Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

25 de Abril, Edição Nº 330 - Mai/Jun 2014

Primeiro número do Avante! legal - Um jornal na Revolução

por Revista o Militante

A publicação do primeiro n.º do Avante! legal, em 17 de Maio de 1974, assume, em vários planos, um significado de importância histórica. Constituiu um sinal poderoso e inequívoco da afirmação e início de consolidação da recém-nascida democracia portuguesa; atestou a inequívoca disposição dos comunistas em nela ocuparem, em toda a plenitude, o lugar a que legitimamente tinham direito; constituiu o primeiro passo no novo ciclo de vida do órgão central do PCP, enquanto ferramenta de importância decisiva na construção, na organização e na intervenção de um Partido preparado para os novos desafios que tinha pela frente.

Consumada a Revolução, pela acção militar dos capitães de Abril, logo tornada irreversível pelo levantamento popular que se lhe seguiu, uma das primeiras decisões da direcção do Partido foi a de iniciar, assim que possível, a publicação do Avante! legal. Poucos dias depois realizou-se a primeira de várias reuniões preparatórias, com a participação de Álvaro Cunhal e de jornalistas profissionais membros do Partido que trabalhavam em vários jornais. Com base nestes e em camaradas vindos da clandestinidade, ligados a estruturas de informação como a Rádio Portugal Livre e o próprio Avante!, constituiu-se um colectivo empenhado em criar as condições para que o objectivo fosse alcançado. E três semanas volvidas sobre a vitória da Revolução aparecia nas ruas o primeiro n.º do Avante! legal.

O impacto popular foi enorme de norte a sul do país. O nome do jornal dos comunistas portugueses era conhecido e respeitado, mesmo por muitos que não eram membros do Partido e nunca o tinham lido. A tiragem dessa edição fez história na imprensa portuguesa: perto de 500 mil exemplares! O significado deste número ressalta se tivermos em conta que um dos jornais mais vendidos de então, o Diário Popular, tinha alcançado no dia 25 de Abril 198 000 exemplares e no dia 26 um recorde de 235 000.

Organizador colectivo

O Avante! legal não partiu do zero. Tinha atrás de si um percurso inapagável de luta e resistência, simbolizado em verdadeiros heróis das tipografias clandestinas como Maria Machado e Joaquim Rafael, falecidos em resultado das condições prisionais a que foram sujeitos, ou como José Moreira, assassinado pela PIDE, para quem «Uma tipografia clandestina é o coração da luta popular. Um corpo sem coração não pode viver». Foi desenvolvendo, adaptando e aprofundando a inigualável experiência adquirida, ainda que em condições completamente diferentes, em mais de 30 anos de publicação ininterrupta, que o jornal desde logo se afirmou como um instrumento de trabalho indispensável e insubstituível para levar à prática as orientações do Partido e a sua acção em defesa e no avanço da Revolução.

Na continuidade da fase anterior da sua vida, o Avante! seguiu de perto as indicações de Lénine acerca do órgão partidário: «A função do jornal não se limita (…) a difundir ideias, a educar politicamente ou a ganhar aliados. O jornal é não só um propagandista colectivo e um agitador colectivo, mas também um organizador colectivo. Neste último caso, pode comparar-se com os andaimes colocados num edifico em construção, que marcam os seus contornos, facilitam os contactos com os diversos grupos de operários, ajudando-os a distribuir as tarefas e a perspectivar os resultados obtidos graças a um trabalho organizado.»

O Avante! estimulou a dinamização da vida interna do Partido, a troca de experiências, o conhecimento mútuo, a circulação interna da informação, o apoio a campanhas e iniciativas, a correcção de deficiências e debilidades do trabalho partidário. Estabeleceu e reforçou laços orgânicos e ideológicos, favorecendo a coesão, a operacionalidade e o alargamento do colectivo partidário. Ajudou à penetração nas chamadas «zonas difíceis», dominadas pelas forças de direita e anticomunistas, auxiliando nas abordagens e recrutamentos, facilitando contactos e conversas, proporcionando «matéria-prima» para jornais de parede. Constituiu uma referência e um ponto de partida para o arranque, condução e enriquecimento de reuniões de partido e unitárias. Contribuiu para a formação dos quadros partidários e dos militantes em geral, através do enriquecimento teórico, da valorização cultural e do apetrechamento para a intervenção junto das massas.

Combateu a desinformação acerca da situação internacional, fornecendo o conhecimento e dando conta de realidades geralmente ocultadas ou deturpadas pelos órgãos de informação submetidos a um sistema mediático dominado pelos interesses económicos e ideológicos do capital. Defendeu as concepções e a prática de um internacionalismo activo e consequente, baseado na solidariedade, na comunhão de interesses e na independência dos partidos comunistas e das forças revolucionárias e progressistas de todo o mundo.

Num período de intensa e exigente luta política e ideológica, divulgou a linha política do Partido e ajudou a estabelecer pontes entre todos, militares e civis, que estavam do lado do espírito de Abril. Ao mesmo tempo, desmascarou as falsidades e as calúnias anticomunistas, combateu os argumentos, teorizações e manobras quer das forças e sectores reaccionários apostados no regresso ao passado quer do oportunismo da social-democracia quer ainda do esquerdismo provocatório e aventureirista.

Durante esses primeiros dois anos em que o processo revolucionário se assumiu em toda a sua plenitude, o Avante! atingiu uma tiragem média de 100 mil exemplares por edição. Em íntima ligação com a acção geral do Partido, procurou responder às exigências da situação e enriquecer e diversificar a sua intervenção, incluindo através de edições especiais. Quando da tentativa de golpe spinolista, em 11 de Março de 1975, circulou de mão em mão nas barricadas e nas movimentações populares, proclamando «A reacção não passará! Unidade Povo-MFA, Unidade de todas as forças democráticas verdadeiramente interessadas em bater a reacção». Quando das campanhas para as eleições para a Assembleia Constituinte, em 25 de Abril de 1975, e para as eleições legislativas um ano depois, editou um suplemento diário, em formato tablóide, que saía ao princípio da tarde.

Afirmando o seu compromisso com a classe operária e todos os trabalhadores, fiel ao seu passado, o Avante! assumiu claramente – tal como hoje com igual clareza o continua a assumir – uma posição de classe, distanciando-se daqueles jornais que constantemente proclamavam a sua «independência» e a sua «objectividade» mas na prática, de forma clara ou camuflada, defendiam os interesses, uns, dos saudosistas do fascismo, outros, dos que queriam travar o avanço da revolução e impedir as transformações de fundo impostas pelo cumprimento das promessas que Abril trouxera, o país necessitava e o povo exigia.

O Avante! informou e formou, alertou e combateu, mobilizou e uniu. Foi, verdadeiramente, um jornal na Revolução.