Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 366 - Mai/Jun 2020

75 anos da Vitória - A História e os seus falsificadores

por Jorge Cadima

Assinalando o 75.º Aniversário da Vitória na II Guerra Mundial, O Militante publica extensos extractos de «Falsificadores da História (informação histórica)», uma publicação de 1948 do Bureau de Informação do governo soviético. Trata-se duma abrangente avaliação sobre as causas e acontecimentos conducentes a essa enorme tragédia que marcou o Século XX e na qual morreram mais de 50 milhões de seres humanos – metade dos quais soviéticos. Uma resposta às campanhas que – então, como hoje – visavam esconder e deturpar a verdade histórica, a natureza de classe do fascismo e a responsabilidade determinante do grande capital (também das democracias burguesas) na sua ascensão ao poder.

O elemento de classe é essencial na análise do significado histórico do fascismo. Logo em 1933, a Internacional Comunista definiu o fascismo como «a ditadura abertamente terrorista dos elementos mais reaccionários, mais chauvinistas e mais imperialistas do capital financeiro» 1. Quatro anos antes da guerra, o VII Congresso da Internacional Comunista apontava na sua Resolução Política o perigo de guerra, intrinsecamente associado à crise do sistema capitalista que conheceu especial acuidade após 1929: «a burguesia dominante procura cada vez mais a sua salvação no fascismo, com o objectivo de tomar medidas predatórias excepcionais contra os trabalhadores, preparando uma guerra imperialista de rapina, atacando a União Soviética, escravizando e fragmentando a China, e por todas estas vias impedindo a revolução. Os círculos imperialistas procuram transferir todo o fardo da crise exclusivamente sobre os ombros dos trabalhadores. É por isso que precisam do fascismo. Procuram resolver o problema dos mercados escravizando as nações mais fracas, intensificando a exploração colonial e efectuando uma nova partilha do mundo através da guerra. É por isso que precisam do fascismo. A variante mais reaccionária do fascismo é o fascismo de tipo alemão. […] É um sistema de governo de gangsterismo político […] de agressão aberta contra outras nações. O fascismo alemão age como a ponta de lança da contra-revolução mundial, como iniciador duma cruzada contra a União Soviética».

O historiador belga-canadiano J. Pauwels sintetiza o papel do grande capital na ascensão do fascismo: «O big business alemão sabia perfeitamente onde estavam os seus interesses, tinha feito a escolha da opção fascista com total consciência, apoiava-o e com isso prosperava» 2. Uma opção partilhada pelo grande capital doutros países: «O director do J. P. Morgan Bank, Thomas W. Lamont tinha uma fotografia [de Mussolini] pendurada na parede do seu gabinete. […] Outro grande adulador estado-unidense de Mussolini foi Henry Luce, fundador e editor das revistas Time e Life. […] a maioria dos homens de negócios estado-unidenses admirava em Mussolini ‘um homem de acção’, um grande campeão do capitalismo e um inimigo do comunismo. Foi pelas mesmas razões que Mussolini era admirado por Churchill, e pelo menos durante os anos trinta por Franklin D. Roosevelt […]. No clube de admiradores precoces de Hitler encontramos o produtor de automóveis Henry Ford, o magnata da imprensa William Randolph Hearst, Walter C. Teagle director-geral da Standard Oil, e Iréneé du Pont, o patrão do grande trust com o seu nome». Pauwels acrescenta: «o único Estado europeu que não amava os movimentos fascistas era a União Soviética, que era aliás o único país onde não havia big business.

Também importante foi o papel das contradições inter-imperialistas, cuja acuidade levara à eclosão da I Guerra Mundial, em 1914. A decisão de Hitler ‘limpar’ a sua retaguarda antes de se lançar contra a URSS, ocupando quase toda a Europa Ocidental em 1940, representou uma desforra histórica da derrota inflingida à Alemanha em 1918 (com as pesadas consequências do Tratado de Versalhes), desforra facilitada pelo filo-fascismo reinante nas classes dominantes da França que, confrontadas com a crise económica e a vitória eleitoral da Frente Popular, viam no colaboracionismo com a ocupação alemã um mal menor. Assegurando o controlo sobre o enorme potencial industrial e de matérias-primas a Ocidente, esse prelúdio da II GM foi também de grande importância para a campanha militar contra o alvo principal: a URSS. O chefe nazi Goebbels escreveu no seu diário em vésperas da invasão da URSS de Junho de 1941: «O bolchevismo morreu. Assim cumprimos perante a História a nossa tarefa autêntica […]. O veneno bolchevique tem de ser expulso da Europa. O próprio Churchill ou Roosevelt terão pouco a objectar contra este empreendimento. Agora aniquilamos realmente aquilo contra o qual combatemos durante toda a nossa vida». 3

Foi no território da URSS que se decidiu a sorte da II GM. A heróica resistência do povo e do Partido Comunista soviéticos e as épicas batalhas travadas pelo seu Exército Vermelho foram decisivas na derrota do monstro nazi-fascista, faz agora 75 anos. Os comunistas foram não apenas as primeiras vítimas do fascismo, como os principais artífices da sua derrota em 1945.

Mas o fascismo não morreu na II GM. Logo recuperado pelo imperialismo, para servir de aliado na reacção aos grandes avanços de libertação social e nacional dos povos após a Guerra (veja-se a inclusão do Portugal fascista na fundação da NATO em 1949), o fascismo sobreviveu e propagou-se nas estruturas de poder, em particular nos serviços secretos e aparatos policiais, militares e repressivos.

O perigo fascista ganha hoje nova expressão e pelas mesmas razões que no Século XX: servir de tropa de choque do capitalismo em momentos de especial agudização da crise. A vergonhosa resolução anti-comunista do Parlamento Europeu de Setembro 2019 não visa apenas reescrever a História, transformando as vítimas em agressores. Estamos perante uma manobra mais vasta para, em nome do anti-comunismo, legitimar o fascismo (novo e velho). Mesmo o fascismo abertamente assumido, como na Ucrânia ou repúblicas do Báltico. Essa campanha procura não só esconder a verdade histórica, mas proibir e criminalizar a sua divulgação. Daí que seja hoje ainda mais importante romper as muralhas da desinformação e falsificação. É o que O Militante se orgulha de fazer, também com a publicação deste documento histórico que não perdeu, apesar dos seus 72 anos, actualidade histórica. É crucial conhecer o passado, para impedir que um capitalismo de novo em profunda crise possa mais uma vez arrastar a Humanidade para o fascismo e a guerra.

Falsificadores da História [excertos]

Os falsificadores americanos e seus cúmplices anglo-franceses procuram criar a impressão de que os preparativos para a agressão alemã, que culminaram na Segunda Guerra Mundial, teriam começado no Outono de 1939. [...] Quem ignora que a Alemanha começou a preparar-se para a guerra logo que Hitler chegou ao poder? Quem também não sabe que o regime de Hitler foi instaurado pelos círculos monopolistas alemães, com a total aprovação dos círculos dirigentes da Grã-Bretanha, França e Estados Unidos?

Para se preparar para a guerra e se equipar com os armamentos mais modernos, a Alemanha teve que restabelecer e desenvolver a sua indústria pesada e, antes do mais, a da metalurgia e aço, e a indústria de guerra da Renânia. Após a sua derrota na Primeira Guerra imperialista, a Alemanha, sob o jugo do Tratado de Versalhes, não estava em condições de alcançar esse objectivo sozinha num curto período de tempo. O imperialismo alemão recebeu forte apoio, neste campo, dos Estados Unidos da América. [...]

É bem conhecido o papel desempenhado pelos monopólios americanos, encabeçados pelas famílias Dupont, Morgan, Rockefeller e Lamont, e por outros magnatas industriais dos Estados Unidos no financiamento da indústria pesada alemã e no estabelecimento e desenvolvimento dos vínculos extremamente próximos entre as indústrias americana e alemã. [...] Relações económicas muito estreitas, de importância não apenas comercial mas também militar, existiam também, nas próprias vésperas da guerra, entre a Federação das Indústrias Britânicas e o Grupo Industrial de Reich alemão. Em 1939, representantes desses dois grupos monopolistas emitiram em Dusseldorf uma declaração conjunta onde se dizia, entre outras coisas: "Este acordo visa garantir a colaboração mais completa possível entre os sistemas industriais dos seus países". E isto aconteceu no mesmo momento em que a Alemanha de Hitler tinha engolido a Checoslováquia! [...]

Outro factor decisivo que ajudou a desencadear a agressão hitleriana foi a política dos círculos dominantes da Grã-Bretanha e da França, conhecida como política de "apaziguamento" da Alemanha de Hitler, uma política que renunciava à segurança colectiva. Será evidente para todos que foi essa política dos círculos governantes anglo-franceses, traduzida na renúncia à segurança colectiva, na recusa em resistir à agressão alemã, na conivência com as pretensões agressivas da Alemanha de Hitler, que conduziu à Segunda Guerra Mundial.

Vamos aos factos. Logo após Hitler chegar ao poder, em 1933, e na sequência dos esforços dos governos britânico e francês, foi assinado em Roma o "Pacto de Entendimento e Cooperação" entre quatro Potências Grã-Bretanha, Alemanha, França e Itália. Este Pacto significava que os governos inglês e francês pactuavam com o fascismo alemão e italiano, que já naquele momento não escondia os seus objectivos agressivos. Ao mesmo tempo, esse pacto com os Estados fascistas significou a renúncia à política de fortalecimento da frente unida das potências amantes da paz contra os Estados agressivos. Ao pactuar com a Alemanha e a Itália nas costas de outras Potências, que participavam na Conferência de Desarmamento que então decorria e que debatia uma proposta soviética para um estabelecimento dum pacto de não agressão e dum pacto definindo o conceito de agressão, a Grã-Bretanha e a França davam uma machadada na causa da paz e segurança das Nações.

Pouco tempo depois, em 1934, a Grã-Bretanha e a França ajudaram Hitler a tirar proveito da hostilidade do seu aliado a Polónia governada pelos agrários em relação à URSS, que resultou na assinatura do Pacto germano-polaco de Não Agressão, uma das etapas mais importantes nos preparativos para a agressão alemã. Hitler precisava deste Pacto para desorganizar as fileiras dos apoiantes da segurança colectiva e para demonstrar com este exemplo que a Europa necessitava não de segurança colectiva, mas de acordos bilaterais. Isto permitiu que o agressor alemão escolhesse com quem, e quando, faria acordos e quem, e quando, seria atacado. Não há dúvida de que o Pacto germano-polaco foi a primeira grande brecha na estrutura da segurança colectiva.

Encorajado, Hitler deu vários passos para restaurar abertamente as forças armadas da Alemanha, sem encontrar resistência por parte dos governantes britânicos e franceses. Pelo contrário, pouco tempo depois, em 1935, um Acordo Naval Anglo-Alemão foi concluído em Londres, onde [o MNE alemão] Ribbentrop se deslocara com esse fim. Ao abrigo desse Acordo, a Grã-Bretanha consentiu na restauração de Forças navais alemãs numa escala que quase igualava a da Armada francesa. Além disso, Hitler obtinha o direito de construir submarinos de uma arqueação total correspondente a 45% da frota de submarinos britânica. Nesse mesmo período a Alemanha hitleriana tomou uma série de medidas unilaterais visando abolir todas as restantes restrições impostas pelo Tratado de Versalhes ao crescimento das forças armadas de Alemanha. Esses actos não encontraram resistência da parte da Grã-Bretanha, França e Estados Unidos.

O apetite dos agressores fascistas aumentava dia a dia, com a conivência aberta dos EUA, Grã-Bretanha e França. Não foi certamente por acaso que naquele período as intervenções armadas da Alemanha e Itália na Etiópia e em Espanha não lhes criaram problemas. Apenas a União Soviética prosseguia de forma consistente e firme a sua política de paz, defendendo os princípios da igualdade e a independência da Etiópia que era, além do mais, membro da Sociedade das Nações , bem como o direito do legítimo governo republicano da Espanha a receber apoio dos países democráticos na luta contra a intervenção germano-italiana […]".

E o que faziam nessa altura os governos dos EUA, da Grã-Bretanha e França, sob cujo olhar os bandidos fascistas lidavam de forma cada vez mais insolente com as suas vítimas? Nem levantaram um dedo para travar os agressores alemão e italiano, para defender os direitos espezinhados das Nações, para salvaguardar a paz e travar a ameaça iminente da Segunda Guerra Mundial.

Apenas a União Soviética fazia tudo o possível para barrar o caminho aos agressores fascistas. A União Soviética foi o promotor e campeão da segurança colectiva.

Durante todo o período anterior à guerra, a delegação soviética defendeu o princípio da segurança colectiva no seio da Sociedade das Nações, levantando a voz em favor deste princípio em quase todas as sessões e em praticamente todas as comissões da Sociedade das Nações. Mas, como sabemos, a voz da União Soviética permaneceu uma voz clamando no deserto. [...]

Era óbvio que a Grã-Bretanha e a França, que naquela época controlavam a Sociedade das Nações, rejeitaram a resistência colectiva à agressão alemã porque era um obstáculo à concretização da sua nova política de "apaziguamento" [...], a política de concessões à agressão hitleriana. Naturalmente uma tal política apenas poderia reforçar a agressão alemã. Mas os círculos dominantes anglo-franceses acreditavam que isso não era perigoso, porque acreditavam que satisfazendo Hitler com concessões no Ocidente poderiam depois dirigir essa agressão contra o Leste e usá-la como uma arma contra a URSS. [...]

Os acontecimentos subsequentes mostraram com ainda maior clareza que os círculos dirigentes da Grã-Bretanha e da França apenas incentivaram a Alemanha no caminho da agressão, com as suas concessões e conivência com os Estados fascistas que, em 1936, formaram um bloco militar e político conhecido como o "Eixo Roma-Berlim". [...]

Documentos do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha apreendidos pelas tropas soviéticas após a derrota alemã desvendaram a verdadeira essência da política externa da Grã-Bretanha e França durante este período. Esses documentos mostram que a política anglo-francesa dirigia-se fundamentalmente não a congregar as forças dos Estados amantes da paz para uma luta comum contra a agressão, mas a isolar a URSS e direccionar a agressão hitleriana para Leste, contra a União Soviética, fazendo de Hitler o instrumento dos seus próprios objectivos. [...]

Isso é eloquentemente atestado, por exemplo, pelo documento alemão que contém o texto duma reunião ocorrida em 19 de Novembro de 1937, em Obersalzberg, entre Hitler e o Ministro inglês Lord Halifax, na presença do Ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha von Neurath.

"Lord Halifax afirmou que 'Ele e outros membros do governo britânico sabiam bem que o Führer havia alcançado grandes resultados não apenas na própria Alemanha, mas que, destruindo o comunismo no seu país havia-lhe barrado o caminho para a Europa Ocidental e que, por esse motivo, a Alemanha merecia ser considerada como um bastião do Ocidente contra o bolchevismo". [...]

Do restante registo da conversa de Hitler com Lord Halifax constata-se que o governo britânico encarava de forma favorável os planos hitlerianos para a "aquisição" de Danzig, da Áustria e da Checoslováquia. Depois de examinar com Hitler as questões do desarmamento e da Sociedade das Nações, observando que esses problemas necessitavam de uma discussão mais aprofundada, Lord Halifax afirmou: "Todas as restantes questões podem ser caracterizadas como dizendo respeito a mudanças na ordem europeia, mudanças que provavelmente acontecerão mais cedo ou mais tarde. Entre essas questões estão Danzig, a Áustria e a Checoslováquia. A Inglaterra está apenas interessada numa coisa: que essas mudanças sejam feitas por uma evolução pacífica evitando métodos susceptíveis de causar mais convulsões, que não são desejadas nem pelo Führer, nem por outros países. [...]

Foi assim que quem definia a política britânica incentivou Hitler a cometer actos de agressão.

Nos arquivos alemães apreendidos pelas tropas soviéticas em Berlim também há o registo do encontro entre Hitler e o embaixador britânico na Alemanha, Sir Neville Henderson, que teve lugar na presença de Ribbentrop, a 3 de Março de 1938. [...]

Não levantando objecções à exigência de Hitler de "unir a Europa sem a Rússia", Sir Neville Henderson chamou a atenção para o facto de Lord Halifax, que se tornara Ministro dos Negócios Estrangeiros nessa altura, já ter dado o seu acordo às mudanças territoriais que a Alemanha visava fazer na Europa, e que: "O objectivo da proposta britânica é participar neste acordo razoável".

De acordo com o registo, Henderson também afirmou nesse mesmo encontro que Chamberlain "mostrou grande coragem quando, sem olhar para as consequências, desmascarou frases internacionais tais como segurança colectiva, etc."... "E por isso" – acrescentou Henderson – "a Grã-Bretanha declara-se pronta para remover todas as dificuldades e pergunta à Alemanha se está disposta, por sua vez, a fazer o mesmo".

Quando Ribbentrop falou, chamando a atenção de Henderson para o facto do Ministro Britânico em Viena ter feito "de forma dramática" uma declaração [ao Presidente alemão] von Papen sobre os acontecimentos na Áustria, Henderson rapidamente se dissociou da declaração do seu colega dizendo que "ele, Neville Henderson, se tinha frequentemente pronunciado a favor do Anschluss [anexação da Áustria pela Alemanha]".

Era esta a linguagem usada pela diplomacia britânica no período antes da guerra.

Imediatamente após esse acordo, em 12 de Março de 1938, Hitler apoderou-se da Áustria sem encontrar resistência da parte da Grã-Bretanha e da França. Na altura, apenas a União Soviética ergueu a voz de alerta e lançou um apelo à organização da defesa colectiva da independência de países ameaçados de agressão. [...]

A ocupação alemã da Checoslováquia pela Alemanha foi o elo seguinte na cadeia de agressão e preparação da guerra na Europa. E este passo de crucial importância para o desencadeamento da guerra na Europa apenas poderia ter sido dado por Hitler com o apoio directo da Grã-Bretanha e da França. [...]

Não é necessário recordar os factos por todos conhecidos relacionados directamente com o acordo de Munique. Mas não se pode esquecer que a 19 de Setembro de 1938, ou seja, quatro dias após o encontro em Berchtesgaden de Hitler com Chamberlain, que viajara de avião com este objectivo, representantes dos governos britânico e francês exigiram ao governo da Checoslováquia a transferência para a Alemanha das regiões de Checoslováquia habitadas principalmente por alemães Sudetas. [...]

A 20 de Setembro, o governo da Checoslováquia respondeu às Propostas anglo-francesas. Afirmou que "A aceitação de tais propostas equivaleria à mutilação voluntária e completa do Estado em todos os aspectos". O governo da Checoslováquia chamou a atenção dos governos britânico e francês para o facto de que "A paralisia da Checoslováquia resultaria em mudanças políticas profundas em toda a Europa Central e Sudoriental". "O equilíbrio de poder na Europa Central e na Europa em geral seria destruído, e haveria sérias consequências para todos os outros Estados e em especial para a França". [...]

Na Conferência entre Hitler, Chamberlain, Mussolini e Daladier, que decorreu em Munique de 29 a 30 de Setembro de 1938, o vergonhoso acordo que fora integralmente concordado previamente entre os principais participantes da conspiração contra a paz foi finalmente concluído. O destino da Checoslováquia foi decidido nas suas costas. Os representantes da Checoslováquia foram convidados a Munique apenas para aguardar submissamente os resultados da conspiração dos imperialistas.

Toda a conduta da Grã-Bretanha e da França não deixou dúvidas de que este inaudito acto de traição dos governos britânico e francês em relação ao povo e à República da Checoslováquia não foi de forma alguma um episódio fortuito na política desses Estados, mas foi sim um elemento da maior importância na sua política visando direccionar os agressores hitlerianos contra a União Soviética. [...]

A essência de toda esta política dos círculos dirigentes anglo-franceses neste período foi denunciada por J. V. Staline no XVIII Congresso do Partido Comunista da União Soviética (Bolchevique), em Março de 1939: "A política de não intervenção significa conluio com a agressão, dando livre curso à guerra e, portanto, a transformação da guerra numa guerra mundial. A política de não intervenção revela uma vontade, um desejo, de não entravar os agressores no seu trabalho sórdido: de não impedir o Japão de se envolver numa guerra contra a China ou, melhor ainda, contra a União Soviética; de não impedir a Alemanha de se imiscuir nos assuntos europeus, de se envolver numa guerra com a União Soviética; de permitir que todos os beligerantes se atolem até o pescoço na lama da guerra; de os encorajar, de forma subreptícia a fazê-lo; de deixá-los enfraquecerem-se e esgotarem-se mutuamente; para depois, quando estiverem suficientemente fracos, aparecer em cena com forças frescas, aparecer, naturalmente "no interesse da paz", e ditar as suas condições aos beligerantes enfraquecidos. [...]

Mas a entrega da Checoslováquia a Hitler não foi o fim do negócio. Os governos da Grã-Bretanha e França tinham cada qual pressa em serem os primeiros em assinar acordos políticos amplos com a Alemanha de Hitler. Em 30 de Setembro de 1938 foi assinada em Munique, por Chamberlain e Hitler, uma Declaração Anglo-Germânica [...]. A 6 de Dezembro de 1938, foi assinada a Declaração Franco-Alemã de Bonnet-Ribbentrop, análoga à declaração Anglo-Germânica. […]

Basicamente, esses acordos significam que quer a Grã-Bretanha, quer a França, assinaram pactos de não agressão com Hitler.

Estes acordos com a Alemanha de Hitler revelam com meridiana clareza que os Governos Britânico e Francês, no seu afã de se libertarem da ameaça da agressão por Hitler, pensavam que Munique e outros acordos semelhantes tinham aberto de par em par as portas para a agressão de Hitler a Leste, a agressão de Hitler contra a União Soviética.

Foi assim que foram criadas as condições políticas para "unir a Europa sem a Rússia". O que visavam era o total isolamento da União Soviética.

Após se apoderar da Checoslováquia, a Alemanha fascista começou a preparar-se abertamente para a guerra, diante dos olhos de todo o mundo. Hitler, encorajado pela Grã-Bretanha e a França, deixou de se preocupar com as aparências ou proclamar-se a favor duma resolução pacífica das questões europeias. Tinham chegado os meses mais dramáticos do período anterior ao início da guerra. Naquele momento era já claro que cada dia que passava aproximava a Humanidade de uma catástrofe bélica sem precedentes. [...]

A verdade é que, mesmo neste período fatal da Primavera e Verão de 1939, a Grã-Bretanha e a França, apoiadas pelos círculos dirigentes dos EUA, prosseguiram a anterior orientação da sua política. Era uma política de encorajamento provocatório da Alemanha de Hitler contra a União Soviética, uma política camuflada, não apenas por frases farisaicas sobre a disponibilidade para cooperar com a URSS, mas também por certas manobras diplomáticas simples que visavam esconder a verdadeira natureza da sua política da opinião pública mundial.

Entre tais manobras encontravam-se as negociações de 1939 que a Grã-Bretanha e a França decidiram encetar com a União Soviética. Para enganar a opinião pública, os círculos dirigentes britânicos e franceses procuraram apresentar essas negociações como uma tentativa séria de impedir uma ulterior extensão das agressões de Hitler. Mas, à luz de todo o curso subsequente dos acontecimentos, tornou-se absolutamente claro que, no que respeitava à parte anglo-francesa, essas negociações nada mais foram, desde o início, do que um novo episódio do seu jogo duplo. [...]

Uma circunstância que na altura atraiu as atenções foi o facto de que homens de segundo plano foram enviados para conduzir, em Moscovo, as negociações em nome da Grã- Bretanha, ao mesmo tempo que o próprio [Primeiro Ministro] Sr. Chamberlain viajou, por mais do que uma vez, até à Alemanha para negociar com Hitler. É também importante assinalar que o representante britânico às negociações com a URSS, o Sr. Strang, não tinha poderes para assinar qualquer acordo com a União Soviética. [...]

O objectivo pérfido da política anglo-francesa era dar a entender a Hitler que a URSS não tinha aliados, que a URSS estava isolada, que Hitler poderia atacar a URSS sem correr o risco de enfrentar a resistência da Grã-Bretanha e França. [...]

A questão é que, juntamente com as negociações públicas com a URSS, os britânicos conduziam nos bastidores negociações com a Alemanha, e que atribuíam uma importância incomparavelmente maior a estas últimas. [...]

Já em Junho de 1939, os representantes britânicos encetaram, no maior segredo, negociações com a Alemanha, através do Comissário de Hitler para o plano quadrianual, Wohltat, que se deslocou a Londres. Realizaram-se conversações entre ele e o Ministro para o Comércio Exterior, Sr. Hudson, e Sir Horace Wilson, o mais próximo conselheiro de Chamberlain. [...]

O Sr. Hudson e Sir Horace Wilson propuseram a Wohltat, e posteriormente ao Embaixador alemão em Londres, Dirksen, o início de conversações secretas para a conclusão de um amplo acordo que incluiria um acordo sobre a partilha de esferas de influência à escala global e para pôr termo à "concorrência mortal nos mercados comuns". [...]

Durante a discussão das questões relacionadas com esses dois pactos, os representantes britânicos prometeram que, no caso da assinatura dos pactos mencionados, a Grã-Bretanha renunciaria às garantias que acabara de conceder à Polónia. No caso da assinatura de um acordo anglo-germânico, os ingleses estavam prontos a deixar os alemães resolverem sozinhos com a Polónia as questões de Danzig e do corredor polaco, comprometendo-se a não intervir na sua resolução.

Além disso, e também aqui existe comprovação documental nos relatórios de Dirksen que serão publicados em breve – Wilson reafirmou que no caso da assinatura dos referidos pactos entre a Grã-Bretanha e a Alemanha a política britânica de concessões de garantias seria de facto abandonada. "Nesse caso, a Polónia" – escreve Dirksen a este respeito no seu relatório – "permanecerá, por assim dizer, sozinha face a face com a Alemanha". [...]

Nenhum falsificador conseguirá apagar da História ou da consciência dos povos, o facto decisivo de que, naquelas condições, a União Soviética enfrentava a alternativa de:

ou aceitar, em defesa própria, a proposta apresentada pela Alemanha de assinar um pacto de não agressão e garantir assim à União Soviética a extensão da paz por um certo período de tempo, que poderia ser usado pelo Estado soviético para melhor preparar as suas forças para resistir ao possível ataque do agressor;

ou recusar a proposta da Alemanha sobre o Pacto de não agressão e permitir assim que os provocadores da guerra no campo das potências ocidentais pudessem imediatamente envolver a União Soviética num conflito armado com a Alemanha, numa situação totalmente desfavorável para a União Soviética, encontrando-se em condições dum completo isolamento.

Nessa situação, o governo soviético viu-se obrigado a fazer a sua escolha e assinar o Pacto de Não-agressão com a Alemanha. [...]

Tal como em 1918, em resultado da política hostil das potências ocidentais, a União Soviética viu-se forçada a concluir a paz de Brest com os alemães, da mesma forma em 1939, 20 anos após a paz de Brest, a União Soviética foi forçada a concluir um pacto com os alemães, em resultado da mesma política hostil da Grã-Bretanha e França. [...]

Não é um facto que, de entre todas as grandes Potências na Europa, a União Soviética foi a última a firmar um pacto com os alemães? [...]

Ao assinar o Pacto de Não-agressão com a Alemanha em Agosto de 1939, a União Soviética nunca duvidou que, mais cedo ou mais tarde, Hitler atacaria a URSS. [...] É por isso que a primeira tarefa do governo soviético foi a de criar uma frente "oriental" contra a agressão hitleriana, para estabelecer uma linha de defesa ao longo das fronteiras ocidentais dos territórios bielorussos e ucranianos […].

Entretanto, os acontecimentos a Ocidente seguiram o seu rumo. Em Abril de 1940, os alemães ocuparam a Dinamarca e a Noruega. Em meados de Maio as tropas alemãs invadiram a Holanda, a Bélgica e o Luxemburgo. Em 21 de Maio, os alemães chegaram ao Canal da Mancha e isolaram os aliados na Flandres. No final de Maio, as tropas britânicas evacuaram Dunquerque, retirando-se da França para a Inglaterra. Em meados de Junho, Paris caiu e, em 22 de Junho, a França rendeu-se à Alemanha.

Assim, Hitler rasgou toda e qualquer declaração de não agressão, assinada em conjunto com a França e a Grã-Bretanha.

Tal significou o fracasso completo da política de renúncia à segurança colectiva, da política que visou isolar a URSS. [...]

Notas

(1) XIII Plenário da Comissão Executiva da Interacional Comunista, Dezembro de 1933.

(2) Pauwels, Jacques R. (2013) Big business avec Hitler, Éditions Aden (p. 98, 193-4 e 176).

(3) Citado, a partir da versão alemã do diário de Goebbels publicada em 1992, por Losurdo, D. (2008) Stalin. Storia e critica di una leggenda nera, Carocci Editore.