Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Partido, Edição Nº 302 - Set/Out 2009

Lutas e acção de massas - Experiências em Sintra

por Brás Neves

Para os comunistas, a luta de massas assume-se sempre como factor determinante para a transformação social. Todos nós sentimos no dia-a-dia dentro da empresa, na freguesia, no bairro, a importância desta acção, mas nem sempre é fácil debater a mobilização dos trabalhadores ou das populações para a luta.

Muitas vezes, na organização do Partido e nas organizações unitárias, condicionamos a decisão de avançar para uma luta às nossas dúvidas sobre os meios que temos e ao receio sobre a eventual fraca participação dos trabalhadores ou das populações. Esta atitude constitui um enorme erro e um grande travão do nosso trabalho político.

Toda a experiência comprova que existindo as condições mínimas de descontentamento em relação a uma determinada situação, cabe-nos debater e apontar qual a melhor forma de agir – o documento, o abaixo-assinado, a concentração, a marcha, etc. – e concentrar aí os meios que existam, para se obter o melhor resultado possível: isto é, a resolução dos problemas e questões concretas em torno das quais se desenvolve a acção.

No nosso trabalho político tem de estar sempre presente que a luta de massas tem um valor próprio intrínseco, e que é o seu nível e dimensão que afere de facto a real força e influência política de uma determinada organização.

No concelho de Sintra, partindo desta concepção, teve lugar uma acção de rua em 2007 – a abertura do Centro de Saúde de Massamá – que tornou evidente para muitas organizações do Concelho a importância das lutas em torno de reivindicações concretas.

Tendo em conta a justeza desta aspiração, a organização do Partido em Massamá, entre outras acções, decidiu organizar uma concentração junto ao Centro de Saúde e exigir a sua abertura.

Esta decisão mostrou-se profundamente acertada, pois quando eram esperadas algumas dezenas de pessoas apareceram mais de uma centena que, mesmo depois das intervenções, não arredaram pé querendo saber mais e demonstrando vontade continuar a luta.

Face a esta situação foi agendada uma segunda acção e lançado um abaixo-assinado, contando com a disponibilidade mostrada por alguns dos presentes para a recolha de assinaturas.

O êxito destas iniciativas teve reflexos no conjunto da organização concelhia. A experiência recolhida deu confiança e incentivou a mobilização dos camaradas no sentido de se sair para a rua, com os trabalhadores e as populações, em torno da luta pela resolução das suas aspirações e problemas concretos.

Assim, só no ano de 2008 e no primeiro trimestre de 2009, nas empresas do Concelho foram organizadas várias acções contra o trabalho precário, com concentrações e desfiles de trabalhadores em M. Martins, Agualva-Cacém e Queluz, mobilizando mais de 400 trabalhadores. Ao mesmo tempo foi promovido um abaixo-assinado reivindicando o fim da precariedade e exigindo trabalho com direitos. Esse documento, subscrito por mais de 2500 trabalhadores, foi entregue no Ministério do Trabalho.

Organizámos, igualmente, uma campanha contra o desemprego no Concelho, tendo contactado, através de documentos e um postal abaixo-assinado, trabalhadores de mais de 50 empresas do concelho de Sintra, e em diversas acções contactámos também os trabalhadores desempregados que engrossavam as longas filas à porta do Centro de Emprego de Sintra e em outros locais.

Este postal dirigido ao Primeiro-Ministro foi muito bem acolhido pelos trabalhadores, tendo sido assinado por mais de 4500. Posteriormente, foi entregue na residência do Primeiro-Ministro por uma delegação composta por dezenas de trabalhadores que se concentraram junto do Jardim da Estrela tendo desfilado até S. Bento.

Estas acções reforçaram o sentimento na organização concelhia de que a intervenção sobre os problemas dos trabalhadores é uma responsabilidade e tarefa de todo o Partido, e não só dos camaradas que estão nas empresas.

No mesmo período, o movimento sindical unitário, organizado no concelho, realizou duas importantes acções de massas: a 1 de Outubro/08 com mais de 500 trabalhadores a desfilarem contra e precariedade e pelo emprego com direitos e no final do ano, debaixo de forte chuva, 200 trabalhadores protestam na Baixa do Cacém contra as prendas do governo PS/Socrátes.

No plano das organizações locais em torno das questões da Saúde desenvolveram-se acções em todas as freguesias, exigindo uma boa cobertura das necessidades dos utentes do concelho em termos de cuidados de saúde primários, de forma a acabar com o flagelo de existirem mais de 125.000 sem médico de família, a abertura de Centros de Saúde, construção de outros, mas acima de tudo, a construção de um Hospital Público no concelho de Sintra.

Nestas acções há a destacar a recolha e entrega no Ministério da Saúde de mais de 11.500 assinaturas, as vigílias nos Centros de Saúde de Sintra, São Marcos, Algueirão Mem-Martins, Cacém, as concentrações com centenas de pessoas em Belas, Agualva e Queluz.

Uma outra experiência essencial destas iniciativas foi a capacidade que tivemos de manter a luta sempre actual, concebendo e programando acções de forma faseada, seguindo o deliberado pela organização para o conjunto da intervenção.

Há direcções de luta que desenvolvem de modo regular desde 2007, mantêm-se na batalha eleitoral de 2009 e irão continuar em 2010.

Enquanto o objectivo pretendido não for atingido, é fundamental continuar com as acções de luta e sempre que possível com a mobilização de massas.

Todos estes desenvolvimentos permitiram igualmente alguns avanços na forma de actuar das organizações, colocando também outras exigências de direcção do Partido, das quais destacamos desde logo, a necessidade do funcionamento semanal.

Havia organizações que não reuniam com a periodicidade adequada que sentiram a necessidade da reunião semanal, tendo que responsabilizar quadros para assegurar as tarefas decorrentes destas acções. Também neste quadro destaque para alguns jovens que aderiram ao Partido, como é o exemplo de dois camaradas numa empresa que se inscreveram numa marcha contra o trabalho precário.

De todo este reforço do Partido emerge uma outra responsabilidade: a necessidade de estruturar ainda melhor o trabalho da organização para dar resposta adequada às exigências que se colocam quando uma qualquer organização começa a fortalecer a sua intervenção política.

No quadro desta intervenção de massas, merece igualmente relevo o desenvolvimento de várias acções de massas unitárias, em particular o Movimento de Utentes da Saúde, que realizou duas marchas, com a participação de mais de 500 pessoas, no quadro duma luta por melhor saúde no concelho e integrando as acções comemorativas dos aniversários da criação do Serviço Nacional de Saúde.

Como reflexo de toda esta actividade, de luta e acções de massas, sobressai um sentimento derivado do impacto eleitoral positivo de toda esta intervenção: sobressai a certeza de que a luta é o caminho! Nesse sentido e sendo isso essencial para os trabalhadores, as populações e seu Partido, nos próximos actos eleitorais continuaremos a levar a luta até ao voto! Foi assim em 7 de Junho, é necessário que o seja ainda mais a 27 de Setembro e 11 de Outubro.