Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 283 - Jul/Ago 2006

O desmantelamento da Jugoslávia e a hegemonia alemã na Europa

por Rui Paz

A 21 de Maio deste ano realizou-se no Montenegro um referendo, instigado pela União Europeia (UE) e pelas potências da NATO, com a finalidade de liquidar definitivamente o que resta da Jugoslávia e isolar completamente a Sérvia. Como os próprios resultados oficialmente anunciados confirmam, pelo menos metade da população do Montenegro e dos seus  490 mil eleitores opõe-se à consumação dos planos separatistas. Liquidar a existência de um Estado por uma margem oficialmente anunciada de 1760 votos é uma farsa só comparável à dos referendos que a UE costuma repetir até à exaustão para impor aos povos o seu projecto imperialista. A liquidação do Estado da Sérvia e Montenegro confirma mais uma vez que por detrás da retórica da «intervenção humanitária» se escondia e esconde o plano revanchista do restabelecimento da hegemonia alemã e imperialista naquela região da Europa. Convém recordar que, quando foi despoletado o conflito na Jugoslávia, a Alemanha encontrava-se num estado de euforia nacionalista e imperialista, embriagada pela anexação da RDA, a dissolução do Pacto de Varsóvia e o fim do socialismo na URSS e nos países do Leste europeu. É o momento em que o chanceler Kohl exige no território da ex-União Soviética a criação de um estado alemão, a «República do Volga». Figuras como o neofascista Manfred Roeder, condenadas por terrorismo, são convidadas a proferir conferências na Academia da Bundeswehr em Hamburgo, sob o tema «a transferência dos alemães da Rússia para a antiga região da Prússia Oriental» (Königsberga/Kaliningrad). É ainda neste período que o angolano António Amadeu é assassinado a pontapés por neonazis na presença passiva da polícia e que famílias inteiras de outra religiões e etnias são queimadas vivas em incêndios ateados por neonazis em Solingen, Möll, Lübeck. O inspector-geral da Bundeswehr, general Naumann, protegido do chanceler Kohl, escreve na revista militar Information für die Truppe (11/1991) que «a Bundeswehr tem de estar preparada para intervir fora do território da Alemanha Federal, desde que estejam em jogo interesses alemães».





Um velho plano




É nesta atmosfera de delírio revanchista que, num encontro da Federação do Patronato Alemão com generais da Bundeswehr, em Setembro de 1991, sob o lema «questões evidentes para os alemães», o ministro da Defesa, Rupert Scholz, afirma que o conflito na Jugoslávia tem um significado para toda a Europa; enquanto as consequências da II Guerra Mundial têm vindo a ser superadas, nos Balcãs têm de se rever os resultados da I Grande Guerra. Depois de exigir o reconhecimento imediato da Croácia e da Eslovénia – as quais, instigadas pela Alemanha, haviam declarado unilateralmente a independência a 25 de Junho –, o ministro da guerra de Kohl conclui: «logo que esse reconhecimento se processar já não estaremos face a um conflito interno da Jugoslávia e uma intervenção internacional será então possível». A 23 de Dezembro de 1991, a Alemanha, contra a vontade de todos os membros da UE e dos próprios EUA, reconheceu a Croácia e a Eslovénia. Enquanto a ONU fazia todos os esforços para evitar uma escalada do conflito, a Alemanha sabotava todas as tentativas para uma solução pacífica e procurava atear ao máximo os conflitos étnicos e religiosos nos Balcãs. A 14 de Dezembro, o secretário-geral da ONU, Peres de Cuellar, numa carta dirigida ao ministro dos Negócios Estrangeiros de Bona, Genscher, sente-se na obrigação de avisar que a Alemanha não está a respeitar a decisão da cimeira extraordinária do Conselho de Ministros dos 12, realizada em Roma a 8 de Novembro de 1991, onde se estabelecera que «a possibilidade de um reconhecimento da independência das repúblicas federadas que o desejarem só seria possível no quadro de um acordo que regule toda a situação na Jugoslávia…». O secretário-geral da ONU  prossegue: «eu parto do princípio de que o senhor conhece a grande preocupação dos presidentes da Bósnia-Herzegóvina e da Macedónia e de muitas outras personalidades de que um reconhecimento precipitado e selectivo significará o alastrar do conflito numa região tão sensível. Um tal desenvolvimento teria consequências muito graves para os Balcãs e colocaria seriamente em perigo os esforços do meu representante pessoal, visando medidas que garantam a paz na Jugoslávia».

Nem o secretário-geral da ONU, nem os restantes Estados do mundo inteiro, incluindo os próprios EUA, conseguiram travar os planos separatistas da Alemanha. Nessa altura a opinião pública desconhecia ainda que, já desde a morte de Tito, em 1980, os serviços secretos alemães (BND) procuravam criar condições para o desmantelamento da Jugoslávia. O especialista Erich Schmidt-Eenboom, no seu livro O guerreiro na sombra, descreve a actividade de desintegração da Jugoslávia desenvolvida pelo dirigente dos serviços de espionagem, Klaus Kinkel, o qual mais tarde viria a suceder a Genscher como ministro dos Negócios Estrangeiros.





A aliança da NATO com fundamentalistas e terroristas




Entretanto, na Bósnia, a NATO pressiona os dirigentes políticos a realizarem um referendo sobre a constituição de um Estado independente, apesar de saber que um terço da população – os Sérvios – não apoia este modelo de Estado. O que provoca uma longa guerra civil. É por esta altura que Bin Laden se desloca a Saraievo e a Tirana e que combatentes islâmicos, vindos da Arábia Saudita, do Irão e do Iémen, colaboram com a firma de mercenários privada dependente do Pentágono (MPRI). Dos sete principais terroristas do 11 de Setembro, pelo menos quatro – Al Hazmi, Al Midhar, sheik Mohamed e Binalschib – combateram na Bósnia contra os Sérvios. Em meados de Abril de 1994 inicia-se a ocupação militar da Bósnia pela NATO no quadro da chamada «parceria para a paz». A 30 de Agosto de 1995, e com o pretexto de que dois dias antes a artilharia sérvia terá morto 41 pessoas, a NATO avança com a maior ofensiva até ali desencadeada nos Balcãs. Mais de 60 aviões de guerra atacam posições sérvias na região de Saraievo. Dois meses mais tarde descobre-se que essas pessoas tinham sido vítimas de uma provocação montada pelo governo de Izetbegovic. Especialistas britânicos confirmam que as granadas tinham sido lançadas por tropas governamentais da Bósnia. O mesmo viria a acontecer no início de Agosto de 1995, quando o comandante francês das tropas da NATO/SFOR repara que atiradores bósnios passavam o dia inteiro a fazer fogo contra a própria população. O general francês foi rapidamente retirado do seu posto de comando em Saraievo. A 21 de Novembro de 1995 os chamados acordos de Dayton estabelecem a partilha da Bósnia em duas repúblicas federadas, a Federação Islâmico-Croata e a República Sérvia (Srpska).

Em Maio de 1995, o exército croata, de colaboração com a ONU, ocupa uma das quatro regiões da Croácia habitadas por Sérvios. Nesse mesmo mês, aviões da NATO atacam posições sérvias em Pale e abrem caminho para a limpeza étnica de Kraína. Centenas de milhares de civis sérvios têm de fugir ao massacre e abandonar as suas terras e haveres.

Mas não é só na Croácia, na Eslovénia e na Bósnia que se manifesta o ódio da Alemanha e da NATO contra os Sérvios, povo que historicamente mais tem resistido ao domínio imperialista nos Balcãs. Desta vez é o Kosovo. O chamado Exército de Libertação do Kosovo (UCK) foi oficialmente fundado em 1993 com o apoio financeiro da Alemanha. Em Siegburg, próximo de Bona, ficou situada a sede do financiamento. 400 000 Albaneses residentes na Alemanha foram chamados a contribuir para o UCK, podendo gozar oficialmente de vantagens fiscais para os donativos. A conta da Sparkasse de Bona n.° 85431, BLZ 380 500 00, intitulada «a pátria chama-te», rende ao chefe do chamado «governo do Kosovo no exílio», Bujar Bukoshi, cerca de 10 milhões DM (c. de 5 milhões de euros) por ano. Como revelou o programa da WDR «Monitor», instrutores dos serviços secretos alemães participam nos treinos militares do UCK no norte da Albânia. Inicialmente o UCK pratica exclusivamente atentados localizados e procura controlar regiões habitadas exclusivamente por Albaneses. Mas com o apoio das potências da UE (sobretudo da Alemanha) e dos EUA, só no ano de 1998 expulsou a população sérvia de mais de 70 aldeias.





A NATO desencadeia a guerra na Europa




A 21 de Marco de 1999, com o pretexto de evitar uma «catástrofe humanitária» no Kosovo, a aviação da NATO ataca a Jugoslávia. A social-democracia alemã e os governos socialistas e social-democratas da maior parte dos Estados da UE aliados aos EUA e à Alemanha apoiam e participam na agressão. O ataque da NATO provoca milhares de vítimas, inclusive na população civil. Durante 78 dias, Belgrado e outras cidades da Sérvia são bombardeadas, enquanto fábricas, pontes e auto-estradas são destruídas. A infra-estrutura económica da Jugoslávia é completamente arruinada e o Kosovo é transformado num protectorado da NATO, apesar da Resolução 1244 da ONU (1999) considerar aquele território como parte integrante da Sérvia. A NATO constata estarem reunidas as condições para derrubar o presidente Milosevic que tem vindo a resistir à agressão imperialista, e vê chegada a hora de levar ao poder as forças colaboracionistas controladas pela Alemanha e pelos EUA. Um político com passaporte alemão, Djingic, conhecido pelo «gauleiter» da NATO na Sérvia,  passa a chefiar o governo em Belgrado. Nas eleições que antecederam o golpe contra-revolucionário, segundo o Washington Post (22.11.2000), o governo norte-americano pagou à oposição 77,2 milhões de euros. A revista alemã Der Spiegel (9.10.2000) revela que Berlim contribuiu com 20 milhões e outros Estados da UE terão avançado com mais 25 milhões. O bombardeamento e a invasão da Jugoslávia por uma coligação de Estados que nunca foram agredidos assim como o financiamento externo de figuras políticas constituem graves violações do direito internacional. A Resolução 45/168 da Assembleia Geral da ONU proíbe a qualquer Estado «o financiamento de partidos ou grupos políticos e todo o tipo de actividade que possam desfigurar o processo eleitoral». 

Com a liquidação da Jugoslávia, uma chusma de procônsules alemães, ex-ministros – como Bodo Hombach, Michael Steiner, Schwarz-Schiling – tem-se dedicado à concretização do principal objectivo da agressão: impor o domínio imperialista nos Balcãs. A restauração capitalista, exigida no ultimato de Rambouillet, é hoje uma realidade que tem vindo a provocar a miséria crescente dos povos da ex-Jugoslávia. Enquanto 32% dos trabalhadores sérvios estão desempregados, os EUA, a Alemanha e outros países da UE repartem entre si a presa e os despojos do saque imperialista. A lei das privatizações de Maio de 2001 deu o golpe final na economia sérvia e inaugurou a sua venda ao desbarato. O principal centro de produção metalúrgico, a fábrica SARTID em Smeredo, inclusive as intalações do porto do Danúbio foram entregues ao grupo norte-americano US Steel por apenas 23 milhões de dólares. Os impérios do tabaco Philipe Morris e British American Tobaco apoderam-se das maiores fábricas de cigarros em Nis e Vranje. Os quatro maiores bancos sérvios (Beobanka, Jugobanka, Investbanka e Beograska Banka) foram encerrados e substituídos por bancos privados, onde predomina o banco austríaco Raiffeinsenzentralbank ligado à Alemanha. Desde que o HypoVereinsbank de Munique, o segundo maior banco alemão, engoliu o Banco da Áustria, a Alemanha tem vindo a apoderar-se do sector bancário de cada vez mais países do Leste da Europa. O mesmo é válido para a imprensa e para o sistema de comunicações nos Balcãs e noutros Estados ex-socialistas, como é o caso da República Checa, da Eslováquia, da Roménia. O jornal de maior tradição em Belgrado, Politika, encontra-se em poder do grupo alemão de Essen, WAZ. O império de Düsseldorf Henkel tomou conta da indústria química nos Balcãs.

Mas o ódio das potências da NATO à Sérvia prossegue, como acaba de ficar demonstrado com o referendo no Montenegro e o apoio a movimentos separatistas na Volvodina, a norte de Belgrado. No Kosovo, a UE prepara a separação ilegal daquela região da Sérvia, e na Bósnia procura-se, com o pretexto de uma reforma constitucional, liquidar o Estado federado sérvio, a República Srpska. O processo de desmantelamento da Jugoslávia, um Estado que teve a dignidade de não andar a mendigar a sua adesão à UE e à NATO, é bem revelador da natureza agressiva e criminosa do imperialismo. Só a luta pela soberania e a independência nacionais poderá pôr fim ao domínio imperialista da UE, da NATO e dos EUA, na Europa e no mundo, restituir a dignidade aos povos e libertá-los definitivamente do pesadelo da guerra e da opressão.