Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 366 - Mai/Jun 2020

Covid-19: dois países nos EUA

por Jorge Cadima

As consequências desta Primavera (no Hemisfério Norte) de 2020 vão ser tremendas, e a História está ainda por escrever. Ainda é cedo para avaliar todo o impacto da pandemia Covid-19, mas as suas consequências serão múltiplas e profundas. Em muitos países, e nomeadamente nos centros imperialistas que são hoje o epicentro da epidemia, uma crise de saúde pública está a transformar-se numa catástrofe social. Mas as classes dominantes ao serviço do grande capital estão já a procurar usar a crise provocada pelo coronavirus SARS-CoV-2 como pretexto para justificar mais prebendas para o grande capital e mais sacrifícios para quem trabalha. Tal facto, que marca todo o mundo capitalista, é particularmente evidente nos Estados Unidos da América.

Os EUA: uma tragédia com marca de classe

Tal como no rescaldo do furacão Katrina em 2005, a epidemia Covid-19 põe a nu, de forma brutal, a realidade social da superpotência imperialista e o total desprezo das classes dominantes para com os trabalhadores e o povo dos EUA. Nem a comunicação social de regime consegue esconder essa realidade dramática.

Escrevendo ainda antes de os Estados Unidos se tornarem o país com (de longe) o maior número de casos de Covid-19, o Financial Times (6.3.20) antevia a vulnerabilidade da superpotência imperialista. As causas referidas reflectem uma brutal e desenfreada exploração: «Responsáveis de saúde pública e académicos estão preocupados por a conjugação de um elevado número de pessoas sem seguros [de saúde], a inexistência de baixas médicas pagas e uma classe política que minimizou a ameaça poderem vir a significar que [o vírus] venha a alastrar de forma mais rápida do que noutros países […] alguns consideram que o país poderá vir a ser um dos mais afectados pela pandemia global. […] O alastramento do coronavirus pode ser alimentado pelo facto de pacientes recearem procurar cuidados [médicos], devido aos elevados custos do sistema de saúde nos EUA. Quase 18 milhões de americanos não tinham seguro [de saúde] em 2018 […]. Mesmo pacientes com seguros podem ver-se em dificuldades para pagar as contribuições que asseguram esses cuidados. […] Embora 11 Estados e 25 cidades tenham aprovado leis que obrigam as empresas a pagar baixas médicas, continua a não existir a exigência a nível Federal de o fazer, e activistas afirmam que cerca de 30% dos trabalhadores dos EUA ainda não têm esse direito. Peritos afirmam que isso pode aumentar o alastramento do coronavirus se trabalhadores doentes, com receio de perder a sua paga, acabam por ir trabalhar e infectar outros. De acordo com um estudo académico publicado em 2012, a falta de políticas laborais tais como baixas médicas pagas levou a um excesso de 5 milhões de doenças de tipo gripal durante a eclosão da gripe porcina H1N1 em 2009».

Também no princípio de Março, o New York Times (9.3.20) explicava porque é que «o encerramento das escolas públicas será um último recurso»: «a cidade de Nova Iorque tem a maior rede de escolas públicas dos Estados Unidos […] com cerca de 750 000 crianças pobres, incluindo cerca de 144 000 sem abrigo [!]. Para estes estudantes, a escola pode ser o único lugar onde conseguem ter três refeições quentes por dia e cuidados médicos, ou até lavar a sua roupa suja. É por isso que as escolas públicas da cidade deverão permanecer abertas mesmo que o novo coronavirus se torne mais prevalente em Nova Iorque». Acrescenta que «mesmo um único dia de neve pode perturbar seriamente as vidas das crianças mais vulneráveis de Nova Iorque e os seus pais e outros parentes, cujos empregos muitas vezes não asseguram o pagamento de baixas». O artigo do NYT transmite um testemunho sobre a realidade da maior cidade dos EUA, nesta ‘era digital’: «Nicole Manning, uma professora de matemática do 9.º ano no liceu Herbert H. Lehman, no Bronx, calcula que quase metade dos seus alunos não têm acesso à internet em casa. ‘Não podemos fazer ensino à distância’, afirma. ‘Não seria justo’».

Ainda o NYT informava (20.3.20) que «pode afirmar-se que os EUA não estão apenas a seguir o curso de Itália, mas estão pior preparados, pois a América tem menos médicos e camas hospitalares per capita do que Itália – e uma esperança de vida menor, mesmo em tempos melhores». E isto apesar de em Itália o número de camas hospitalares por mil habitantes ter descido cerca de 25% nas últimas duas décadas de ‘euro-austeridade’ (Estatística de Saúde da OCDE).

Um artigo da CNN online (23.3.20) estima em 320 mil o número dos sem-abrigo no Reino Unido, para quem as instruções para «ficar em casa» têm um sabor particularmente amargo. Dá conta que «os bancos alimentares que garantem apoio vital a alguns dos 14 milhões de pobres estimados estão com falta de voluntários, muitos dos quais se viram forçados a auto-isolar-se, bem como da própria comida, no seguimento do pânico de compras nos supermercados». E acrescenta que a situação social agravou-se «após a crise financeira global de 2007-8» quando «milhares de milhões de libras foram retiradas do sistema de segurança social» a fim de efectuar «cortes radicais nas despesas estatais». Se nos lembrarmos dos milhões de milhões que têm sido entregues à banca neste mesmo período, para manter à tona um sistema financeiro falido, torna-se evidente que o capitalismo, mesmo nos seus principais centros, é uma criminosa máquina de gerar riquezas imensas à custa duma enorme pobreza.

A situação social agravou-se abruptamente com a eclosão da epidemia. Em apenas três semanas do final de Março a início de Abril, o número oficial de novos desempregados nos Estados Unidos cresceu quase 17 milhões, «um número que os economistas dizem que pode elevar a taxa de desemprego para 14%, superior ao pico da última crise financeira» (Financial Times, 9.4.20). Economistas do Banco da Reserva Federal de St. Louis estimam que o número de novos desempregados possa mesmo chegar aos 47 milhões, com uma taxa de desemprego de 32% (CNBC, 30.3.20). Esta realidade dramática levou à quebra de alguns sistemas informáticos para pedidos de subsídio, com a formação de longas filas de recém-desempregados (Newsweek, 8.4.20), que arriscaram o contágio para não ficarem sem o jantar. Nos EUA, a perda de emprego é também, muitas vezes, a perda a prazo da casa ou (se existir) do seguro de saúde.

Mesmo no plano estritamente médico, o impacto da epidemia tem a marca de classe. A ABC (3.4.20) relata que, «o vírus não poupou nenhuma parte da Cidade de Nova Iorque, mas novos dados mostram que os bairros mais pobres de Queens, Bronx e Brooklyn estão a ser particularmente atingidos». Uma fonte noticiosa de Chicago (WBEZ, 5.4.20) relata que «em Chicago, 70% dos mortos de Covid-19 são negros», uma percentagem muito superior aos 29% na população. E explica: «Historicamente, as comunidades negras de Chicago têm sido atingidas de forma desproporcionada por problemas de saúde, dadas a pobreza, a poluição ambiental, a segregação e o acesso limitado a cuidados médicos».

Os outros EUA

Mas se para os trabalhadores e o povo dos EUA a tragédia sanitária se transforma em calamidade, a realidade é outra para o grande capital. Tal como em 2008, o ‘dinheiro dos contribuintes’, que ‘não existe’ para despesas sociais, aparece logo, e em quantidades astronómicas, para sustentar o grande capital financeiro. Ainda antes do final de Março, o governo dos EUA abriu os cordões à bolsa, com «uma resposta fiscal no valor de 2 triliões de dólares», ou seja, $2.000.000.000.000. Mas o Financial Times (Martin Wolf, FT, 31.3.20) esclarece: «apenas um vigésimo [5%] desta quantidade irá para os hospitais […] e haverá um fundo de 500 mil milhões de dólares [25%] para as grandes empresas, que provavelmente estará debaixo do controlo, não supervisionado, do Sr. Trump». Os ‘mercados’ (nome de código para o grande capital financeiro) reagiram extasiados: o índice Dow Jones teve uma subida de 11,4% «a maior desde 1933» (FT, 24.3.20). Poucos dias depois, ‘há dinheiro’ para um novo pacote de «$2,3 triliões em créditos e para apoiar o mercado de dívidas de alto rendimento de grandes empresas [high-yield corporate debt]» (FT, 9.4.20). O ‘dinheiro dos contribuintes’ que estão nas filas do desemprego é usado para «apoiar o mercado», de «dívidas», de «alto rendimento», de «grandes empresas»!

A verdade é que, longe do jargão com que o capital financeiro procura camuflar as suas negociatas, o sistema financeiro capitalista, já sustentado pela metadona do Estado desde 2008, está hoje totalmente quebrado e precisa desesperadamente da heroína do Estado. Só sobrevive com a total ficção de os Estados inventarem dinheiro (que ficará nas dívidas públicas) para comprarem tudo aquilo que ‘os mercados’ querem desesperadamente vender. Um articulista do Financial Times (24.3.20) fala na «‘nacionalização’ do mercado de Títulos do Tesouro que ajudou a acalmar os nervos». Ou seja, o Estado a comprar a dívida do Estado… E acrescenta: «a [Reserva Federal] comprometeu-se a comprar dívida governamental em quantidades ilimitadas, na mais recente tentativa de impedir que o choque económico do coronavirus se transforme numa derrocada dos mercados. A decisão segue-se a medidas semelhantes do Banco Central Europeu e do Banco de Inglaterra». Outro articulista escreve (FT, 23.3.20) «os gigantescos e actualmente disfuncionais mercados de Títulos do Tesouro dos EUA, crédito hipotecário e de grandes empresas, têm agora um comprador de último recurso – a Reserva Federal», isto é, o ‘banco central’ dos EUA que, sendo um conjunto de bancos privados, assenta no dinheiro do Estado. O FT fala em «Quantitave Easing infinito» e afirma que as dívidas da Reserva Federal «aumentarão de forma assinalável, à medida que se torna no comprador de último recurso nos mercados», não antevendo nenhuma alteração da situação «dada a dimensão da euforia de endividamento após 2009» (lembram-se de quando prometiam ‘reduzir o endividamento’?).

A vergonha pós-2008 (que Portugal conheceu tão bem) vai-se repetir numa escala incomensuravelmente maior: os dinheiros públicos vão ser entregues aos bancos para estes fazerem negócio. Escreve de novo o Financial Times (1.4.20): «[os banqueiros] estão a ser chamados para ajudar a distribuir programas de estímulo sem precedentes, no valor de triliões de dólares […]. Embora os governos e os bancos centrais estejam a fornecer boa parte do dinheiro, está a ser pedido aos emprestadores que sirvam de ‘correia de transmissão’ para assegurar que o apoio chegue às empresas e consumidores que dele mais necessitam». Os prejuízos e as dívidas serão dos Estados, dos trabalhadores, dos pequenos e médios empresários. Para o grande capital financeiro irão os lucros e mais alguns milhões de escravos, subjugados por essas dívidas. A ‘solidariedade do capital financeiro’ vê-se até nos pormenores: «na terça-feira, os maiores bancos do Reino Unido cederam à pressão do Banco de Inglaterra e suspenderam [o pagamento de] todos os dividendos [aos accionistas]. A iniciativa chocou os investidores e provocou profundas quebras no preço das suas acções» (FT, 1.4.20).

Lições

Se há algo que a pandemia Covid-19 pôs em evidência é a criminalidade de um sistema social e económico que apenas existe em função duma parasitária minoria de ultra-ricos. Décadas de cortes nas políticas e investimentos sociais revelam agora os seus efeitos. Estes cortes, tal como toda a política económica e social das grandes potências capitalistas, tem servido apenas um objectivo: enriquecer ainda mais quem já era obscenamente rico.

É também para impedir que esta realidade básica se transforme em consciência de largas massas que foi desencadeada a monumental campanha de falsidades que visa encontrar o ‘inimigo externo’. É fácil desmontar a mentira, propalada profusamente por Trump e os escribas ao seu serviço, que a China ‘escondeu’ a doença. Ela foi comunicada oficialmente à OMS no dia 31 de Dezembro (se tivesse sido mais tarde, seria Covid-20…), quando havia poucas dezenas de casos de uma doença ainda desconhecida (WHO Situation Report 1). Durante dois meses, quando parecia que a epidemia se confinava à China, Irão e países vizinhos, a comunicação social entretinha-se a denegrir a China e os seus esforços de contenção e combate à epidemia. Tudo era ‘culpa do regime’. Falavam do «momento Chernobil de Xi Jinping» e anteviam o «colapso». Mas a realidade é que, com medidas firmes, apoiadas em mecanismos de protecção social, a China foi capaz de conter a epidemia essencialmente numa única província, e pode bem vir a ser dos países menos afectados (em relação à sua população) pela pandemia. Não fez as manchetes, mas no final duma notícia do New York Times (20.3.20) lê-se que «não se conhece nenhum caso, entre os 42 000 trabalhadores da saúde enviados para Wuhan, de infecção com o coronavirus. Os Estados Unidos não estão a proteger os trabalhadores da saúde com a mesma determinação: parecem estar a traí-los».

O ‘salve-se quem puder’ das principais potências imperialistas tornou-se degradante. Destruindo os mitos da ‘solidariedade europeia’, França e Alemanha proibiram a exportação dos seus materiais sanitários quando a tragédia italiana estava no auge, e assobiaram para o lado. É conhecido o banditismo na disputa por máscaras e testes, na qual os EUA se destacam. Pelas malhas da censura passa a realidade bem diferente, solidária mesmo quando afectada pela crise, de países ‘párias’ como Cuba, a China, a própria Rússia. Factos que deixarão marcas em países como a Itália.

Nem em tempo de pandemia os centros imperialistas cessam a sua política de guerra, subversão e ingerência. No Conselho de Segurança da ONU uma moção proposta pela Rússia e 27 outros países, pedindo o levantamento das sanções unilaterais impostas à margem da ONU, dada a pandemia, foi rejeitada pelos EUA e pelos países da UE (os sancionadores unilaterais). Novas sanções foram impostas pelos EUA ao Irão. As manobras de guerra dos EUA contra a Venezuela (que, contrariando as previsões – quase súplicas – da comunicação social imperialista, tem escapado até agora à pandemia), estão a ser intensificadas por Pompeo, o amigo do MNE Santos Silva. Mas o país ‘excepcional’, que não poupa meios na promoção da guerra e subversão no planeta inteiro, quantas vezes invocando pretextos ‘humanitários’, não é capaz de proteger a sua população quando atingida por tragédias naturais ou de saúde pública.

Apesar dos muitos milhões de milhões de apoios públicos ao grande capital financeiro, o capitalismo mundial estava já a entrar num novo pico da crise, mesmo antes da eclosão da pandemia. Se o Covid-19 age como catalizador para «a pior recessão desde a Grande Depressão» dos anos 30, nas palavras da Directora-Geral do FMI (Reuters, 9.4.20), a verdade é que o capitalismo mundial nunca saiu da crise de 2008 e já só vive da teta do Estado. O coronavirus veio agravar tudo, mas também criar uma desculpa que será usada até à exaustão. O vírus é muito pequeno mas tem as costas muito largas.

Talvez a principal lição a extrair disto tudo seja constatar como ao fim de tantos anos de destruição de empregos, vidas, reformas, serviços públicos – tudo em nome dos ‘mercados’ e da sua ‘lógica’ – a prioridade nas despesas em tempo de pandemia não vai para a saúde e o povo, mas para os multimilionários banqueiros porque, dizem, sem esses apoios o sistema financeiro internacional vai ao fundo. A pergunta é óbvia: mas afinal para que serve esse ‘sistema financeiro internacional’? É urgente mandá-lo mesmo ao fundo.