Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Juventude, Edição Nº 328 - Jan/Fev 2014

18.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes- Mais um importante marco na luta anti-imperialista!

por Duarte Alves

Realizou-se de 7 a 13 de Dezembro o 18.º Festival Mundial da Juventude e dos Estudantes (FMJE), em Quito (Equador), sob o lema «A Juventude unida contra o imperialismo, por um mundo de paz, solidariedade e transformação social!».

O Festival juntou na capital equatoriana milhares de jovens oriundos de dezenas de países que têm em comum um objectivo: libertar a Humanidade do imperialismo. Talvez por terem em comum um objectivo tão nobre e enfrentarem um inimigo tão poderoso e que se manifesta de formas tão agressivas, a solidariedade e a amizade foram bem patentes durante este Festival. Quito foi durante estes sete dias a capital mundial da fraternidade, da determinação e da confiança na luta dos povos, a capital mundial da juventude e dos valores da paz.

Mas antes de irmos aos dias do Festival, olhemos para o que nos trouxe até aqui. Os FMJE têm a particularidade de se assumirem não como um «evento», mas como um movimento. Um movimento que tem raízes nas profundas aspirações juvenis de um mundo liberto da opressão, da guerra, da exploração. Estando essas raízes alicerçadas em gerações de jovens lutadores, o movimento dos Festivais teve o seu início após uma das maiores tragédias que a Humanidade enfrentou, impulsionada precisamente pelo imperialismo: a Segunda Guerra Mundial. Após a vitória dos povos sobre o nazi-fascismo, milhões de jovens de todo o mundo assumiram como objectivo o estabelecimento de um mundo de paz, onde a guerra não voltasse a acontecer e onde cada povo pudesse escolher livremente os seus caminhos. Assim, em 1945, a Conferência Mundial da Juventude decide fundar a Federação Mundial da Juventude Democrática (FMJD), uma organização anti-imperialista que juntou, e junta ainda hoje, dezenas de organizações juvenis de todo o mundo, entre as quais a JCP.

Para dar expressão de massas a este sentimento partilhado por tantos jovens, em 1947 realiza-se em Praga o 1.º FMJE e desde aí, nas suas 17 edições, o Festival já percorreu quatro continentes e 15 países. Os Festivais, embora sejam lançados pela FMJD, têm um processo preparatório e um âmbito muito mais alargado, e por isso mesmo é um movimento de carácter mundial, com expressão nacional em cada país a cargo de um Comité Nacional Preparatório (CNP) que junta as organizações e os jovens comprometidos com a luta anti-imperialista.

Desde o 1.º Festival muita coisa mudou. A aspiração universal de um mundo sem guerras não se cumpriu: desde a Segunda Guerra Mundial, o imperialismo não parou a sua escalada agressiva, como ficou provado logo a seguir à Segunda Guerra Mundial com as guerras da Coreia, e do Vietname, e o conjunto interminável de conflitos e ingerências promovidos pelas grandes potências imperialistas. No entanto, a força da luta de massas e as vitórias alcançadas em muitos países, a influência do sistema socialista mundial e particularmente da URSS, a resistência dos povos contra novas formas de dominação, foram determinantes para refrear tais intenções do imperialismo. Os FMJE foram em cada edição momentos altos da luta anti-imperialista da juventude, constituindo um importante encontro de reforço da frente anti-imperialista, contribuindo assim para esse processo mundial de resistência e de luta pela paz. Os Festivais contribuíram também para as muitas vitórias que foram sendo alcançadas neste período, nomeadamente a libertação nacional dos povos que estavam sob dominação colonialista, as conquistas sociais que a luta dos trabalhadores impôs mesmo nos países capitalistas, a derrota de várias ditaduras fascistas, como aconteceu em Portugal, vitórias que tiveram sempre expressão e foram também elas impulsionadas pelos Festivais.

Desde os trágicos acontecimentos que levaram às derrotas do socialismo, temos vindo a assistir à propaganda do «fim da história» que postula que, com o fim da «Guerra Fria», um novo mundo de paz seria alcançado sob o domínio do imperialismo, com os Estados Unidos, a NATO e os seus aliados a terem o papel de «polícias do mundo». Nada mais falso: logo em 1991, o imperialismo põe de novo as garras de fora com a invasão da NATO à Jugoslávia e desde então tem realizado guerras e ocupações de forma permanente, onde podemos incluir a guerra do Golfo, as guerras no Afeganistão e no Iraque, e mais recentemente na Líbia e na Síria.

O fim do sistema socialista mundial, além de representar por si só um grande recuo na correlação de forças mundial, teve consequências também noutros factores que colocavam «rédea curta» ao imperialismo. Muitas das organizações mais consequentes na luta anti-imperialista tiveram perdas na sua capacidade de luta. Por ser um movimento intimamente ligado a tais forças, também o movimento dos Festivais não deixou de sentir os efeitos negativos da derrocada do socialismo: basta ver que passaram oito anos desde a realização do 13.º Festival, em Pyongyang, em 1989, e a realização do 14.º Festival, em Havana, em 1997.

No entanto, apesar das dificuldades, a força da luta de milhões pelos mais justos objectivos não poderia ser parada. O proclamado «fim da história» foi sendo desmentido por diversos processos de resistência contra a hegemonia das grandes potências, avanços revolucionários e progressistas, países que não admitem ingerências e dominação. Se grandes perigos se levantaram, também grandes potencialidades foram sendo erguidas pela luta dos povos e da juventude. O Festival de 1997, em Havana, marcou um novo compromisso do movimento dos Festivais: apesar de tudo, os FMJE são um processo a continuar e a aprofundar, nas novas condições, adaptando-se a uma nova realidade mundial, mas sempre mantendo a sua característica anti-imperialista.

Os Festivais que se seguiram ao histórico Festival de Havana realizaram-se numa média de quatro em quatro anos. Desde então, o Festival tem ganho prestígio, importância no quadro da frente anti-imperialista, e relevância na solidariedade para com os países que o acolhem: prova disso é ter-se realizado este 18.º FMJE apenas três anos depois do 17.º FMJE.

O processo preparatório do 18.º FMJE foi marcado por uma primeira dificuldade: a decisão de realizar o Festival no Equador foi tomada com menor tempo de antecedência do que nas edições anteriores, o que requereu um maior esforço de articulação e preparação a nível internacional e em cada país. No entanto, houve o compromisso de acelerar processos de discussão, dinamizar formas mais rápidas de levar o Festival à juventude. Fazemos um balanço positivo deste processo preparatório, que apesar das dificuldades permitiu que se salvaguardassem as características fundamentais do Festival.

Em Portugal, a preparação do Festival ficou a cargo do CNP, que juntou cerca de 20 organizações juvenis, sendo composto pelas mais variadas expressões do movimento juvenil português, nomeadamente associações de estudantes, associações culturais, desportivas, comissões de jovens de sindicatos de classe, grupos informais de jovens. O CNP e as suas organizações-membro realizaram diversas iniciativas para levar o Festival à juventude portuguesa, das quais destacamos o Acampamento Nacional pela Paz que juntou em Avis cerca de 200 jovens.

O CNP português participou em três reuniões preparatórias internacionais (África do Sul, Espanha e Índia) e na reunião europeia de preparação (Áustria), e está também representado no Comité Organizador Internacional do FMJE.

A delegação portuguesa ao FMJE, com 18 elementos, foi composta por dirigentes associativos do Ensino Secundário e do Ensino Superior, jovens sindicalistas, dirigentes de associações juvenis, membros da JCP, que levaram ao Equador uma experiência muito variada e rica sobre a realidade e a luta da juventude portuguesa e que concerteza recolheram também experiências de lutas e vitórias de outros povos que ajudarão ao reforço da luta no nosso país.

No que diz respeito aos dias do Festival, destacamos o grande número de iniciativas de debate e troca de experiências: conferências, seminários, workshops, reuniões de troca de experiências, fóruns de solidariedade, dedicados aos mais variados temas. Sendo o primeiro dia do Festival dedicado à cerimónia de abertura, cada um dos restantes dias foi dedicado a uma área temática: soberania e luta pela paz, juventude trabalhadora, educação, direitos democráticos e questões ambientais e do desenvolvimento. O último dia foi dedicado inteiramente ao Equador, ao seu processo revolucionário, e à cerimónia de encerramento. Destacamos também o Tribunal Anti-imperialista, que foi um grande acontecimento de denúncia e condenação aos crimes do imperialismo.

Deste grande número de iniciativas políticas de debate retira-se a conclusão de que o imperialismo, utilizando estratégias muito diferentes em cada país/região, manifestando-se de forma mais ou menos agressiva, tem objectivos comuns, observáveis em cada canto do mundo: destruir direitos sociais, destruir as forças produtivas, privatizar a Educação, promover os interesses do capital, atacar a soberania dos povos, produzir e aumentar as desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres. E que o imperialismo não olha a meios para atingir os seus fins: desde a intoxicação ideológica e mediática, financiamento de forças reaccionárias, provocação de conflitos étnicos e do nacionalismo, imposição de «memorandos» e ingerências, bloqueios económicos, invasões, guerras..., utilizando as armas que mais se adequam à sua agenda em cada país. Retiramos ainda que o imperialismo não está isento de contradições, que se expressam pelos interesses por vezes inconciliáveis entre as classes dominantes de diferentes países, e que cabe às forças anti-imperialistas consequentes explorar essas contradições a favor da luta dos povos. E retiramos ainda aquela que deverá ser a conclusão mais importante deste Festival: apesar de um inimigo tão poderoso, existem grandes potencialidades para a luta dos trabalhadores, dos povos e da juventude. É cada vez mais estreita a base de apoio do capitalismo, e existem povos que estão a conseguir resistir, realizando avanços progressistas e até revolucionários. Ouvimos experiências de jovens que lutam nas condições mais difíceis, como os jovens palestinianos e sarauís, jovens que enfrentam situações muito semelhantes às da juventude portuguesa, como os jovens gregos, cipriotas ou espanhóis, jovens que sentem na pele as ameaças de guerra, como os jovens sírios, jovens que estão pela luta a conquistar novos direitos e a contrariar o imperialismo, como os jovens cubanos, venezuelanos, equatorianos, entre tantos outros.

O 18.º FMJE realizou-se no Equador, um país onde as massas populares tomaram «nas suas mãos os destinos das suas vidas», realizando a chamada Revolução Cidadã, de carácter progressista e anti-imperialista. Tivemos oportunidade de testemunhar algumas das conquistas do povo equatoriano, nomeadamente no que diz respeito aos direitos da juventude. É de destacar o posicionamento internacional do Equador, que faz frente aos Estados Unidos e aos seus aliados em vários casos, como por exemplo na expulsão dos EUA da base militar de Manta, a expulsão do embaixador americano, os conhecidos casos de concessão de asilo político a Assange e Snowden, entre outros. O imperialismo não admite que o povo equatoriano se liberte das suas amarras, como comprova a tentativa falhada de golpe de Estado em Setembro de 2010 (para replicar o golpe nas Honduras), derrotada pelo movimento popular, ou as constantes pressões e ameaças feitas pelos EUA. Também no quadro da região latino-americana, o Equador tem sido um dos países que, impulsionados pelo exemplo de Cuba socialista, tem contrariado o domínio imperialista sobre o outrora chamado «quintal das traseiras» dos EUA. Este Festival foi também um grande momento de solidariedade de jovens de todo o mundo para com o Equador e o seu processo revolucionário, que apesar das pressões avança de forma determinada.

O 18.º FMJE dará certamente um novo ânimo a todos os que nele participaram, mas também a todos a quantos cheguem as experiências, os exemplos de lutas e de vitórias, os exemplos de abnegada resistência, que foram assinalados de forma fraternal e solidária neste Festival. Por isso mesmo, cabe-nos agora continuar a levar à juventude portuguesa a confiança transmitida no Equador e assim contribuir para dar mais força à luta da juventude!