Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 366 - Mai/Jun 2020

Friedrich Engels - Co-fundador do socialismo científico

por Revista «O Militante»

No ano em que se comemora o II Centenário do Nascimento de Friedrich Engels, O Militante, associando-se a esse acontecimento, publica ao longo de dois números uma versão revista de uma pequena biografia do amigo, companheiro de luta e continuador de Marx, publicada em 1976 pelas Edições «Avante!» na colecção ABC do Marxismo-Leninismo sob o título Friedrich Engels.

Esta é a segunda parte; a primeira foi publicada no número de Março-Abril.

Trabalho científico

Marx e Engels tinham ido para Londres como emigrantes. Para Marx, sobretudo, isto significava ter de suportar dificuldades e de enfrentar obstáculos consideráveis para o seu trabalho científico e político. A falta de dinheiro, que se fazia sentir particularmente devido às doenças cada vez mais frequentes na família Marx, impedia o seu trabalho científico contínuo. Mas nem a dor pela morte de três dos seus filhos, nem o seu próprio estado de saúde, cada vez pior, o impediram de prosseguir a sua actividade. Para poder fazer face pelo menos às necessidades materiais mais prementes da família Marx, Friedrich Engels retomou, em 1850, a sua actividade comercial na firma Ermen & Engels. Além desta ajuda económica, que enviava regularmente a Marx, Engels procurou também, tanto quanto lhe era possível, libertá-lo de encargos noutros domínios, para que Marx tivesse o tempo necessário para os seus estudos de economia política. Assim, escreveu muitos artigos para o New-York Daily Tribune que foram publicados com o nome de Marx.

Apesar das obrigações comerciais, Engels não abdicou de modo nenhum do seu próprio trabalho científico. Pouco depois de chegar a Manchester, iniciou o estudo científico de assuntos militares e dedicou-se, além disso, a aprender várias línguas eslavas. A par dos seus estudos científicos, Marx e Engels esforçaram-se por conservar coeso um núcleo da dissolvida Liga dos Comunistas, a fim de assegurarem a base de uma futura organização proletária internacional.

O facto de a actividade profissional de Engels o reter em Manchester não afectou a troca de ideias e o diálogo entre os dois amigos. Uma correspondência volumosa testemunha em que medida cada um participava na actividade e nos problemas do outro. Não houve praticamente nenhum acontecimento político e económico do tempo que não fosse referido nas cartas; nenhuma questão importante do trabalho em mãos que não fosse discutida. A correspondência entre Marx e Engels permite também fazer uma ideia impressionante da inquebrantável amizade que os unia e que está expressa na participação recíproca em problemas pessoais que encontramos a cada passo.

Ascenso das forças revolucionárias

A prosperidade económica geral que floresceu nos Estados europeus e na América depois da revolução burguesa terminou com a crise económica mundial de 1857-1858. A consequência deste facto foi um crescimento generalizado dos movimentos democráticos burgueses, mas principalmente uma crescente actividade combativa do proletariado, que se manifestou, entre outras coisas, nas lutas salariais. A isto juntaram-se a revolta polaca, a tentativa de Napoleão III de fazer guerra à Áustria na Itália, a guerra civil americana, na qual a burguesia inglesa pretendia intervir ao lado dos Estados do Sul. Tudo isto politizou amplas massas populares e provocou várias formas de protesto internacional contra as manobras da reacção. A nova situação histórica proporcionava, assim, condições favoráveis à constituição de uma organização proletária internacional. Cabe em especial a Karl Marx o mérito de ter realizado o trabalho decisivo pelo proletariado internacional nesta fase. A 28 de Setembro de 1864 fundou-se em Londres, no St. Martin's Hall, a Associação Internacional dos Trabalhadores, a primeira organização internacional da classe operária verdadeiramente representativa.

Marx e Engels viam na Internacional – que era uma organização ideologicamente muito heterogénea – um meio para familiarizar a classe operária com o socialismo científico numa escala mais vasta e efectiva do que até então acontecera, e para combater as concepções pequeno-burguesas ainda enraizadas na maioria dos operários. Precisamente em face dos acontecimentos revolucionários que se aproximavam – em França, por exemplo, o processo de decomposição do regime bonapartista era evidente –, a questão com os proudhonistas 24, no campo económico, e com os blanquistas 25, no domínio político, assumiu enorme importância.

O 14 de Setembro de 1867 foi um marco na história do socialismo e do movimento operário. Neste dia veio a público, ao cabo de longa preparação, o primeiro volume de O Capital, de Karl Marx 26, a análise da sociedade capitalista cientificamente fundamentada e realizada do ponto de vista de classe do proletariado, que constituiu uma revolução completa da economia política burguesa. Depois do aparecimento desta obra genial, era necessário, em primeiro lugar, conquistar para ela um vasto círculo de leitores, isto é, tornar o livro o mais popular possível. É que a táctica provada da burguesia fora, desde sempre, silenciar os factos desagradáveis. A actividade de Friedrich Engels foi essencial para fazer fracassar esta táctica de silêncio. Nas suas recensões anónimas para a imprensa burguesa, criticava O Capital de um ponto de vista aparentemente burguês, e por meio deste «meio de guerra», como Marx lhe chamou, Engels conseguiu que os economistas burgueses tomassem posição. Além disso, contribuiu ainda, com os seus trabalhos publicados na imprensa democrática e proletária, para que O Capital encontrasse vasta propagação entre as massas. Numa recensão escrita em 1868, Engels afirmou sobre O Capital: «Desde que há no mundo capitalistas e operários não apareceu nenhum livro que fosse de tanta importância para os operários como o que temos diante de nós.» 27

Guerra e revolução

Em 19 de Julho de 1870, com a declaração de guerra do regime bonapartista à Prússia, atingiu-se uma nova etapa dos conflitos de classes em larga escala. A este respeito, Marx e Engels demonstraram que expedições de pilhagem no estrangeiro não podiam ocultar as contradições internas existentes. E, por isso mesmo, logo pouco depois do início da guerra, Marx previu que, após uma derrota de Bonaparte, com toda a probabilidade rebentaria uma revolução em França.

Durante a guerra, Friedrich Engels aplicou, de uma forma excelente, os seus conhecimentos de ciência militar e bélica à guerra franco-prussiana. Na sua série de artigos «Sobre a Guerra», publicados na Gazeta de Pall Mall, conseguiu prever com exactidão, mais de uma vez, acontecimentos importantes no decorrer da guerra, graças ao seu método de análise materialista histórico.

Em 1864, Engels tornara-se sócio da firma Ermen & Engels, e em Julho de 1869 abandonou a sua actividade comercial para se poder dedicar inteiramente às suas tarefas científicas e políticas. Por proposta de Marx, foi eleito para o Conselho Geral da Internacional em Outubro de 1870.

Quando, no dia 4 de Setembro, o povo francês derrubou o regime odiado de Napoleão III e obrigou à proclamação da República, as previsões de Marx e Engels a este propósito ficaram comprovadas. Mas os teóricos do socialismo científico também tinham reconhecido imediatamente que o novo governo burguês não queria assumir as tarefas da defesa nacional, pelo contrário: com medo do seu próprio povo revolucionário, tendia, cada vez mais, a colaborar com as tropas prussianas de ocupação, isto é, com o inimigo nacional.

O rebentar da revolução proletária em Paris, a 18 de Março de 1871, a Comuna de Paris, confirmou a apreciação da situação histórica feita por Marx e Engels. Era agora também ainda mais evidente a importância da luta ideológica contra as teorias socialistas pequeno-burguesas, à qual Marx e Engels tanto valor tinham dado dentro e fora da Internacional. Nomeadamente a prática dos proudhonistas e dos blanquistas, durante os dias da Comuna, revelou as consequências que advêm de uma atitude não científica perante a luta de classes e de teorias económicas pequeno-burguesas. Não obstante a sua permanente crítica aos erros da Comuna, Marx e Engels contam-se entre os mais entusiásticos defensores do primeiro Estado proletário da história, tendo organizado febrilmente acções de solidariedade.

Depois da vitória das forças contra-revolucionárias em Paris, os teóricos do socialismo científico generalizaram as experiências da Comuna, contribuindo assim para um novo e decisivo desenvolvimento do socialismo, particularmente com a elaboração da doutrina do Estado e das tarefas do proletariado na tomada do poder de Estado.

O Partido Operário Social-Democrata

Uma das principais tarefas do proletariado alemão era para Marx e Engels a unificação revolucionária da Alemanha, que falhara em 1848-1849. Por isso mesmo, era tarefa prioritária a criação da organização, da unidade e da consciência política do proletariado. Ora, a Associação Geral dos Operários Alemães, fundada em 1863 sob a direcção de Lassalle 28, não estava à altura destas necessidades. Lassalle odiava de tal forma a burguesia que até com Bismarck fez um pacto contra ela, o que teve como consequência que a solução dos problemas do povo alemão lhe fosse imposta «de cima». Além disso, os lassallianos defendiam concepções erradas no campo económico, concepções que Marx e Engels criticavam severamente. A variante do socialismo representada por Lassalle definiram-na eles como «socialismo governamental real-prussiano».

Na luta contra o lassallianismo Engels escreveu importantes ensaios que esclareceram as relações entre o proletariado e o campesinato, e nos quais, acima de tudo, concretizou a tese de que era necessária uma estreita aliança entre o proletariado e o campesinato, de que o movimento operário não deveria abandonar os camponeses à reacção, mas antes desenvolver uma correcta política de alianças.

A fundação do Partido Operário Social-Democrata em 1869, em Eisenach, sob a direcção de Wilhelm Liebknecht 29 e August Bebel 30, foi um acontecimento extraordinário na história do movimento operário alemão. Foi uma vitória do marxismo e da Internacional. É que, apesar de certas debilidades teóricas, o Partido assentava solidamente no marxismo. Para mais, o enérgico apoio de Marx e Engels permitiu «lançar os alicerces sólidos de um partido operário realmente social-democrata 31. Ora, na época tratava-se precisamente dos alicerces do partido» 32. O Congresso da fundação do Partido Operário Social-Democrata, realizado em Eisenach, sublinhou, ao decidir ligar-se à Internacional, a sua aceitação do internacionalismo proletário.

A íntima colaboração entre Marx, Engels, Bebel e Liebknecht tornou-se evidente durante a guerra franco-prussiana e a Comuna de Paris. De acordo com as apreciações de Marx e Engels, Bebel e Liebknecht assumiram no Reichstag (Parlamento alemão) uma posição internacionalista consequente. Condenaram severamente a anexação da Alsácia-Lorena e a cumplicidade da reacção alemã e francesa para esmagar a Comuna.

Depois de a Internacional ter atingido, no essencial, o seu objectivo – a coesão das forças revolucionárias a nível internacional –, era necessário criar partidos proletários nacionais tão fortes quanto possível. Depois da derrota da Comuna, e da desorganização e repressão do proletariado francês que se lhe seguiram, o centro de gravidade do movimento revolucionário deslocou-se da França para a Alemanha. Os esforços de Marx e Engels visaram, por isso, em especial, dar ao partido alemão uma concepção teórica bem clara que pudesse evitar que se degradasse numa prática oportunista.

Luta contra o oportunismo

A unificação do Partido Operário Social-Democrata (grupo de Eisenach) com a Associação Geral dos Operários Alemães (grupo de Lassalle), que se desenhara em 1875, levou Marx e Engels a intervirem ainda mais activamente do que antes nas discussões do partido.

O apoio a uma organização proletária una, apoio que era conforme aos princípios de classe do proletariado, não impediu Marx e Engels de fazerem frente, energicamente, à ameaça de uma diluição teórica resultante da unificação. Exactamente como Marx na sua Crítica do Programa de Gotha 33, também Engels, numa carta a Bebel, de 18-28 de Março de 1875 34, se opôs às cedências feitas aos lassallianos pelo grupo de Eisenach no projecto do programa, e cujas consequências, na prática, só podiam levar ao oportunismo. Engels combateu em especial a tese de Lassalle de que, em comparação com a classe operária, todas as restantes classes eram uma «massa reaccionária» e desmascarou-a como esquerdista, uma vez que se negava aqui uma aliança do proletariado com o campesinato sem se tomar em conta a situação histórica concreta. Engels denunciou como abandono da luta de classes os tópicos do projecto de programa sobre, por exemplo, «ajuda do Estado» e «cooperativas de produção», e as concepções a eles ligadas do Estado como existindo acima das classes. Criticou-os também por despertarem a ilusão de que a libertação do proletariado se poderia atingir no Estado prussiano da aristocracia agrária. A análise e a crítica do projecto de programa por Marx e Engels defenderam a classe operária alemã de muitos erros, mas não puderam impedir completamente que o oportunismo fosse aumentando a sua influência.

Um outro perigo ameaçava o jovem partido – vinha de outra direcção, mas era favorecido pelas cedências do grupo de Eisenach na fusão com o de Lassalle. De todas as correntes antimarxistas, começavam a actuar negativamente no partido sobretudo as concepções do ideólogo pequeno-burguês Dühring 35. A «teoria» de Dühring era uma mistura de diferentes concepções materialistas vulgares, idealistas, positivistas, económicas vulgares e pseudo-socialistas. Em colaboração íntima com Marx, Engels elaborou o brilhante livro, geralmente considerado polémico Anti-Dühring. O Revolucionamento da Ciência do Senhor Eugen Dühring 36, no qual não só submeteu as ideias de Dühring a uma crítica demolidora como também, paralelamente, expôs a base da teoria marxista. Este trabalho de Engels foi publicado numa série de artigos no Vorwärts! (Avante!), órgão central do Partido Social-Democrata. Mais tarde Engels chegou à conclusão de que «a monotonia da polémica com um adversário insignificante não impediu, de facto, que a tentativa de apresentar um quadro enciclopédico da nossa concepção dos problemas filosóficos, das ciências da natureza e históricos tivesse sucesso» 37.

Como já no Anti-Dühring, também no seu fragmento póstumo Dialéctica da Natureza Engels aplicou a dialéctica materialista a problemas das ciências da natureza. O objectivo desta sua obra formulou-o ele no prefácio à segunda edição do Anti-Dühring: «Nesta minha recapitulação da Matemática e das ciências da Natureza, tratava-se evidentemente de me convencer, também no pormenor – quando, no geral, não havia, para mim, dúvida nenhuma –, de que, na Natureza, se impõem, no emaranhamento das inúmeras modificações, as mesmas leis dialécticas do movimento, que também dominam, na história, a aparente casualidade dos acontecimentos» 38.

«Intérpretes» burgueses do marxismo atrevem-se a afirmar que Engels «introduziu» a dialéctica na natureza, ao passo que Marx só aplicara a dialéctica materialista à sociedade, na qual o homem age directamente. A pretensa contradição entre Marx e Engels nasceu apenas, na verdade, dos desejos dos «marxólogos», pois Marx conhecia e aprovava os trabalhos de Engels em causa. De facto até colaborou neles, como, por exemplo, no Anti-Dühring, para o qual escreveu um capítulo sobre economia. Que Engels neste período tenha escrito principalmente trabalhos filosóficos e sobre ciências da natureza, deve-se, em primeiro lugar, a razões de economia de trabalho, uma vez que Marx estava totalmente ocupado com O Capital.

A herança de Marx

Karl Marx morreu em Londres, a 14 de Março de 1883. Engels, que participou imediatamente a todos os dirigentes do movimento operário internacional a morte do amigo, do maior sábio e lutador do proletariado, escreveu a Philipp Becker 39: «Ontem à tarde, às 2.45, deixado sozinho uns dois minutos, encontrámo-lo calmamente adormecido na poltrona. A cabeça mais poderosa do nosso partido deixara de pensar, o coração mais forte que alguma vez conheci apagara-se.» 40

No funeral de Marx, no cemitério londrino de Highgate, Engels proferiu um discurso fúnebre em que apreciou a importância histórica da obra de Marx e os seus méritos como revolucionário proletário e fundador do socialismo científico 41.

Engels considerou como sua primeira obrigação para com o proletariado internacional e o seu defunto amigo cuidar da publicação dos volumes ainda inéditos de O Capital. Ao fim de dois anos de cuidadoso trabalho, aprontou para publicação o segundo volume da obra, que veio a público em Maio de 1885. A conclusão do terceiro volume foi uma tarefa muito difícil, porque este não se encontrava na forma de um rascunho já pronto, constava em parte apenas de notas e comentários, deixados por Marx, que ainda precisavam de um trabalho profundo. Engels cumpriu também esta tarefa em completo respeito pelas ideias do seu genial amigo. Em 1894, ao fim de quase 10 anos de trabalho, foi finalmente publicado o terceiro volume de O Capital. Com esta obra, Marx e Engels tinham dado ao proletariado alicerces teóricos inabaláveis: com ela, graças ao método científico materialista dialéctico, a economia política burguesa conheceu uma transformação radical, ao mesmo tempo que a filosofia e a ciência da história atingiam um estádio de desenvolvimento mais avançado.

Neste período, Engels não estava só ocupado com a conclusão dos volumes inéditos de O Capital. Controlava também, com muito cuidado, a nova edição do primeiro volume na Alemanha, bem como a exactidão das traduções inglesa e russa. Deste período data também um trabalho muito importante da autoria do próprio Engels: A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado 42. Baseado em dados do investigador americano Morgan, em investigações próprias e em extensas notas deixadas por Marx, Engels examinou nesta obra as formas sociais anteriores ao capitalismo, o aparecimento das classes e da luta de classes e, simultaneamente, desenvolveu ainda, de forma criadora, a doutrina marxista do Estado.

Tal como Marx, também Engels tinha estudado toda a vida, e amplamente, as ciências da natureza. E ainda hoje é considerado um etnólogo importante. (De resto, dominava à volta de 20 línguas!) De grande importância é ainda o escrito de Engels Ludwig Feuerbach e a Saída da Filosofia Alemã Clássica 43. Nesta obra, Engels clarifica a relação do marxismo com Hegel e Feuerbach, formula o problema fundamental da filosofia e apresenta um resumo da teoria marxista da sociedade.

A par de toda esta actividade há que mencionar também o grande cuidado e a atenção com que Engels acompanhou, nos últimos anos da sua vida, o desenvolvimento do movimento operário alemão e internacional. Com o início do desenvolvimento do capitalismo pré-monopolista, assente na livre concorrência, para o capitalismo monopolista, para o imperialismo, verificou-se uma agudização da luta de classes à escala internacional. Mas o reforço geral do movimento operário coincidiu com um crescimento de correntes oportunistas e esquerdistas, uma vez que cada vez mais elementos pequeno-burgueses vinham às fileiras dos partidos proletários. Apesar da sua idade avançada, Engels lutou em todas as frentes contra a falsificação do marxismo e aconselhou os partidos do proletariado sobre muitos problemas. Foi ele a força impulsionadora da fundação da Segunda Internacional em 1889, em Paris.

Já em 1878, depois da promulgação das «leis anti-socialistas», leis verdadeiramente antipopulares, se vira que os elementos oportunistas e reformistas haviam ganho considerável influência na social-democracia alemã, pois parte da direcção do Partido se revelara, a princípio, incapaz de organizar a luta doravante ilegal contra o capitalismo. Depois de estas leis serem vencidas pela força crescente da social-democracia e de Bismarck se ter demitido, de novo as forças oportunistas se fizeram sentir com redobrada intensidade. Especialmente à incansável actividade de Engels se ficou a dever o facto de as teorias divulgadas pelos oportunistas e reformistas terem conseguido apenas uma influência limitada.

Quando Friedrich Engels morreu, em Londres, a 5 de Agosto de 1895, o proletariado internacional e os oprimidos de todo o mundo perderam, depois de Karl Marx, o seu mais importante teórico e mestre. Engels dedicara toda a sua vida à luta contra os exploradores e os opressores da humanidade, à luta pela criação de uma sociedade humana, uma sociedade sem exploradores nem explorados, uma sociedade em que, sobre a base da propriedade colectiva dos meios de produção, se pudesse tornar realidade o desenvolvimento livre e integral das capacidades e dos dotes individuais.

Ao contrário dos comunistas e socialistas utópicos e dos inúmeros «libertadores da humanidade», e das suas concepções moralizantes, Marx e Engels deram ao socialismo uma base científica. Pela assimilação de todo o conhecimento positivo de então, pela compreensão das leis de desenvolvimento da sociedade e da natureza e pela elaboração analítica concreta dos acontecimentos sociais – Marx e Engels fizeram da reivindicação moral de condições de vida humanas e dignas neste mundo uma certeza histórica: a certeza de que a queda da dominação capitalista tem um fundamento objectivo e de que o coveiro da ordem capitalista de exploração é o proletariado internacional.

Notas

(24) Simpatizantes de Pierre-Joseph Proudhon (1809-1865), um dos fundadores do anarquismo.

(25) Simpatizantes de Louis-Auguste Blanqui (1805-1881).

(26) Os três livros de O Capital, de Karl Marx, encontram-se publicados pelas Edições «Avante!» em oito tomos. (Nota das Edições «Avante!».)

(27) F. Engels, «Recensão do primeiro volume de “O Capital” para o “Demokratisches Wochenblatt”», in Marx/Engels, Obras Escolhidas em três tomos, ed. cit., t. II, 1983, p. 159. (Nota das Edições «Avante!».)

(28) Ferdinand Lassalle (1825-1864), democrata vulgar com tendências fortemente bonapartistas (Engels); fundador da Associação Geral dos Operários Alemães, cujo mérito histórico consiste em ter feito despertar o movimento operário depois de um longo letargo, e o ter libertado da orientação da burguesia liberal.

(29) Wilhelm Liebknecht (1826-1900), marxista, dirigente da social-democracia alemã, amigo de Marx e Engels.

(30) August Bebel (1840-1913), marxista, dirigente da social-democracia alemã, discípulo e amigo de Marx e Engels.

(31) Social-democrata, entenda-se: comunista – como no caso do Partido Operário Social-Democrata Russo (Bolchevique), o partido proletário dirigido por Lénine. (Nota das Edições «Avante!».)

(32) V. I. Lénine, Œuvres, Éditions Sociales- Éditions du Progrès, Paris-Moscou, vol. 19, p. 316.

(33) K. Marx, Crítica do Programa de Gotha, in Marx/Engels, Obras Escolhidas em três tomos, ed. cit., t. 3, 1985, pp. 5-30. (Nota das Edições «Avante!».)

(34) Id., ibid., pp. 31-38. (Nota das Edições «Avante!».)

(35) Eugen Karl Dühring (1833-1921), pensador confuso e confusionista no domínio da filosofia e da economia; entre 1863 e 1867, ensinou na Universidade de Berlim; ideólogo da pequena burguesia.

(36) F. Engels, Anti-Dühring. O Revolucionamento da Ciência do Senhor Eugen Dühring, Edições «Avante!», Lisboa, 2020. (Nota das Edições «Avante!».)

(37) F. Engels, Carta a Bernstein, 11 de Abril de 1884, in Marx-Engels, Werke, vol. 36, p. 16.

(38) F. Engels, Anti-Dühring. O Revolucionamento da Ciência do Senhor Eugen Dühring, ed. cit., p. 506. (Nota das Edições «Avante!».)

(39) Johann Philipp Becker (1809-1886), participante na Revolução de 1848-1849; comandante da milícia popular de Baden, durante a revolta de Baden-Palatinado, em 1849; dirigente da Associação Internacional dos Trabalhadores; redactor do jornal Der Vorbote (O Arauto). Amigo e companheiro de luta de Marx e Engels.

(40) F. Engels, Carta a Johann Philipp Becker, de 15 de Março de 1883, in Marx-Engels, Werke, vol. 35, p. 458. (Nota das Edições «Avante!».)

(41) Ver F. Engels, «Discurso diante do túmulo de Karl Marx» in Marx/Engels, Obras Escolhidas em três tomos, ed. cit., t. 3, pp. 179-181. (Nota das Edições «Avante!».)

(42) F. Engels, A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado, Edições «Avante!», Lisboa, 2.ª ed., 2002. (Nota das Edições «Avante!».)

(43) F. Engels, Ludwig Feuerbach e a Saída da Filosofia Alemã Clássica, Edições «Avante!», Lisboa, 2019. (Nota das Edições «Avante!».)