Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Actualidade, Edição Nº 369 - Nov/Dez 2020

Campanha contra a Festa do «Avante!» - Foram até onde a desonestidade permitia

por Jorge Cordeiro

I

A realização da Festa do Avante! foi o pretexto para uma gigantesca operação reaccionária que visou atacar o PCP e sobretudo abrir caminho à limitação do exercício de direitos e liberdades dos trabalhadores e do povo, designadamente o direito de resistência à liquidação dos seus direitos, como se viu com a campanha contra o 1.º de Maio.

Na verdade, ainda que não verbalizando esse objectivo, alguns só não proibiram a Festa e o PCP porque a Constituição da República Portuguesa não o autoriza, nem os comunistas, os democratas e o povo em geral o permitiriam. Uma operação que não sendo de hoje traduz o ódio de classe dos círculos do grande capital que identificam no PCP a força mais consequente no combate à sua política e projectos de intensificação da exploração, a força que denuncia a submissão a imposições externas que condicionam o futuro do País e a vida do povo e que se bate pelo desenvolvimento soberano de Portugal.

Seria um erro desinserir esta operação da ofensiva mais geral que há muito tem conhecido, pela sua virulência, continuidade e falta de escrúpulos, a expressão de um crescente anti-comunismo e indisfarçável ódio fascizante.

Mas não se podem iludir as características e intensidade da campanha que se conheceu ao longo de cinco meses, dos recursos que mobilizou, dos métodos espúrios a que recorreu. Em matéria de falsificação e mistificação foram até onde a desonestidade permitia ir.

II

A epidemia foi só o pretexto, o instrumento que funcionou para a sua cruzada anti-comunista como dádiva do céu. Uma operação comandada a partir dos centros reaccionários, com larga projecção da comunicação social dominante, pontuada com tiques antidemocráticos e pulsões totalitárias de alguns dirigentes partidários e que não encontrou nas instituições ou entidades administrativas posicionamentos que a desanimassem.

Não se pode olhar para esta operação no estrito limite do alvo que privilegiaram – a Festa do Avante!. Ela é bem mais profunda e de alcance mais amplo, parte de uma agenda e objectivos que visam atingir para lá do PCP. O PCP é tão só o alvo principal porque nele se identifica a única força capaz de enfrentar, resistir e comprometer os objectivos mais reaccionários associados aos interesses do capital monopolista. Mas andariam mal muitos democratas, mesmo os que divergem em muito do que é a intervenção e a luta do PCP, se não descortinassem neste processo uma perigosa agenda de questionamento de elementos centrais da vida democrática.

O que se assistiu foi a uma operação que, sustentada num ambiente de atemorização colectiva, visa manter a participação cívica, democrática e política confinada, impor restrições ao exercício de direitos e liberdades, agilizando assim a agenda de intensificação de exploração e liquidação de direitos que têm em curso.

A estratégia do medo e das restrições inculcada à escala de massas é arrasadora. Uma estratégia suportada numa ofensiva comunicacional que beneficiou do isolamento imposto e que tornou cada um ainda mais indefeso perante a torrente de atemorização e os cenários dantescos que se lhe associaram. Em nome do vírus tudo era justificável. A opção difundida não era a da prevenção, da pedagogia de boas práticas de saúde pública mais sim a de confrontar as pessoas com o falso dilema de escolher entre direitos e a vida, o emprego ou a vida, o salário ou a vida. Um manto asfixiante de conformismo foi meticulosamente urdido e instalado, a consciência dos direitos de cada um submergida pelo sentido de sobrevivência. Aquilo que é um sentimento intrínseco à vida e à condição humana, o medo, enquanto factor de auto-defesa que pode ser superado pela observação racional da realidade em presença, foi erigido a expressão de conduta social, alimentado pelo exacerbar obscurantista do desconhecido, com consequências comportamentais e reflexos na saúde física e mental imprevisíveis.

Reconheça-se que dificilmente, a menos que se tenham elementos de apreciação e reflexão que permitam uma avaliação consciente da vida e do que a rodeia, se poderia resistir ao caudal de medo despejado. Dia após dia, hora após hora, as intermináveis imagens de doentes ventilados, valas abertas ou caixões em movimento apresentados sem pudor jornalístico. O papel, a roçar o ridículo, a que os principais órgãos de comunicação social se prestaram durante longos dias ansiando pela hora em que houvesse no País um primeiro caso, e depois um primeiro falecimento, recebidos noticiosamente com um entusiasmo desprezível. A infeliz declaração do Primeiro-Ministro a 12 de Março, agigantando o medo, ao apresentar o posicionamento de cada um perante a doença como «uma luta pela sobrevivência». O cirúrgico acerto de comunicação de massas com a opção, não inocente, de se referir à epidemia como pandemia não tanto a pensar no significado e definição real de cada um dos termos mas sim porque o segundo tem por si associada uma carga atemorizadora maior. A insistência, para lá do que as medidas de saúde pública naturalmente exigiam, de confinamento e isolamento traduzido na exaustiva repetição do «fique em casa», do martelar da expressão distanciamento «social» (e não «físico» como rigorosamente se deve referir) para promover a atomização individual. A transformação determinista de uma situação que, independentemente da gravidade que se lhe deve reconhecer, se procura institucionalizar como padrão de vida futura traduzida na ideia «nada será como dantes». A disseminação do conformismo e da aceitação passiva de ataques a direitos, de despedimentos ou de cortes de salários com o recurso liminar à expressão «vai ficar tudo bem». O estímulo à delação de condutas não subordinadas ao estado de «recolher obrigatório» que se procurou impor, ou a perniciosa estigmatização dos jovens e dos idosos induzindo-os a auto-limitarem o seu direito a deslocarem-se, a conviverem, a viverem de facto.

III

Foi sobre este pântano de amedrontamento, paralisante e permissivo, que se adicionaram os elementos de mistificação ideológica. Preparado o terreno para se fazer crer que um simples gesto ou movimento conduziria a contágio ou morte certa, era chegado o momento de juntar as peças. A suprema hipocrisia com que alguns vêm agora dar por adquirido um alegado «sentimento» ou a «percepção» do povo, apresentando-o como inato, quando sabem que foram eles que geraram e fomentaram com recurso a uma inusitada e forçada formatação de opinião pública.

A ofensiva contra a Festa obedeceu a um meticuloso plano e faseamento. Iniciou-se com o 25 de Abril e mais nitidamente com o 1.º de Maio que tentaram impedir, corajosamente realizado pela CGTP-IN como grande jornada de luta e afirmação de direitos num quadro em que, à excepção do PCP, todos os outros dela se distanciaram, por opção ou oportunismo. Pendurados na alegada excepcionalidade que havia permitido essas realizações, contrapuseram-nas à ausência das cerimónias de Fátima nesse mês (decidida por iniciativa própria pelas autoridades religiosas), ou às restrições a casamentos e funerais, iludindo o campo de direitos e garantias que constitucionalmente não podiam ser suspensos.

Plano que prosseguiu suportado na falsificação que em redor da alegada «proibição dos festivais» sustentaram e mantiveram até aos dias da Festa do Avante!, escamoteando que não só foram os promotores dos grandes festivais que o haviam solicitado por razões de contratação comercial como, sobretudo, a legislação invocada admitia explicitamente a realização de espectáculos e iniciativas análogas no quadro de orientações de saúde pública 1.

O plano reaccionário posto em marcha tinha um objectivo claro: levar o PCP, face à pressão e à chantagem ideológicas, a desistir da realização da Festa do Avante!. A determinação do PCP fez-lhes gorar esse objectivo. Tratava-se agora de passar a uma nova fase – impedir, recorrendo a todos os meios por mais ilegítimos que fossem, como o foram, a sua realização. Confrontados com a derrota dessa nova pretensão inscreveram então uma nova e derradeira fase: a de tudo fazer para esvaziar a Festa e desmobilizar quem tivesse a intenção de a usufruir. A realização da Festa foi por si a expressão do fracasso dessa ambição reaccionária.

IV

O arsenal de mentira, calúnia, mistificação, falsificação para esse novo patamar da ofensiva foi o que se conheceu. Um centro de comando que uniformizou as ideias-chave que comentadores e analistas papaguearam semanas a fio. Uma afinada editoria de comunicação social foi accionada: inúmeras chamadas de primeira página, alinhamento de noticiários (números de infectados e mortes do Covid, em particular no mundo a partir do momento em que no País não eram bastantes, sempre a anteceder as peças da Festa); ilustração de dados relativos a contágios e à epidemia ilustrados com imagens de construção da Festa do Avante! 2; inusitada recorrência a programas de «Opinião Pública»; tratamento das notícias relativas à Festa dentro do separador Covid-19 (caso do Público no «ao minuto» e no Observador «em directo»); reprodução de notícias redigidas para animar a ideia de um Partido com privilégios especiais (mesmo a partir do momento em que a vida retomara a normalidade possível com idas a praia, peregrinações de Agosto em Fátima, feiras do livro e realização de inúmeros espectáculos em recintos fechados e abertos). O recurso à manipulação mais grosseira, de que é exemplo o recurso a uma capa falsa do The New York Times 3 para abrir uma peça num dos noticiários da SIC e a suportar a narrativa manipuladora da peça que com entusiasmo Clara de Sousa assumiu. A despudorada e caluniosa acusação ao PCP de pôr os lucros da Festa à frente da saúde dos portugueses, inventando um lucro de dois milhões de euros na Festa de 2019 4 que os próprios (no caso ainda a SIC) haviam de se desmentir ao editarem uma peça sobre os prejuízos (!) das últimas festas 5, prejuízos que já tinham sido noticiados pelo Jornal de Negócios em Setembro de 2018, dois anos antes 6.

Para a concretização dos objectivos a que os círculos dominantes se haviam proposto nem a acção dos grandes colossos da informação – Google e Facebook – faltou por via da censura imposta a anúncios pagos 7 relacionados com a Festa, na base de pretextos formais sem fundamento que se traduziram primeiro na sua suspensão e depois na sua rejeição.

As linhas condutoras da operação eram claras: contrapor o PCP ao ambiente e ideias que disseminavam, apresentá-lo como uma entidade privilegiada a quem a lei não se aplicaria, imbuído de um egoísmo que o levaria a desvalorizar o interesse de todos em nome do seu interesse próprio, irresponsável porque não levaria em conta a doença e os seus riscos. Tudo animado na base do preconceito anti-comunista e da estigmatização, procurando identificar o vírus com os comunistas e o PCP, reproduzindo por cá o que Trump desenvolve com a expressão do «vírus chinês». Em que valeu tudo: providências cautelares que tinham como objectivo único animar notícias, actos gratuitos e provocatórios de PSD e CDS, o espernear anti-democrático de Rui Rio com o aproximar da Festa; os abaixo-assinados e petições em papel e on-line 8 (carregados de ódio) contra a realização da Festa do Avante! devidamente ampliados pela comunicação social; as fomentadas expressões de protesto de moradores da Amora que animaram horas de TV, incluindo com a sucessivas entrevistas incluindo em estúdio, baseadas na selectiva escolha de protagonistas (em parte relevantes dirigentes locais do PS e PSD), a difusão até à exaustão de estabelecimentos dispostos a encerrar por riscos de contágio com os milhares que viriam não se sabe de onde (sem que algum jornalista tivesse a lucidez ou inteligência de questionar porque é que no Algarve não estava tudo encerrado por ter sido «invadido» por meio milhão de veraneantes, dezenas de milhar dos quais estrangeiros). A forma como à voz de comando se transformou em todos os órgãos de comunicação nos minutos seguintes a informação dada sobre a lotação máxima licenciada para o recinto (aliás obrigatória para recintos análogos) em expectativa de presenças efectivas na Festa de 2020 para agigantar alegados riscos de contágio e promover a ideia de «irresponsabilidade» ficará para a história da manipulação orquestrada como caso de estudo. Ao mesmo tempo que tudo se fazia por ocultar ou iludir as concentrações de milhares de pessoas que justamente frequentavam praias, se deslocaram ao Santuário de Fátima na peregrinação dedicada aos emigrantes, a informação dos cerca de 30 mil bilhetes vendidos para a prova de F1 no autódromo de Portimão em final de Setembro, as multidões nas feiras do livro, os múltiplos espectáculos, alguns dos quais mediatizados a partir da presença de governantes e do Presidente da República.

A que se deve acrescentar ainda a mobilização para o efeito da intervenção de organizações diversas, a começar pela Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, as Ordens dos Médicos e dos Enfermeiros que, alinhadas com o PSD e outros sectores reaccionários, se desdobraram no ataque à Festa e na animação da suspeição sobre as condições em que se realizaria 9.

Em todo este período os portugueses tiveram o privilégio de tomar contacto com imagens até agora sempre ocultadas da participação massiva na Festa, nos seus espectáculos e nos seus imensos comícios. Uma «anormalidade» rapidamente corrigida com o regresso ao velho normal de ocultação que as primeiras páginas da imprensa escrita do dia seguinte à Festa trataram de repor, e que o Expresso inaugurou, fazendo jus ao papel de liderança na cruzada anti-comunista do grupo monopolista Impresa, trazendo para a capa da edição impressa de 5 de Setembro não qualquer imagem da Festa mas sim uma nova especulação sobre «contas», para uma semana depois fazer chegar às bancas uma nova edição em que ignora por completo que a Festa se realizou.

A ansiosa procura de elementos para atacar a preparação e realização da Festa teve ainda expressão na intensidade de solicitações (no geral correspondidas) para fazer reportagem no terreno durante o período de construção da Festa, que começaram a surgir ainda antes da primeira jornada de trabalho. Uma realidade tão díspar do que tem sucedido nos últimos anos, em que esse inusitado «interesse» nunca foi revelado com a expressão que este ano despertou. A demonstração mais evidente desta concentração de meios mediáticos contra a Festa reside no facto inédito de ter sido notícia de abertura de todos os sete noticiários televisivos em sinal aberto do dia 31 de Agosto (data da divulgação do Plano de Contingência e do parecer da DGS), algo que habitualmente nem nos dias da Festa sucede.

V

A profusão de artigos de opinião, comentários em suportes diversos, comentário político e uma profusão de outros textos, tornam impossível a tarefa de os acomodar. As linhas de diversão ideológica, as subtilezas da prosa para sustentar a crónica anunciada, a grosseria intelectual convocada para animar o guião pré-estabelecido não permite que se vá para lá de alguma sistematização mínima, cujo única utilidade é mesmo a de deixar registado até onde a desonestidade política e a falta de escrúpulos pode ir.

No coro anti-Festa foram muitas as vozes e não menos as variantes argumentativas que, com subtilezas diversas ou abrutalhado anticomunismo, sustentaram a missão que lhes fora confiada: impedir a Festa ou, se gorado tão ousado objectivo, causar o maior dano possível ao PCP. A panóplia é tal que a sua identificação pecará por inevitável defeito. Nelas sobressaem figurantes de proa: do patetismo de Miguel Sousa Tavares «um só infectado que resulte desta festa é imputável à direcção do PCP» 10, às mentirolas de Marques Mendes «os festivais estão proibidos» 11, da destilaria anti-comunista de São José Almeida «a superioridade imoral do PCP» às delirantes asserções de João Miguel Tavares «a Festa do Avante é uma prenda do PCP ao Chega» 12, coisa que conhecendo a personagem de todo não desdenharia que acontecesse.

Registe-se, desde logo, a categoria dos que com condescendência admitiam o direito do PCP a realizar a Festa e a ter actividade política ainda que sentenciando de imediato a irresponsabilidade de o fazer, invocando o «exemplo» de outros 13 que, por estratégia, medo ou oportunismo confinaram a sua intervenção política.

Acrescente-se os que sem rodeios nem rodriguinhos democráticos sentenciavam a proibição da Festa, insurgindo-se perante a falta de acção dos que, segundo eles, deveriam dar concretização à sua ambição 14.

Anote-se os que sem pudor repetiam desonestamente a sua indignação pelo tratamento diferenciado da Festa mesmo quando disfarçavam o veneno que destilavam acrescentando que a essa diferenciação se deveria resolver com a autorização de outros eventos 15, como se não estivessem a decorrer dezenas de espectáculos.

Não se deixem esquecer os que, como São José Almeida 16, deixavam claro que as suas ambições antidemocráticas estão para lá do seu ódio ao PCP quando sem ambiguidades sustentaram a proibição das acções do 1.º de Maio.

Some-se os que vêem em toda esta operação uma manobra do PCP para se vitimizar, atribuindo-lhe a incapacidade de saber comunicar 17, os mesmos que, com honrosas excepções, ignoraram a divulgação do conjunto de procedimentos de prevenção e segurança de saúde pública feita a 23 de Junho, ou seja dois meses e meio antes da sua realização e que se confirmaram estarem plenamente asseguradas. Esses mesmos que não deixavam espaço para qualquer esclarecimento fundamentado sem se sujeitar aos anátemas e dogmas que assassinavam qualquer possibilidade de terminar uma explicação.

Ou ainda os que sob um cinismo imenso decretam a inevitável perda de influência do PCP lamuriando o que isso significaria para a vida política, parecendo agora lamentar o que em larga medida ambicionaram fomentar. 18.

VI

O PCP nunca pretendeu qualquer tratamento privilegiado na observação de regras de prevenção de saúde pública. Assim como declarou não serem aceitáveis pulsões discricionárias que pretendessem a imposição de regras excepcionais não exigíveis a quaisquer outras actividades ou eventos, como em parte se veio a verificar e foi denunciado.

Na preparação da Festa do Avante!, na sua dimensão política e cultural, procurou respeitar-se na multiplicidade de procedimentos organizativos o conjunto de medidas no quadro das disposições legais em vigor, com base em critérios de exigência conscientemente assumidos.

Se há facto indesmentível é que as condições impostas pela Direcção Geral de Saúde (DGS) à realização da Festa não só não traduziu nenhum tratamento privilegiado como, bem pelo contrário, se traduziram em exigências discriminatórias. Assim foi ao estabelecer uma área por visitante em espaços diversos, distintos do que está na lei, ignorando distinção entre capacidade em recinto fechado e iniciativa ao ar livre e extrapolando sem critério objectivo sustentado numa área/visitante para a Festa sem paralelo em qualquer outro evento ou espaço público. São disso exemplos: a limitação da lotação total do recinto em 16,563 presenças para uma área de 300 mil m2 predominantemente ao ar livre, desconsiderando cerca de 140 mil m2 nos critérios de fixação dessa lotação; a fixação da lotação do palco 25 de Abril em 2000 pessoas para uma área de 16 000 m2 (8m2 por pessoa) em flagrante contraste com as fixadas para espectáculos no Campo Pequeno (4m2 em recinto fechado) e no Palácio de Cristal (2m2), ou para a Feira do livro do Porto (3500 para uma área de 4000 m2, ou seja pouco mais que 1m2 por pessoa!).

A operação dirigida contra a Festa do Avante! não encontrou nas instituições ou entidades administrativas posicionamentos que a desanimassem. A DGS, submetida a pressões políticas, primeiro protelou durante mais de mês e meio a avaliação do conjunto de medidas que se propunham implementar para garantir a segurança sanitária, tendo ao invés do que se exigia – identificação de eventuais lacunas e omissões e emissão de recomendações – decidido produzir um parecer «técnico» que comportava sobretudo um exercício político que acolhia o essencial da operação contra a Festa, recheado de elementos e formulações que encaixavam num guião pré-estabelecido contra a Festa. Como é conhecido, só a uma semana da Festa, e na sequência de reuniões que ao longo de várias semanas tinham ocorrido entre a DGS e o PCP, sempre a pedido deste, foram conhecidas as normas da DGS que representavam, em matérias diversas, exigências distintas e superiores a outras realizações.

Estando por esclarecer se o processo, incompreensível e condenável, adoptado pela DGS teve também ou não o aval do Governo, a verdade é que a justificação repetida por parte deste de que «o governo não tinha poderes para impedir a realização da Festa» traduzia as suas hesitações para responder com clareza aos que tinham como objectivo impedir, ilegitimamente, a sua realização.

É neste quadro que o Presidente da República optou por se inserir no coro dos que alimentavam a suspeição sobre a Festa. Ou invocando razões de alegadas desigualdades para com outros, ou alimentando a ideia dos riscos (mesmo quando se deixava fotografar com dezenas de veraneantes sem qualquer distanciamento físico, ou apelava na Feira do livro a que muitos milhares a visitassem), ou quando pressionava a DGS para exigências ilegítimas. Uma atitude que teve já nos dias da Festa do Avante! a expressão mais grave ao questionar as condições de segurança e prevenção da saúde pública e a sua legitimidade ao invocar, não factos que simplesmente não existiam para sustentar o que dizia, mas o conceito de «percepção nacional» tão mais perigoso quanto nas palavras do Presidente da República.

Registe-se o activismo anti-democrático do PSD e de Rui Rio que ao longo de semanas se desdobrou em comentários e comparações ridículas para alimentar a irracionalidade argumentativa de atemorização e estigmatização da Festa do Avante!. Um registo que, iniciado com a contestação à jornada do 1.º de Maio, deixou evidenciado o seu inconformismo com a Constituição, aos direitos e liberdades nela consagrados e o próprio regime democrático. Uma acção a que se somaram as acções provocatórias da JSD, da JP e do CDS, as iniciativas dos seus sucedâneos (Iniciativa Liberal 19 e Chega 20) concebidas para animar uns telejornais e sites de notícias, e os comentários e opiniões de teor fascizante dos muitos que poluem o espaço mediático. Não passará igualmente despercebido a acção de reconhecidos militantes do PS e da JS 21 no concelho do Seixal na promoção da cruzada anti-Festa, nem as declarações de dirigentes do BE, a começar pela sua coordenadora nacional, que sem questionar o direito à realização da Festa a apresentava implicitamente como um factor de risco que devia ser evitado traduzido quer no «espero que o PCP e a DGS façam tudo o que seja necessário para preservar a saúde de todos os portugueses», ou apresentando-a, implicitamente, como uma atitude pouco responsável que o BE não assumia como se provaria por ter optado por não fazer iniciativas de teor idêntico.

VII

Falhada a intenção de impedir a realização da Festa, reconhecida a incontestável condições de protecção e segurança, era preciso encontrar outras linhas para prolongar o ataque ao PCP. À proa destas, a ideia de uma «Festa vazia» para suportar a tese de um partido isolado das massas e desligado do sentimento popular.

Os que pela sua intervenção tudo fizeram para criar obstáculos à Festa e que pressionaram por todos os meios para serem impostas à sua realização limitações de lotação, os mesmo que semearam argumentos obscurantistas e irracionais para atemorizar e intranquilizar, apresentando a Festa como sinónimo de contágio dando asas ao preconceito que lhe está associado, vieram hipocritamente, durante e após a Festa, cobrar que a edição de 2020 teve menos pessoas do que no ano anterior.

A questão não é, como insidiosamente afirmam, o PCP não ter a «percepção» do sentimento popular. A questão que estava colocada é a de não só não aceitar como contrariar e combater o que à escala de massas se quer inculcar de aceitação acrítica da ditadura do medo, de consolidação de um patamar de terror indutor desse sentimento de que qualquer gesto ou movimento é contágio certo. É esse sentimento que o poder e a opinião dominante querem instituir a pensar no que daí decorre como factores favoráveis à sua agenda de exploração, liquidação de direitos, limitação de liberdades. O ódio que muitos não disfarçaram contra o Partido radica no facto de, ao contrário de outros que para surfar o ambiente se acomodavam quando não alimentavam esse sentimento, o PCP não só não se rendeu como lhe deu combate.

Aos que à falta de argumento efabulam agora sobre a alegada troca de favores entre Governo e o PCP, apresentando a realização da Festa como contrapartida para aprovação do Orçamento do Estado, são os mesmos que em simultâneo já ensaiam, face à hipótese da sua não aprovação, a ideia de que essa rejeição confirmaria, no quadro da sacrossanta «percepção» de um sentimento de unidade nacional perante a «crise» a que todos estariam «patrioticamente» obrigados, mais um sinal desse «isolamento».

VIII

A realização da Festa constituiu uma vitória da afirmação da fruição da vida sobre o medo, uma prova do valor da militância, da coragem, da responsabilidade. A realização da Festa do Avante!, segura, alegre, combativa e criativa, é a demonstração prática de que é possível combater o medo e o conformismo, dar esperança e confiança na luta pelo futuro

A Festa do Avante! foi a prova de que é possível garantir a segurança e protecção no plano da saúde e simultaneamente fruir a vida, exercer direitos, dar espaço à cultura e à solidariedade.

A Festa do Avante! abriu portas ao sector da cultura, aos artista, técnicos que por todo o País reclamam justamente por apoio face à quase total perda de actividade. E fê-lo da forma mais digna: criando-lhes condições para trabalharem e mostrando que é possível, mesmo nas actuais circunstâncias, fazer cultura.

Mais cedo que tarde se reconhecerá a valiosa contribuição dada pela realização da Festa para resgatar a confiança e a alegria, o direito à cultura e à fruição da vida. Aos que por razões várias nela não puderam participar, marcamos encontro nas muitas batalhas que havemos de travar e nos reencontraremos na 45.ª edição da Festa do Avante em Setembro de 2021.

Notas

(1) Lei n.º 19/2020 de 29 de Maio.

(2) Expresso on-line, 5 de Agosto.

(3) Jornal da Noite, 1 de Setembro.

(4) Jornal da Noite, 5 de Agosto.

(5) Jornal da Noite, 3 de Setembro.

(6) Jornal de Negócios, 6 de Setembro de 2018.

(7) Anúncio de publicação editada na noite de sexta-feira da Festa, suspenso a meio da manhã de sábado e pendente para decisão, até à sua rejeição definitiva já no domingo.

(8) Observador 20/08/20 «JP entrega em São Bento abaixo-assinado com 5 mil assinaturas contra a realização da Festa».

(9) Registe-se a defesa de uma «fiscalização independente» das regras sanitárias no terreno de Filipe Fróis apresentado como coordenador do gabinete de crise Covid-19 da Ordem dos Médicos (Jornal Económico, 28/08/20), ou as declarações da bastonária da Ordem dos Enfermeiros segundo a qual «uma festa com 17 pessoas não, mas a do Avante com 16 mil já pode.».

(10) Entrevista ao Diário de Notícias. Assinale-se que a entrevista dada a 8 de Agosto foi republicada a 31 de Agosto, seguramente por nela se encontrar uma riqueza argumentativa do tipo «a Festa do Avante é uma provocação que equivale à atitude Trump e Bolsonaro».

(11) SIC… «não deveriam autorizar a Festa do Avante, em Setembro, após terem proibido os festivais de verão». O próprio Covões se encarregou de desmentir na segunda-feira a seguir à Festa no programa «Tudo é economia» da RTP 3.

(12) Público, 15/08/2020.

(13) Público, São José Almeida: «… bom senso de quase todos os partidos parlamentares que praticamente suspenderam comícios, rentreés...».

(14) Miguel Sousa Tavares, entrevista a João Céu e Silva: «... a Festa do Avante devia ser cancelada».

(15) jn, 26/08/20, Manuel Serrão: «não discordo do tratamento privilegiado porque a Festa do Avante não deveria acontecer, mas bem pelo contrário porque também deveriam ir avante as outras festas, eventos, romarias que aparentemente estão proibida»! «Se o sol nasce é para todos», sentenciava.

(16) Público, 29/08/20: «o bom senso aconselhava a que não tivesse sido autorizado».

(17) jn, 26/08/20, Inês Cardoso: «… não significa que o PCP tenha sido inteligente ou correcto a gerir a organização. Comunicou mal, reagiu com arrogância a pedidos de esclarecimento e foi classificando qualquer crítica como ataque político».

(18) Bernardo Ferrão, SIC, Primeiro Jornal, 4 de Setembro.

(19) Observador, 31/08/20, «avante-iniciativa liberal apresenta requerimento e resolução para divulgação integral de parecer da DGS».

(20) Observador, 31/08/20, «avante-chega questiona ministra da Saúde e exige publicidade do parecer da DGS».

(21) https://www.dn.pt - juventude socialista ataca pcp por insistência irresponsável com a festa do avante.