Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 340 - Jan/Fev 2016

Terrorismo - Um pilar da estratégia de dominação mundial

por José Goulão

Nunca se falou tanto em terrorismo, nunca se proferiram tantas declarações definitivas sobre os esforços necessários para a extinção do fenómeno, nunca se teorizou e debateu tanto sobre a matéria e, no entanto, o papel do terrorismo na sociedade jamais foi tão influente – e fatal – como nos 15 anos que o século XXI leva de existência.

Uma das mais nefastas atitudes perante o terrorismo é a deturpação ostensiva do conceito, a sua redução a determinadas e particulares formas de violência, prática que dissimula e pretende absolver expressões organizadas e poderosas de terror quase sempre apresentadas como actos legítimos de anti terrorismo ou de «guerra contra o terrorismo».

Isto é, resumir as notícias e o debate sobre o terrorismo, como actualmente se faz, ao terrorismo dito de inspiração «islâmica» ou assimilável, é uma manobra manipuladora que pretende fazer esquecer, ostensivamente, o terrorismo de Estado ou expressões de violência que florescem à sombra deste, as quais tanto podem ser os clássicos esquadrões da morte como o patrocínio clandestino de grupos e organizações com vocação para derrubar governos e organizar golpes de Estado. Ou, como já deixou de ser segredo, organizar, treinar, armar e financiar grupos terroristas ditos «islâmicos», os quais, em boa verdade, não passam de exércitos privados de mercenários.

Por exemplo, o processo do qual nasceu o governo ilegítimo que funciona em Kiev sob a égide da NATO e da União Europeia não é menos terrorista que a instauração do «califado» do «Estado Islâmico» em territórios ocupados à Síria e ao Iraque. Ou o funcionamento de campos de treino da Al-Qaida e do «Estado Islâmico» na Turquia nada tem de menos terrorista do que o massacre do Bataclan em Paris; ou a chacina de 2 de Maio de 2014 em Odessa, realizada por bandos nazis com a cobertura do governo de Kiev, não é mais «limpa» do que as decapitações de seres humanos praticadas pelo «Estado Islâmico» e pelo governo saudita, ou do que os massacres recorrentes cometidos pelas forças armadas de Israel contra a indefesa e cercada população da Faixa de Gaza.

Uma abordagem do problema do terrorismo com estes contornos, quando feita num qualquer meio de comunicação social submetido ao pensamento que ainda vai sendo único, é uma blasfémia, um insulto para cabeças que têm vindo a ser paulatinamente formatadas para admitir como terrorismo uma parte ínfima do fenómeno.

Parte essa que, ainda assim, é exposta de maneira manipuladora ou simplesmente ignorante porque as notícias e explicações são acompanhadas por uma grave mistificação segundo a qual as investigações conduzidas de forma séria por jornalistas independentes não passam de «teorias da conspiração», sobretudo quando põem em causa as explicações oficiais de acontecimentos dramáticos. Quem não desconfia da teoria oficial do atentado de Nova Iorque em Setembro de 2001, teoria essa que, no entanto, continua a ser a única aceite como válida?

O terrorismo dito «islâmico»

O terrorismo é um fenómeno complexo, mais hoje do que em anteriores períodos da História, não apenas devido à globalização mediática mas também porque se entranha como instrumento de poder em paralelo com o enraizamento de um sistema económico e político dominante, no qual a vida das pessoas e os direitos humanos se transformaram em apêndices dos grandes interesses financeiros e económicos sem pátria.

Em tese, os diferentes fenómenos de terrorismo poderiam existir dissociados, particularizados conforme as circunstâncias, as regiões e os interesses em jogo; no entanto, o processo de globalização, entendido como poder global dispondo de olhos, ouvidos e meios de intervenção em cada recanto do planeta, reflecte-se também no terrorismo. É inevitável. Daí que, mesmo na sua diversidade, o terrorismo seja hoje comparável a um polvo com uma cabeça capaz de articular os braços de maneira coerente, apesar de serem diferentes.

Tal tese, naturalmente, ofende os puristas que descobrem «teorias da conspiração» em tudo o que difira da sua opinião, do seu modo de ver e de interpretar o mundo.

Tal tese, porém, não é uma «teoria da conspiração». Para demonstrar a sua validade basta um braço do polvo, por sinal aquele que a propaganda oficial – ela própria, quantas vezes, eco irresponsável do terrorismo – insinua ser o terrorismo único, o terrorismo dito «islâmico».

Não é fundamental recuar até aos anos vinte do século passado, quando foi fundada a Irmandade Muçulmana egípcia, para entender o desenvolvimento das tendências de poder político assentes em dogmas dos livros religiosos. Nem é necessário aprofundar fenómenos como a Inquisição e a actual prática política do governo de Israel para deduzir que os confessionalismos e os fundamentalismos preenchem grande parte da História da humanidade, manchando-a através dos tempos com sucessivas expressões de terrorismo.

A Irmandade Muçulmana cita-se como exemplo da organização da ortodoxia religiosa em grupo político, mas a essência do poder e do terrorismo fundamentalista islâmico centra-se em Estados há muito consolidados, de que é exemplo maior a Arábia Saudita, entidade que é propriedade da sanguinária e corrupta família Al-Saud e que, pese embora a flagrante dissonância do seu funcionamento em relação às mais elementares normas democráticas e humanistas, é um dos principais aliados estratégicos dos Estados Unidos, da NATO e da União Europeia. O Conselho de Cooperação do Golfo, liderado pela Arábia Saudita e, além disso, uma entidade à qual são imputáveis os crimes terroristas da invasão do Barhein e da destruição da Líbia, é um braço da NATO no Médio Oriente, como ficou demonstrado através da aliança operacional nestes trágicos processos.

A Arábia Saudita é um Estado fundamentalista islâmico, tal como Israel se transformou num Estado fundamentalista hebraico – convergindo ambos, por heterodoxo que possa parecer, em visões estratégicas para o Médio Oriente onde cabe o terrorismo «islâmico» como braço operacional. Para que tal constatação não peque por exagero basta observar o processo de desmantelamento da Síria e constatar como os interesses de Riade e Telavive se unem ao lado da Al-Qaida e do «Estado Islâmico».

A «modernidade» da missão estratégica do terrorismo dito «islâmico» emergiu no Afeganistão, nos anos setenta do século passado, quando os serviços de espionagem dos Estados Unidos, do Reino Unido, da Arábia Saudita e do Paquistão reuniram bandos de senhores da guerra, assassinos e mercenários e os cimentaram através de uma visão da ortodoxia islâmica, transformando-os em «combatentes da liberdade» para combater as tropas soviéticas presentes em território afegão. O fundamentalismo dito «islâmico» foi, deste modo, reciclado originalmente ainda como um instrumento da guerra fria.

O interface desse processo, como operacional e financiador, foi Ussama Bin-Laden, oriundo da família real saudita, que assim deu origem à Al-Qaida, expressão que significa «a rede» – de bandidos, desesperados e mercenários.

O processo serviu de exemplo, diversificou-se com rapidez e em 1988/89, por exemplo, foi possível verificar como os serviços secretos israelitas transformaram um então incipiente subproduto da Irmandade Muçulmana, o Hamas, num instrumento de sabotagem da OLP enquanto expoente da unidade palestiniana, durante as revoltas das pedras contra os ocupantes, sobretudo em Gaza. A operacionalização e manipulação do Hamas pelo Mossad, reconhecidas por dirigentes sionistas que passaram pelo governo de Israel, foram armas do combate israelita contra a primeira Intifada Palestiniana.

O terrorismo dito «islâmico» da actualidade é o resultado da multiplicação desta receita de violência, de divisionismo e respectivo cavalgamento sobre a influência dos partidos tradicionais, laicos e não segregacionistas, existentes nas sociedades e nos países com maiorias religiosas muçulmanas mas não politicamente islamizadas.

O terrorismo dito «islâmico» é, porém, muito mais do que isso. É um processo que merece uma reflexão sobre relações de causa e efeito através das quais os mecanismos de dominação alimentam e tiram proveito da multiplicação de situações de caos através do mundo, hoje determinantes no panorama internacional.

A primeira invasão do Iraque, em 1990, que se seguiu a uma provocação ainda mal explicada feita pela ditadura do Koweit ao regime de Saddam Hussein, foi o primeiro teste imposto pelo complexo militar e industrial dos Estados Unidos à recém-criada ordem mundial unipolar que resultou do fim da União Soviética. Essa operação, que foi também a primeira subversão frontal da Carta da ONU, criou no Iraque uma situação instável, propícia aos pretextos que se sucederam para manter um clima de guerra latente na região, a somar à instabilidade no Afeganistão – onde as administrações de Washington não se coibiram de colaborar, durante anos, com os talibãs, um grupo resultante dos bandos de mercenários que constituíram o núcleo original dos «combatentes da liberdade».

A invasão do Afeganistão pela NATO, ainda no primeiro ano do século XXI, resultou dos atentados de Nova Iorque, os quais, por seu lado, tiveram alegada origem – segundo a versão oficial – nas estruturas terroristas montadas no Afeganistão através de Bin-Laden, com patrocínio norte-americano e de outros países da NATO. Uma invasão que prossegue e não resolveu qualquer dos problemas que alegadamente estiveram na sua origem, excepto o assassínio (mal explicado) de Bin-Laden – que não o fim da Al-Qaida.

Seguiu-se a invasão do Iraque, com base em comprovadas mentiras sobre armas de destruição massiva e inverosímeis ligações entre Saddam Hussein e Bin-Laden, inimigos jurados.

Logo a seguir foi a vez da «primavera árabe», um fenómeno que, a partir de invocações democráticas, fez alastrar a situação de caos no Médio Oriente. Ao desmantelamento do Iraque, com base na estratégia de acicatar divisões étnicas e religiosas correspondentes a zonas de influência envolventes, seguiram-se a destruição sangrenta da Líbia e a guerra de agressão à Síria, através da qual procura desmembrar-se o país.

Olhados em conjunto, estes processos deram origem a uma nuvem de organizações terroristas que ganha posições nos países em destruição através da multiplicação incontrolável de situações de terror, caos e desgoverno. Este é um cenário onde florescem o mercado negro de matérias-primas, os tráficos de armas e de drogas – o Afeganistão transformou-se no produtor monopolista mundial de heroína sob a administração da NATO – além de influências estratégicas asseguradas por cumplicidades entre terroristas e os que dizem combatê-los mas com eles se aliaram para construir um tal quadro de ingovernabilidade. Estão abundantemente demonstradas – apesar de escondidas pela comunicação social oficial – as relações entre os Estados Unidos e outros países da NATO com grupos ditos «islâmicos» que combatem na Síria para destruir o país, entre os quais avultam o «Estado Islâmico» e a Frente Al-Nusra (heterónimo da Al-Qaida), infiltrados a partir da Turquia (membro da NATO) e da Jordânia, com apoio de rectaguarda assegurado por Israel, designadamente nos Montes Golã ocupados à Síria. As referências a terroristas ditos «moderados» não passam de mistificações escabrosas para disfarçar interfaces inventados com o objectivo de treinar, financiar e abastecer clandestinamente com armas sofisticadas os autênticos grupos operacionais de mercenários.

A nuvem terrorista está em expansão também através de todo o Magrebe, onde a base principal é a Líbia, depois de «democratizada» pela NATO, e penetrando pela África subsaariana, proporcionando novas formas de colonialismo e de intervenção sob o pretexto da necessidade de combater o terrorismo – como se verifica no Mali, no Chade e na Nigéria, países que são reservas de matérias-primas estratégicas. Penetração que se consolidou igualmente no Corno de África e no sul da Península Arábica, principalmente na Somália e no Iémen, com base numa coligação operacional entre Israel e a Arábia Saudita – que agora vão ligar a Ásia e a África (entre Aden e Djibuti) através de uma ponte a construir pelo grupo da família Bin Laden.

Alinhados estes factos é possível extrair uma conclusão sólida, inegável e indesmentível: antes dos desmantelamentos do Iraque, da Líbia e da guerra de agressão à Síria, e também antes dos golpes político-militares que ficaram designados como «primavera árabe», a actual nuvem terrorista não tinha dimensões sequer comparáveis com as de hoje, o «Estado Islâmico» não existia, a Al-Qaida não passava de um conjunto de seitas desarticuladas restringidas ao Afeganistão e Paquistão, sem qualquer capacidade de acção no interior dos regimes nacionalistas laicos do Médio Oriente; antes do desmantelamento do Iraque, da Líbia e da guerra de agressão à Síria não existia qualquer problema de refugiados em fuga para a Europa a partir destes países, os quais eram, pelo contrário, nações de acolhimento de vítimas de Israel e de guerras neocoloniais, designadamente na Palestina e no Líbano; antes do desmantelamento do Iraque, da Líbia e da guerra de agressão à Síria – processos sustentados política e operacionalmente pela NATO – os adversários regionais de Israel, apesar das suas limitações, tinham condições para conter a afirmação plena do regime sionista de fascismo e apartheid. Hoje, o Egipto pós «primavera árabe» colabora docilmente com Telavive – mais ainda do que durante a ditadura de Mubarak – participando até no cerco de Gaza; e a Síria tenta sobreviver perante novos inimigos que fazem o que Israel nunca ousou fazer directamente mas o sionismo continua a querer consumar, agora através de interpostos terrorismos, em aliança objectiva com a NATO, a Turquia e os regimes fundamentalistas islâmicos do Golfo.

Um pilar estratégico

Posto isto, observemos o estado actual do mundo e do sistema de dominação económica e militar à luz da nova realidade terrorista criada na primeira década e meia deste século.

O Médio Oriente, a Eurásia, o Corno de África, o Sahel e parte do Magrebe estão mergulhados no caos, não existindo no horizonte qualquer tendência de consolidação estável, uma situação em relação à qual os poderes económicos e militares dominantes não manifestam qualquer inquietação, uma vez que os proveitos estão garantidos e até muito mais avultados, livres de restrições nacionais, governamentais e fiscais.

Não é novidade que há muitos anos os Estados Unidos, Israel e alguns dos seus aliados, principalmente o Reino Unido e a França, vêm trabalhando para a criação de um «novo mapa» do Médio Oriente, inserindo-se nesses planos a reformulação de fronteiras que desde os anos vinte do século passado definem países como Iraque, Síria, Jordânia, Líbano, a própria e sempre travada Palestina. «Novo mapa» extensível ao Magrebe, como se percebe pelo exemplo líbio, e à Península Arábica, onde não passam despercebidas as manobras do regime saudita para aglutinar pequenos Estados da região e anexar o Iémen.

O terrorismo tem-se revelado uma arma estratégica deste processo, funcionando de modo integrado em termos de objectivos, apesar de ser apresentado – o que não é inocente – como fruto de causas próprias e independentes relacionadas com a particularidade de cada um dos países, das confissões religiosas e das influências étnicas.

Tal forma de actuar regional e global remete-nos para ideias que sustentam o ideário político-económico e militar tradicional dos Estados Unidos da América, muito associado à tendência conservadora dominante no complexo militar, financeiro e industrial. Entre essas ideias avulta a da «teoria do caos construtivo», lançada nos anos setenta do século passado por Leo Strauss, figura do lobby israelita norte-americano e que assenta no intuito de gerar proveitos e zonas de domínio geoestratégico a partir de situações de instabilidade criadas artificialmente, supostamente com o objectivo de instaurar uma «nova ordem».

A teoria foi reactualizada pelos neoconservadores que estiveram por detrás das presidências da família Bush, com destaque para Paul Wolfowitz, secretário da Defesa de George W. Bush e um dos arquitectos da destruição do Iraque, além de ter sido presidente do Banco Mundial.

A «teoria do caos» na versão Wolfowitz, também ele uma figura proeminente do lobby israelita nos Estados Unidos, aplica-se a partir do «grande» Médio Oriente (incluindo Eurásia, Norte de África, Sahel e Nordeste de África) e tem como princípio geral impedir a existência no mundo de uma qualquer potência capaz de rivalizar com os Estados Unidos em termos económicos e militares. Uma teoria que, segundo os criadores, deve ser aplicada com o máximo rigor às relações entre os Estados Unidos e a União Europeia, entidade aliada mas que terá de permanecer submetida aos interesses norte-americanos e sob o comando militar do Pentágono.

Se reflectirmos sobre as consequências para a Europa da situação caótica implantada no Médio Oriente desde a primeira guerra contra o Iraque não é difícil perceber o papel desempenhado pelo terrorismo, pela vaga de refugiados resultante do desaparecimento de países estratégicos, pelas réplicas do terramoto estratégico provocado nos Balcãs e por golpes como o da Ucrânia, inseridos numa ascensão do fascismo com um vigor desconhecido desde os anos trinta do século XX. Somado a uma crise económica e social que se arrasta penosamente, este cenário deixa a Europa à beira do caos e a União Europeia em coma.

Refugiados, terrorismo e golpes a que os Estados Unidos continuam incólumes, não contando como «terrorismo islâmico» alguns episódios de violência infelizmente habituais no país e cujas explicações surgem sempre enevoadas por teorias oficiais nada consistentes – existindo agora o «Estado Islâmico» a jeito para justificar tudo, como antes acontecia com a Al-Qaida.

Parece importante notar que a expansão da nuvem terrorista «islâmica» para o exterior da zona dominante não poupa países como a Rússia e a própria China, o que é visível através da continuada desestabilização na Chechénia russa e na região chinesa de Xinjiang. Além de alguns grupos com afinidades à Al-Qaida e ao «Estado Islâmico» estarem activos na Ucrânia, em coligação com as hordas neonazis, pretendendo contribuir para a consolidação do governo fascista ao serviço da NATO e também para a «libertação» da Crimeia. Olhando os efeitos do terrorismo na Europa, na Rússia e até na China verifica-se que a «teoria do caos», mesmo não passando de uma delirante «teoria da conspiração», saiu dos compêndios para a prática.

E não ficam por aqui os desempenhos do terrorismo integrado e com máscara «islâmica», se ousarmos olhar o mundo no seu conjunto. São conhecidas as repercussões na indústria petrolífera dos acontecimentos trágicos no Médio Oriente. Ao contrário do que poderia supor-se, o caos faz baixar os preços do barril de petróleo bruto para níveis pouco habituais porque os efeitos da instabilidade são amplamente compensados pelo mercado negro instaurado ao serviço de grupos terroristas, em combinação com as estratégias dos grandes exportadores do Golfo, dominados pela Arábia Saudita, que insistem em manter volumes de produção elevados apesar da debilitação do valor do produto. Nesta situação, apesar do fundamentalismo neoliberal dominante, abre-se uma excepção ao axioma de que o mercado se regula a si próprio; pelo contrário, o mercado é regulado por produtores que sustentam grupos terroristas e pelos próprios grupos terroristas – com o aval e grandes proveitos das multinacionais do costume – para prejuízo grave de alguns países cujas economias dependem estrategicamente dos preços de exportação. São conhecidas as dificuldades com que Angola se debate; o que se passa na Venezuela tem a ver não apenas com a conspiração fascista comandada do exterior mas também com a deterioração do mercado petrolífero e a crise económica e social dela decorrente; não faltam notícias sobre o golpe em marcha no Brasil, sem esquecer o revanchismo que começou a atingir o povo argentino.

Rússia, China, Brasil, além de Angola, Venezuela, Argentina: países emergentes vítimas da influência de cenários de caos político e económico alimentados com recurso ao terrorismo. Países com projectos de desenvolvimento próprios, independentes, incómodos para a ganância imperial dominante. Países que têm vindo a cooperar, a negociar e desenvolver novos conceitos de ordem mundial.

Ao mesmo tempo, a União Europeia mergulha em cenário agudo de crise por responsabilidade própria e multifacetada: por não respeitar os próprios cidadãos, por ser cúmplice do terrorismo, por assistir de maneira complacente, quando não colaborante, à assustadora progressão do fascismo. Um exemplo simples mas bem revelador de como os dirigentes do «eixo constituinte» da União Europeia brincam com o fogo: Abdel Hakim Belhadj é um terrorista aliado da NATO no desmantelamento da Líbia; foi nomeado primeiro comandante da região militar de Tripoli a seguir ao assassínio de Khadaffi e a conselho da Aliança; recrutou mercenários e organizou milícias terroristas para a guerra de agressão à Síria; é actualmente o chefe do «Estado Islâmico» do Magrebe, de acordo com a Interpol. Este alto quadro terrorista foi recebido oficialmente em Maio de 2014 no Ministério dos Negócios Estrangeiros, em Paris. Nove meses antes do drama no Charlie Hebdo, ano e meio antes dos massacres de 13 de Novembro.

Lendo o mundo de hoje poucas são as dúvidas – nenhumas, melhor dizendo – sobre a utilidade do terrorismo, «islâmico» ou com qualquer outro rótulo, como pilar estratégico da dominação imperial.