desenvolvimento do seu país, apesar das calúnias dos inimigos de África – e de uma certa imprensa africana –, calúnias estas que pretendem a falência económica de Nkrumah, toda a gente sabe muito bem que, a partir de 1970, com base em todas as medidas económicas tomadas por Nkrumah e pelo seu governo, o Gana seria um país em pleno desenvolvimento e que mostraria ao mundo que a África é não só capaz de conquistar a independência política como também de construir a sua independência económica».

Saudando o «combatente da liberdade dos povos africanos», o «filósofo e pensador» que «soube apoiar-se numa prática consequente», Amílcar Cabral prestou homenagem «ao amigo pessoal, ao camarada que sempre soube encorajar-nos na luta difícil mas exaltante que conduzimos contra o mais retrógrado dos colonialismos, o colonialismo português».

Expressou uma convicção: «Para nós, africanos, a melhor homenagem que se pode prestar a Kwame Nkrumah, à sua memória imortal, é o reforço da vigilância em todos os planos da luta, o reforço e o desenvolvimento da luta, a sua intensificação, a libertação total de África, o sucesso no desenvolvimento e progresso económico, social e cultural dos nossos povos e na construção da unidade de África. Eram estes os objectos fundamentais da acção e do pensamento de Kwame Nkrumah. É este o juramento que todos devemos prestar perante a História relativamente ao continente africano».

E manifestou uma certeza: «Estamos certos, absolutamente certos, de que, enquadradas pelo verde eterno das florestas africanas, flores vermelhas como o sangue dos mártires e amarelas como as colheitas da abundância crescerão sobre o túmulo de Kwame Nkrumah: porque a África vencerá».

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Tal como o sul-africano Nelson Mandela, o congolês Patrice Lumumba, o guineense/cabo-verdiano Amílcar Cabral, o angolano Agostinho Neto, o ganês Kwame Nkrumah é hoje recordado, 110 anos depois do seu nascimento, por diferentes gerações de revolucionários, em todo o mundo, como um dos grandes combatentes africanos do nosso tempo, e do futuro, homem de pensamento e acção, um herói da formidável luta pela libertação nacional e emancipação social dos povos de África, luta que continua.