Proletários de todos os países: UNI-VOS! PCP - Reflexão e Prática

Organização, Edição Nº 317 - Mar/Abr 2012

Setúbal - Mais fortes para continuar a luta!

por Hugo Garrido

Em Setúbal, a Greve Geral de 24 de Novembro de 2011 acompanhou a dinâmica nacional: uma fortíssima resposta dos trabalhadores à maior ofensiva do capital sobre os seus direitos desde os tempos do fascismo, «um combativo Não! ao Pacto de Agressão, numa jornada memorável em defesa dos direitos dos trabalhadores e de um Portugal desenvolvido e soberano», como o PCP afirmou logo no próprio dia.

Para a concretização desta jornada histórica da luta dos trabalhadores – como já histórica tinha sido a Greve Geral realizada um ano antes – foram fundamentais aspectos de preparação que importa relevar.

A discussão aprofundada sobre o estado de espírito dos trabalhadores nas empresas consideradas prioritárias – pelo sector estratégico, pelo número de trabalhadores, pela influência do Partido e do movimento sindical – foi fundamental para que fosse possível tomar as medidas necessárias para o seu sucesso.

O sucesso das lutas anteriores, destacando naturalmente a semana de luta realizada sensivelmente um mês antes – que resultou em manifestações e concentrações em todos os concelhos da região, juntando no seu conjunto milhares de trabalhadores –, a grande manifestação do dia 1 de Outubro, as manifestações dos trabalhadores dos transportes, mas também as pequenas lutas, empresa a empresa, foram importantes para a determinação de milhares de trabalhadores, tendo muitos deles, apesar da repressão, da forte ofensiva ideológica e da campanha das inevitabilidades, aderido à greve pela primeira vez.

A atempada definição de prioridades e planos de trabalho respectivos, que incluíram reuniões, conversas individuais, distribuição de comunicados, criação de grupos de trabalho específicos nos concelhos e em determinadas empresas, permitiu, entre outros aspectos, ter um maior número de empresas em que os próprios trabalhadores assumiram o seu piquete de greve, com resultados importantes na adesão, mas também na elevação da consciência dos próprios trabalhadores.

O culminar de todo este trabalho de preparação e agitação, foi uma Greve Geral com a generalidade dos transportes, escolas, hospitais e serviços públicos paralisados, as grandes concentrações industriais sem laboração, o porto de Setúbal encerrado, centenas de pequenas empresas fechadas, pequenas lojas e oficinas fechadas em solidariedade com a greve. Como exemplos de grande adesão à Greve Geral na Península de Setúbal são de referir a Auto-Europa e o Parque Industrial da Auto-Europa – onde não houve produção em empresas como a Auto-Vision, Bentler, Continental Lemers, Faurecia, Inapal Plásticos, SPPM, Tenneco, Webastos, Vanpro, entre outras; as oficinas da EMEF no Barreiro, a Visteon, o estaleiro da Lisnave – incluindo a Lisnave, a Lisnave Yards e empreiteiros; o Arsenal do Alfeite, a Delphi, as cimenteiras Secil e CNE, a Refrige, a Parmalat, a SEAE, a Serlimawash, a Montitec, a Alstom, a Tanquipor, a Nova AP, a Metalúrgica de Alhos Vedros, a Amarsul e a Simarsul.

Não sendo o objectivo deste artigo aprofundar a ofensiva concertada entre patronato e comunicação social na pressão em torno dos objectivos, utilidade da greve e sobre quem faria a greve, deixamos um exemplo de até onde chegou esta ofensiva. A Auto-Europa, dias antes da greve, fez sair uma nota de imprensa em que dizia: «Com o objectivo de minimizar os efeitos previsíveis da quebra de aprovisionamento dos seus fornecedores e as dificuldades logísticas criadas por irregularidades no funcionamento dos serviços públicos no próximo dia 24 de Novembro, a Volkswagen Autoeuropa decidiu que esse será um dia de não produção».

Ou seja, segundo o comunicado, na Auto-Europa não haveria Greve Geral, haveria apenas à volta da empresa. Para ser rigoroso, faltou no comunicado referir que as chefias andaram durante dias a fazer sondagens sobre a adesão à greve e chegaram à conclusão que a esmagadora maioria dos trabalhadores iria fazer greve. Esta posição, articulada com a generalidade da comunicação social, tentava fazer crer que a greve afectaria apenas transportes e serviços públicos, como se tentou fazer passar no próprio dia da greve.

Há ainda um aspecto novo, em relação a outras greves gerais: as manifestações e concentrações em Setúbal, Barreiro e Lisboa. No fundamental, podemos afirmar que foram manifestações muito combativas – incluindo a marcha a pé da Baixa da Banheira ao Barreiro, que foi engrossando à medida que avançava –, que juntaram milhares de trabalhadores, muitos deles vindos dos piquetes, com as suas faixas e reivindicações, e provavelmente muitos deles nunca tinham participado numa manifestação convocada pela CGTP-IN.

Não procurando iludir fragilidades do Partido – que aliás, a Greve Geral pôs mais a nu – podemos afirmar que do trabalho de construção da greve saímos com mais condições para continuar a luta contra o Pacto de Agressão assinado pelo PS, PSD e CDS e pelo BCE, UE e FMI. Como afirmámos em Novembro, a Greve Geral tem um alcance que se estende para além do dia da sua realização: deu confiança aos trabalhadores e demonstrou o poder da sua unidade. Preparou o Partido para as batalhas seguintes: um maior conhecimento da situação das empresas, um maior conhecimento dos quadros, quadros mais preparados para a intervenção nas empresas. Numa altura em que, a pretexto do cumprimento do Pacto de Agressão, o Governo, patrões e UGT assinaram um acordo dito de concertação social que representa aspirações antigas do patronato, que se fossem concretizadas significariam um retrocesso nos direitos laborais e sociais, importa lembrar a força que há pouco mais de dois meses os trabalhadores mostraram com a realização da Greve Geral.

Os homens, mulheres e jovens que a construíram e a ela aderiram deram um poderoso sinal de que, com a luta dos trabalhadores, outra política é possível e necessária e que é possível derrotar esta política de exploração, desigualdades e empobrecimento. Como é referido na Resolução Política do CC de Dezembro de 2011: «[a] intensificação da luta dos trabalhadores e das massas populares, [é] factor determinante e decisivo para a derrota da política de direita e para a concretização de uma política patriótica e de esquerda, no caminho da democracia avançada e do socialismo.»