Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Efeméride, Edição Nº 369 - Nov/Dez 2020

Estarei sempre onde houver uma trincheira - Viagem breve à volta do Diário de Mário Sacramento

por Pedro Santos Maia

Mário Sacramento (7.7.1920-27.3.1969) – médico, escritor, antifascista e combatente pela liberdade – fez (faz…) por estes dias cem anos.

Entre meados de 1967 e princípios de 1969 deixou-nos um conjunto de apontamentos publicados postumamente sob o título Diário (Porto, Ed. Limiar, 1975). São reflexões mais ou menos avulsas, testemunhos mais ou menos íntimos e pungentes, relatos e desabafos sobre um tempo que importa resgatar do esquecimento, até porque «há mortos que rangem, nas trevas, sacrifícios esquecidos.» (p. 287) Por exemplo, encontram-se neste volume várias páginas memoráveis dedicadas à experiência de perseguição e detenção do autor nas prisões fascistas (Aljube, Caxias), designadamente «no seu período gestápico.» (p. 126) Deixemos para outros a recuperação deste tópico.

Defende Mário Sacramento que «é uma evidência que a linguagem só sobressai porque há um fundo escuro por detrás dela.» (p. 269)

Na verdade, a linguagem deste Diário está marcada por um fundo escuro. Talvez seja o fundo de onde a própria vida emana.

Desde logo, quando reflecte sobre a natureza do tempo e a precariedade da existência: «Não sei como é que V. tem tempo para isto e para aquilo, há quem mo atire volta e meia. Só se esquecem de acrescentar: e para sofrer, sobretudo, a falta de tempo que o tempo é.» (p. 124) Há uma falha, um desencontro, uma cegueira radicais na nossa relação com o tempo. Para o humano, o tempo está sempre em perda: «o tempo vai passando por mim e não me vê. Não me chega nunca nem para um centésimo do que projecto e quero.» (p. 234) Em progressiva aceleração, a constatação inevitável do fim: «Cada vez mais desamparado e desorganizado na minha vida: o sentido inelutável, claro, irreversível, de que isto é para acabar.» (p. 353)

Não se estranhe, portanto, o desalento, a solidão, a ameaça do absurdo, o sem sentido à espreita, «uma vida inteira à espera de nada, à espera de… ninguém!» (p. 350) Será isso o que o autor quer dar conta com a expressão «o fragor cavo do Ser» (p. 329)? Afinal, «que foi a minha vida até hoje? (…) Até hoje? Mas que hoje, que ontem, que nunca? Disseram-me: sê médico – e declaram-me que não há doentes; sê escritor – e congelam os assuntos; sê cidadão – e retiram-me os direitos…» (p. 165)

As descrições do «ciclo de frustração» do seu quotidiano ocorrem amiúde, assim como os momentos de descrença sobre as suas próprias capacidades; eis apenas dois passos para ilustração: «Levantei-me como quem carrega um cadáver. Pu-lo a escrever isto, para se desentorpecer. Ando dividido entre o que sou até às 18-19h (robot de bata) e o que me acontece depois, que é falta de acontecer justamente, espaço oco de que o próprio gosto de ler desertou.» (pp. 245-6) E: «Falta-me a faúlha sagrada que põe fogo à pólvora. Sinto e concebo, mas minguam-me as asas da imaginação criadora. Daí que os meus projectos fiquem sempre num limbo, num primeiro arranque estiolado.» (p. 131)

Afinal, qual o sentido de tudo isto? Ou: será que a vida tem mesmo sentido? «Seremos todos loucos, os que queremos transformar o mundo?» (p. 15)

Para Mário Sacramento, a resposta não passa pela adopção de uma lucidez de apocalipse: «Muito gostava eu de ir espreitar a [sociedade] do futuro, para saber se o que chamamos alienação é de facto a chave do Calvário. Seja que não seja, valha-nos ao menos termos moinhos com que lutar. Que seria de nós se uma lucidez de apocalipse nos tornasse cônscios de que nada, mesmo nada afinal vale a pena? Sabemo-lo, em qualquer caso, mas temos a força e a liberdade de o negarmos, felizmente.» (p. 21)

Não havendo «nada pior do que a ficção em vida» (p. 13), sabendo que «a verdade tem um contexto dialéctico, que só a análise concreta desvenda» (p. 302), e que «só a práxis é mãe da verdade» (p. 15), o marxista Mário Sacramento entrevê na luta uma resposta para o sentido da vida e para o risco e finitude da existência: «A vida é para mim um risco calculado. Aceito-lhe o fim como causa necessária do que nela empenho. E não há volta a dar-lhe. (…) Hei-de ser luta, haja o que houver!» (p. 131; sub. nosso) E foi justa e verdadeiramente isso que aconteceu na vida de Mário Sacramento. Terá sido aí que tocou na chaga viva: «Tenho de ir até à chaga viva.» (p. 182)

O entramado da vida não se elucida nem resolve por linhas rectas ou simplificações ideológicas, mas não deixa de apelar para alguns pontos de apoio. Eis um deles: «quem pode viver sem ela [a fé no homem]?» (p. 17) Mas, note-se, não se trata de promover nem uma visão ingénua – «sou um pessimista que age e luta, não um optimista de beatitude» (p. 123) – nem estática do humano. A humanidade dos humanos resulta de uma práxis contínua e que precisa de ser «fecundada» (p. 300): «O homem fez fazendo – e fazendo se refará outro.» (p. 301) Nessa medida, «o eu é sempre uma escolha.» (p. 68)

Escolha que não se faz sem tensão e conflito, sem dor e frustração. Mário Sacramento é um solitário-solidário, é expressão da tensão viva entre o escritor e o político, entre o reconhecimento da margem de solidão que o trabalho intelectual exige (cf. p. 122) e a consciência da radical necessidade da intervenção cívica: «Se é impossível ser-se intelectual sem uma margem de egotismo, o individualismo “à outrance” e radicalmente anarquista faz do homem um lobo do afecto dos outros. (…) Homem solidário, chego assim à conclusão de que (…) vou acabar os meus dias na solidão absoluta. Fiel a mim mesmo, está claro, e sem ceder no plano da intervenção cívica e social (pois destruir isso seria suicidar-me), mas só e frustrado.» (p. 25) A rejeição do intelectualismo estrito não impede o autor de revelar a lucidez de um preço a pagar pela entrega a uma práxis imediatista: «a intervenção activa, por inoperante e ingénua que seja, mantém-nos solidários com a nossa humanidade e em guarda contra a alienação, enquanto que o intelectualismo estrito, muito embora justificado e legítimo, aristocratiza, isola e hiperaliena. Acomodei-me à práxis do imediato e do quotidiano e amordacei o pequeno escritor que trazia em mim, dando primazia ao político, que talvez inicialmente não fosse, mas que, à força de experiência, acabei por ser.» (p. 31)

A necessidade da intervenção política e da luta contra o fascismo falou assim bem alto no coração e na cabeça de Mário Sacramento. Nada de mais contrário à sua atitude do que «“legitimar” o fascismo vivendo nele como se fosse… natural, humano, aceitável» (p. 32). É pela vida plena (de que Engels fala no Anti-Dühring), pelo dia inicial inteiro e limpo de Sophia, em que livres habitamos a substância do tempo, que aqui se tratava, mais uma vez, de lutar: «Sempre pensei que a minha vida só começaria quando caísse o fascismo.» (p. 113) Sublinhando que «a interrogação e a dúvida nunca me abandonaram», o autor afirma que «foi de empenhamento total a minha vida!» E pergunta de forma eloquente: «Quem poderia proceder de outro modo, em boa consciência, face à invasão dos bárbaros?» (p. 80)

Mesmo reconhecendo a inoperância de muitas iniciativas e o insucesso de muitos esforços, mesmo percebendo que «tão fáceis são as ideias e tão difícil é o real» (p. 78), a verdade é que precisamos de uma intervenção prática sustentada em ideias e em princípios: «Não fazem milagres as ideias. (Não é porque o galo canta que nasce o Sol.) Mas agulham os homens!» (p. 174) Precisamos de uma intervenção consequente, que converta desejos e vontades em transformações efectivas, pois «não basta querer a revolução, é preciso saber fazê-la.» (p. 210)

E o que vem a ser o homem? Uma resposta de Mário Sacramento: «o homem não é só corpo ou consciência: é também memória, honra, herança, futuro.» (p. 32) Por isso não se estranhe a opção do autor em querer dar continuidade nas gerações futuras a uma herança de luta pela liberdade e pelo desenvolvimento do país, nem a chamada de atenção à «esquerda socialista» para a necessidade vital do trabalho em «unidade com o progressismo católico» (p. 33); veja-se do autor a obra Frátria: Diálogo com os Católicos (ou talvez não), Porto, Inova, 1970), onde se pode ler frases como esta: «As consciências não são muros, são portas abertas.» (p. 45). Apesar das limitações do património que se deixa aos vindouros – «todo o lastro pequeno-burguês que nos tolhe» –, há uma dimensão crítica que importa preservar e transmitir: «deixemos, ao menos, a herança crítica da nossa experiência aos que hão-de vir.» (p. 46) Para lá da vertigem absurda dos dias e dos anos, há, portanto, que «transmitir o facho da resistência às gerações mais novas» (p. 140), e essa é uma forma decisiva de Mário Sacramento se manter vivo e actuante, pois «um homem só está vivo enquanto se projecta no futuro.» (p. 195) Mais: é a forma (sempre limitada) de dar um rumo à existência: «Sem trabalho, no bom sentido, é impossível suportar a vida.» (p. 252)

Num apontamento datado de 12.10.1968, Mário Sacramento descreve o seguinte episódio: «Vieram convidar-me, da Vértice, para o núcleo redactorial. Aceitei, não por “porreirismo” (como diria o meu sarcástico mas “fiel” Joaquim Namorado), mas porque sim»; e resume a razão da aceitação do convite: «estarei sempre onde houver uma trincheira.» (p. 329)

Estar na trincheira – um desafio de ontem e de hoje. Um desafio de sempre.

Almada, 12-13 de Setembro de 2020

Mário Sacramento

O centenário do nascimento de Mário Sacramento foi dignamente assinalado pelo PCP, o seu partido de sempre, com a promoção de várias iniciativas pela Organização Regional de Aveiro, destacando-se entre elas a Sessão Comemorativa em Ílhavo, a terra onde nasceu em 1920, com a participação do Secretário-geral do PCP.

Mário Sacramento foi um alto exemplo de intelectual marxista profundamente identificado e comprometido com a vida e a luta do seu povo. Médico de profissão competente e generoso, publicista e escritor com vasta obra publicada, Mário Sacramento, que aderiu ao Partido muito jovem, desenvolveu uma intensa actividade cultural e política tornando-se uma das mais destacadas e respeitadas figuras da Oposição Democrática do seu tempo. Foi membro da Comissão Central do MUD Juvenil. Profundamente empenhado na promoção da unidade de todas as forças democráticas e no diálogo com os católicos, o seu nome fica particularmente ligado aos Congressos Republicanos de Aveiro, de que foi o grande animador. Como tantos outros intelectuais progressistas perseguidos pelo fascismo esteve preso por cinco vezes, no Aljube e em Caxias.

Como afirmou o camarada Jerónimo de Sousa na Sessão Comemorativa de Ílhavo, para o PCP «é uma grande honra e motivo de legítimo orgulho que este homem de excepcional valor e exemplo de verticalidade tenha militado nas suas fileiras, tomando parte na frente de combate enquanto viveu nas mais importantes batalhas contra o fascismo e na luta pela sociedade nova livre da exploração e da opressão com que sonhava e pela qual se batia com as armas da sua sólida formação científica e política e a sua penetrante inteligência».