Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Abertura, Edição Nº 305 - Mar/Abr 2010

Ler e estudar Lénine

por Revista «O Militante»

«Sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário»
Para quem está empenhado na compreensão da sociedade e na sua transformação revolucionária, ler e estudar Lénine é sempre fonte de descoberta e encantamento.


Lénine tem um pensamento tão ligado à vida e um discurso tão claro e incisivo, que textos seus – livros, panfletos, cartas, telegramas – escritos um século atrás parecem saltar para a actualidade e ganhar vida, armando-nos com análises, experiências e ensinamentos de grande valor para a luta que hoje travamos contra o capital em condições profundamente distintas das do seu tempo. É por isso que é tão importante encontrar espaço para ler e estudar Lénine. Ou se necessário «inventá-lo». As exigências do trabalho prático militante são particularmente absorventes, mas não podem ser desculpa para deixar para trás a leitura e o estudo do fundador do primeiro partido revolucionário de novo tipo e do primeiro Estado de operários e camponeses.





Naturalmente que não é apenas em Lénine que encontramos sempre renovadas fontes de energia militante e de convicção na superioridade do projecto comunista, qualidades de que temos de cuidar muito em tempos de contra-revolução e de agudíssima luta no plano das ideias. Isso acontece com a obra de Marx, de Engels, de Álvaro Cunhal e outros revolucionários que, dominando com mestria o materialismo e a dialéctica marxista, caminharam à frente do seu tempo, viram mais claro e mais longe, desvendaram e desbravaram os caminhos do futuro. Mas sendo de Lénine que falamos, devemos reconhecer a particular luminosidade, actualidade e mesmo utilidade imediata de uma obra em que teoria e prática, intervenção conjuntural e perspectiva revolucionária, firmeza de princípios e agilidade táctica caminham de mãos dadas.

Como o de todos os gigantes do pensamento revolucionário, o legado teórico de Lénine está profundamente ligado à vida, à defesa dos mais explorados e oprimidos, à actividade transformadora. As grandes obras de Lénine, do célebre «Que fazer?» (tendo como centro a concepção do partido revolucionário da classe operária) ao «Imperialismo, estádio supremo do capitalismo» (desvendando a fase monopolista do capitalismo e assim rasgando à luta do proletariado mais nítidas perspectivas de vitória), passando por «Um passo em frente, dois passos à rectaguarda», «Duas tácticas da social-democracia na revolução democrática», «Materialismo e empiriocriticismo», «A doença infantil do comunismo, o esquerdismo», ou «O Estado e a revolução», são escritas no calor da luta para dar resposta a problemas novos da revolução e da luta ideológica. A conhecida imagem de Lénine na cabana/refúgio nas margens do lago Razliv redigindo «O Estado e a revolução» em vésperas da Revolução de Outubro, é bem representativa do modo de ser e de estar de Lénine na revolução e da maneira como concebia e vivia a indissolúvel ligação entre teoria e prática.

Com Lénine – como com Álvaro Cunhal, como o mostram os dois volumes já publicados das suas Obras Escolhidas – conhecidas máximas da nossa filosofia materialista, como «o marxismo não é um dogma mas um guia para a acção», «a prática é o critério da verdade», «sem teoria revolucionária não há movimento revolucionário», como que palpitam em toda a sua acção revolucionária. Essa uma razão que torna tão atraente e tão inspiradora a sua obra e tanto mais quanto as grandes questões que abordam são questões que, ainda que de modo modificado, são de uma flagrante actualidade no plano da filosofia, da economia política, da teoria e da prática da revolução socialista.





140 anos passados sobre o nascimento de Lénine e 86 sobre o seu prematuro falecimento em 1924, quando tanto havia ainda a esperar da sua inteligência, do seu trabalho infatigável e da sua argúcia de dirigente e de estadista comunista, é muito mais ampla a experiência acumulada pelo movimento operário na luta contra o capital e pela edificação de uma sociedade nova, sociedade que coube precisamente a Lénine e ao  Partido bolchevique lançar os fundamentos pioneiros. Mas sendo a época histórica a mesma em que Lénine viveu, a época inaugurada pela Revolução de Outubro da passagem do capitalismo ao socialismo, as grandes questões que os comunistas hoje enfrentam, diferentes na forma, são fundamentalmente as mesmas quanto ao conteúdo. Isso torna a leitura e o estudo de Lénine não apenas enriquecedor do ponto de vista histórico e útil em termos de actividade prática concreta. Questões de tão candente actualidade como: partido comunista e suas características fundamentais; papel e alianças da classe operária; intransigência no combate ao oportunismo de direita e de «esquerda»; o imperialismo e sua essência; a questão do Estado e sua natureza de classe; teoria da revolução; ditadura do proletariado e transição para o socialismo; internacionalismo; problema nacional; luta pela paz e coexistência pacífica, encontram na obra de Lénine uma abordagem profunda que, correctamente assimilada e rejeitando qualquer transplantação mecânica, é fonte de inspiração para os combates da actualidade.

Não se trata obviamente de recitar Lénine e pretender encontrar nos seus escritos, como nos escritos de outros clássicos do marxismo-leninismo, resposta pronta para os problemas actuais, mas de compreender e assimilar a sua obra. O mais decidido combate aos detractores de Lénine e do marxismo-leninismo implica também a rejeição da sua interpretação dogmática, acerca da qual o camarada Álvaro Cunhal escreveu: «Um dos aspectos mais correntes desse espírito dogmático é a sacralização dos textos dos mestres do comunismo, a substituição da análise das situações e dos fenómenos pela transcrição sistemática e avassaladora dos textos clássicos como respostas que só a análise actual pode permitir» (1) .





As tarefas que se colocam ao PCP são muito exigentes e o ritmo de trabalho prático muito intenso. E não se trata apenas da imperiosa necessidade de responder com a luta à violenta ofensiva do capital e da política de direita que o serve. Trata-se de, para onde quer que nos voltemos, verificar a existência de imensas potencialidades para o reforço do Partido a reclamar a atenção e a intervenção militante dos comunistas. Para alargar as fileiras do Partido, para o fortalecer nas empresas e locais de trabalho, para o enraizar mais entre as massas, para o dotar de uma mais sólida base financeira, condição necessária à sua intervenção independente, para atrair mais operários, mais mulheres e mais jovens para os ideais e o projecto libertador do comunismo. E para isso precisamos de mais quadros a assumir responsabilidades e de elevar a militância de todo o colectivo partidário. Um comunista que domine a teoria marxista, com uma visão clara do processo histórico, é capaz de mais militância, mais iniciativa e mais criatividade na resposta aos problemas da luta e da construção do Partido e da sua ligação com as massas.

É preciso ler, estudar, visitar e revisitar a obra de Lénine. Para quem esteja a iniciar-se no conhecimento da sua obra, ou a tomar contacto com as traves mestras do marxismo-leninismo, a coletânea de artigos de Lénine «Karl Marx e o desenvolvimento histórico do marxismo», publicada pelas edições «Avante!» (2) pode ser um bom ponto de partida. Conhecer e dar a conhecer este magnífico livrinho de divulgação marxista é também prestar homenagem ao dirigente imortal do movimento comunista internacional por ocasião do 140.º aniversário do seu nascimento.





Notas



(1) «O Partido com Paredes de Vidro», Edições «Avante!», 1985, p. 22.

(2) «Karl Marx e o desenvolvimento histórico do marxismo», Edições «Avante!».







O 89.º aniversário do PCP tem lugar numa situação muito complexa e perigosa no plano nacional e internacional, mas também plena de potencialidades transformadoras e revolucionárias. Criação da classe operária portuguesa o PCP nasceu soba influência da Revolução de Outubro e deve a Lénine e ao leninismo traços fundamentais da sua identidade comunista. Esta uma razão mais para ler e estudar Lénine, não pensando numa ilusória e impossível repetição mas como fonte de inspiração para a realização das tarefas das tarefas que hoje se colocam aos comunistas portugueses para reforçar o Partido e na luta pela ruptura e mudança patriótica e de esquerda que a grave situação do país reclama.