Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Abertura, Edição Nº 284 - Set/Out 2006

Persistir, persistir, persistir...

por Revista «O Militante»

Celebramos o 30º aniversário da nossa Festa do «Avante!» num contexto nacional e internacional muito complexo e perigoso, mas também cheio de sinais de esperança e motivos de confiança. Trata-se de duas faces de uma mesma realidade que é necessário levar simultaneamente em consideração para avaliar as perspectivas da nossa acção. Quando os EUA e seus principais aliados, empenhados numa resposta de força às agudas contradições do sistema capitalista, estão a arrastar o mundo para uma crise internacional de inéditas proporções, mais necessário se torna combinar uma aguda consciência da dureza dos combates que temos por diante, com a convicção de que é possível vencê-los e alcançar, pela força da organização e da luta das massas, transformações progressistas e revolucionárias. Para o conseguir numa correlação de forças global que é ainda desfavorável, é necessário reforçar a luta em cada país e região do mundo e elevar a um nível superior a solidariedade internacionalista dos comunistas, das forças progressistas, dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo.

Esta é a resposta necessária àqueles que, semeando o terror, a morte e a destruição na Palestina e no Líbano, estão a dizer ao mundo que são capazes de recorrer aos piores crimes para defender os privilégios das multinacionais e sufocar todo e qualquer processo libertador de soberania e progresso social. Os EUA, Israel e seus aliados, querem aterrorizar os povos com as suas brutais exibições de força e de desprezo pela vida humana. Querem banalizar práticas criminosas como o assassinato a sangue frio, a prisão arbitrária, a tortura, o rapto, a existência de campos de concentração e prisões secretas, o bombardeamento de povoações e o massacre de populações civis, a utilização de armas proibidas incluindo a nuclear, a sistemática violação de fronteiras de soberania. Lançando o labéu de «terrorista» sobre quantos lhes resistam, praticam uma política de terrorismo de estado à maneira nazi, que se desenvolve do plano militar ao ideológico, semeando a desorientação e o desespero, procurando mesmo subverter valores e sufocar aspirações.

A solidariedade para com os povos palestiniano e libanês, no quadro da luta contra a política de agressão e pilhagem imperialista no Médio Oriente e Ásia Central, é uma tarefa de grande urgência. É preciso agir para impedir uma escalada que incendeie toda a região, apontando o imperialismo norte-americano e os sionistas de Israel como os grandes responsáveis, e combatendo simultaneamente o envolvimento da NATO e a orientação militarista e colaboracionista com os EUA que prevalece na União Europeia. É preciso ir às raízes do conflito insistindo em que a questão palestiniana é a questão central do Médio Oriente e que só com a retirada de Israel dos territórios árabes ocupados em 1967, só com a aplicação das resoluções da ONU e a constituição de um Estado palestiniano independente e soberano com capital em Jerusalém será possível uma paz justa e duradoura na região. É necessário combater as posições de submissão ao imperialismo anunciadas pelo novo MNE e exigir do Governo uma posição activa em prol da paz.



A luta por uma política externa e de defesa nacional independente é parte integrante da luta contra a política de direita do Governo do PS e a sua violenta ofensiva contra os trabalhadores e restantes classes e camadas anti-monopolistas e o próprio regime democrático.

As decisões da reunião do Comité Central de 8 de Julho revestem-se de uma grande importância. É necessário o seu estudo e assimilação por todo o colectivo partidário. A evolução da situação portuguesa entrou numa fase particularmente sensível. Tendo recuperado e reconstituído o seu poder económico, os grandes grupos monopolistas, como sempre associados ao imperialismo, pretendem agora assenhorear-se por inteiro do poder político. E, aproveitando a favorável conjugação de factores a que há tanto tempo aspiravam – «um Governo, uma maioria, um Presidente» –, procuram livrar-se rapidamente dos entraves que o ordenamento jurídico-constitucional impõe às suas ambições e, através de um avassalador conjunto de medidas, desmantelar um sistema de poder que tem ainda bem visíveis as marcas de Abril, e reconfigurar o Estado à medida dos seus interesses. Esta é a abóbada de fecho da ofensiva multifacetada, violenta e global conduzida pelo Governo do PS, com o aplauso do grande capital e o apoio, incomodado mas bem real, dos partidos da direita.

A avaliação feita pelo Comité Central dá bem a medida da importância das tarefas que temos diante de nós, e da necessidade de, a par do desenvolvimento da luta quotidiana, por toda a parte onde conquistas e direitos dos trabalhadores e das populações sejam postos em causa, concentrar atenções, meios e energias na criação das condições que permitam elevar a resistência e a luta a um nível superior de dimensão e combatividade. As lutas nas empresas e locais de trabalho; as lutas de sectores profissionais como da Administração Pública ou dos Professores que preparam grandes acções de massas; as lutas em defesa dos serviços públicos e contra a privatização de funções e serviços que, da saúde à água, compete ao Estado assegurar; as lutas dos agricultores, dos pescadores dos pequenos e médios comerciantes e industriais; as lutas dos jovens pelo ensino e pelo emprego, das mulheres pelos seus direitos e em particular a IVG, dos pensionistas e idosos por reformas dignas; as lutas em defesa do poder local democrático, pelo direito à segurança e à justiça, contra leis eleitorais anti-democráticas; as mais variadas reclamações e protestos populares – tudo isso é necessário fazer convergir numa mesma torrente. Nesse sentido a acção nacional já anunciada pela CGTP/IN para a primeira quinzena de Outubro reveste-se de uma grande importância e os comunistas, tanto pela sua participação nas estruturas do movimento sindical como pela sua acção noutras frentes de luta, tudo deverão fazer para o seu êxito. Ao mesmo tempo, é necessário ter bem presentes as tarefas no plano da organização neste «Ano de reforço da Organização do Partido» e recrutar para o PCP aqueles homens, mulheres e jovens que mais se destaquem nas lutas, organizá-los, responsabilizá-los e promovê-los audaciosamente na estrutura partidária.



Na linha do nosso XVII Congresso, cuja Resolução Política é necessário ter sempre à mão, o caminho de luta apontado pelo Comité Central não está isento de dificuldades. O desemprego a níveis quase sem precedentes, a precariedade das relações laborais, limitações à actividade sindical e repressão patronal, a propaganda governamental e a acção perversa da comunicação social, desilusão de expectativas criadas com a derrota da direita, tudo isto cria dificuldades à transformação do descontentamento em  mobilização popular. É aqui que se revela insubstituível o papel de vanguarda e a acção de esclarecimento dos comunistas, valorizando as lutas, dando enquadramento histórico e perspectiva política à acção quotodiana. Mostrando que lutar vale sempre a pena, mesmo quando – como recordam as peças que publicamos sobre A Revolta dos Marinheiros de 1936 e o Campo de Concentração do Tarrafal – os resultados imediatos não são os esperados. E a tragédia que se abate no Líbano, Palestina e outros países não deve fazer esquecer as boas notícias que nos chegam de outros pontos do mundo, nomeadamente da América Latina – com os sucessos da revolução cubana que nenhuma campanha de ódio consegue soterrar, os êxitos da revolução bolivariana na Venezuela, os avanços progressistas na Bolívia, a viragem política à esquerda no México e noutros países – e o incentivo que representam para a nossa própria luta. Também elas mostram que a luta vale a pena e que o importante é persistir.