Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Internacional, Edição Nº 306 - Mai/Jun 2010

65 anos da Vitória Intervir no debate ideológico

por Pedro Guerreiro

A 9 de Maio assinalam-se os 65 anos da capitulação do nazi-fascismo na Europa. A II Guerra Mundial prolongar-se-ia na Ásia até 2 de Setembro de 1945. Seis anos de guerra provocaram dezenas de milhões de mortos e uma imensa destruição.

Tendo em conta as significativas alterações ocorridas no final do século XX,  podemos afirmar que, provavelmente como nunca o foi antes, será hoje mais perceptível a importância e o significado da derrota do nazi-fascismo em 1945 e a oportunidade histórica que constituiu para os trabalhadores e para os povos de todo o mundo.

Talvez por isso sejamos confrontados com uma vergonhosa tentativa de deturpação da verdade histórica relativamente à II Guerra Mundial, cujo eixo principal é o anticomunismo.

Esta ofensiva anticomunista que, entre outros aspectos, equipara fascismo com comunismo, baseia-se numa «monumental falsificação da realidade histórica, quer no que respeita à natureza e papel dos comunistas, quer no que respeita à verdadeira essência e papel histórico do nazi-fascismo» (1) , escamoteando, por exemplo, que «o anticomunismo foi, desde a primeira hora, a característica política fundamental do fascismo» (2). Tal é, por exemplo, demonstrado duma forma clara naqueles países onde hoje são perseguidos e reprimidos os comunistas, ao mesmo tempo que são reabilitados e elogiados os fascistas que combateram ao lado das tropas hitlerianas na II Guerra Mundial.

Como o PCP tem denunciado, ao se estabelecer uma equiparação entre comunismo e nazismo, o que se pretende é, por um lado, branquear o nazi-fascismo e, por outro, fazer esquecer que o nazi-fascismo é uma forma de organização do Estado a que o capitalismo recorreu (e recorrerá sempre que necessite e consiga) para garantir a dominação e assegurar a exploração dos trabalhadores e dos povos. Como a história demonstra, o anticomunismo é sempre antidemocrático, tendo como objectivo a repressão, não apenas dos comunistas mas de todos os democratas e patriotas que, de alguma forma, resistem e lutem contra a dominação e a exploração capitalistas.

Como temos apontado, tal tentativa de falsificação histórica é inseparável da actual agudização da crise do capitalismo, do aprofundamento das suas contradições, dos problemas que gera e é incapaz de resolver, do próprio facto de as aventuras militares em que se envolve longe de resolverem as suas contradições antes as acentuarem.

É pois tendo plena consciência da importância do debate ideológico em torno do significado e do que representou a vitória sobre o nazi-fascismo, que na Reunião do Grupo de Trabalho dos Encontros Internacionais de Partidos Comunistas e Operários, realizada em Lisboa a 13 e 14 de Março, foi aprovada uma Resolução «Pela Paz, Não à NATO», onde se declara a «intenção de assinalar os 65 anos da vitória sobre o nazi-fascismo como uma importante jornada de luta pela paz e contra a monumental distorção da História que tenta apagar o papel central dos comunistas na libertação dos povos do jugo nazi-fascista e equiparar nazismo com comunismo».

Daí a importância de, para assinalar os 65 anos da vitória sobre o nazi-fascismo e intervir no debate ideológico que em seu torno se realiza, relembrar o valioso património de reflexão que acumulámos sobre este marcante período histórico.





O que procuram esconder



Os acontecimentos em torno da II Guerra Mundial ganham redobrada actualidade num momento em que a Humanidade se vê de novo confrontada com um capitalismo em profunda crise. Revisitemos, por conseguinte, algumas das lições retiradas daquele período histórico.

A mais violenta e terrível forma de dominação de classe jamais gerada pelo capitalismo», o nazi-fascismo foi uma criação de um sistema capitalista em profunda crise, activamente promovido pelo capital monopolista, como instrumento de agressão, num quadro de crescentes rivalidades inter-imperialistas, e de opressão dos trabalhadores e dos povos e das suas organizações de classe.

Os comunistas, com o seu projecto de profunda transformação social, emancipadora e progressista, e o movimento operário, foram as primeiras e principais vítimas do nazi-fascismo.

O nazi-fascismo contou com o apoio ou com a conivência das grandes potências capitalistas, como a Grã-Bretanha, a França ou os EUA (3) , primeiro na sua ascensão e, posteriormente, nas suas agressões a outros povos, planeando dirigi-lo e utilizá-lo para a agressão e destruição do, então, único (e recente) Estado socialista, a URSS. «Para a grande burguesia das potências imperialistas, o ascenso do nazismo representava não apenas uma solução de força para salvar o capitalismo alemão, mas também uma arma para destruir pela força a primeira experiência mundial de construção do socialismo, em curso na URSS» (4)

A União Soviética dava então passos de gigante para «a construção de uma sociedade nova, nunca antes conhecida pela humanidade, portadora de um projecto de eliminação de todas as forças de exploração e opressão social e nacional, defensora da paz e da amizade entre os povos» (5) e «conhecia taxas de crescimento económico impressionantes com os planos quinquenais e as conquistas sociais (emprego, educação, saúde, cultura). O contraste com o capitalismo em crise era evidente e cheio de significado político». «O capitalismo vivia então uma crise sem precedentes, no decurso da qual a produção industrial planetária caiu quase 40%, as bolsas 70% e o volume do comércio mundial cerca de 30%. O desemprego afectava milhões de trabalhadores e a crise económica era acompanhada por crises políticas» (6) . Isto é, «ao lado de um sistema em crise, incapaz de oferecer aos povos outra realidade senão a exploração e a guerra, surgia pela primeira vez um sistema sócio-económico alternativo que garantia direitos sociais sem precedentes» (7) .

Desde o primeiro momento e na primeira linha, o combate ao nazi-fascismo contou com a firme e resoluta presença e acção determinante dos comunistas. O antifascismo está na essência da acção e da luta libertadora dos comunistas, pela qual milhões deram as suas vidas.

Por toda a parte, a luta organizada dos trabalhadores e dos povos esteve no âmago da resistência armada face à bestialidade nazi-fascista – saliente-se, quando as classes dominantes de muitos dos países europeus oscilavam entre o colaboracionismo e a submissão à horda nazi-fascista.

Para a vitória sobre o nazi-fascismo foi decisiva e fundamental a contribuição da União Soviética, do seu Exército Vermelho, do seu heróico e mártir povo, que protagonizou as grandes batalhas da II Guerra Mundial que derrotaram a máquina de guerra nazi – como em Moscovo, em Estalinegrado, em Leninegrado, em Kursk ou em Berlim –, alterando o rumo dos acontecimentos.





Os povos tomam o destino nas suas mãos




As profundas transformações conquistadas em consequência da alteração de forças ocorrida no pós-guerra marcaram indubitavelmente quase toda a segunda metade do século XX.

Num número crescente de países os trabalhadores e os povos viriam a tomar o futuro nas suas mãos, abrindo caminho aos maiores progressos sociais alguma vez alcançados na história da Humanidade.

É após a II Guerra Mundial, com a formação do campo socialista na Europa e na Ásia, que milhões de homens e mulheres conquistaram a consagração do trabalho com direitos e livre da exploração, o fim da discriminação e a efectivação da igualdade entre mulheres e homens, o direito à saúde, ao ensino, à cultura e ao lazer transformados em condição de liberdade e de progresso, tendo a terra e sectores estratégicos e fundamentais da economia sido colocados, pela primeira vez, ao serviço da satisfação das necessidades da esmagadora maioria.

É com a existência de fortes e influentes partidos comunistas e de um movimento operário organizado que, com o exemplo das transformações e realizações revolucionárias no campo socialista, foram conquistadas noutros países importantes conquistas sociais, como o denominado «Estado Social» em países capitalistas desenvolvidos, onde as classes dominantes temiam o despoletar de novas revoluções sociais.

É com a profunda alteração da correlação de forças saída da II Guerra Mundial que as lutas de libertação nacional, em África e na Ásia, têm um extraordinário desenvolvimento, com a conquista da independência nacional por parte de numerosos países, fazendo entrar em colapso os velhos impérios coloniais.

Como temos salientado, hoje, como antes, quando alguns procuram falsificar a História, escamoteando o que foi o fascismo e ocultando o papel decisivo dos comunistas na sua derrota, o que se pretende é possibilitar que, uma vez mais, um capitalismo em profunda crise possa recorrer a soluções de força para tentar salvaguardar o seu domínio. Por isso mesmo, a intervenção no debate ideológico em defesa da verdade histórica é parte integrante das lutas que hoje travamos.





Confiança e luta, hoje como ontem




Quando em 1941 parecia inevitável que a barbárie nazi-fascista tudo varresse à sua frente, quanta coragem, determinação e confiança na luta dos trabalhadores e dos povos foi necessária para que, poucos anos mais tarde, a Humanidade pudesse celebrar a derrota do nazi-fascismo e a partir desta desbravar o caminho da emancipação social e nacional dos trabalhadores e dos povos.

Como o PCP – este colectivo de homens e mulheres – sempre afirmou e demonstrou através dos seus 89 anos de luta heróica, mesmo nos momentos mais difíceis da História recente, perante a natureza cada vez mais exploradora, agressiva, opressora e violenta do capitalismo dos nossos dias, é inevitável que cresça a resistência dos trabalhadores e dos povos, que se fortaleçam aqueles que compreendem a necessidade e se mobilizam para a luta por uma alternativa ao capitalismo, que é gerador de exploração, miséria, destruição e morte.

Hoje, como perante os negros tempos do nazi-fascismo, por intransponíveis que possam parecer as dificuldades, avancemos com alegria e a profunda confiança de que o futuro pertence não aos que oprimem e exploram mas aos que resistem e lutam em prol da emancipação da Humanidade das grilhetas da exploração do homem pelo homem, fazendo avançar a história.



Notas





(1) O anticomunismo e a ofensiva do imperialismo, in O Militante, N.º 281, Março-Abril, 2006.

(2) Idem.

(3) Recorde-se o apoio das grandes potências capitalistas ao fascismo português. Após a II Guerra Mundial, Portugal fascista foi um dos países fundadores da NATO. Foi a luta do povo português e dos povos das colónias que acabou com a ditadura fascista, em 25 de Abril de 1974.

(4) Sobre o fascismo e a verdade histórica, in O Militante, N.º 301, Julho-Agosto, 2009.

(5) Jerónimo de Sousa, Secretário-geral do PCP, in Sessão Pública sobre os 90 Anos da Revolução de Outubro, 07.11. 2007.

(6) Sobre o fascismo e a verdade histórica, in O Militante, N.º 301.

(7) 60 anos ao serviço do imperialismo, in O Militante, N.º 299, Março-Abril, 2009.



Outras materias de consulta:



- Projecto de Resolução anticomunista em consideração na Assembleia Parlamentar do Conselho da Europa, Declaração da Comissão Política de 23.01.06.

- 60 anos da vitória sobre o nazi-fascismo, A contribuição dos comunistas, intervenção da delegação do PCP na Conferência Internacional, Moscovo, Abril, 2005.

- Dossier evocativo do 60.º aniversário da Vitória sobre o nazi-fascismo (www.pcp.pt), Abril, 2005.